CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

16 de junho de 2010

Os Bombeiros do Amazonas V

Mais um capítulo da história dos homens e mulheres do fogo. O ano de 1953 será sempre lembrado no Amazonas por sua maior enchente, até ser vencida pela de 2009. Fenômeno tão severo que, impondo dificuldades para a circulação em geral, deixou para sempre marcas e recordações na capital do Estado. Múltiplas providências foram necessárias para amenizar o impacto do fenômeno, por todo o interior amazônico.

Nicanor Silva, 1954


Nessa ocasião, os Bombeiros pertenciam a Prefeitura de Manaus. E a inclusão de dois bombeiros marcaria a história da corporação. Em fevereiro, a 2, foi incorporado Nicanor Gomes da Silva (1939-), com exatos 14 anos. Isso mesmo, com a idade de adolescente. Incorporado como soldado, alcançou o oficialato e, nesta classe, o comando da corporação.


A 10, foi a vez de Tertuliano da Silva Xavier (1916-1986), reservista de 1.ª categoria, nascido em 26.08.1916, em Itacoatiara (AM), filho de Rosa Amélia Xavier, casado, sabendo ler, escrever e contar, já vacinado, de cor parda, cabelos pretos lisos, olhos castanhos escuros, com 1,68 de altura, nariz reto, rosto oval, boca regular, sem sinais particulares. Tomou o n.º 25. A 12, foi promovido a terceiro sargento. Em 1965, sendo tenente, exerceu, por dois meses, o comando da CBM.

Tenente Tertuliano (à esq.) e equipe, 1972


As promoções ocorridas em tão escasso espaço de tempo refletem, aos nossos olhos, primitivismo. Eis os indefectíveis esclarecimentos: Tertuliano havia servido o Exército por quatro anos, de onde fora licenciado como cabo. Ao ingressar na CBM, aproveitou-se da norma consuetudinária, e quanto à promoção a sargento, o comando aplicou a regra da “ordem superior”.


Nesse ano, recorda-se o atualmente capitão (da reserva) Nicanor Gomes da Silva, ainda restavam em apreciáveis condições de utilização um acervo de peças e equipamentos para o combate a incêndios. Uma auto-bomba, a diesel, marca Henshell, de fabricação alemã, ano de 1939, que, por falta de manutenção e peças de reposição, repousava em um depósito de veículos inservíveis da PMM. Este local, situado nos fundos da sede municipal, serviria mais tarde de quartel da companhia.


Uma escada de dois lances, apelidada de magyrus, fabricada há bastante tempo e toda em madeira, montada em estrutura também de madeira sobre duas rodas, tipo carroça. Alcançava doze metros de altura e seu acionamento era manual, através de um sistema de roldanas, engrenagens e manivelas metálicas. De original, a magyrus era de tração animal, porém, nos anos de 1950, eram os municipais que a arrastavam. Apresentava-se em mau estado de conservação, por obra do tempo.


Outros materiais e peças: aparelhos de registros, que eram acoplados aos hidrantes subterrâneos; luvas e chaves de hidrantes subterrâneos; extintores de espuma química, fabricados em metal amarelo. Existiam alguns mangotes e mangueiras de incêndios, ainda com acoplamento de rosca; máscara de ar, com o ar mandado por mangueiras, funcionava nos moldes da máscara de escafandro, todavia não havia compressor. Lanternas archotes, a querosene; uma das peças de inspiração do distintivo do Corpo de Bombeiros.


A grande enchente em nada contribuiu para os cofres municipais, ao contrário. O Prefeito interino, Ney Oscar da Costa Rayol (1952-53) deixou sem pagamento durante o último trimestre o funcionalismo municipal. Os Bombeiros não foram poupados.




No princípio de 1954, Manaus ganhou novo Prefeito, Aluízio Marques Brasil. Quanto ao pagamento do funcionalismo nada mudou, ao invés, recrudesceu a penúria, pois, a Prefeitura pagou o salário de dezembro, mas esqueceu os dois outros meses. Como se não bastasse, Aluízio Brasil deixou atrasar o pagamento do funcionalismo durante todo o primeiro semestre. Resumo dessa ópera burlesca: oito meses pendurados, que nunca foram pagos!

Edmundo Monteiro


Em 11 de maio, assumiu o comando da CBM, o 1.º tenente PM Edmundo Monteiro Filho (1921-1990), posto à disposição da Prefeitura Municipal, desde o dia 4. O tenente Thomaz Monteiro, carinhosamente alcunhado de Fumaça, entregou o comando ao tenente Edmundo Monteiro (de cor branca, cabelos pretos ondulados, barba raspada, bigode aparado, olhos castanhos escuros e 1,75m), o Pacovão, para a tropa. Nenhum parentesco entre ambos existia, apesar do sobrenome.


O capitão Monteiro era filho de Edmundo Ximenes Monteiro (que foi deputado estadual) e de Cecy Mota Monteiro, nascido em Humaitá. Ingressou na Polícia Militar, em 27.3.1952, vindo do Exército, onde fora 3.º sargento, onde foi comissionado no posto de 2.º tenente. Para recolher tantas benevolências, contava com a aquiescência do governador Álvaro Maia, oriundo do mesmo município e correligionário do deputado Monteiro. Comandou a instituição por dez anos. Em maio, encaminhado pelo Governador do Amazonas, Monteiro Filho iniciou no Corpo de Bombeiros/DF um estágio que se prolongou pelo restante do ano.


Juntamente com o tenente, foram encaminhados pelo comandante da Pmam, coronel Manoel Corrêa da Silva, mais três policiais-militares: 3.º sargento Francisco Carneiro da Silva (1921-) e cabos Luis Batista dos Santos e Francisco de Souza Neto.


No final de novembro, os estagiários amazonenses estavam aprovados. Mas, grave dificuldade rondava a residência do tenente Monteiro: a falta de vencimentos. Na companhia da esposa, Celisa Carvalho Monteiro, a questão avultava-se. O casal recorreu a quantos poderiam ajudar, mas a situação financeira do Estado era literalmente uma dureza. Diante dessa circunstância desesperadora, a esposa buscou no Rio a representação de O Jornal, editado em Manaus. O matutino acolheu a reclamação e publicou a nota (abaixo). Ao retornar, o pessoal militar foi “agraciado” com uma punição.

Sem recursos, no Rio, 2 elementos da Polícia Militar do Estado.

O Jornal, 2 dez 1952.Em despacho de ontem, comunicou-nos a nossa Sucursal, no Rio, o seguinte: “Estão aqui, sem recursos, o tenente Edmundo Monteiro Filho e o sargento Francisco Carneiro, ambos da Polícia Militar do Estado do Amazonas, os quais vieram aperfeiçoar-se junto a uma corporação de bombeiros, desta capital. Acontece que ambos estão sem receber os seus vencimentos desde julho deste ano e mais as diárias arbitradas. Os referidos servidores apelam para o governador Álvaro Maia, por intermédio desta Sucursal de O Jornal e Diário da Tarde, para que S. Exa. resolva a sua triste situação”.


 No ano seguinte, em 29 de julho, Monteiro alcançou o posto de 1.º tenente, ao ser aprovado em concurso para oficiais. Em dezembro, a 23, passou à disposição dos Bombeiros Voluntários. Com todos esses cacifes e experiências, assumiu o comando da Companhia de Bombeiros Municipais. Ao lado do tenente Monteiro, seguiram o sargento Francisco Carneiro da Silva, comissionado no posto de 2.º tenente, e o cabo Luis Batista dos Santos, na condição de sargento. 
O Paço da Liberdade empenhava-se em ordenar a Companhia de Bombeiros. Nesse sentido, normas para o desempenho de comando da mesma foram estabelecidas em 28 de maio. Diziam respeito ao exercício do cargo de comandante, instituindo que o titular devia “ser oficial da ativa da Polícia Militar e possuidor de curso de especialização ou estágio de aperfeiçoamento no então Corpo de Bombeiros/DF“. Incontestável que essas ordenações foram aprovadas para atender ao tenente Edmundo Monteiro.

Andar superior do Quartel PM


Os bombeiros prosseguiam como "inquilinos indesejados" do Quartel da Praça da Polícia.