CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

9 de junho de 2011

Os Bombeiros do Amazonas (XVIII)

Em 1965


A 1.º de janeiro, o vereador João Zany dos Reis ocupa a presidência da Câmara Municipal de Manaus e, por disposição regimental, a direção da Prefeitura Municipal. No comando do Corpo de Bombeiros de Manaus mantinha-se o major Sebastião do Nascimento, que dispunha de regular efetivo: cinco oficiais, um subtenente, oito sargentos, nove cabos e 53 soldados, totalizando, 86 homens. A substituição na prefeitura repercutiu nos Bombeiros. Zany dos Reis, a 13 de janeiro, nomeou para o comando o 2.º tenente Tertuliano da Silva Xavier. A repentina substituição, impertinente por se tratar do oficial mais moderno da instituição e instruído no tirocínio das fainas do serviço, foi desastrosa. Persistiu apenas dois meses.
Cruzamento das av Eduardo
Ribeiro com Sete de Setembro,
1968

O comando da Corporação voltou à situação anterior, em 23 de março. Ou seja, retornou ao major Sebastião do Nascimento. Essa mudança ocorreu por deficiência do Tertuliano ou pelo vaivém político, ou mesmo pela capacidade administrativa do Nascimento? Mais de quatro décadas depois, a despeito de exame minucioso nos boletins do Corpo, observação das obras de comando e de informações pessoais, a opção segue difícil. As páginas consultadas, no entanto, permitem relevar a preocupação do Nascimento com o efetivo, a distribuição de ordens, tanto repetidas quanto cobradas com energia.

Ao aludir ao jogo político, recordo a posse de Vinícius Monteconrado Gomes na Prefeitura, realizada em 23 de março. Tal como ocorrera com o antecessor, Vinícius renunciou ao cargo oito meses depois, e também substituiu o comandante do CBM. Mas, para facilitar a troca de cadeira, nomeou o tenente Tertuliano da Silva como ajudante de ordem. Acertada escolha, pois o ajudante, de túnica branca e alamares, executava com altivez a assessoria daquela autoridade.

Vinícius Conrado promoveu ampla reestruturação no Corpo, ainda que sustentada pelo comissionamento. O 2.º tenente Raimundo Duarte Paiva, elevado a capitão, foi designado subcomandante; nesta vaga, o subtenente Raimundo Nogueira da Silva passou a 2.º tenente, na função de tesoureiro-almoxarife. Aproveitando a passagem desse "ônibus", ingressou na Corporação, na graduação de subtenente, Francisco Moraes de Lima. Mais legendas são desnecessárias, pois estava tudo combinado politicamente.

Habitual em quartéis, o major Nascimento instala a Escola Regimental “Capitão Arthur”, honrando um antigo comandante, para educação de praças. Nela, sem distinção, são matriculados todos os praças, é fácil aquilatar o desfavorável grau de instrução dos bombeiros. Mas, essa atividade educacional desenrolou-se até fevereiro de 1967, quando foi suspensa devido o empréstimo das carteiras escolares para a escola Santa Luíza de Marilac, em Santa Luzia. E, sem carteiras, não havia aulas. Apesar do revés, o prefeito Vinícius Conrado reconheceu o esforço do comandante e o efetivou no posto, em 7 de julho. Nessa condição, Nascimento prosseguiu até 15 de abril de 1970.

Vez em quando, uma notícia alvissareira desanuviava a Corporação, como bem assinala este expediente da Câmara Municipal de Manaus, dirigido ao comandante pelo Ofício n.° 246/65, de 5 de julho de 1965, do presidente Natanael Bento Rodrigues.
Em cumprimento a determinação de Plenário deste Legislativo, que aprovou o Requerimento n.° 130/65, de 2 de julho do ano andante, de autoria do nobre vereador Francisco Corrêa Lima, transcrevemos para conhecimento de V.Sa. o teor do mesmo: “Considerando a nobre missão de homem do fogo, na salvaguarda do bem comum, em todas as comunidades; considerando sobretudo a alta missão dos heróis anônimos, que sacrificam suas próprias vidas pela preservação de centenas, aproveito o ensejo, para apresentar a consideração dos meus nobres pares, um voto de congratulação, nesta data em que o Corpo de Bombeiros de Manaus completa mais um aniversário de sua instituição“.
Paulo Nery, no gabinete da
prefeitura, julho 1970


Consumada a renúncia do prefeito Vinícius Conrado, e em conformidade com as normas constitucionais, o governador nomeou Paulo Pinto Nery (1915-1995), para dirigir o Paço da Liberdade. Político experimentado da Arena (partido político de sustentação do governo), que militara na extinta UDN, e tendo por esta agremiação disputado sem sucesso duas campanhas para governador (1958 e 1962). Bacharel pela Faculdade de Direito do Amazonas (turma de 1939), pertencia a uma das mais tradicionais famílias de políticos do Amazonas - Nery. No Paço, permaneceu até 1972, exercendo um dos mais longos períodos destinado a um prefeito. Encerraria a atividade de político vinte anos depois, em 1983, no governo estadual que assumira em substituição a José Lindoso (1979-1982). Curiosamente, Paulo Nery entrega-o a Gilberto Mestrinho, que o derrotara em 1958 para o governo do Amazonas.