CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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segunda-feira, julho 20, 2026

MEUS OITENTANOS (10)

            FASCÍCULO 10

 No Amazonas, assumiu o governador João Walter e, na Polícia Militar, o coronel Paulo Figueiredo (1971-73), que me manteve na função de Tesoureiro. A prestação de contas ocorria ao final do mês ao comandante, militar bastante exigente com as verbas recebidas, afinal cabia a ele responder por algum deslise junto à Corte de Contas. Certa ocasião, ele me interrogou: você já frequentou a alcova de alguma madame? “Sim, comandante”, respondi, meio ressabiado. Ele então ordenou que olhasse para as paredes da repartição, nelas eu havia colado alguns cromos florais, extraídos de calendários fornecidos pelas indústrias instaladas na cidade. Daí a comparação com os quartos de motel, enfim, foi uma forma simpática de mandar o capitão limpar as paredes. Quem sabe, por isso, sigo colando cartazes e outros impressos na parede de meu escritório doméstico.

 

Quartel da PM na Praça da Polícia, onde trabalhei
e estacionei meus carros.

Em maio, foi criada pelo governo a Comissão de Defesa Civil, que passou a atuar já no mês seguinte. O final de junho marcou o ápice da enchente regional, naquele mês vários municípios e bairros da capital ficaram severamente alagados, atingindo os moradores. Com o objetivo de lidar com a tragédia, o governo repassou ao comando da PM valores para a aquisição de gêneros básicos. Tratando-se da primeira vez em que esse procedimento seria executado, recebi instruções severas do chefe quanto à compra dos alimentos. A importância dos recursos era relativamente elevada; e logo recebi uma oferta de gorjeta. A fim de não me envolver na transação, terceirizei a negociata com o Amazonilo Castro, colega da faculdade, que realizou as compras no desaparecido Supermercado Royale. Com o troco obtido, comprei um Fusca seminovo disfarçando, com mais ou menos sucesso, o ardil.

Possuía, pois, dois automóveis que eram guardados em frente ao quartel, visto não possuir garagem minha residência; apesar de usados despertavam os olhares argutos do chefe da seção de informações. E veio mais um complicador: o amigo e compadre Mohamed Tarayra, dono de lojas na rua Marechal Deodoro, ao viajar deixava comigo seu admirável carro, que igualmente estacionava em frente à caserna. Logo, eu possuía três carros e, sendo tesoureiro, estava me locupletando na função. Enfim, as suspeitas permaneceram apenas nos rumores. A faculdade mantinha-me empolgado; em casa, idem, tanto que chegou a notícia de nova gestação, com nascimento previsto para novembro. 

Roberto Antonio, aos 34 anos

O bebê, que acompanhando a norma ancestral, batizei de Roberto Antonio, em homenagem ao pai e ao tio, nasceu no Dia de Finados. O parto previsto para o início de novembro, seria realizado no Pronto Socorro São José e eu havia contratado o obstetra doutor Wallace Oliveira, com consultório na rua Guilherme Moreira. No dia dos finados, o médico encontrava-se no feriado em seu sítio, inacessível. Ainda estava incipiente a comunicação telefônica móvel. Diante da apreensão do casal, apareceu uma enfermeira cujo nome não anotei e garantiu a vinda do moleque e que, caso sucedesse algum imprevisto, a Santa Casa situava-se ao lado. Tudo correu bem. Dias depois, no cartório para efetuar o registro, antes de indicar a data do nascimento, refleti: quem vai comemorar aniversário no Dia dos Mortos? Então, fixei – 3 de novembro, sem imaginar que no ano seguinte, Eduardo, nasceria a 5, e Diego, anos depois, a 7. Curiosamente, a madrinha batismal de RA, dona Dadá Fonseca, nasceu em 2 de novembro.

 

Rua Conselheiro Nebias, 301

As férias marcadas para dezembro ocorreram, agora com a família acrescida, inclusive da sogra e da cunhada, e fomos desfrutá-las em Santos, junto aos pais e irmãos, instalando-nos no apartamento 31 da rua Conselheiro Nebias, 301, que havia se transformado numa pousada, todavia, reconfortante pelo reencontro das famílias. Viajei de paletó e gravata, retomando o estilo de antanho, e aproveitando dois cortes de casimira de cortesia de amigos. Em Manaus, a confecção de roupas ocupava intensamente os alfaiates, que acumulavam encomendas. A família chegou à noite e, a despeito da hora, os peixes regionais foram levados ao fogo e servidos para acompanhar o bate-papo, que se prolongou pela madrugada. O verão santista foi salutar, contudo, as férias chegaram ao fim. Em janeiro de 1972 retornei à residência para cuidar dos pimpolhos e, ao quartel, da tesouraria.

segunda-feira, março 11, 2024

PMAM: SEUS PRIMÓRDIOS (29)

Novo capítulo sobre a história da Guarda Policial, atual Polícia Militar do Amazonas, no período provincial, compartilhado do meu almejado livro Guarda Policial (1837-1889).

Santa Casa de Misericórdia - Manaus


Terceiro Quartel da Guarda Policial 

A Guarda Policial passa a ocupar, em 1º de novembro de 1878, uma ala do hospital de caridade então em construção, a conhecida, porém desativada – Santa Casa de Misericórdia, situada à rua Dez de Julho. Trata-se do terceiro endereço da Guarda Policial do Amazonas.

Acerca dessa mudança, o Jornal do Amazonas (1º nov.) assinala a sensatez do presidente da Província, barão de Maracaju, pois “o quartel da Guarda Policial não devia permanecer em casa alugada”. No entanto, é simples especular sobre a mudança para o imóvel em construção, que deve ter trazido mais incômodos que benefícios. O esclarecimento – singelo e corriqueiro – sobre esse imprevisto provém do próprio presidente, encontrado na Falla da abertura da 14ª Legislatura da Assembleia Provincial (29 mar. 1879):

Achando-se pronta a parte ocidental do edifício para hospital de caridade, e não sendo possível utilizá-lo ainda, atento o estado financeiro da província e não haver verba para o aumento de despesa que traz o pessoal indispensável para funcionar, resolvi transferir para ela a Guarda Policial, que estava aquartelada em um prédio de propriedade particular sito à Praça Pedro II, poupando-se por esse modo a despesa que se fazia com o aluguel do mesmo prédio. 

Novo comandante 

Em 2 de dezembro do mesmo ano, após a morte do major EB Silvério Nery, o tenente-coronel reformado do Exército Manoel Geraldo do Carmo Barros assume o comando efetivo, “de quem muito se deve esperar”, consoante o anseio do vice-presidente. A permanência deste oficial na direção da Guarda estende-se até 1º de dezembro do ano imediato, quando é indicado para comandar a Fortaleza da Barra da cidade de Santos, na província de São Paulo.

Barros, natural de Belém do Pará, nascido em 1820, e casado com Idalina Pereira do Carmo Barros, era militar bastante experiente, pois, esteve servindo na Corte; em 1854, no Rio Grande do Sul, ao lado do alferes Silvério José Nery; em 1869, em Desterro (atual Florianópolis), quando comandou a Fortaleza de Santa Cruz; e, em São Paulo, como 1º diretor da Colônia Militar de Avanhandava (hoje município de mesmo nome).

quinta-feira, maio 25, 2023

PMAM: SEUS PRIMÓRDIOS (27)

 Outro capítulo sobre a história da Guarda Policial, ora Polícia Militar do Amazonas, no período provincial, compartilhado do meu almejado livro Guarda Policial (1837-1889). 

 Mudança de comandante

Assume o comando da Guarda, em 13 de agosto de 1876, substituindo ao major Severino Eusébio Cordeiro, o tenente José Leonilio Guedes, também do Exército. Guedes conservou-se somente seis meses no comando, até 19 de fevereiro; talvez por esse motivo, o Arquivo Histórico da instituição não disponibiliza sobre ele registros diversificados.

A mais significativa anotação, a despeito de desabonadora, assinala ter sido Guedes “exonerado do comando desta Guarda Policial, por conveniência do serviço público”. O 2º vice-presidente, Guilherme José Moreira (barão de Juruá), ao transmitir o cargo ao barão de Maracaju, Rufino Eneias Gustavo Galvão (1831-1909), que promoveu esta primeira substituição, assegura que este tenente jamais conseguiria imprimir “a ordem e disciplina” na Guarda, “por falta das precisas habilitações”.

Já anteriormente relatados, são constantes os queixumes de presidentes da Província acerca da atuação de oficiais do Exército, sempre no sentido de comportamento irregular.

Barão do Maracaju
 

Regulamento 33

A presidência, autorizada pela lei 370, de 9 de julho de 1877, “determina que se observe” na Guarda Policial o Regulamento 33, de 24 de agosto. Em resumo, poder-se-ia afirmar que o regulamento da época tratava de todas as questões concernentes à atividade policial. Desde a organização e a destinação da própria Guarda e da inclusão de pessoal; passando pelos vencimentos, assim como do fardamento e armamento; até as regras de serviços e dos castigos e das penas.

Curiosamente, observe o tratamento dos guardas enfermos que “serão tratados na enfermaria militar ou no hospital de caridade”. Considerei curioso este tópico, porquanto o artigo 52 determina o pagamento das despesas hospitalares pelos próprios doentes, descontando-se somente “dos vencimentos dos oficiais a gratificação e meio soldo, e das praças de pré todo o vencimento”. Apenas o que escassear, será suprido pelo Tesouro.

Exponho alguns artigos para nosso evidente deleite ou pequenas notas:

Art. 1º – A força policial organizada em virtude da lei provincial número trezentos e setenta, de 9 de julho de 1877, terá a denominação de Guarda Policial.

Art. 2º – A Guarda Policial é criada para manter a ordem e a segurança pública na Província e auxiliar a Justiça. Só recebe ordens do governo da Província e, também, do Chefe de Polícia e de seus delegados, no que for relativo tão somente à bem da polícia a seu cargo.

Art. 3º – Compor-se-á em seu estado completo de um comandante, que terá a graduação de major; de um capitão; um tenente e dois alferes; e de noventa e quatro praças de pré, sendo um 1º sargento; dois 2os ditos; um furriel; oito cabos de esquadra; dois cornetas (corneteiros) e 80 soldados. (...)

Art. 5º – O tempo do serviço será de três anos, findo os quais terá o praça baixa, se a requerer. (...)

Art. 15 – Os oficiais da Guarda Policial serão da livre escolha e nomeação do presidente da Província, podendo o mesmo demiti-los por irregularidade de conduta ou por incapacidade física. (...)

Art. 51 – Os enfermos da Guarda Policial serão tratados na enfermaria militar, ou no hospital de caridade, conforme for designado pela presidência, ou em suas casas, quando para isso tiverem permissão. (...)

Art. 97 – Os castigos disciplinares abaixo mencionados não poderão exceder os seguintes limites:

A detenção até dez dias, a prisão até vinte.

O dobro da guarda de uma até dez vezes, nunca, porém, seguidas de mais de 2 dias consecutivos, de maneira que a praça tenha de 2 em 2 dias 1 de folga. A baixa temporária de oito a 60 dias.

A primeira e mais regular observação é a de que o presidente da Província, na Guarda, tudo provia. A ele cabia todas as decisões; facílimo, diante daquele diminuto efetivo. Para facilitar, as regras eram as da Força Terrestre adaptadas mal a mal ao pessoal da Força Estadual, seja o tempo de serviço e a forma de reengajamento; sejam as punições dobradas, assim como a exclusão de praças e demissão de oficiais.

quarta-feira, janeiro 15, 2020

EXPLOSÃO DA CALDEIRA: 50 ANOS


Ontem, 14 de janeiro, ocorreu o cinquentenário de um trágico episódio: a explosão da caldeira da Santa Casa de Misericórdia. Mortos e feridos e larga destruição marcaram aquela instituição de saúde. O desastre levou os manauaras à consternação, posto que o próprio governador, Danilo Areosa, e o prefeito, Paulo Nery, estiveram no local para acudir às precisões.
No cruzamento das ruas Lobo D’Almada e José Clemente funciona o Caldeira, um bar bem movimentado que guarda no título comercial aquela olvidada explosão. Recorri ao extinto jornal A Notícia (edição de 15) para ilustrar esta tragédia, que julgo ter dado à Santa Casa o início de sua derrocada.

Resultado da tragédia (fotos de A Notícia) 

O seu barulho já era familiar para a vizinhança. Nas noites escuras, era bonito quando, pelas suas chaminés, escapavam milhares de fagulhas que lembravam uma "Maria-Fumaça", arrancando da estação. O seu apito, longo ou curto, criou um anedotário. Quando era curto dizia-se: "morreu um pobre"; se saia longo, era porque havia morrido "um rico". Não era nada disso O apito era o esvaziamento de suas câmaras, aliviando a pressão do vapor, utilizada há mais de 20 anos para lavar a roupa da Santa Casa de Misericórdia.
Ontem, não havia apitado. E o fato não passou despercebido a alguns dos habituais ouvintes. E, às 9h45, explodiu. Pareceu um terremoto. 

Arrebentou casa, paredes, paredão. Levou como um bólido dois dos seus servidores, estatelando-lhes os corpos deformados no asfalto da rua José Clemente, de onde foram recolhidos, disformes, sem vida. Uma outra vítima morreu do choque. Outras ainda sofrem, de modo grave. Até crianças, que brincavam na rua, distantes sofreram. Pedaços de pernas-mancas, pedras volumosas, caliças, voaram a dezenas de metros de distância e foram danificar telhados, janelas, vidraças, paredes e pessoas.

Por que ela explodiu? De velha, disseram uns. Porque já estava rachada e ontem não deveria ter sido posta em funcionamento. Quem a conheceu bem deu-nos sua nacionalidade: era francesa, tinha mais ou menos 20 anos. De válvula manual, o operador devia acioná-la para descarregar a pressão toda vez que esta chegava a determinado ponto. Então, duas hipóteses estão na raiz da tragédia: a pressão subiu além da segurança e o operador descuidou-se, ou estava sem água e esta foi ligada abruptamente e provocou as explosões.
Sim. Pois não foi só uma. Após a primeira, grande, estrondosa, brutal, os socorros foram demorados, pelas outras que se seguiram, acompanhadas, ainda, das descargas elétricas de fios de alta-tensão, que se arrebentaram e tornaram os trechos da [rua] Lobo D'Almada e [rua] José Clemente, um inferno, na manhã de ontem.

Explodiu a caldeira da Lavandaria da Santa Casa.


quarta-feira, abril 10, 2019

PRONTO SOCORRO EM MANAUS


Este gênero de serviço conduzido pelo Governo teve início em 1943. Ao ser instalado na Santa Casa de Misericórdia, hospital desativado e que está desmilinguido a vista geral.


Santa Casa de Misericórdia, A Crítica, 9 julho 1976

Não deve ter demorado muito neste endereço, pois dez anos depois, quando do assassinato de Delmo Pereira em 1952, essa tarefa era realizada na avenida Joaquim Nabuco, em prédio desativado recentemente pela Setrab. Lembro-me de ter conduzido uma pessoa de minha amizade para ser atendida naquele PS, em 1963, intitulado de Samdu (Serviço de Assistência Médica e Domiciliar de Urgência), que operou entre 1949-66.
Ali deve ter permanecido até a inauguração do Hospital Getúlio Vargas, no governo de Danilo Areosa (1967-71), tendo o Pronto Socorro em anexo, coincidência, frente ao cemitério São João Batista, ou seja, ou o doente se curava ou era transferido para o outro lado do boulevard. O resto da história já conhecemos.
Como podemos observar, esse atendimento foi implantado na ocorrência da Segunda Guerra, quando a ajuda americana implantou diversos serviços no Amazonas. É o que nos dá conta o Relatório do interventor Álvaro Maia ao Governo Federal, referente ao período de 1943-44.   
 
Grafite existente no tapume da Santa Casa em 2015
SERVIÇO DE SOCORROS DE URGÊNCIA

Pelo decreto-lei nº 935, de 28 de novembro de 1942, foi criado o Serviço de Socorros de Urgência, instalado a 19 de abril de 1943, numa das dependências da Santa Casa de Misericórdia, adaptada a esse fim, e onde permanecerá enquanto perdurar a situação difícil que atravessamos, aconselhando a evitar a dispersão de despesas em Estado de orçamentos reduzidos. Vários créditos foram consignados para melhoria do Serviço, que dispõe, adquiridos no Sul, os aparelhos e materiais médico-cirúrgicos necessários ao seu funcionamento, das ambulâncias, carros-padiolas e mobiliário.

No desdobramento de sua assistência, o Serviço cancelou a cobrança de socorros de transporte aos trabalhadores e funcionários da SAVA, conforme solicitação do doutor Almir Pedreira, que assim procurou facilitar a vida desses trabalhadores na campanha da borracha. O movimento das ambulâncias é intenso, se atendermos que há uma grande população pobre nos bairros. 
 A Interventoria proporcionou ao Serviço de Socorros de Urgência, conforme as palavras seguintes do doutor Almir Pedreira, todos os elementos para a sua organização:
“Dessa maneira, foi-nos possível organizar um serviço relativamente bom, ou, em outras palavras, um serviço eficiente para o momento. Não podemos dizer que temos um Serviço igual aos que existem no sul do país, ou em condições semelhantes aos de outros Estados da Federação; mas, podemos afiançar que a nossa repartição, no momento, pode atender a toda eventualidade, sem dar motivos a comentários de qualquer natureza que prejudiquem o nosso conceito; (...)”“A finalidade do nosso Serviço é mais filantrópica do (que propriamente de interesse econômico. Quando o Governo se resolveu a criar esta repartição, dotando a nossa capital deste grande melhoramento, não visou, certamente, uma nova fonte de renda, ou novo meio de obter dinheiro para satisfazer suas necessidades orçamentarias; fê-lo, sim, para facilitar a nossa população, principalmente à classe menos favorecida da fortuna, os recursos necessários para casos de emergência, que reclamassem socorros de  urgência.”
(...) tomamos a liberdade de enviar a V.S. o ofício nº 22/43 S.G.E, de 30 de agosto do ano findo, assim redigido:
“Solicito a V.S. a gentileza de interceder junto ao Exmo. Sr. Interventor Federal, no sentido de ser autorizado este Serviço a cancelar a cobrança de socorros e transportes feitos aos trabalhadores da borracha e outros funcionários da S.A.V.A. (...) em especial aos soldados da borracha que veem trabalhar no Amazonas, (...) Satisfazendo a solicitação, o Serviço autorizou a facilitar gratuitamente os meios de transportes e socorros médicos a esses valorosos exploradores, cooperando, assim, para maior expansão da nossa indústria da borracha”.

domingo, outubro 04, 2015

MISERICÓRDIA... SANTA CASA

 Há um ano, fiz estes registros da situação da Capela pertencente a Santa Casa de Misericórdia.








segunda-feira, setembro 15, 2014

SERVIÇO DE SAÚDE DA PMAM (1ª Parte)







Legenda de Etelvina Garcia
Prosseguiu no sábado (13), no Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, o I SIMPÓSIO DE HISTÓRIA DA SAÚDE DO AMAZONAS, ocasião em que apresentei uma comunicação oral. Sob o título O Serviço de Saúde na Polícia Militar do Amazonas, elaborei na verdade uma resenha deste ofício na corporação. Há muitas lacunas, causadas pelo curto tempo de pesquisa e o apronto final. A extensão da matéria me obriga a reproduzi-la aqui em três partes.


       Fundação

Há uma sólida incongruência entre a criação da Polícia Militar do Amazonas, com o nome de Guarda Policial, e o próprio Estado. Aquela nasceu em 1837 e este, em 1852. A explicação: A força militar estadual surgiu em decorrência da rebelião cabocla, intitulada de Cabanagem, que grassou na província do Grão-Pará no período de 1835-40.
Por sagaz iniciativa do governo provincial, para aumentar a defesa territorial, foi autorizada a criação de Guarda Policial em qualquer recanto da imensa província, visto que a força paraense, mal dava conta da segurança na Capital. Assim, aonde houvesse algum povoamento, em freguesias, nas vilas, nas paroquias, no Lugar da Barra, as Instruções Gerais baixadas pelo presidente, brigadeiro Soares d’Andrea, em 1837, recomendava a criação desse organismo mais militar que policial. Essa providência foi tomada em várias localidades da Comarca do Alto Amazonas.

Ultrapassada a desventura da Cabanagem, causa de representativo número de mortos e pela desorganização cominada nos recantos amazônicos, intensificou-se a luta pela emancipação amazonense. E, como conhecemos, esta somente ocorreu em 1852, quando da implantação da província do Amazonas.
O presidente Tenreiro Aranha, ao assumir a presidência amazonense, recebeu do presidente paraense extenso relatório, no qual, entre outras notificações, aquela autoridade assinalava a existência de diversas (exatamente 22) Guardas Policiais, criadas pelas Instruções de 1837.
A primitiva Guarda Policial, autorizada a operar pelo governo provincial do Pará, empenhou-se unicamente no combate à Cabanagem (1835-40). Apesar de rarefeita legislação, a Guarda Policial atuou informalmente, sem deixar registros conhecidos. A carência financeira da província do Amazonas impossibilitou a manutenção dessa corporação, que desapareceu antes do final dos 1850.

Onde se encontra, todavia, a incongruência citada na abertura desta palestra? É singela. A organização policial militar “nasceu”, ou surgiu, antes da existência do Estado. Certamente é a única repartição no Estado com este “privilegio”, e quiçá entre as congêneres brasileiras. Devido a esse engenho, enquanto o Estado possui 164 anos, a Polícia Militar do Amazonas comemorou, em 4 de abril, 177 anos.

Estamos aqui para falar do serviço médico nesta corporação. Mas antes uma informação sacada de Arthur Reis, em História do Amazonas (1931) – Na instalação do Amazonas, “Não havendo um só médico em todo o território da Província, o serviço (de vacinação) foi entregue a um farmacêutico”.

A província amazonense permaneceu sem sua Força Policial até 1876, cujo serviço foi prestado em parte pela Guarda Nacional e outra parte pelo Exército. Portanto, vou falar de serviço médico, em especial, a partir desta data. 

Começo por indagar quem exercia esta profissão em Manaus na segunda metade dos 1800? As notícias são sombrias, no sentido de que são raros esses profissionais. Hospitais, havia dois: Santa Casa de Misericórdia, de 1880, e a Beneficente Portuguesa, de 1893. Antes do mencionados, funcionou a Enfermaria Militar, construída na Ilha de São Vicente, onde agora se encontra o comando do 9º Distrito Naval.


                GUARDA POLICIAL

Recomeçou em maio de 1876 com somente 2 oficiais e 70 guardas (previstos), sem quartel, ocupando uma casa residencial. Essa situação e mais a deficiência de médicos e de hospital, certamente nos permitem entender a ausência de apoio de saúde na instituição.
Contratado, como usual, era médico da corporação o Dr. Aureliano Macrino Pires Caldas. Portanto, o primeiro, o desconhecido número um. Apenas sei tão somente isso. Quanto tempo permaneceu, idem. Foi substituído, em 1877, pelo doutor Jonatas Pedrosa.
O Governo contratava aquele profissional disponível na praça de Manaus. Esclarecendo que esse não era incorporado à tropa, para ocupar um posto hierárquico e auferir vencimento, apenas com o vencimento estipulado pelo contratante. Apesar de esdrúxula, a modalidade de atendimento perdurou por décadas.

O Regulamento 33, aprovado pela lei nº 370, de 9 jul. 1877, confirma a denominação de Guarda Policial. E, no tocante ao assunto em debate, estabelece no art. 51 – Os enfermos da Guarda Policial serão tratados na enfermaria militar, ou no hospital de caridade, conforme for designado pela presidência, ou em suas casas, quando para isso tiverem permissão.
E, curiosamente, sobre o tratamento dos guardas enfermos, que “serão tratados na enfermaria militar ou no hospital de caridade”. O artigo 52 determinava que o pagamento das despesas hospitalares será feito pelos próprios doentes, descontando-se somente “dos vencimentos dos oficiais a gratificação e meio soldo, e das praças de pré todo o vencimento”. Apenas o que escassear, será suprido pelo Tesouro.

A Lei nº 383, de 10 out. 1878, estabelece um novo efetivo para a Guarda Policial, elevando-o para cinco oficiais e 105 praças. As melhoras de vencimentos concedidas pela mesma lei não se efetuaram, em decorrência de não ter sido votada a lei do orçamento. Esse impasse abrange igualmente a gratificação do médico.
Santa Casa de Misericórdia, hoje desativada
A presidência, escorada no art. 3º, concede “uma gratificação de cem mil-réis mensais ao médico que prestar à referida Guarda os seus serviços profissionais”. No ensejo, esteve ali clinicando (serviço ambulatorial) o doutor Jonatas de Freitas Pedrosa. Nascido em Salvador (BA) em 1850, aonde completou todos os estudos, doutorando-se na Faculdade de Medicina da Bahia, aos 23 anos. Governador do Amazonas (1913-17).

A Guarda Policial ocupa, em 1º nov. 1878, uma ala do hospital de caridade, então em construção, a conhecida – hoje desativada – Santa Casa de Misericórdia, situada à rua Dez de Julho. Foi o terceiro endereço da Guarda Policial.






quarta-feira, janeiro 15, 2014

SANTA CASA DE MISERICÓRDIA (2)


Santa Casa de Misericórdia - Manaus
Pequenas notas jornalísticas produzidas pelo extinto mestre Mário Ypiranga Monteiro (*) sobre a Santa Casa de Misericórdia, a respeito do aniversário deste hospital, que se encontra “fechado pra balanço”. A publicação comporta duas partes.
 
Naquele 1872, a epidemia da febre amarela obrigou o governo provincial a construir um lazareto no Cacau-Pirera, e a reclamação a favor da construção de um nosocômio continuava. Deve-se ao presidente da província Dr. Domingos Monteiro Peixoto, em 1872, encetar o movimento pró-construção do hospital. Fez ele uma convocação, à qual compareceram os tenentes-coronéis Clementino José Pereira Guimarães, João José de Freitas Guimarães, João Marcelino Taveira Pau Brasil e José Coelho de Miranda Leão; tenente Emílio José Moreira; comendadores Francisco de Sousa Mesquita e Alexandre Paulo de Brito Amorim; comerciantes José Antônio da Costa, José Teixeira de Souza e Manuel Alves dos Santos, que até o dia 12 de outubro haviam subscrito a importância de 4:300$000 réis (Cr$ 4,30). Além dessa subscrição houve outra, popular, que arrecadou 12:759$590 (Cr$ 12.759,59).
O terreno para a construção do prédio foi solicitado pela Província ao Ministério de Agricultura, Comércio e Obras Públicas, sendo concedido por Aviso de 26 de outubro de 1873. O ato de 2 de janeiro de 1873 autorizou e empregar-se pelo orçamento provincial, a quantia de 40:000$OOO (Cr$ 40,00). O lançamento da pedra fundamental verificou-se a 1º de janeiro de 1873 com as solenidades do estilo e comparecimento das autoridades e do povo. Mas não foi na rua Dez de Julho, e sim no primitivo local escolhido, ou seja, à antiga praça de Uruguaiana, nomenclatura histórica desaparecida por influência de nome estrangeiro. Como vem acontecendo nesta heroica cidade de mortas tradições e de vivas e suspicazes reformulações com que a história do futuro há de ajustar contas.
No mesmo ano de 1873, por intermédio do comerciante Francisco de Souza Mesquita, foram encomendados em Portugal os blocos de cantaria (parte). A 15 de fevereiro eram dispensado, da comissão encarregada da construção do próprio os cidadãos tenente-coronel João Marcelino Taveira Pau Brasil e tenente Emilio José Moreira, substituídos pelos capitão de mar e guerra Nuno Alves Pereira da Meio Cardoso e tenente-coronel Maximiano de Paulo Ribeiro. Então já se estava pensando em localizar o hospital noutra parte. E surge a questão do desapropriamento do terreno. Os proprietários foram indenizados na quantia de 2:785$000.

O projetO de orçamento do edifício esteve a cargo do engenheiro Dr. João Carlos Antony, e contava o prédio com 64 janelas no pavimento térreo e outras tantas no superior. As ombreiras, vergas e peitoris eram de mármore branco (calcário de Lisboa é o que é, a exemplo das colunas do prédio da Prefeitura Municipal, antigo Palácio do Governo e do Colégio Estadual do Amazonas, antigo Liceu Provincial).

Arremataram as obras de construção dos alicerces, a 22 de fevereiro de 1873, os pedreiros João Fernandes e Antônio Luís Moreira. Mas a pedido dos arrematadores, o contrato foi rescindido por portaria de 7 de março. Postas as obrasnovamente em licitação, arremataram Manuel Martins Pereira & Cia., cujo contrato é de 1º de maio de 1873. Fizeram todos os alicerces à razão de Cr$ 19,80 (?) o metro cúbico, mas a cal foi fornecida pela Província. Iniciaram a 12 de maio e terminaram a 15 de setembro.

Muitas das pessoas que subscreveram a lista para a construção do Hospital de Caridade ou Santa Casa (os nomes se confundem depois nos papéis oficiais), não pagaram. O comerciante José Francisco Monteiro, do rio Madeira, contribuiu com Cr$ 1,47 (melhor dizer 1:470$000).

Até 1876 as obras se arrastaram, à dependência do estado financeiro da Província. Deste ano em diante, inclusive, teve início a construção do pavimento superior. Não foram concluídas as obras que dizem respeito às partes confinantes com as ruas de José Clemente e de Lobo d´Almada, ficando reservadas a pequeno cemitério. Em 1894-98 ainda aparecem editais pedindo propostas para a terminação do edifício, que continua inconcluso. O paredão foi feito nas gestões dos Drs. Eduardo Gonçalves Ribeiro, Fileto Pires e coronel Ramalho Júnior, obedecendo ao mesmo estilo dos do Teatro Amazonas, Palácio da Justiça e Reservatório de água.

Somente depois que indicamos a lei de 12 de maio de 1870, que autorizou mandou construir o hospital, é que o articulista de domingo, 16 de julho, se favoreceu dela e fez bem. Mas posto que oferecendo subsídios valiosos, vincula-se ainda ao orçamento de 1872 (lei nº 244, de 27 de maio), que dota de oitenta contos de réis o novo hospital e escolas de ensino primário na capital.

Não me parece que seja novidade. O orçamento financeiro para 1871 (lei nº 219, de 20 de maio), manda aplicar a importância de noventa e dois centos de réis na construção de uma igreja na freguesia que mais necessitar, casas para escolas de ensino primário do sexo feminino na capital e na construção do Hospital de Caridade, não cabendo, portanto, nenhuma prioridade nesse aspecto da questão ao presidente Clementino José Pereira  Guimarães, e, sim, ao presidente general José de Miranda da Silva  Reis. Aliás, aos deputados provinciais, como consta dos "Anais da Assembleia Provincial".

A propósito de Henrique Antony (cuja naturalidade ainda é duvidosa), o trabalho pioneiro, pesquisa realizada entre os membros da família, é o de Lázaro Baumann, “Os Antony na História - esboço biográfico de Henrique Antony”, publicado na revista “Vitória-Régia”, ano I, nº 4, Manaus, abril, 1932. Desse trabalho tirei cópia autêntica, que ofereci a Arisfófano Antony. Deve de existir entre os seus papéis, sem dúvida.

Nota pessoal - (1) não concordo com a conversão monetária estabelecida pelo autor, entretanto, não disponho de recursos para a correção. (2) concordo com o comentário dele sobre a mudança de nome de ruas e avenidas e outros becos empregados em Manaus. Também não disponho de recursos para mudar isso, o nome dele atropela a velha e tradicional rua Recife.


A Notícia. Manaus, 17 de julho de 1972