CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

10 de junho de 2011

O Cinema no bairro de São Raimundo

Um dos bairros mais antigos e tradicionais de Manaus, dedicado a São Raimundo Nonato, está localizado às margens do Rio Negro e ligado ao centro pela ponte senador Fábio Lucena.

Em razão do comércio praticado com os derivados bovinos abatidos no Matadouro Público (a partir de 1919), os moradores passaram a ser conhecidos por “bucheiros”. Apesar de o atributo jocoso, muitos pais sustentaram a família comercializando as vísceras, tanto no bairro quanto no Mercadão, hoje Adolpho Lisboa.
Praça de São Raimundo, em construção. O Jornal, jan. 1953
Os divertimentos eram escassos, “para ir ao cinema” o interessado optava em tomar a catraia e atravessar o igarapé ou tomar o ônibus para a estação. À exemplo de Educandos, São Raimundo somente conheceu a magia da Sétima Arte no final de 1920, com a inauguração do cinema Íris. Mais tarde, funcionaram outras duas salas: o Paroquial e o Ideal. Este, de mais longa duração, foi desativado no início dos anos 1970.


Cine Íris (1929)
O cinema Íris esteve localizado na rua 5 de Setembro, e foi inaugurado a 15 de junho de 1929. Sobre o proprietário nada se apurou. Segundo informações colhidas em jornais, o cinema Íris dispunha de amplo e confortável salão de projeção e um palco, onde todas as noites, o cômico Pedro Brandão divertia os frequentadores. No mês seguinte, o Jornal do Commércio, de 8 de julho de 1929, divulgava que, em virtude de um acordo com o semanário “A Sereia”, instituidor do concurso “Miss Flor dos Bairros”, o Cinema Íris, em São Raimundo, exibirá em sua tela, dez fotografias, em homenagem às colocadas em primeiro, segundo e terceiro lugares, dos bairros: São Raimundo, Constantinópolis, Tocos, Preguiça, Vila Municipal, São Vicente, Cachoeirinha e Mocó.

Além de divulgar as fotografias das candidatas a miss, o cinema Íris, também exibiu o filme Grilhão do Vício (em sete partes), com entrada ao preço de 1$500 (mil e quinhentos réis). A partir do mês de agosto, o anúncio desta sala desapareceu dos jornais; é provável que tenha funcionado por mais algum tempo.

Cine Paroquial (1936–1950?)
Como o nome sugere, o cine Paroquial localizava-se ao lado da igreja de São Raimundo, mas apenas o barracão pertencia àquela paróquia. Também dele existem poucas informações em jornais e acervo documental. Sabe-se, todavia, que ocupava um galpão de madeira, coberto com telhado de zinco, onde a professora Maria Leão aproveitava para ensinar o catecismo à garotada do bairro.

Arrendado o galpão à recém-fundada (1935) empresa Cinema Avenida Ltda., de Antônio Lamarão e Aurélio Antunes (a partir de 1942, a empresa passa para A. Bernardino Ltda.), que nele instala o cine Paroquial, e que começa a funcionar na 1.ª quinzena de maio de 1936.
Também chamado pelos moradores de “cine São Raimundo”, o Paroquial possuía assoalho de madeira, palco e pequena cabine em alvenaria onde ficavam os projetores. No lugar de cadeiras, compridos bancos de madeira semelhante aos usados em igreja, com encosto que servia de apoio aos que se sentavam no banco de trás. É desconhecida a quantidade de lugares desta sala, assim como não há certeza se a igreja tinha alguma participação no seu funcionamento.

Uma ligeira impressão nos oferece Amaro Alencar, autor do livro São Raimundo dos meus amores: como o assoalho do Cine Paroquial era de madeira, com brechas de centímetro, havia então certa ventilação por baixo dos bancos, para compensar o calor da cobertura de zinco, que pouco era amenizado pelos quatro ou cinco ventiladores de teto.

No cine Paroquial, além da exibição de filmes em 16 mm, notadamente os de faroeste (alguns ainda do período mudo), também se realizavam no pequeno palco desta sala, a festa das “pastorinhas”. A coordenação e direção do espetáculo cabiam ao padre Carlos Flühr (nascido na Alemanha, em 1904, e falecido em Manaus, em 1943), com a participação de crianças e adolescentes do bairro.
Fato bem lembrado pelo escritor e poeta "bucheiro" Áureo Nonato (1921-2004): Outra lembrança de minha infância, também ligada às “pastorinhas”. No bairro havia duas ou três, se não estou enganado.