CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

23 de junho de 2010

1970. Brasil tricampeão

A Copa do Mundo de 1970, vencida pelo Brasil, reserva para os amazonenses gratas recordações. Aqui neste espaço já divulguei a pré-inauguração do Vivaldão, com a presença do selecionado brasileiro.
Dizem que esta visita deu sorte. Pelé e companhia conquistaram em definitivo a taça Jules Rimet, a mesma que ladrões furtaram da sede da então Confederação Brasileira de Desportos, hoje CBF, de futebol. A taça existente é apenas uma réplica. Não importa...
A festa pela conquista de 1970 foi marcante, exuberante, com direito a feriado nacional. 

Um torcedor nada privilegiado escreveu uma crônica sobre o feito, descrevendo a angústia de intermináveis 90 minutos vividos em 21 de junho de 1970.

Nelson Porto e L. Ruas (à dir),
em festa na Rádio Rio Mar

A crônica pertence ao saudoso padre L. Ruas (1931-2000). E é melhor que você leia, para avaliar o sentimento que alcançou os brasileiros naquela competição.

Brasil: Tri! Salve! Salve!
O Jornal. Manaus, 28.6.1970

 
    Hoje está fazendo uma semana. Mas, esquecer quem há-de?, como diria o poeta. Quem é que pode esquecer aquela tarde ensolarada de vinte e um de junho de 1970? Quem é que pode esquecer, principalmente, aqueles noventa minutos de ansiedade, de angústia, de expectativa, de silêncio, de prantos contidos e incontidos e, sobretudo, de fé, de confiança e, mais do que sobretudo, de esperanças? De esperanças. Como é terrível a esperança! Como é angustiante! Noventa minutos de esperança concentrada, comprimida, pronta para rebentar... É quase um inferno. Mãos que se contorciam; caminhadas longas de quilômetros dentro de salas pequenas; olhos marejados de lágrimas; o silêncio indeciso e certino (sic) das caixas de foguetes em cima de mesas; a superatenção de ouvidos colados aos aparelhos de rádios; os comentários reticenciados pelo avanço do ataque brasileiro; os copos de cerveja bebidos sofregamente e nervosamente; tudo isso era a esperança dos noventa milhões de brasileiros naquela tarde que não terminou naquele dia, tarde que se prolongará dentro de cada um de nós sabe Deus até quando.

E, de repente, um brado retumbante ecoou “dos pampas aos seringais”, como disse um narrador lá no México, no Estádio Asteca: GOOOOOOOOOOOOLLL!!!

E, de repente, todas as ruas e avenidas do Brasil se enfeitaram com as cores do nosso lindo pendão da esperança!

Vou parar por aqui senão vou desandar numa patriotada que vai ser uma coisa. E patriotada só valeu mesmo naquela tarde de vinte e um de junho de mil novecentos e setenta.

Mas, perdoem-me os que me lêem. Volto atrás. Não sou rei. Não sou Pelé e, por isso, a minha palavra pode voltar atrás sem nenhum desdouro. Não houve patriotada, não. O que houve, realmente, foi um profundo e intenso sentimento de patriotismo. Acredito que não houve outra ocasião na História do Brasil e, muito menos, nos seus grandes momentos, em que o povo brasileiro esteve tão unido, tão coeso, tão povo, tão nação como quando a partir do gol de Jairzinho, o terceiro (Ah! Aquele definitivo terceiro gol de Jairzinho! Que maravilha! Que alívio!) ficou selada a vitória do Brasil sobre a Itália e confirmado o tricampeonato. Não! Nunca fomos, em data alguma, tão povo e tão nação!

Acho que é temeridade de minha parte estar falando sobre a vitória do Brasil. Já disseram tudo. E, mais do que dizer, já fizeram tudo! Tudo, completamente tudo! O que foi que não se fez naquela tarde? Todas as inibições foram quebradas; todas as barreiras foram dissolvidas; todas as explosões foram explodidas: nos foguetes, nos gritos de Brasil! Brasil!, nos carnavais ou melhor no carnaval nacional. Quando se diz carnaval, que é preciso dizer mais? Já não está dito tudo?

Brasil, terra do futebol. Há os que se envergonham de dizer que o Brasil é a terra do futebol. Há os que dizem com um trejeito de ironia e de desprezo. Não passam de capadócios. Somos mesmo a terra do futebol. Qual é a vergonha que há nisso? O futebol não é um esporte? E o esporte não foi sempre cultivado pelas grandes civilizações? Quem pode falar da Grécia, por exemplo, e esquecer Esparta? O que há de mais sadio do que o esporte e, especialmente, quando o esporte supera a simples técnica e se eleva até ao plano da arte. Arte, sim. O que é a arte se não o homem transfigurando a técnica pela originalidade do seu poder criador, pela individualidade do seu talento? E o que é futebol brasileiro se não isso? Talvez não seja arte e acredito que não o seja o tal futebol-força de além-Atlântico. Mas o futebol brasileiro é.

O certo é que pelo que eu sei nunca houve povo de parte alguma, povo [...] tão intimamente, tão profundamente, tão eticamente ligado a um esporte como o povo brasileiro ao futebol. Não vê o presidente da República? Os nossos derradeiros presidentes têm sido muito severos com essa história de feriados. No que, diga-se de passagem, andam certos. Mas, como o Presidente poderia fazer-de-conta que não reconhecia esta realidade cultural do povo brasileiro? Não podia. E tome feriado. Bacana, Presidente!

É neste sentido que a vitória do Brasil vai muito mais além de uma simples vitória esportiva. O tricampeonato brasileiro de futebol é um fato que se radica, profundamente, na alma de nosso povo. Alguém já disse com muita verdade que Bach é o resultado de inúmeras gerações de músicos da Alemanha. Pelé é o resultado de inúmeras gerações de futebol, desde os profissionais até os jogadores de peladas. E muito mais. A vitória do Brasil é uma vitória também de toda a América Latina e, talvez, de todos os hispano-americanos. Nós, que falsamente somos considerados eugênicamente pobres, demos uma lição extraordinária de preparo físico que é bem uma amostra do que poderá ser ou que será o povo brasileiro quando o Brasil alcançar seu pleno desenvolvimento.

Que mais? Que mais que é preciso dizer? Nada. Só isso:
Salve! Salve! Brasil, tricampeão! Pátria amada, idolatrada, salve, salve!

E quem não gostar que se... dane.