CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

2 de junho de 2010

Lembrança familiar

Desejo recordar o falecimento de dona Doroteia Mendoza, minha madrasta, ocorrido em 2 de junho de 1992. Quando ela casou com meu pai, já encontrou o kit completo, ou seja, começava cuidando de três filhos. E gerou cinco outros. Quem assina o texto é meu irmão:


Dora e Manoel Mendoza,
em Santos (SP)
Renato Mendonça   

Lembrei-me do aniversário de Dona Doroteia — um dos meus anjos, já exaltados em crônicas anteriores — que nos deixou há dezoito anos.

Pessoa maravilhosa com quem convivi intensamente dos oito aos 18 anos. Depois o acaso tratou de nos afastar. Era minha madrasta — palavra que sempre detestei pela aspereza da pronúncia e porque parece trazer no seu bojo um sentido cruel e uma falta de carinho no tratamento. Esse substantivo não lhe caía bem. Não teve o carinho e afeto específico de uma mãe biológica, porque além de mim teve outros tantos para criar. Ela, porém, compensou com a dedicação e o zelo típico das pessoas de bom coração, sem deixar que eu notasse alguma discriminação pelo fato de ser adotivo.


Contribuiu enormemente na minha educação e me apoiou nas horas mais difíceis. Era uma mulher ativa, excelente dona-de-casa e cozinheira. Dona de uma determinação fora do comum.


Decidimos — eu e meus irmãos da primeira geração — mudar seu nome de tratamento para simplesmente Dona. O nome mais curto nos aproximava bem mais. Depois, com o passar dos anos, carinhosamente a chamávamos de Doninha. O diminutivo lhe engrandeceu ainda mais e nos colocou sob sua proteção. Nos últimos anos de vida ainda voltou a estudar, e concluiu o curso secundário.


Ela morreu precocemente, vitimada por um câncer no pulmão sem nunca ter experimentado um cigarro. São os desígnios de Deus! Não vamos cobrá-lo nenhuma explicação, é claro. Ela foi embora, mas deixou lições e ensinamentos. Fatos pitorescos que ficaram gravados no nosso álbum de recordações.


Num dia de minha infância, quando ainda se criava galinha no quintal ou para comer ou para vender — quando a situação estava preta —, acidentalmente pisei em um pintinho, quebrando-lhe a perna. Fiquei apavorado, quando vi a fratura exposta. Levei-o até ela, imaginando que o pintinho seria sacrificado. Na mesma hora ela tentou tracionar a perna do animal para recolocar o local da fratura em situação de “engessar”. O pintinho “berrava”. A tentativa foi improdutiva porque, passado algum tempo, o tendão havia se comprimido. A alternativa encontrada foi cortar o pedaço de ossinho que sobrava. Em seguida, ela pegou dois palitos de fósforo e fez uma tala. Devolveu o pinto à mãe, como se fosse coisa bem natural.


Para minha surpresa, meses depois aquele pintinho tornou-se o galo do terreiro, e não teve qualquer sequela. As pernas do animal ficaram rigorosamente iguais. Milagre? Não sei.
Da esq. Renato, Henrique, Manoel (pai) e Roberto,
ao fundo, Isabel e Vilma, em Barra Mansa (RJ)

E assim levou sua vida. Alegre, sempre disposta. Gostava de, aos domingos, preparar comida especial. Um pouco gorda, não se incomodava com o detalhe. Não fazia dieta e, sempre que havia oportunidade, compartilhava conosco da “caipirinha” ou da cervejinha, apenas para ficar mais alegre.


Nos últimos anos, duros anos de vida, vi a Dona perdendo peso, fustigada pela devastadora doença e pelas internações. Não se entregou em nenhum momento. Tinha sempre a esperança e a fé de curar-se. Era católica fervorosa.


Deixou-nos um legado: a alegria de viver e a resignação com as adversidades da vida, que ela nunca reclamava. Que Deus a guarde em um lugar de refrigério, de luz e de paz. Assim seja!