CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

4 de junho de 2011

O Jornal e Diário da Tarde

Existiu em Manaus (AM) uma empresa jornalística, que editava dois periódicos: o matutino O Jornal e o vespertino Diário da Tarde. Refiro-me a empresa Archer Pinto, fundada por Henrique Archer Pinto, que circulou perto de cinquenta anos, desde os primeiros anos de 1930.
Morto o fundador, a empresa passou aos herdeiros Aloisio e Aguinaldo, tendo este na direção. Nascido em Manaus, dirigia o grupo a partir do Rio de Janeiro, estabelecido à rua Senador Dantas, em plena Cinelândia, nos tempos em que esse pedaço era referência no Rio de Janeiro.
O grupo jornalístico prosperou e manteve por anos a liderança em Manaus. Foram durante décadas os “lideres” da imprensa amazonense, até que a morte de Aguinaldo, seguida de uma administração pouco condizente precipitou a decadência, o desaparecimento das folhas.

Henrique, o fundador, veio do Maranhão; quem lembra esse detalhe é o poeta Almir Diniz (82a) que, por décadas, trabalhou na empresa Archer Pinto. Assistiu o fechamento do “império”, quando este nada mais produzia, diante de máquinas emperradas, trabalhadores da oficina desempregados e os colegas jornalistas “pulando” para novos e crescentes órgãos de imprensa. Simplesmente, sem anunciar, O Jornal deixou de circular...

No entanto, como começou esse império? Encontrei uma dica. Dia desses, catando papeis, esbarrei no Contrato firmado entre o estado do Amazonas e o senhor Henrique Archer Pinto, o fundador. Assinado em 1930, o Estado passava para as mãos do maranhense todo o equipamento que pertencera ao jornal "Estado do Amazonas", sem explicação sob a guarda da Imprensa oficial.

A transcrição do contrato oferece mais algumas indicações. Este documento foi celebrado em 1º de novembro de 1930, no Contencioso Fiscal do Tesouro Público, na presença do doutores Sadoc Pereira e Manuel Barbuda, procurador e subprocurador; do senhor José Ferreira Sobrinho, diretor do Arquivo, Biblioteca e Imprensa Pública e do senhor Henrique Archer Pinto, brasileiro, maior, comerciante, residente nesta cidade, e declarou que, nos termos do despacho da Junta Revolucionaria Governativa do Amazonas, exarado em 29 deste mês (deve ser outubro), na sua proposta para o arrendamento do material existente nas oficinas do antigo jornal “Estado do Amazonas”, vinha assinar o presente contrato de locação do material tipográfico, máquinas, movéis e utensílios, pertencente a Imprensa Pública, que se encontram no prédio sito a avenida Eduardo Ribeiro, nº 90. E segue larga relação.
Extrato do Contrato firmado entre as partes, existente no
Arquivo Público, Manaus (AM)
 

A relação inclui o material necessário para a produção de um jornal, afinal Archer Pinto estava recebendo o espólio de outro. Encontram-se dois prelos e máquinas diversas; mesas e depósitos; tímpano e jogo de dicionários (contemporâneos); enfim, retratos de ex-presidentes, ex-governadores e ex-funcionários (como Alcides Bahia).

O contrato foi estabelecido sob diversas cláusulas, as mais destacadas foram: Primeira – pagamento de 20% dos lucros líquidos, apurados em balanço na redação de O Jornal, pertencente ao locatário e mantido nesta capital para a defesa dos interesses nacionais. Segunda – o pagamento acima será efetuado até o quinto dia útil do mês apurado. Quinta – foram nomeados dois fiscais: o diretor da Imprensa Pública e o senhor Silvestre Lima da Costa, para fiscalizar a conservação do material.

Observando-se as datas, tudo correu com a brevidade de um acordo bem camarada. A Junta tomou posse com a implantação do governo Vargas, em 3 de outubro de 1930, chefiada pelo coronel Cordeiro Júnior. Recebido o recurso do senhor Henrique Archer Pinto, logo a Junta deu o veredito e, mais rápido ainda, fez-se o inventário e já estava em mãos do arrendatário, o material.

Relembrando uma sua publicação, Almir Diniz me contou que nos derradeiros dias deste matutino, um linotipista o procurou para comunicar-lhe algo grave. A placa que ele havia recebido do Prêmio Esso 1956, deixada na redação como relíquia e em respeito ao jornal, estava para ser surrupiada e, mais que isso, vendida ao ferro-velho. A turma precisava de dinheiro. Mas, o velho operador de máquinas, em respeito ao velho jornalista, passou a perna na turma. Reentregou o troféu ao legítimo dono. Em nossos dias, a placa do Prêmio Esso, a primeira recebida por um jornalista amazonense, ornamenta o apartamento de Almir Diniz.