CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

2 de junho de 2011

Crônica sobre a ponte

Hoje, o governador Omar Aziz, chegado de Brasília, conferiu a fixação da última aduela na ponte sobre o rio Negro. A ponte que liga Manaus à Iranduba e municípios vizinhos.

O ato representa a consolidação do sonho de tantos, de homens de palácio e de ruas e lagos. O governador confirmou a inauguração para “quando setembro vier”.

Ponte sobre o rio Negro, em construção
Zapeando pelos textos do saudoso poeta-padre L. Ruas, encontrei esta crônica publicada em 1958. Como fala de sonho e de ponte, de vozes e de palácio, tomei emprestado para esta postagem. Que nos traga sorte!

Um pesadelo

De repente o sonho foi interrompido. As grandes construções, os fabulosos palácios, o ruído ensurdecedor das máquinas, o vozerio dos operários que se perdia nos altos dos céus e na profunda mata, tudo afinal de contas, desapareceu por alguns instantes envolvido em densa névoa.

Uma voz cavernosa o chamou. A voz de um problema sério que dizia:
- Preste atenção. Convença-se de que não é somente um construtor de cidade, mas, em primeiro lugar, é um guardião da Cidade. É preciso, no mínimo, dar a impressão que ainda se preocupa conosco.
A Crítica. Manaus, 29 jan. 1958
 Ele então se voltou e viu que todos os habitantes da Cidade estavam olhando para o mar na direção do Oriente, na direção do nascer do sol e observou que do outro lado do oceano, atrás de uns muros altos e de cima de torres havia muita gente acenando e gesticulando. E os gestos dos que estavam do outro lado do oceano eram acompanhados de vozes. As vozes diziam que os homens que moram atrás dos altos muros desejam construir uma ponte sobre o oceano para poderem chegar até à Cidade.


Então ele pensou assim:
- Quem sabe se aqueles homens querem vir ver como se constrói uma cidade. Não é mal que eles venham. Terei imenso prazer em lhes mostrar a maravilhosa cidade que estou construindo.

Nessa ocasião chegou até ele um clamor de muitas vozes reunidas e confusas. Procurou de onde vinham as vozes tão tumultuosas como as ondas do mar. Não eram como as vozes de seus operários. Dos operários que construíam sua cidade. Que essas lhe embalavam o sonho e o faziam suave. E o animavam a continuar sonhando e construindo. Essas outras, ao contrario, ressoavam como uma ameaça. Por que tanta confusão? Por que tanto alvoroço? Não chegava a compreender a razão daquela balbúrdia. Procurou aguçar mais o ouvido.
E só depois de muito custo conseguiu perceber o que diziam aquelas vozes. Umas gritavam:
- Não queremos a ponte entre as duas ilhas. Pois os homens que moram atrás dos altos muros são maus. Eles oferecem presentes no começo, mas depois tomarão o que nos deram e o que não nos deram. Roubarão o que nos ofertaram e também tudo aquilo que já possuíamos antes e que nos foi ofertado pelos nossos pais.

E todos os que falavam desta maneira estavam reunidos dentro de três igrejas antigas, mas ainda bem fortes e capazes de resistir a qualquer vendaval, dentro de grandes naves ancoradas, mas prontas para viagens e, finalmente, perto de grandes aviões com as asas distendidas e os motores preparados para a decolagem.
As outras vozes gritavam ao contrário das outras:
- Queremos a ponte. Aqueles homens do outro lado do oceano são tão bons como os que estão acima de nós. São melhores, talvez. E o que dizem deles é intriga, pois, de maneira alguma, tomarão o que (ilegível) pertence. Só quererão o que nós lhes oferecermos. E querem nos dar muitas coisas.

Umas vozes, ele observou bem, vinham da sua residência. Dos jardins de sua residência. Dos recintos mais ocultos de sua residência. Todos os que pensavam e falavam desse modo estavam reunidos em sua residência.

Então se tornou cada vez mais confusa a sua mente e certo medo se apossou dele, quando viu que os dois grupos de vozes exigiam que ele, o construtor, começasse a edificar uma ponte sobre o oceano e diziam:
- Se não nos atenderes, se não satisfizeres os nossos desejos impediremos que continues a construir a tua cidade. Lembra-te que é a única coisa que vais deixar para nós. Somente por esta cidade que, generosamente, permitimos que construísses, continuarás a ser lembrado entre nós. Se não atenderes, porém, às reclamações que fazemos, deixaremos que a selva tome conta de teus palácios. E onde começava a surgir a alvorada só dominará a noite.

Ora, começou a pensar, isso é realmente lamentável. Tudo o que sou devo a estas vozes. Inclusive a minha cidade. Por que não entram num acordo? Uns querem a ponte. Outros não querem a ponte. Que farei para satisfazer a todos os habitantes da cidade?
E ficou demoradamente olhando para o mar com o queixo enfiado nas mãos. Por que não o deixavam tranquilo? Ele só queria uma coisa: construir sua cidade. Mas então uma voz grave e circunspecta sugeriu-lhe uma ideia.
Ele se levantou. Revestiu-se com suas insígnias de Grande Construtor e falou para as vozes:
- Para o bem e satisfação de todos resolvi o seguinte: construirei uma ponte até o meio do oceano.

E todas as vozes gritavam unissonamente:
- Muito bem! Muito bem!
E desapareceram. Fabulosamente continuou o sonho da construção da cidade.