CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

24 de junho de 2010

Os Bombeiros do Amazonas VI



Em 31 de janeiro de 1955, Plínio Ramos Coelho (1920-2001) assumiu o governo do Estado. Líder do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) e da oposição, havia trucidado nas urnas o conglomerado do Partido Social Democrático (PSD) e da União Democrática Nacional (UDN). Como de praxe, o mandatário acentuou a situação falimentar que recebeu o Estado. Enfaticamente, porque o Ganso do Capitólio (alcunha de Plínio Coelho) recebeu a administração de adversário. O Estado foi declarado “massa falida”, constante da Mensagem que o Governador se apressou a divulgar.



Denunciou ainda as sofríveis condições da Polícia Militar, quase albergada no amplo e imponente quartel da Praça da Polícia. Em resumo, deparou com a PM em franca decadência, sob o comando heróico - palavras textuais do Governador - do então tenente-coronel Neper da Silveira Alencar (1918-1994). Nada escreveu sobre a Companhia de Bombeiros, afinal esse serviço cabia à Prefeitura.


No entanto, a recomendação do Comandante sobre a higienização de uniformes, corrobora a miséria dos bombeiros. O capitão Edmundo Monteiro, em Boletim Interno, de 19 de maio, estabeleceu “aos praças desta Companhia que só poderão mandar lavar seus uniformes, mediante permissão do Comando, de sábado para domingo, quando de folga”. Trocando em miúdos, como cada praça possuía apenas um fardamento, e o bate-enxuga dependia de autorização e de folga, Monteiro esqueceu-se de consultar São Pedro, pois se chovesse... haja pixé!


O Prefeito nomeado em 1.º de fevereiro, Walter Scott da Silva Rayol (1905-1974), teve o mandato temporário encerrado no mês seguinte. Walter Rayol passou a administração para Edson Epaminondas de Melo, nomeado em decorrência de sua militância partidária no PTB, porém, era oficial da reserva da Policia Militar. Epaminondas dirigiu o Paço municipal apenas um ano, até maio de 1956.


A 21 de fevereiro, era o seguinte pessoal incorporado:



Capitão Edmundo Monteiro Filho, comandante; 2º tenente José Thomaz Monteiro Filho (foto), subcomandante; 2.º tenente Antonio Souza Barros, secretário; 2.º tenente Sebastião Vicente do Nascimento.


Praças: subtenente Manoel Sanches de Brito, tesoureiro-almoxarife; 1.º sargento Tertuliano da Silva Xavier, escalante; 2.º sargento Euclides Corrêa Lima; 3.º sargento Antonio Ferreira da Rocha; 3.º sargento Antonio J. da Silva; 3.º sargento Sebastião Ramos Filho; 3.º sargento Luiz Constantino de Melo (agregado); 3.º sargento João Coelho Sobrinho; 3.º sargento Luiz Batista dos Santos; Cabos Raimundo Ribeiro da Silva; Raimundo Nogueira da Silva; José Pacheco Nonato; Nicanor Gomes da Silva; Ayrdon Xavier de Souza; Soldados Pedro Evaristo da Silva; Jaime Ferreira da Silva; Raimundo Carlos da Silveira; Aluízio da Silva Maia; Honório Pinheiro de Souza; Francisco F. do Nascimento.
Em síntese: 24 homens! E, seguindo a regra: mais superiores (oficiais e sargentos - 13) que inferiores (cabos e soldados - 11). Diante do quadro, era plausível afixar um aviso no Corpo da Guarda (na entrada): Procuram-se Bombeiros desesperadamente, há 12 vagas para soldados.


Cosme e Damião, 1956

A 23 de março, assumiu o comando da Polícia Militar do Estado, o major EB Cleto Potiguara Veras, comissionado coronel. Na Cidade, deixou ditosa recordação com a implantação do Cosme e Damião (foto), em agosto de 1956. No âmbito interno, para implantar disciplina, usou de desmedida energia, atingindo inclusive oficiais. Um deles, o então major Julio Cordeiro, por muito pouco não travou luta corporal com o comandante, em frente à tropa. Antes de concluir seu comando, coronel Cleto Veras marcaria seu temperamento abrasivo com os Bombeiros, cujo fato será contado no devido tempo.


Mais ou menos em abril, um velho prédio existente no cruzamento das ruas Barroso com Henrique Martins, onde funcionava uma repartição pública - Estatística do Estado, ruiu parcialmente. Os Bombeiros acorreram ao local, para os procedimentos de praxe; os voluntários, igualmente. A demolição prolongou-se por dias. Veio, então, a determinação da Prefeitura de Manaus para que a demolição fosse realizada pelos Bombeiros, com o aproveitamento de materiais, tais como: telhas, tijolos, vigamentos de madeira e outros. Em uma ocasião, uma parede desabou, atingindo a “escada telescópica“, que foi destruída. No local, ainda existente, surgiu um prédio da Caixa Econômica Federal.

Em julho, a Companhia de Bombeiros Municipais recebeu do governo um presente de grego. Recebeu o carro bomba, marca De Soto, série 2984, motor n.º 5-239, chassis n.º 3097, equipado com uma bomba marca Clayton. Tratava-se de viatura usada, tanto que em apenas dois anos foi “descarregada”, ou seja, foi mandada para o ferro-velho.
A informação seguinte vem corroborar ests opinião. O Departamento de Estradas de Rodagem do Amazonas (Deram) efetuou a doação de 180 metros de mangueiras, daí entender que o carro-bomba veio na ponta das mangueiras. Desse modo, os Bombeiros seguiam a via crucis traçada pelos governantes.
Na ausência de uma sirene, funcionava no De Soto o tradicional sistema do sino. Pequeno sino que, ainda hoje, ornamenta o quartel do comando do Corpo de Bombeiros Militar.

Esse carro bomba, mais bomba que carro, deixou uma impressão entre amarga e curiosa. Nicanor Gomes, em entrevista para este trabalho, lembrou que os Bombeiros realizavam todos os serviços para a Prefeitura, menos o de combater o fogo. Não havia carro! Com a presença do De Soto, o capitão Monteiro aceitou o desafio de lavar a cúpula do Teatro Amazonas. Isso mesmo, aquela abóbada com as cores nacionais. Como realizaram a proeza?

Recorda Nicanor: os lavadores, os Bombeiros, subiam pela parte interna e passavam, após se amarrarem de algum modo, à parte externa. Aí entrava o carro bomba, lançando água com a Clayton para as alturas. Este fato ocorreu enquanto o carro existiu, funcionou, entre 1955 e 57. Tanto que, no desfile de Sete de Setembro, segundo registro em Boletim do dia imediato, o comando anunciava com júbilo que a CBM “desfilou com duas viaturas e todos seus componentes”. Foi uma glória! As duas viaturas: a De Soto e uma cedida pela Prefeitura.

Os integrantes do serviço de extinção de incêndios seguramente não estavam em condições para sustentar esta tarefa. Os Bombeiros mais se comportavam como funcionários municipais, envolvidos com os misteres da administração. Essas ingerências ficaram patenteadas quando da punição revolucionária imposta ao capitão Edmundo Monteiro Filho, em 1964.