CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

11 de junho de 2011

O Cinema no bairro de São Raimundo (II)

Cine Ideal (1941? – 1972)
O cinema Ideal ocupou um edifício antigo localizado na rua 5 de Setembro, n.º 125, esquina com a rua Boa Vista, próximo ao igarapé de São Raimundo. São escassas as informações sobre sua instalação. Mas, em consulta a jornais, anota-se que começa a aparecer em anúncios a partir de janeiro de 1955. O cine Ideal também pertenceu a Empresa A. Bernardino & Cia. Ltda.
Cine Ideal, quando da fundação, 1943
Também uma informação contida em O Jornal (12 fev.1946), confirma a existência do cine Ideal em São Raimundo nessa época; os ingressos a Cr$ 1,50 seriam em benefício da classe operária de Manaus. Curiosamente, nos anúncios da A. Bernardino aparecem somente Guarany e Avenida.

Diante da dúvida, a pergunta que fica no ar é esta: se o cine Ideal funcionava desde 1941, como afirmava seu proprietário, por que somente o anúncio de duas salas? E por que o anúncio do cine Ideal apareceria somente em 1955? Perguntas que ficarão sem resposta, porque os únicos que poderiam respondê-las, infelizmente já faleceram, ou seja, os proprietários da empresa cinematográfica, Aurélio Antunes, Adriano Bernardino e Adriano Bernardino Filho.

O cine Ideal, mesmo possuindo tela panorâmica, palco e dispondo de 405 cadeiras, nunca foi uma sala popular. Nem muito confortável. A causa estava na exibição repetitiva de filmes mostrados anteriormente em outros cinemas do grupo. Era considerado um dos “poeiras”, parceiro dos cines Popular, Guarany, Éden, Vitória e Palace. No entanto, foi durante muito tempo, uma das únicas opções de divertimento dos moradores de São Raimundo e Glória.

Somente aos domingos e feriados havia a sessão das nove horas, dedicada ao público infantil. Nela eram exibidos desenhos animados de Tom e Jerry, da MGM; Mickey e Donald, Branca de Neve e os 7 Anões, além de outros clássicos de Walt Disney, e ainda, filmetos de caráter educativo. Na frente do cinema, antes do início das sessões e da abertura do portão de entrada, crianças costumavam trocar e vender revistas em quadrinhos e permutar figurinhas.

Nas sessões das 13 e 16h, o público predominante era de adolescentes ávidos pelos seriados e filmes de aventuras. Alguns rodados a época: Jim das Selvas; Adaga de Salomão; Tambores de Fu-Manchu; Mulheres Fugitivas; Feitiço Tropical; Tarzan. Os seriados ambientados no velho oeste, estrelados por Tom Mix, Rex Allen, Cisco Kid, Zorro e Rocky Lane (1909-1973), também fizeram sucesso no Ideal. Na sessão noturna predominava o público adulto, na maioria, casais de namorados para assistir aos filmes românticos, edulcorados, entre os quais, Suplício de uma saudade; Amor, sublime amor, e outros do gênero.

Nem sempre as sessões desta sala eram tranquilas. Como ocorria em outros cinemas da cidade, as badernas e tumultos ali aconteciam, em especial, quando o filme em meio da sessão literalmente “queimava”. Uma amostra desse comportamento relata o vespertino da empresa Archer Pinto (Diário da Tarde, 18 jul. 1955). À noite de sábado, um grupo de irresponsáveis indivíduos pôs em polvorosa, as pessoas que se encontravam no interior do Cine “Ideal”, no bairro de São Raimundo, pertencente à firma A. Bernardino & Cia. Ltda., sendo necessária a intervenção da polícia.

Após esse lamentável episódio, a proprietária fecha o cine Ideal para uma reforma parcial. Providencia a substituição das cadeiras danificadas e instala dois novos projetores, aproveita igualmente para modificar a fachada do prédio, que ganha linhas mais “modernas”.

Em setembro de 1969, foi inaugurada no vizinho bairro de Santo Antonio, a primeira estação de televisão (TV) de Manaus. Tratava-se da pioneira TV Ajuricaba, UHF canal 20, que, com sua programação de filmes, novelas e desenhos animados, além de outros programas, começa a afastar grande parte do público frequentador de cinema.

Claramente dos cinemas localizados em bairros periféricos. E, o cine Ideal que já não tinha uma frequência das melhores, viu diminuir o número de espectadores, especialmente, na sessão da noite, que tornava o local propício a badernas por parte de elementos desclassificados. A desordem imperante no local era bem volumosa, tanto que os moradores de São Raimundo reclamaram maior atenção das autoridades, como revela o jornal A Notícia (7 out.1971): No sentido de coibir o abuso de certos elementos que, na sessão noturna do Cine Ideal, fazem daquela casa de diversão, verdadeiro centro de depravação.


Cine Ideal, pouco antes do fechamento,
em dez. 1971
Naturalmente, a maior parte dos frequentadores de cinema daquele bairro, em virtude dos programas de televisão, abandonou o Cine Ideal. Com isto, vários baderneiros, meretrizes, desocupados, aproveitando o campo livre, dão seus shows noturnos, sem que a polícia faça nada para impedir essa depravação.

Apesar de todos esses incidentes, o cine Ideal seguiu por mais três meses funcionando. Encerrou sua tela definitivamente em 31 de janeiro de 1972. Na derradeira sessão, de 22 horas, para uma reduzida platéia foi exibido o filme Django, o bastardo, estrelado pelo ítalo-brasileiro Anthony Steffen (1930-2004). O único jornal local a se pronunciar sobre o fechamento deste cinema foi A Crítica (8 fev.1972), que assim se manifestou: "A primeira consequência lógica da falta de condições da maioria dos cinemas em Manaus e da concorrência que às casas exibidoras vinha impondo a televisão registrou-se em São Raimundo: Fechou o Cine Ideal, existente há vinte [sic] anos naquele bairro."


Além de destacar as más condições do cine Ideal, há também na matéria transcrita, um depoimento de Aurélio Antunes, sócio-gerente de A. Bernardino, esclarecendo os motivos que contribuíram para o fechamento deste cinema: A razão que motivou tal providência de nossa parte foi o crescente prejuízo que vínhamos sofrendo ultimamente. As rendas não davam para pagar empregados, INPS, FGTS, aluguel de filmes, conservação e energia elétrica. Para não continuarem os prejuízos, o melhor foi fechar.

Quanto ao destino do prédio. Aurélio informou que a empresa ainda iria decidir, seja pela venda ou aluguel do mesmo. Todavia, ele acreditasse que a venda fosse a opção mais fácil, apesar de no momento da entrevista não saber por quanto o prédio iria ser vendido.
Após o fechamento, o prédio do cine Ideal foi vendido e transformado em depósito de mercadorias. Nos dias atuais, funciona no local uma academia de artes marciais.

Texto de autoria de Ed Lincon, que prepara livro sobre os cinemas de Manaus.