CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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domingo, junho 29, 2025

DIA DE SÃO PEDRO E SÃO PAULO

Certamente, no dia em que nasceu seu terceiro filho, nosso pai - Manuel - deve ter se recordado sendo consumado católico da determinação do Mestre: “Tu es Petrus”. Assim foi batizado – Pedro Renato, que hoje completa 74 anos de idade. Nascido no consagrado bairro de Educandos, passou pelo Colégio Estadual do Amazonas e, depois do serviço militar, no qual obteve o terceiro lugar da turma de NPOR/72, desembarcou em Santos-SP, onde aproveitou. Vou parar aqui, senão estrago o filme. Parte do roteiro conta ele nesta crônica de aniversariante. A Igreja, apesar de nominar Paulo como santo do dia, efetua manifestação mínima, afinal Pedro é a pedra.

Ad multos annos, mano, recordando o linguajar seminarístico, do São José, deixado pro gran finale, onde seguramente aprendemos concretas lições para a vida.

Pedro Renato, de vermelho, abraça nosso pai Manuel

AINDA ESTOU AQUI

29.06.2025

Renato Mendonça (1951-)

 

Ao iniciar esta crônica, que faço a cada aniversário, fui orientado pela inteligência artificial para que o título fosse alterado para “continuo aqui”, pois considerou a forma uma expressão prolixa. Não acatei, pois a expressão usada carrega, na sua essência, um valor simbólico. Mas não descarto a utilidade dessa ferramenta aos usuários de qualquer natureza. No entanto, percebo que há uma superficialidade na sugestão da escrita, assim como falta sensibilidade para a escolha semântica dos termos. Cabe ao cronista deixar fluir para o papel a emoção não artificial, genuína, mormente nesta data, quando obrigatoriamente fazemos uma reflexão da vida.

Nesse instante de contemplação, percebo que estou revisitando memórias. Cada ano que passa carrega um pedaço do nosso mundo, e o ato de estar aqui, nesta data, com tantas histórias vividas, é em si uma celebração, um júbilo. Olho pela janela do trem da vida e encontro fragmentos que me moldaram, instantes que me elevaram o espírito e os desafios que me ensinaram a resiliência. É como se o tempo, ao invés de ser apenas um inimigo implacável a me sugar o vigor físico, fosse também um amigo sábio que, com as bênçãos de Deus, incitou-me a valorizar as verdades que floresceram a cada dia.

Quando ultrapassamos a barreira dos setenta, parece que o tempo anda mais apressado. Por vezes, me ocorre conversar com ele e questionar a sua relatividade, como nos propõe o famoso cientista Albert Einstein. E fico pasmo analisando o seu postulado ao dizer que o passado, o presente e o futuro são apenas ilusões persistentes, sendo assim criações da nossa mente. Sem nenhuma surpresa, ele me diz que somos ínfimos ao explanar sobre a grandeza temporal e espacial infinita do Universo; estima-se o tempo de existência em quatorze bilhões de anos, e a dimensão — praticamente incomensurável — só é medida em anos-luz.

Há quinze anos escrevi uma crônica, O Segredo da Vida, falando dessa incomensurabilidade do tempo, uma dimensão infinita que apenas é perceptível pela grandeza da nossa imaginação. Nessa narrativa, resgato a analogia do tempo do Cosmos com uma partida de futebol de noventa minutos. Ao compararmos o aparecimento do homem na Terra com a idade do Cosmos, o ciclo da vida humana só dura algo em torno de um décimo de segundo, desprezível.

Quanto à dimensão, também estamos aqui, fazendo parte de uma galáxia tão imensa que o homem, mesmo se tivesse recursos para viajar à velocidade da luz, jamais teria tempo de se deslocar para conhecer outros mundos. Assim, devemos nos resignar dentro da nossa ínfima porção universal, e procurar viver o que está ao nosso alcance ou o que nos rodeia. Aproveitar tudo o que Deus nos oferece para viajar para dentro de nós mesmos, tentando aprimorar a beleza espiritual; viajar também em direção ao nosso semelhante para tentar conhecê-lo melhor e promover o amor oblativo. 

Nessa longa caminhada, não deixei escapar nada que nos fosse benfazejo, como um dedicado aprendiz; não desmereci nenhuma manifestação de amor e valorizei cada gesto de carinho recebido; extirpei todos os rancores da mente, arranquei-os do coração sem o ferir nem o deixar sangrar por nenhuma forma de dor. Acho que Deus me deu uma certa imunidade quando tirou minha mãe tão precoce; hoje, sou um homem resignado e entendo que tudo estava dentro dos planos divinos. Mesmo assim, ainda retenho comigo a devoção por esta santa que me deu à luz do mundo, para quem dedico também o meu aniversário. E é muito gratificante conversar com Deus, através do rosto de uma mulher; é mais emblemático quando esta mulher é a sua mãe.

Nesta data, neste septuagésimo quarto Dia de São Pedro em minha vida — sem contar o dia em que nasci —, quereria recordar, na verdade, um ano radiante e jubiloso, 1974. O decurso da idade me traz de volta essa memória. Eu estava vivendo a porção primaveril da minha idade adulta; estava feliz com a conquista do primeiro emprego fixo, justamente na maior estatal do país, a Petrobrás. Depois de um ano que havia me habilitado como motorista, consegui comprar meu primeiro carro, um fusca ano 71, cor azul-pavão. Não gostava muito das letras contidas na placa, WC 3919, talvez porque a sigla em inglês significa “banheiro”, mas me identificava muito com o ano e a cor do carro.

A cidade de Santos, onde eu morava e trabalhava, me acolheu como um turista fascinado e mostrou-me a exuberância de sua orla marítima. E as praias tinham uma vasta extensão de areia que propiciava a prática do futebol nos finais de semana. Isso me deixava em plena forma, física e espiritual, que aliada à juventude dos 23 anos, transformava-me num atleta amador. E aconteceu que a Copa do Mundo daquele ano fez surgir no cenário futebolístico o “carrossel holandês”, nos apresentando exímios jogadores a recriar uma visão romântica do futebol. Uma estratégia dinâmica de jogo, onde os jogadores se movimentavam aleatoriamente sem guardar posição fixa. Esse esquema de jogo deu certo em quase todos os jogos, só falhando no jogo final. Uma pena! Mas, com a aposentadoria de Pelé, o jogador da Holanda, Cruyff, tornava-se um novo astro do futebol. Era o símbolo vivo daquela seleção. Por ele, eu nutria uma profunda admiração e me espelhava no seu comportamento em campo.

Um grupo de trabalhadores da construção civil, do meu sítio de trabalho, convidou-me para participar de um jogo de futebol num domingo do mês de julho, após a realização da Copa. Eles não sabiam se eu teria alguma habilidade como jogador, nem desconfiavam, pois me viam apenas como um assistente técnico envolvido na área de projetos. Entretanto, eu tinha bastante interatividade com eles, o que é normal quando se trabalha na indústria de petróleo.

E ocorreu que me convidaram para participar do “segundo quadro”, uma espécie de jogo preliminar. Naturalmente, o “primeiro quadro” jogaria logo depois, composto com os jogadores mais habilidosos e mais raçudos, mais “cascudos”, como se diz na gíria do futebol. Quando acabei de jogar o primeiro tempo do jogo preliminar, o técnico do time pediu que eu descansasse para jogar no primeiro quadro. “Fominha de bola”, não aceitei e garanti que tinha fôlego para jogar também o próximo. Consegui jogar bem, inspirado no craque e maestro holandês, três tempos dos dois quadros e saí elogiado pela minha desenvoltura em campo, marcando gols e correndo feito um velocista de curta distância. E para corroborar a minha atuação em campo, logo depois do jogo, o técnico me convidou para fazer parte do time de futebol que ele administrava, o Esporte Clube São Bento, e me trouxe, na semana seguinte, uma credencial de sócio atleta, que ainda guardo com todo carinho. Assim, foi um jogo memorável — inesquecível mesmo após cinquenta anos — de um jovem com a rebeldia dos cabelos longos e isento de consciência política, embora vivêssemos os “anos de chumbo” dos governos militares no Brasil. Naquela época, eu queria mesmo era trabalhar e jogar futebol. Duas paixões que se uniam visceralmente na minha solteirice.

Agora, depois de tantos anos, olho novamente pela janela e vejo o futuro. É apenas o futuro, sem grandes aspirações, com grandes preocupações com a saúde e buscando viver as verdades de Deus a cada dia. Desejando que o Amor nunca me abandone, para poder exprimir sempre o sentimento de gratidão; encantar-me com a beleza humana e a presença do Criador na natureza. O meu espírito ainda se ilude com a mágica do tempo e pensa que está jovem. É uma boa conduta, que eleva a autoestima e nos deixa aptos — não gosto dos clichês, mas vou usar — para novos desafios.

Sendo assim, o importante é manter a jovialidade do espírito, não por sabedoria artificial, mas por acreditar que isso possa ser congregado com boas ações, com atitudes honradas e ajuda aos necessitados e doentes, evocando sempre a alegria e fomentando a paz.  Desejo, ainda, manter a cognição intacta, para recordar os bons momentos vividos e possa discernir, nesse momento especial de comemoração, que ainda estou aqui completando essa belíssima missão de viver. 

Post Scriptum – O título da crônica faz referência ao belíssimo filme dirigido por Walter Salles, que recebeu o Oscar de “Melhor Filme Internacional” em 2024. Este filme aborda as ações autoritárias dos regimes militares no Brasil, especialmente os eventos relacionados ao sequestro, tortura e assassinato do ex-deputado Rubens Paiva em 1971.    

quinta-feira, janeiro 30, 2025

CENTENÁRIO DE MANUEL MENDONÇA (1916-2016)

A fim de comemorar o centenário de nascimento de Manuel Mendonça ou Mendoza, em janeiro de 2016, fiz o lançamento de um selo personalizado. Todavia, o livro que havia escrito juntamente com meu irmão Renato Mendonça – Entre duas viagens – para esta celebração, somente viria a público em junho seguinte. O jornalista Evaldo Ferreira, conhecedor do empreendimento escreveu no Jornal do Commercio (26 jan. 2016) o artigo que aqui compartilho. Sem que imaginasse, ocasionou um atrito familiar. Explico: o nome de Henrique Mendonça, autor do prefácio, foi omitido pelo articulista, e essa omissão a família do mano não acolheu, daí a fricção.

Detalhe do artigo de Evaldo Ferreira

 Autor dos livros “Cândido Mariano & Canudos” (1997); “As artes de Genesino Braga”, prêmio literário da Academia Amazonense de Letras (2006); “Administração do coronel Lisboa”, prêmio literário Cidade de Manaus (2008); “Bombeiros do Amazonas” (2013); e organizador de “Cinema e Crítica Literária de L. Ruas” (2010) e “L. Ruas: Poesia Reunida” (2013), o escritor e historiador Roberto Mendonça acaba de concluir aquele que, possivelmente, será o mais importante livro de sua obra, “Entre duas viagens”, no qual relata a história de Manuel Mendonça Malafaya, seu pai.

“Em 2014 a família se preparava para comemorar o centenário do patriarca neste 17 de janeiro de 2016, mas ele resolveu partir antes, em maio daquele ano, então, eu e meu irmão Renato achamos por bem escrever o livro contando a saga do nosso peruano. Foi uma forma de homenageá-lo”, contou. Por mais de um ano Roberto Mendonça seguiu os caminhos do pai em Manaus, Rio de Janeiro, Santos e até em Iquitos e Lima, no Peru, onde Manuel Malafaya nasceu. “Mendoza, mais conhecido por Manuel peruano”, nasceu em Caballococha, uma povoação situada nas vizinhanças da fronteira Brasil-Peru, em “hermosa orilla” à margem esquerda do rio Amazonas”, disse.

Victoria Malafaya, a mãe de Manuel, era uma índia ticuna nascida na mesma localidade, em 1890. Na época do ciclo da borracha, acabou se envolvendo com um caucheiro, possivelmente um homem rude, pois num dia qualquer de 1927, ela fugiu em direção ao Brasil, trazendo os dois filhos: Manuel e Francisco. Em 1939, Manuel retornou ao Peru, visitou Iquitos e se inscreveu no serviço militar, mas logo voltou a Manaus onde obteve o primeiro emprego de carteira assinada, de balconista, depois gerente, na Fábrica Rosas, a padaria da cidade, instalada na avenida Sete de Setembro defronte à praça da Polícia. A ... com a noiva Francisca, viajou para Iquitos, onde se casaram.

“Os dois até pretendiam se fixar na capital de Loreto, pois chegaram a organizar um comércio, porém, no início de 1946 voltaram para Manaus, com dona Francisca gestante. Então, posso garantir que sou “hecho en Perú”, todavia, nascido em Educandos, à rua Inácio Guimarães, onde mais adiante surgiria o Cine Vitória”, relembrou. Manuel frequentou assiduamente a paróquia do padre Antonio Plácido. “Esse vigário colaborou para que eu ingressasse no Seminário São José, instalado à rua Emílio Moreira, onde pretendia me tornar padre, e conclui o curso de humanidades. Mas achei melhor seguir a carreira militar, servindo ao Exército e depois à Polícia Militar, onde cheguei a coronel. Hoje estou na reserva”, explicou o historiador.


Descobertas históricas

“Voltando a falar de meu pai, o mesmo padre Antonio Plácido realizou o casamento dele com Doroteia, em 1958. Minha mãe havia morrido de tuberculose algum tempo antes. A nova união gerou cinco filhos (Zemanoel, Jorge, Luís, Ricardo e Carlinhos). Com minha mãe foram eu e meu irmão, Renato. No ano seguinte, a nova família de Manuel mudou-se para o Morro da Liberdade e, mais adiante, migrava para Santos”, recordou.

Novamente viúvo, Manuel passou os derradeiros anos de sua vida entre Manaus e São Paulo, visitando os filhos e netos, até morrer, em maio de 2014. “Para marcar o centenário do peruano, no último 17 de janeiro, mandei confeccionar dois selos personalizados. Dois selos porque o homenageado possuiu dois sobrenomes: a certidão de nascimento registra — José Manuel Mendoza; todavia, ao desembarcar em Manaus, aportuguesou o sobrenome, refez o nome, incluindo o sobrenome materno. Desse modo, con mucho orgullo, sou filho de Manuel Mendonça Malafaya”, comentou.

Roberto Mendonça contou que começou a escrever “Entre duas viagens”, junto com o irmão Renato, em janeiro do ano passado. Realizou pesquisas, conversou com parentes mais antigos, viajou pelas cidades onde Manuel vivera e vasculhou fotos. “Conseguimos garimpar algumas raridades, como a da casa onde minha avó, mãe de Manuel, vivera no Peru, ainda no século 19. Acredito que o livro terá umas 50 fotos. A ideia era colocar mais imagens e menos texto, tipo uma linha do tempo. Esse trabalho me rendeu mais algumas descobertas históricas, como o racionamento de produtos, na época da Segunda Guerra, na padaria onde ele trabalhou. O racionamento era rigidamente controlado pelos militares, mas, por baixo dos panos, o dono da padaria sempre conseguia liberar alguma coisa a mais para os seus amigos", entregou.

O livro só será lançado em junho, mas os dois selos o serão no próximo dia 30, sábado, na Agência Filatélica Ajuricaba.

domingo, outubro 11, 2015

DIA DAS CRIANÇAS

Em Homenagem ao Dia das Crianças. 
As crianças do casal Manuel e Francisca Mendonça, nascidas em Manaus. Em fotos elaboradas aos seis meses e no mesmo estúdio.  


Roberto Mendonça, dezembro. 1946

Henrique Mendonça, dezembro. 1948

Renato Mendonça - janeiro. 1952

quinta-feira, julho 18, 2013

FRANCISCA, SAUDOSA MÃE

Renato Mendonça (*)

Francisca Lima, final
dos anos 1930
Remexi no baú de recordações todos os documentos que dispunha e que ainda disputavam a minha curiosidade; busquei nesse relicário também todas as fotos antigas, que fazem parte do acervo que ajuda a restaurar a memória.

Foi como uma viagem ao passado, um curta em preto-e-branco; de olhos fechados, revi a trajetória de uma migração para o Amazonas, para a extração de borracha no primeiro período — compreendendo as duas décadas finais do século XIX e a primeira década do século seguinte —, quando aconteceu um êxodo de nordestinos, notadamente do Ceará, que sofria as consequências das secas do final do século.

Residência da família no Anveres,
Francisca (no colo da mãe), 1917
Nesta leva, a família Pereira Lima, provavelmente, estava incluída. Como pobres retirantes não chegaram até Manaus, talvez temendo o fantasma da modernidade e da pujança adquirida com a valorização do bem extrativista.  Ou porque não era exatamente na capital que ficavam os seringais. Dá para intuir que uma família sem recursos, sem uma formação cultural necessária para enfrentar uma metrópole, prefere um lugar simplesmente rural. E aí, se instalaram no Anveres, um distrito do Careiro.

Neste humilde lugarejo nasceu Francisca, a caçula de uma enorme prole. Com as dificuldades finaceiras advindas do fim do período fértil da borracha, ela tomou coragem e resolveu buscar alternativas de ajuda aos pais, atravessando o Rio Negro. Foi em busca de documentos e de trabalho. Adquiriu Titulo de Eleitor aos 20, Carteira Sanitária e Carteira Profissional aos 22, para finalmente começar um trabalho remunerado.

No seu único emprego, na Fábrica Rosas Ltda., ficou por quase três anos.  Aproveitou para fazer outros cursos de prendas domésticas, como Corte e Costura por exemplo, preparando-se para a vida conjugal, como era praxe nestes anos dourados da década de 40. 

Neste ambiente da padaria (hoje panificadora) conheceu Seu Mendoza, um peruano que também fugiu de sua terra natal, aos 15 anos, acompanhado do irmão mais novo (Francisco) e sob a tutela da mãe, Dona Victoria, peruana emancipada, destemida e arrojada. Assim, dentro das mesmas castas sociais e no mesmo ambiente de trabalho, o desenlace tinha que acontecer.

O casal perambulou por vários cantos e em vários endereços. Como nômades viajaram até Iquitos-Perú, onde ocorreu o casamento. Depois do nascimento dos dois primeiros filhos, navegaram para o Rio de Janeiro em busca do  pote de ouro no final do arco íris. A construção do Maracanã faz parte do currículo do Seu Mendoza, onde trabalhou junto com o irmão.

Desavenças e dificuldades de relacionamento entre familiares acabaram por virar pó essa jornada carioca. Dona Francisca já não tinha mais a saúde em dia. O mal do meado do século, a tuberculose, era um temor e uma ameaça. A família tentou, numa guinada de 180 graus, a cura para tão desastrosa doença, talvez apostando no clima tropical.

Não deu, em Manaus, Dona Francisca teve uma  piora e o desfecho era inevitável. Às 20 horas do dia 18 de julho de 1952, sexta-feira, Dona Francisca Pereira Lima encerrou sua obstinada luta pela vida. Uma caquexia foi diagnosticada, talvez resultado da pneumonia aguda que contraiu. Deixou um legado e uma história, curta, exata e de superação. Os três filhos não puderam, nos últimos meses, receber o seu carinho e seu afeto, em face da doença contagiosa. Mas, com certeza, estão plasmados pelas bençãos que ela envia do seu lugar de luz e de paz.
 
(*) Renato, meu irmão caçula, escreve com o imenso afeto que se encerra em seu peito sempre juvenil, imensamente filial, mas sofrido, porque devido a saúde de nossa mãe, ele pouco desfrutou do convívio dela. 

terça-feira, julho 17, 2012

FRANCISCA PEREIRA LIMA (1)



Francisca Lima, na formatura de
Corte&Costura
Há sessenta anos morria minha mãe, deixando órfãos, além de mim o primogênito, o Henrique e o Renato, este com apenas um ano. Inda me lembro do fato: aconteceu em nossa residência, à rua Inácio Guimaraes, nas proximidades do cine Vitória, portanto, no bairro de Educandos. Era a noite de 17 de julho.

Com a idade que possuía, não atinava para a enfermidade que consumia dona Francisca. Ainda jovem, com pouco mais de 30 anos... Lembro que a seguira ao Cambixe, no Careiro, em casa de parentes, para cumprir uma regra sanitária de antanho: doenças eram curadas em ambiente amplamente saudável. No Brasil, são conhecidos os refúgios que "proporcionavam" cura à tuberculose. Não era o caso do Cambixe!

Outra lembrança da época, o médico que atendeu minha mãe fora o doutor Jorge Abrahim, vereador da cidade, mas pouco recomendado como especialista. Dele se contavam pilhérias sobre sua prática medicinal.

Certo mesmo é que a gravidade da enferma progredira. As atenções foram redobradas. Uma delas, os três filhos foram acomodados na casa da irmã dela, minha saudosa tia, dona Raimunda Barbosa, que ano passado teve celebrado seu centenário de nascimento.

Raimunda era a filha mais velha dos Lima, e a Francisca, a caçula. Com a morte dos “velhos”, a primeira passou a cuidar da irmã. Por isso, foi a ela que meu pai se dirigiu quando resolveu namorar minha mãe. E, como a tia exigiu dele alguns detalhes próprios do galanteio da época, meu pai (ainda vivo aos 96 anos) guardou algum ressentimento da cunhada.
Casamento de Francisca e Manuel,
em Iquitos-Peru, 1944

Raimunda casou-se com seu Manoel Barbosa, e o casal se estabeleceu na “estrada” de Constantinópolis, hoje avenida Leopoldo Peres, bem no início da conhecida Baixa da Égua. Nesse endereço, os Lima Barbosa produziram pão e os filhos. E ali fui alimentado, também.

Era na casa desta tia que eu estava, quando fui levado apressadamente até a minha. Levado para tomar a benção de minha mãe, para assim me despedir dela. Embora tenha tomado e retomado sua benção, não houve resposta, não podia mais, minha mãe estava morrendo.

Então, vi o lamento, o choro dos presentes. Também derramei  minhas lágrimas infantis, confesso, sem entender bem aquele momento, sem entender a “indesejada visita”.

O enterro foi realizado a moda antiga: conduzido o féretro, o caixão (melhor dizendo) pelas ruas, com os acompanhantes revezando-se no transporte manual. Havia um tamborete para, aqui e ali, suportar o caixão, e permitiro pequena recuperação aos condutores. Enfim, para quem conhece ou não a distância, o sepultamento aconteceu no cemitério de São João Batista, saindo do bairro de Educandos. Foram alguns quilômetros.

Por décadas, não quis saber da causa mortis, da causa da perda de minha mãe. Então, como a saúde própria passou a me inquietar, pensava que o câncer fora a determinante. A explicação, todavia, estava facilmente ao meu alcance, bastava consultar o cartório. Assim fiz. E no atestado de óbito estava a dura resposta: tuberculose pulmonar havia causado a morte.

Casal Mendonça, com os filhos Roberto
(em pé) e Henrique (sentado), Rio 1950
Passei dias lamentando que, à época, não houvesse em Manaus os antibióticos, a penicilina capaz de intervir proveitosamente. Meu irmão Renato, morador de Niterói-RJ, ao ler o atestado, desabou. Contou-me que se refugiou no Campo de São Bento, ao lado de sua residência, e copiosamente chorou pela mãe, que a morte prematura impediu-o de desfrutar do carinho, do afago, do acalanto.

Até à eternidade, mãe!

segunda-feira, junho 13, 2011

"Santo" Antônio... Mendonça


Henrique Antonio, final dos 1970
em Manaus

Hoje é dia de Santo Antônio, procurado pelos casais para diversos fins. A maior festa deve ocorrer em Borba (AM). Mas, me perdoe o querido santo, hoje é aniversário de outro Antônio, bem próximo de mim, portanto vou, vamos louvá-lo.
Hoje é aniversário do meu irmão Henrique, que completa seu nome com o do santo do dia,
Antônio. Estava buscando a melhor forma de abraçá-lo, ele na Barra da Tijuca-RJ e eu no Igarapé de Manaus. Salvou-me o outro mano, o Renato, que escreveu o texto abaixo. 
Li no JB, antes do seu desaparecimento na versão impressa — obviamente antes de 31 de agosto passado — sobre a essência de uma crônica. Em outras palavras, dizia-se que ela tem dupla filiação. Herda do jornal a concisão, e da literatura, a poesia.
Já me aventurei a escrever algumas, mesmo sem ter a veia jornalística e sem a ternura e inspiração do poeta, à guisa de contar parte da minha história de forma homeopática, em conta-gotas. 
Quis aproveitar, naturalmente, o que a nossa infância nos ofereceu naquele cenário rico em fatos e temas reveladores, nem sempre com um final feliz.Desta vez, não sou o personagem, apenas mero coadjuvante e grande beneficiário. Na verdade, quero prestar, de modo fraternal, uma merecida homenagem e reconhecimento, embora tardio, muito relevante para mim.
Ocorreu-me dizer isso antes, entretanto faltou a oportunidade clara, o tempo preciso e espaço adequado. Os compromissos tão exigentes e prioritários me impediram de falar sobre o assunto em tantas ocasiões que estivemos juntos, mas o “feeling” é importante, a ocasião, propícia. Não faz mal, agora, não posso adiar o momento de falar dele. Valho-me desse computador e do papel que servem de interlocutor.
H. Antonio, 1949
Sem mais delongas, vou direto ao assunto: o homenageado é meu irmão Antonio, ou Henrique, nos meios profissionais e também no seio da sua pequena família, que agora é o seu universo.
Para me ajudar a remexer e reaquecer a minha memória, revejo no blog de meu outro irmão -- a sua foto tão jovem, uns vinte e poucos anos apenas. O capacete embaixo do braço traduz existencialmente toda a sua trajetória de “pião”. Explico as aspas: não há sentido pejorativo no termo empregado, na verdade, ele é um pião requintado, e altamente requisitado. Rodou o País de cabo a rabo; produziu e ajudou na construção de vários brasis, emendando tubos, construindo plataformas, edificando plantas de processo, enfim, fazendo também a sua plataforma de vida: alicerçando uma família e educando a filha até tornar-se médica.
Quem o vê na sua pequena estatura, não imagina o enorme cidadão que ali se estabelece. Não pode imaginar a sua luta desde que concluiu o curso de contabilidade na longínqua década de 1960, e não apostou nesse mercado senão noutro, o da indústria. Antes, porém, perambulou em empregos menores do comércio, como a loja de espelhos e quadros. Teve o tino para saber que ali não era o seu lugar. 
Abandonou tudo, a sua Manaus e seu diploma, botou a carteira de trabalho no bolso e partiu em busca de novo eldorado. Com os sonhos de um vitorioso chegou aqui, no Sudeste, fincou os pés, as mãos, a cabeça, e toda a sua juventude. Usou, principalmente, sua obstinação adquirida desde os tempos de seminário e com altruísmo dedicou-se à família. Como meta, carregou para perto de si os pais e irmãos menores. Era um fardo, mas, para ele, parecia não pesar, tinha o prazer de vê-los sorrir.
Quis chegar aqui a esse ponto. Fiz de sua história um breviário para me incluir nela. Temo não encontrar palavras adequadas para enaltecer seus méritos e agradecer-lhe o carinho depositado e o cuidado que teve comigo.
Destaco principalmente a minha apresentação à indústria do aço e do petróleo quando eu  havia deixado o serviço militar; reconheço a sua preocupação em me mostrar os atalhos da obra e as arapucas que a vida nos prega. 
Devo-lhe, obvio, a oportunidade que precisava para a incipiência da minha vida profissional. Ainda que o destino, de algum modo, tenha negado o cruzamento de nossos caminhos profissionais, nesses anos todos, ouço sempre falar bem dele. E me envaideço sempre ao ouvir os relatos, os mais diversos, com elogios à sua conduta e ao seu labor.
Depois desse tempo, rumino um prazer especial que me encoraja a descrever e relembrar cenas de minha infância ao seu lado. 
Recordo com exatidão, os primórdios do meu jardim de infância, naqueles tempos, a primeira fase da vida escolar de um garoto, aos sete anos. Nos primeiros dias de escola, fiquei “assistindo” aulas na sua sala, ao seu lado, na mesma carteira. A minha insegurança era tamanha que eu não conseguia ficar na minha sala. Com algum sofrimento, me afastei dele aos poucos, até por causa de ameaças de meu pai. E vivi algum tempo à sua sombra, nas brincadeiras, nas peraltices e nos meus temores infantis. 
Depois, o acaso nos afastou. O colégio interno o tirou de mim, por muitos meses durante o ano, e me deixou órfão de irmão mais velho. O destino nos pregou outra peça: quando fui para o colégio interno, ele saiu. Motivado pela necessidade de ganhar a vida, ficou logo adulto, procurando trabalho.
Renato Mendonça, autor da crônica
É desse homem-menino que eu gosto de me lembrar de um de seus gestos mais ternos. Um dia, já amadurecido, os cabelos enbranqucendo, envelhecimento começando a roubar-lhe o vigor, chegou à minha casa e entregou-me o crachá de uma firma. A primeira onde eu trabalhei. Emocionei-me como um garoto que ganha o seu brinquedo de Natal. Mesmo acostumado às rudezas da vida, meus olhos marejaram. Havia guardado por muito tempo, sabe lá com que carinho, com que prazer.
Talvez com o prazer dos homens de bom coração e o carinho do menino que não envelhece nunca. Por tudo isso, como nas estórias em quadrinhos, ele é um dos meus heróis.
Que Deus o dê saúde e paz! Ele merece.
     


domingo, junho 13, 2010

MEMORIAL AMAZONENSE (XXIV)

1892 – Nasce em Manaus, Manuel Severiano Nunes, filho de Francisco Severiano Nunes e de Honorina Gonçalves Nunes. Envolvido na política, ao lado de Álvaro Maia, exerceu diversos cargos, talvez o último tenha sido o de secretário de Justica (1954). Afastou-se do cargo para disputar a vaga de senador da República. O PSD, seu partido, foi vencido pelo PTB de Plínio Coelho. Severiano Nunes, como era conhecido, afastou-se de Manaus, em definitivo.

1897 – Morre em Manaus, Manoel Urbano da Encarnação, considerado o primeiro morador do bairro de Educandos. Sertanista, tem seu nome gravado na exploração do rio Purus, inclusive como auxiliar do cientista Williams Chandless. Foi sepultado no cemitério de Santa Helena, no bairro de São Raimundo.


1904 – Nasce no seringal Goiabal, situado no município de Humaitá (AM), Antonio Botelho Maia, irmão de Álvaro Maia. Graduou-se em Agronomia. Mas seguiu os passos políticos do irmão que, ao tempo da ditadura de Getúlio Vargas, exerceu por mais de uma década a Interventoria Federal.
Nessa situação, Álvaro nomeou Antonio Maia para dirigir a Prefeitura de Manaus. Em sua gestão, foi contruido o Balneário do Parque Dez, inaugurado em 1938. Já desativado, dele restam duas edificações.
Antonio faleceu no Rio de Janeiro em 1993.
Henrique (esq) no Gledar

1948 – Nasce no bairro de Educandos, em Manaus, Henrique Antonio Mendonça. Enfrentou o grupo escolar Machado de Assis e a escola paroquial do padre Antonio Plácido de Souza, vigário do bairro. O curso secundário, em parte, realizou no Seminário São José, quando fez parte da direção do Gremio Literário e Esportivo Dom Alberto Ramos (Gledar), em 1963.

Cubatão, 1969
Rio, 2009
Em 1967, deixou Manaus para se instalar primeiramente em Santos (SP), onde trabalhou na Refinaria de Cubatão. Ainda circulou por outras refinarias e plataformas de prospecção no país. Mudou-se enfim para o Rio de Janeiro, onde hoje reside, com a família (a esposa Vilma e a filha Yara) na Barra da Tijuca. Dirigindo sua empresa, segue trabalhando junto à Petrobras.
Esse cara, é meu irmão. Parabéns!