CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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sábado, agosto 08, 2026

VIAGEM NO TEMPO (1)

A série que hoje se inicia é de autoria do meu irmão Renato Mendonça, que sempre colabora com este Blog. Mês passado, ele veio a Manaus para, entre outros afazeres, celebrar seus 75 anos de idade; nascido na rua Inácio Guimarães, em Educandos, reside no Rio faz uma longa temporada. Estava acompanhado da esposa Alda (foto). Bom, deixo que ele conte a saga empreendida no retorno ao Rio.

 

Expectativa Emocionante

18.07.2026

Quando me convidaram a celebrar o meu aniversário de 75 anos em minha terra natal, hesitei. Considerei um capricho deslocado, uma extravagância sem sentido. Afinal, o aconchego familiar, tão essencial em datas assim, não estaria à minha espera. Era um momento diferente de quase todos os anos passados. O “quase” se justifica porque, algumas vezes, fiquei ausente para cumprir a demanda de trabalho.

Mas, minha intuição se equivocou. Como quem calça o sapatinho de cristal em pés descrentes de uma cinderela, o destino me levou ao baile. A viagem tornou-se fábula: reconciliação numa viagem no tempo, reencontro com memórias que eu nem sabia como guardar. Era como se o relógio tivesse voltado, mas em vez de me aprisionar, me libertava para viver o que ainda não havia sido vivido.

Partimos do Rio ainda na madrugada do dia 26 de junho, sexta-feira, quando os primeiros raios de sol tingiam o céu azul pálido, observados a partir da Linha Vermelha quase silenciosa, como se guardasse um segredo. O Santos Dumont, com seu vai e vem de pessoas, parecia indiferente ao meu coração ansioso. A aeronave da Azul nos levou primeiro a Belo Horizonte, uma pausa programada, como quem respira antes de mergulhar novamente em outra aventura — o voo 4066 — para nos levar ao destino.

E então, rumo a Manaus, o corpo seguia preso ao assento, mas o pensamento já se adiantava: imaginava rever os irmãos e os parentes remanescentes que ainda moram lá; apresentar para minha companheira, Alda, o encontro das águas; um passeio, talvez, para ver o verde infinito da floresta e sentir o calor tropical que nos abraça sem pedir licença — o verão amazônico, típico daquela estação. Cada minuto no ar era como um prelúdio, uma nota que anunciava a aventura amazônica que estava por vir.

Ao pousar às 11h, estranhei apenas a ausência da conferência de bagagem por funcionários do aeroporto internacional Eduardo Gomes — detalhe burocrático que, por um descuido, poderia ameaçar a leveza da jornada. Mas, logo percebi que nada roubaria o encanto de estar novamente ali — quarenta anos depois —, no coração pulsante da Amazônia, onde os rios e a cidade se entrelaçam, e convivem como velhos amantes.

Para nossa comoção, no dia anterior à nossa chegada, a terra tremeu com fúria na Venezuela: um terremoto de magnitude 7,4 espalhou destruição material e baixas humanas. A notícia atravessou fronteiras e, em Manaus, meu irmão Roberto me contou pelo WhatsApp que até ali, em seu apartamento, sentira um leve estremecimento. E foi ele, junto de sua mulher Beatris, quem nos aguardava no aeroporto, com uma solicitude que me tocou profundamente. Conduziu-nos, como quem cumpre um ritual de acolhimento, ao Amazônia Tower Hotel, erguido no coração da cidade, na Avenida Getúlio Vargas.

Naquela mesma tarde, eu e a Alda saímos a pé, em busca de redescobrir a cidade. Mas o que encontrei foi um cenário de abandono pelo poder público municipal: ruas marcadas pelo descuido, lixo espalhado, ausência de lixeiras, e a miséria exposta em cada esquina — famílias inteiras, crianças de colo, transformando as calçadas em palco de um caos social.

Colégio Estadual do Amazonas — Av. Sete de Setembro


O Colégio Estadual do Amazonas, outrora Gimnásio Amazonense Pedro II, erguia-se imponente, mas soturno. O prédio do século XIX, fechado, aguarda reformas. Mais doloroso, porém, é saber que desde o ano letivo anterior não há aulas. O edifício de 150 anos parecia um ancião esquecido, cedendo à intempérie do tempo, testemunha muda de uma história que se desfaz.

Do lado de fora, contemplei a sala de aula onde, há sessenta anos, vivi os melhores ritos da juventude. Era dali que ficava observando as meninas que, no pátio da quadra de esportes, exercitavam educação física, para cumprir a grade curricular. Era como se o tempo tivesse congelado as imagens que a memória soube preservar. Permaneci algum tempo olhando aquela imagem e recolhendo fotos com o celular, não como turista nativo, mas como fotógrafo de lembranças, em busca do ângulo que melhor pudesse eternizar os cinco anos de estudo ali naquele educandário, até concluir o Curso Científico. 

Colégio Estadual do Amazonas — vista lateral.

Uma pesquisa rápida revelou a situação atual do colégio. Descobri que, sob o governo de Wilson Lima — natural de Santarém do Pará e alinhado ao bolsonarismo —, a educação não figurava como prioridade. A ausência de empatia durante a pandemia de Covid-19 parecia ecoar também no descaso com instituições históricas. Também o prefeito, do mesmo viés político do governador, não se preocupa com as mazelas da sociedade. É doloroso perceber que perfis assim ainda conseguem seduzir parcelas da sociedade, sustentados pelo analfabetismo político.

Resta-me a esperança de que o próximo governador tenha sensibilidade para restaurar o nosso CEA, esse relicário de memória coletiva, marcado pelas digitais de gerações inteiras: alunos, professores, bedéis, todos guardados nas paredes centenárias como testemunhas silenciosas de um tempo que não volta. (segue)

sexta-feira, agosto 29, 2025

COLÉGIO ESTADUAL DO AMAZONAS

 A temporada vem assistindo mais uma restauração do prédio do Colégio Estadual, existente há mais de um século na avenida Sete de Setembro. De fato, a situação do estabelecimento está reclamando reparos em geral, nem as fortes grades de ferro têm resistido ao tempo. A ferrugem fez seu trabalho, deixando à mostra a ferragem original. Dito isto, relembro a publicação de 1985, quando o governo de Gilberto Mestrinho (1983-87) destinou "2 bilhões" (certamente de reais, mas ainda em implantação). São passados 40 anos!

Recorte do matutino Jornal do Commercio, 30 abril 1985 


O prédio do CEA voltará à sua imponência

Decreto assinado ontem pelo governador Gilberto Mestrinho abre crédito adicional de mais de Cr$ 2 bilhões destinados à recuperação dos prédios do Colégio Estadual do Amazonas e do Grupo Escolar "Carvalho Leal", este localizado no bairro da Cachoeirinha. No momento, as instalações daquele estabelecimento padrão de ensino médio da capital amazonense atravessa péssimo estado de conservação.  

Todavia, a partir de agora, com a destinação desses recursos, o prédio do CEA voltará à sua imponência original. Ao anunciar ontem a liberação dos recursos para a recuperação dos dois colégios, o secretário da Fazenda, Ozias Monteiro, voltou a falar na prioridade que o Governo do Estado vem dando aos investimentos na área social, como educação, saúde e segurança pública.

sexta-feira, maio 16, 2025

GINÁSIO AMAZONENSE PEDRO II

 A saúde não me permitiu atender ao convite de um amigo para discorrer sobre a construção do Ginásio Amazonense Pedro II, ou Colégio Estadual, de nossos dias. Em busca de informações, consegui na Biblioteca do Museu Amazônico um exemplar que reproduz um relatório sucinto sobre a evolução das obras, escrito após a centenária Intervenção Federal de Alfredo Sá (1925) no Amazonas. Realizei a cópia que vai nesta postagem, acatando a ortografia vigente.

Ginásio amazonense “pedro II”


Localização: avenida Sete de Setembro. Limites: ao N. a rua Henrique Martins; ao S. a praça da Constituição; a L. a avenida 13 de Maio; a O. a rua Jorge de Moraes. Custo: 933:824$092 (réis) Valor atual 3.000:000$000

Característicos: O Ginásio Amazonense Pedro Segundo, antigo Liceu, é todo de alvenaria de pedra e tijolo, construído no centro de um amplo terreno gradeado de ferro, com três portões na frente e dois atrás. Tem dois pavimentos e um porão todo ladrilhado, apresentando uma bela fachada de cantaria.

Dimensões: ao N. tem o terreno 78m79; ao S. 85m30; a L. 66m80; a O. 61m45. O edifício propriamente tem 37m30 de largura por 46m30 de fundo; 8m08 de pé direito do pavimento térreo e 5m94 de pé direito ao primeiro andar.

Ao fundo do edifício existe uma pequena casa, em forma de chalé, toda de alvenaria, a qual fora construída para gasômetro, servindo atualmente para morada do porteiro; a L. existe um grande pavilhão, também de alvenaria, o qual fora construído para ginástica e onde atualmente funciona o Jardim da Infância.

Histórico: o edifício do Ginásio Amazonense Pedro Segundo foi mandado construir pelo presidente da então província, Dr. Sátiro de Oliveira Dias, autorizado pela lei 506, de 4 de novembro de 1880. Essa lei autorizava o governo a dispender a quantia de 30:000$000 com aquisição do terreno, planta, orçamento e primeiras obras.

Os planos e desenhos foram executados pelo major de engenheiros Dr. Dionísio E. de Castro Cerqueira, que na Republica foi ministro dos Negócios Estrangeiros.

Em 25 de março de 1881 foi colocada, pelo referido presidente, a pedra inaugural, previamente benta pelo vigário da freguesia de N. S. dos Remédios, padre João Rodrigues de Assunção. A 9 de maio do mesmo ano, o Tesouro Provincial contratou com Ismael Vitorio Gomes a construção dos alicerces, à razão de 24$000 por metro cúbico. Como o terreno não fosse consistente, foi necessário dar aos alicerces maiores espessuras do que as marcadas no plano geral.

Tendo sido entregues a 9 de janeiro de 1883 as pedras de cantaria para o soco(?) da fachada principal, cujo fornecimento fora contratado a 4 de maio de 1882 por José Cardoso Ramalho, pela quantia de 3:774$085, mandou a presidência da Província fosse chamada concorrência para o assentamento do mesmo soco. Aceita a proposta de Antonio Ruibal, que se obrigara a fazer esse trabalho por 540$000, lavrou-se o contrato a 22 de fevereiro, ficando pronto o serviço a 12 de março do mesmo ano. O fornecimento da cantaria precisa para as soleiras, ombreiras e vergas de 24 janelas do pavimento térreo, foi contratado com José Cardoso Ramalho. A construção das paredes e colocação do vigamento do pavimento referido, foi contratado com o Dr. João Carlos Antony, a 20 de janeiro de 1883. As obras arrematas por este contratante foram suspensas a 28 de outubro desse ano, por falta de crédito.

A 31 de julho do mesmo ano resolveu a presidência da Província que as obras do edifício continuassem por arrematações parciais e mandou, à vista disso, organizar o orçamento da quantia necessária à conclusão de todos os trabalhos. Esse orçamento foi apresentado a 3 de dezembro. Por ele as despesas foram calculadas em 220:123$081, dando, porém, a província a cantaria precisa para as colunas, pilastras e cimalha da fachada principal.

A lei 640, de 16 de maio de 1884, autorizou o presidente da Provincia, Dr. Teodoreto Carlos de Faria Souto, a concluir o edifício. A 21 maio desse ano, José Cardoso Ramalho, Leonardo Antonio Malcher e Manuel Coelho de Castro assinaram no Tesouro Provincial contrato para conclusão das obras pela importância de 259:745$235.

A 26 do mesmo mês e ano começaram os trabalhos, que foram suspensos a 30 de setembro, por não terem os arrematantes recebido as prestações, em consequência do mau estado financeiro da Província. Recomeçados a 12 de outubro [1884], a 5 de setembro de 1886 foi o edifício recebido provisoriamente, verificando-se a recepção definitiva depois de decorridos seis meses destinados a provas, a 12 de abril de 1887, na administração do Dr. Ernesto de Vasconcelos Chaves.

O edifício, porém, não estava concluído, como se verifica dos fotogramas junto. Faltavam-lhe os muros e gradis de cimento e outras pequenas obras complementares que não foram incluídas nos orçamentos anteriores. Esses trabalhos, bem como a modificação da escadaria, preparo do chão do porão, que foi todo cimentado, sendo as amplas salas de L. ladrilhadas, foi feito nas administrações do Dr. Fileto Pires e coronel Ramalho Junior.

Parte do terreno em que se acha este edifício pertencia ao que foi comprado a Custodio Pires Garcia, pela quantia de 12:000$000 [doze contos de réis], em que se construiu o atual Quartel da Força Policial; parte foi desapropriado ao tenente João Sebastião da Silva Lisboa, pela quantia de 8:000$000 [oito contos de réis].

A construção do pavilhão de ginástica foi feita por Florêncio Rodrigues de Almeida, custou 71:551$260.

Estado de conservação: Passou por grandes consertos no governo do Dr. Alfredo Sá, benemérito Interventor Federal, achando-se em ótimas condições.

sexta-feira, novembro 08, 2024

DOIS INTELECTUAIS AMAZONENSES: NONATO E ÁLVARO (1)

 
Meses após a morte do acadêmico Álvaro Botelho Maia, padre Nonato Pinheiro (foto), também acadêmico e membro do IGHA (Instituto Geográfico do Amazonas) publicou em O Jornal, (domingo, 19 de outubro de 1969), uma sinopse das obras do falecido. O alongado artigo vai aqui compartilhado em duas assentadas. Efetuei a atualização da ortografia e introduzi ligeiros detalhes, que espero não comprometam a obra do saudoso articulista.

Recorte do jornal indicado

Quando cursava humanidades no Ginásio Amazonense, Álvaro Maia, colaborando na revista AURA, costumava dedicar seus poemas à Ermila. Teria tido alguma colega ou amiga com esse nome? Tratar-se-ia de um nome fictício para ocultar um verdadeiro romance? Creio que meu amigo e confrade Cosme Ferreira esteja, em condições de dissipar a dúvida. O fato é que esse nome era uma constante nos versos do talentoso ginasiano.

No ano de 1915, a 22 de janeiro, conduzido pelas mãos amigos de Cosme Alves Ferreira Filho, Álvaro Maia ingressa no JORNAL DO COMMERCIO, como redator. Um ano depois, precisamente a 22 de janeiro de 1916, a bordo do vapor Bahia, viajava para o Rio de Janeiro. Regressou a 2 de abril do mesmo ano, a bordo do navio Ceará. Em 1917, verificou-se seu bacharelamento em Direito, na ex-capital da República. Estava formado. A flor de sua cultura e de sua sensibilidade de orador e poeta alcançava logo a plenitude do seu colorido e a pujança de sua inebriante fragrância.

O marco luminoso de seus triunfos intelectuais foi indisputavelmente sua famosa Canção da Fé e Esperança, pulquérrima oração proferida no Teatro Amazonas, em nome da mocidade amazonense, na solenidade do centenário da adesão do Amazonas à Independência Nacional. Foi um triunfo oratório de excepcional claridade, que a imprensa recebeu com estrepitoso alvoroço. A comissão promotora dos festejas era composta do coronel Bernardo da Silva Ramos, presidente do IGHA, professores Agnello Bittencourt, Manuel de Miranda Leão, coronel Antônio Bitencourt, padre José Tomás de Aquino Menezes, Drs. Aprígio de Menezes, Vicente Reis, João Batista de Faria e Souza, Arthur César Ferreira Réis, major Licínio Silva e jovens Aguinaldo Ribeiro, Antóvila Vieira, Cássio Dantas, Jorge Andrade, Galdino Mendes Filho e José de Alencar.

Em 1924, em sessão promovida pela Academia Amazonense de Letras, no Ideal Clube, saudou Álvaro Maia o eminente general João de Deus Menna Barreto. Discurso primoroso que o homenageado agradeceu com comovente oração. Como professor do Ginásio Amazonense, apresentou, no ano de 1925, duas teses de real valor, que lhe garantiram as cátedras de português (O Português-Lusitano e o Português-Brasileiro, léxica e sintaticamente considerados) e de instrução moral e cívica (A Bandeira Nacional como símbolo e emblema da Pátria). Não omitirei que, quando o Ginásio Amazonense passou a denominar-se Ginásio Amazonense Pedro II, foi Álvaro Maia o orador designado pela Congregação para falar na solenidade de 2 de dezembro de 1925, ocasião em que foi inaugurado o retrato do magnânimo Imperador. Presidiram a sessão o Interventor Federal Alfredo Sá e o diretor Prof. Plácido Serrano.

A 12 de julho de 1927, no Ideal Clube, Álvaro Maia proferia seu discurso - Após A Campanha..., na sessão cívica em homenagem aos implicados no movimento de 23 de julho de 1924. Em 1926, a 23 de julho, dirige uma carta aberta ao presidente eleito do Brasil, Dr. Washington Luiz, a pedidos dos estudantes Deoclides de Carvalho Leal, Arthur César Ferreira Reis, Rui Gama e Silva, Diogo Belfort Santos, João de Paula Gonçalves, Fernando Ribeiro, Mário Libório Pereira e José Freitas Ramos. Em novembro de 1930 estava nomeado Interventor Federal. Em agosto de 1931, publicou no Rio o folheto Em torno do caso do Amazonas. Já a 28 de janeiro desse ano havia publicado no JORNAL DO COMMERCIO seu trabalho - Em minha defesa, republicado depois em folheto, defendendo-se da matilha esfaimada que lhe ladrava aos calcanhares pelo crime de haver assumido o Poder Executivo de seu estado natal.

Em 1934, publicou seu discurso na Assembleia Nacional Constituinte, com o título - Panorama Real do Amazonas: A Voz Amazonense Que Se Levanta em Prol dos Luminosos Destinos do Berço Verde. Em 1942, Dom João da Mata de Andrade e Amaral realizava memorável Congresso Eucarístico Diocesano. Na sessão noturna de 3 de junho, convidado pelo zeloso Bispo, o Interventor Federal proferiu um soberbo discurso, na inauguração do monumento de Nossa Senhora da Conceição. Em 1944, saiu a lume a maravilhosa plaqueta Noite de Redenção, uma página de impressionante meditação. Data de 1945 seu belo folheto O Cântaro da Samaritana, enternecedora meditação evangélica. Seus livros de poesia e ficção aí estão, prenhes de emoção e encantamento, escritos por um homem de letras que moldou suas preferências mentais na escola dos egrégios mestres do estilo: Beiradão, Gente dos Seringais, Banco de Canoa, Nas Barras do Pretório, Buzinas dos Paranás, Nas Tendas de Emaus. Tive a satisfação de preencher a orelha de Buzina dos Paranás, a convite dos editores Sérgio Cardoso & Cia. Ltda.

Com paciência beneditina, percorri toda a coleção das revistas REDEMPÇÃO, de Clóvis Barbosa, e AMAZÔNIA, de Carlos Mesquita, e dei com numerosas flores literárias esparzidas pelo magnífico prosador e inspirado bardo. Asseguro que tais trabalhos dariam um ou mais volumes. Guardo-lhe com emoção um poema que me ofereceu publicado na página literária de O JORNAL, de 10 de maio de 1965, intitulado Latim Redivivo, cujos originais entregou a seu sobrinho Heliandro Maia. Esta relação está longe de ser completa. Foi um primeiro levantamento que empreendi para meu livro em preparo. Sua inteligência foi fecunda e admirável e sua pena surpreendentemente privilegiada. Como o sol, como os astros, como os parques e jardins floridos, passou a vida a esbanjar clarões, lampejos e a semear com mãos pródigas flores pelos caminhos, em troca dos espinhos que lhe atiravam os eternos invejosos, que não suportam remígios de condores nem cintilações de astros que incomodam...

segunda-feira, julho 08, 2024

MANAUS: JORNAL GREMIAL EM 1936 (1)

 O GRÊMIO, periódico lançado pelos alunos do Grêmio Estudantal (sic) Humberto de Campos, apesar de inexistir o registro do colégio, acredito se tratar de iniciativa de alunos do Ginásio Amazonense Pedro II. A 2ª edição do primeiro ano, circulada em julho de 1936, trouxe na primeira página uma contribuição de Ramayana de Chevalier, aqui postada. Convém esclarecer que Chevalier havia retornado de Salvador (BA) diplomado em medicina, sendo então empregado na Polícia Militar estadual, em reorganização. 

Recorte da primeira página, com os Bilhetes... de Ramayana


BILHETES DO AMAZONAS

RAMAYANA DE CHEVALIER

Não é nenhuma novidade dizer que o termômetro público, protegido à sombra de um “fícus” da Avenida Eduardo Ribeiro está marcando 38° à sombra. Nem que os paralelepípedos da praça mais livre da cidade estão moles como geleias de goiaba. Brilha a cidade. Brilham reflexos fugaces no zimbório moscovita do Teatro Amazonas. Brilham sigmas no braço dos integralistas apressados. Tudo brilha. Polimento? Não. Calor e mormaço. O Carneiro de Mendonça que é metido a duro viraria coloide se viesse interventoriar estas bandas

* * *

É preciso que o Brasil saiba: o Amazonas repele qualquer proposta de intromissão nos seus negócios internos. Sendo o filho esquecido, o gato borralheiro da Federação, ele não quer nada além de justiça, o que já é nada além de 4$400. Os japoneses querem plantar batatas no Amazonas. A patriotada de meia dúzia de garotos simpáticos exige o fechamento do portão aos anõezinhos de olhos oblíquos. Veem perigos amarelos na selva verde. Nem sequer reparam no patriotismo da combinação: os amarelos no verde criariam uma bandeira nacional antropobotânica (sic). Bonito! Em S. Paulo ninguém gritou que sobravam nipões. Aqui...

Quem foi que disse que existe Amazonas no mapa político do Brasil a não ser em vésperas de eleições e nos discursos do Senador Cunha Mello?

* * *

Isto aqui vivia ao Deus dará. Não se pagava a ninguém; não se aumentava a receita; não se contemplava o funcionalismo; dinheiro não chegava para a gasolina do Palácio; economia era mistério mais palpável que a Iara. Veio um homem chamado Álvaro Maia. Trouxe um amigo dentro do coração: a honestidade. E um outro no coração dos amigos: a tolerância magnânima e feliz. O Amazonas, hoje, está equilibrado como um convalescente de pneumonia. Fraco, mas em pé. Magro, mas com esperanças de gordura. Trêmulo, mas sentindo o tato das coisas. Todo o mundo recebe. Há dinheiro para socorrer os rombos menores.

Álvaro Maia é o nome que desfia dos lábios do caboclo doente de Tabatinga ou da boca, queimada de sol dos vaqueiros do Rio Branco. Álvaro Maia é o começo das orações matinais dos plantadores de seringueiras do Purus ou dos pescadores de tartarugas do Badajós. De um extremo ao outro da Planície, dentro das lindes do Amazonas, o centauro moreno de Parintins ou o caucheiro heroico do Mamoré, qualquer cidadão perdido na vastidão da Terra Inacabada, procura escrever, com os dedos grossos, a mão inábil, braço trôpego, um nome que equivale por uma bandeira, uma bandeira humana de civismo e dedicação: Álvaro Maia.

Hoje o Amazonas é um bloco de brasileiros indomáveis e fortes em torno de um homem que representa a bravura da Raça na serenidade do espírito: Álvaro Maia. Um dia, o nome desse moço poeta, não estará somente no pórtico de mensagens à Assembleia estadual, mas incendiará, em silêncio, o coração dessas gerações que amadurecem como frutos benditos. E, nesse dia, o Amazonas vingar-se-á do desprezo de todos: salvará o Brasil.

domingo, junho 30, 2024

MANAUS E OS JORNAIS ESCOLARES

 O saudoso mestre de tantas iniciativas, Mário Ypiranga Monteiro - legou à história amazonense mais uma obra singular. O jornalzinho Baré (ou O Baré), como o próprio apresenta, servia aos interesses dos secundaristas do Ginásio Amazonas (hoje Colégio Estadual). MYM era seu proprietário e caricaturista, daí se concluir que lhe coube a promoção de todo o modelo. 

A fundação deste jornal ocorreu em 1º de maio de 1928. Conheço apenas este exemplar que recolhi da Biblioteca Nacional virtual. Todavia, com vale!

Surge hoje, a luz da publicidade, o primeiro número de o “Baré”, jornalzinho este que circulará entre os alunos do Gymnasio Amazonense Pedro 2º. Os jovens que o dirigem, são os mesmos que lutaram pelo soerguimento do extinto órgão “O Arco-Íris”. O "Baré”, como mensageiro das novas, entre os colegas, trará uma bela reportagem, confeccionada com especialidade, e aprimorado estilo para captar as simpatias dos queridos leitores. Este jornal será o defensor categórico dos direitos dos nossos condiscípulos.

Unamo-nos colegas, para o progresso da pátria que já caminha ao par da civilização latina. Aperfeiçoando-nos no estudo da língua-mãe, preparamos o alicerce para o soerguimento da nação brasileira. Sejamos fortes como os fortes! Nós, os de agora, seremos os homens de amanhã; nós, os estudantes de hoje, seremos o baluarte da pátria. (...) M. Y. Monteiro

Observe a derradeira linha do Expediente

terça-feira, maio 14, 2024

MANUEL BESSA FILHO (1931-2023) (2)

Renovo meus respeitos ao falecido Manoel Bessa Filho, que exerceu múltiplos encargos em nossa cidade, morto em agosto do ano passado, aos 92 anos. Sempre que encontrava o xará, repetia: não sei se lhe tomo a benção (devido ao sacerdócio) ou presto a regulamentar continência, por sua atuação no Auditoria Militar da Força Estadual. Guardo, todavia, não tanto em segredo, pois os livros de assentamentos registram, com gratidão a “meia condenação” que me aplicou, quando julgado na Auditoria.

Esta homenagem ocorre com a reprodução de uma carta aberta que o então reverendo, diretor do Colégio Estadual, publicou no Diário da Tarde, de 4 de agosto de 1956, dirigida ao coronel presidente da Petrobras.

Tópico do referido vespertino, 4 ago. 1956

Sei que V. Sa. não deve dar muita importância ao que se diz na imprensa. E quando esta é do Amazonas, aí então nem se fala. O Amazonas é pobre, não tem indústrias, não tem nada mesmo, nem sequer o direito de ser sede de coisa alguma da Amazônia. Só ainda é sede de missão religiosa e inspetorias de índios. Mas leia, em todo caso, Coronel, leia o que lhe vou escrever.

Não sou ninguém na vida para dirigir-me a V. Sa. Sou o Padre Bessa, só Padre Bessa, nada mais. Renunciei ser pai pela carne abraçando o sacerdócio católico, mas tenho mil e duzentos filhos no espírito. Raramente sirvo-me da imprensa escrita ainda que milite na falada. O tempo não chega para tudo. Nem para defender-me. Se me atacam, venho aos jornais. Mas, desta vez, o negócio mudou.

Mexeram com meus filhos, Coronel, e eu sou pai. Vou contar-lhe tudo direito e veia se não tenho razão. Estou dirigindo, há menos de dois anos, o Colégio Estadual do Amazonas. Viajei pelos Estados Unidos, não recuso “Coca-Cola” gelada, mas acho que “o Petróleo é nosso”. Tive sempre a veleidade de querer formar uma juventude sadia, patriota -- mesmo sendo brasileira — crente, ao menos, do futuro do Brasil. Sou admirador, defensor e propagandista da Petrobras. Já organizei quatro excursões a Nova Olinda, lá estive quando da visita do J.K., divulgo as publicações que recebo, sem contar as palestras na Polícia Militar, no Colégio ou nos programas de rádio.

A Petrobras, até mesmo na sua organização sempre me pareceu coisa séria. Mas desta vez não foi. E é por isso que dirijo a V. Sia. No começo deste ano (não me comprometo com datas) fui procurado pelo eng. Levindo Carneiro, diversas vezes na diretoria do Colégio. Falta de sorte, nunca nos avistamos. Telefonei enfim para o Hotel Amazonas. A Petrobras precisava uns vinte rapazes, que tivessem ao menos o curso ginasial. Um curso de sondadores, ao que parece. Lá, em Nova Olinda. No começo seria duro, mas depois as coisas iriam melhorar. Mandei uma dúzia de meus filhos. Não pense que é demagogia não. Pergunte a eles se não os estimo como filhos. Visitei-os quatro vezes. Cheios de patriótica alegria eles "davam um duro” como qualquer trabalhador braçal. Aguardavam o “curso”. Os meses passaram, o trabalho continuava, o tratamento piorava. Até hoje a única palavra que ouviram sobre o assunto foi de que era aquilo mesmo e se não quisessem...

segunda-feira, maio 13, 2024

MANUEL BESSA FILHO (1931-2023)

 Ano passado, ao organizar um livro do desembargador Neuzimar Pinheiro (acerca dos 40 anos de magistratura), incluí uma homenagem ao padre-juiz Bessa Filho, transcrevendo na orelha do volume uma crônica dele sobre o amigo-xará, ex-presidente do TJAM (Tribunal de Justiça do Amazonas). A fim de requerer “autorização” do cronista, eram dois Manuel (Neuzimar e eu) em busca do terceiro: Manuel Bessa. E nada. Somente semana passada, revisando meu Blog do coronel Roberto, alcancei a notícia do falecimento dele, ocorrido em 7 de agosto do ano passado, aos 92 anos de idade. Bessa possui uma história multifacetada em nossa capital e outros recantos do Mundo, parte dela ele narrou em entrevista para este blogueiro.

Bessa, nascido em Manaus, encerrou sua preparação para o sacerdócio no Canada. Em 1954, tornou-se sacerdote na catedral de Nossa Senhora da Conceição. Logo ingressou no quadro de professores do Colégio Estadual e, em 1956, foi nomeado Diretor daquela Casa de Ensino. E, três anos depois, conforme esta postagem, foi eleito Vereador de Manaus.

 

Recorte de O Jornal, 30 out. 1959

À tarde de ontem, na Segunda Zona Eleitoral, foi realizada a diplomação dos candidatos eleitos para a Câmara Municipal de Manaus, no pleito que se realizou no dia 3 mês em curso.

Ao ato estiveram presentes os srs. Jair Cavalcante, Evandro das Neves Carreira, Manuel Rodrigues, Padre Manoel Bessa Filho, Rodolfo Vale, José Araripe, Albino Fortes, João Zany dos Reis, Walter Rayol e Raimundo Coelho, representando o sr. Francisco Plinio Coelho. Esteve ausente o sr. Xenofonte Antony que se encontra fora de nosso Estado.

A solenidade foi realizada com a presença de representante do Tribunal Regional Eleitoral, desembargador Orlando Soares Monteiro, e do juiz Raimundo Cordeiro de Magalhães, que dirigiu o pleito em nossa capital.

A partir de ontem, portanto, estão diplomados os novos vereadores do município de Manaus, eleitos à 3 de outubro corrente.

segunda-feira, março 18, 2024

MANAUS: REMINISCÊNCIA DA IMPRENSA ESTUDANTIL

A postagem recorda a Revista do Estudante, efetivamente dirigida e produzida por estudantes, a maioria do Ginásio Amazonense Pedro II, atualmente Colégio Estadual do Amazonas, circulada em maio e junho de 1937. 

A foto da instalação da Associação Amazonense de Imprensa, realizada na Academia Amazonense de Letras, ilustra a capa. Com destaque para o orador da agremiação Ramayana de Chevalier. 

O exemplar exposto pertence à Biblioteca Mário Ypiranga, um dos dirigentes da Revista, daí a jocosa dedicatória (no alto da capa) imposta pelos parceiros de redação.       

Revista.. (maio-junho 1937)


domingo, dezembro 01, 2019

COLÉGIO ESTADUAL DO AMAZONAS: 150 ANOS


O Colégio Amazonense Dom Pedro II, instalado à avenida Sete de Setembro, quando de seu centenário (1969) era conhecido por Colégio Estadual do Amazonas. É facilmente reconhecido, não somente por sua localização central na cidade, mas pela exuberante formação de jovens concludentes do ensino médio. Para os finalistas deste ano, a festa possui dupla emoção, pois se trata da celebração do sesquicentenário – 150 anos – do Estadual.
A direção empenha-se ao máximo, pois iniciadas em março passado, ainda não foram encerradas.

Todavia, esta postagem recolhi do noticiário do jornal A Crítica (28 novembro 1969), quando este matutino anunciava o início dos festejos centenários do CEA.

Centenário do CEA, jornal A Crítica, 26 nov. 1969

Um desfile pelas principais ruas da cidade, com representações dos colégios de grau médio abriu, ontem, os festejos comemorativos ao 1° Centenário do Colégio Estadual do Amazonas [CEA]. Às 13 horas, no pátio externo do CEA, o professor Nobre Leão proferiu uma palestra, focalizando aspectos históricos do estabelecimento, seguindo-se a inauguração da exposição de pintura e fotografias.
Às 20 horas, finalmente, o professor Farias de Carvalho discursou brilhantemente sobre o papel histórico do CEA e sua significação sociocultural. Sem qualquer interrupção nas provas que estão sendo realizadas, a programação de aniversário do Colégio Estadual terá prosseguimento, hoje, a partir das 16 horas, com um torneio interno de futebol de salão, a ser disputado entre as equipes (alunos e professores) do IEA [Instituto de Educação do Amazonas] contra o CEA.
Às 20 horas, também no CEA, será realizada a Noite do Cinema Jovem, incluindo a exibição de dois filmes premiados de Roberto Kahané, assim como dois outros curtas-metragens de cineastas paulistas, apresentados em Manaus, por ocasião do 1° Festival Norte de Cinema Brasileiro.

quarta-feira, novembro 16, 2016

CARLOS MESQUITA

Carlos Mesquita foi professor do Ginásio Amazonense Pedro II, depois Colégio Estadual do Amazonas, na década de 1930. Sempre entusiasmado e vibrante, pugnando pelo soerguimento do Amazonas, colaborava na revista Victoria-regia, onde publicava seus artigos.

Compartilho aqui aquele publicado na edição de abril de 1932.


  
A civilização de um povo é avaliada pelo que ele produz, pela sua atividade, pela sua energia, pelo seu trabalho. Os povos chamados civilizados são justamente aqueles que se compenetraram do cumprimento do dever e que tudo fazem em prol da terra que lhes serviu de berço.

Temos um grande exemplo entrando-nos pelos olhos a dentro: os Estados Unidos da America do Norte. Que grande colmeia não representa o colosso da bandeira das listas e das estrelas, com os milhões de abelhas a esvoaçar, imiscuir em todos os ramos do conhecimento humano, a aperfeiçoar o que já é conhecido, a inventar coisas outras de grande importância e de benéficos resultados para a humanidade!

Não há homem, haja ele nascido onde quer que seja, cujo entusiasmo não vibre ao testemunhar a carreira vertiginosa dos ianques para as mais altas finalidades da vida.
Abraham Lincoln,George Washington, Woodrow Wilson, Theodore Roosevelt, André Carnegie, John Davison Rockefeller, George Eastman, Thomas Edson, Henry Ford, Jacob Pierpont Morgan, são americanos de nascimento mas que pertencem ao Universo tão grandes os benefícios que fizeram e as ações nobres que praticaram.

Dizem que o americano está empolgado pela ideia do dinheiro. E por que não? Se Ford, Rockefeller, Gisnegie e tantos outros, não fossem econômicos, não possuíssem ideais, não amontoassem fortunas a custa do trabalho constante e diário, poderiam ter esses gestos de filantropia, fundando instituições médicas,bibliotecas públicas, saneando e desbravando florestas virgens em países longínquos? Claro que não.

De uma visada rápida, compreenderam a significação da frase que todo mundo repete sem compreender: a mola de tudo é o dinheiro. Que disparidade brutal entre o americano a amealhar dólares que o hão de tornar apto a praticar boas ações, e o coronel seringueiro, bronco e boçal, com um rolo de notas sujas no bolso, a acender charutos com pelegas de 500$! Qual o selvagem ? Qual o irracional? Qual o civilizado?

É por isso, justamente, que nunca havemos de progredir. Falta-nos o senso da economia, sobra-nos o amor às ostentações, mesmo as mais estupidas e descabíveis. A nossa vida é fictícia, oca, vazia... Nada fazemos como povo... Enchemos cada dia que passa de 24 horas inúteis e irrecuperáveis. Rimo-nos de tudo, tudo levamos no deboche...

Blasonamos aos quatro ventos as lendas absurdas das iaras, muirakitans, botos de cabeça furada, como se tudo isso nos elevasse no conceito de alguém; mostramos aos que nos visitam araras multicores, vitórias-régias, línguas secas de pirarucu, abanos, papagaios palradores, como se tudo isso fosse o resultado de nosso trabalho, de nosso esforço; escrevemos linguados, em estilo lamecha, sobre o amor e sobre o flerte, esquecendo-nos dos problemas sérios da nacionalidade; procuramos destruir com o deboche que já esta inoculado na massa de nosso sangue, tudo aquilo que é bom, tudo aquilo que se inicia, movidos por uma inveja que só possuem os despidos de iniciativa, os pobres-diabos da imprensa da picuinha.

Convém que abandonemos esta atitude. Convém que nos levantemos. Urge, já e já, tomar essa iniciativa. Trabalhemos todos, cada um na esfera de suas atribuições, em prol do Amazonas. Abandonemos esta maneira estupida de viver a espera de auxílios; ergamo-nos por nós mesmos e, sobretudo, deixemos de ler os livros piegas de Júlio Dantas, enveredando pelas obras fortes de Henry Ford que enobrecem, que ensinam, que masculinizam, especialmente os beócios literaticados (sic) que tudo atacam porque nada podem assimilar!  

quarta-feira, novembro 09, 2016

CLUBE DA MADRUGADA: 62 ANOS (1)

Capa do livro
No próximo dia 22, o saudoso Clube da Madrugada completa mais uma efeméride. Para lembrar essa data, prossigo reproduzindo um texto do também saudoso poeta Alencar e Silva, compartilhado de seu livro Quadros da Moderna Poesia Amazonense.

PRELUCIDAÇÃO

Enquanto isso, porém, o tempo corria e conspirava contra a produção cultural local e, logicamente, contra o surgimento de novas luzes e novos talentos. E a coisa começava a repetir-se e a emperrar, enfim. De sorte que tudo parecia mais ou menos estagnado, como um grande rio que de repente deixasse de correr.

De fato, só com o término da guerra, o fim da ditadura e a esperada democratização do país, voltar-se-ia a respirar em Manaus um ma propício ao reflorescimento das artes e das letras e ao exercício da liberdade criativa.

Era chegada a hora dos grêmios e da consequente disseminação de suas tribunas políticas e literárias, a darem algum colorido à cidade e algum sentido à juventude. Impõe-se, assim, por sua própria expressividade, o devido registro dos nomes dessas entidades, porquanto de seu seio foi que saíram os quadros que iriam depois pontificar nas tribunas parlamentares, nas cátedras universitárias e nas lideranças empresariais, inclusive em outros Estados, por força do conhecido êxodo anual da mocidade amazonense, rumo ao sul do país, determinado quase sempre pela falta de oportunidades e, sobretudo, pela inexistência de universidade, eis que então se dispunha, tão somente, em Manaus, da tradicional Faculdade de Direito.

Só para referir, a voo de pássaro, as denominações daquelas entidades e alguns de seus integrantes, listamos os seguintes, observando uma certa ordem de precedência: Grêmio Heliodoro Balbi (Olavo Sobreira Sampaio, Evandro Carreira, Manoel Octávio etc.); Centro de Estudos da Mocidade (Áureo Mello, Plínio Coelho, Lúcio de Siqueira Cavalcanti, Ligier Herculano Barroso etc.); Sociedade Cultural Castro Alves (Almino Affonso, Aloysio Nobre de Freitas, Paulo Monteiro de Lima etc.); Grêmio Cultural Gonçalves Dias (Francisco Guedes Queiroz, Roberto Jansen, Arimathéa Cavalcanti, Othon e Fernando Mendes, Almir Diniz etc.); Grêmio Cultural Álvares de Azevedo (Hygino Caetano da Silva Filho, Platão Araújo, Alencar e Silva, Aluísio Sampaio, Leopoldo Péres Sobrinho, Jefferson Péres, Andrade Neto, Roberto Jansen etc.); Sociedade Amazonense de Estudos Literários (Anibal Duarte Beltrão, Alencar e Silva, Maria Leonor Coutinho dos Santos, Ambrósio Assayag, Guimarães de Paula, Astrid Cabral, Jorge Tufic, Anísio Mello, Milton Cordeiro, José Cidade d'Oliveira etc.).

Havia ainda o Centro de Estudos e Defesa do Petróleo, de caráter nacionalista, e a Associação Amazonense de Imprensa Estudantil, representativa dos diversos periódicos, de vida efêmera ou duradoura, que então circulavam.

Sendo certo que muitos de nós participamos sucessivamente de mais de um desses grêmios, fácil é compreender-se que muitos companheiros não tenham sido arrolados, enquanto que um ou outro possa achar-se deslocado. O que importa, em essência, é que muitos desses jovens, na década seguinte, ou, mais precisamente, a partir de 1954, fariam confluir suas águas para o grande estuário do Clube da Madrugada, onde um novo tempo começaria a correr.

Cabe lembrar ainda que os colégios tradicionais de Manaus, à época, viram os seus centros estudantis encherem-se de inusitadas atividades extracurriculares, de cunho literário, destacando-se entre eles o Centro Plácido Serrano e o Marciano Armond, do Colégio Estadual e do Instituto de Educação, respectivamente, nos quais a juventude mais idealista adestrava-se nos torneios do espírito e nos jogos florais da inteligência.

Deve lembrar-se, em particular, e não por acaso, o "Plácido Serrano", sob a presidência de Anísio Mello, poeta e pintor, que lhe embelezara a sede, dotando-a de palco e belos painéis laterais e também os jovens que ali se exercitavam nas tribunas, como Francisco Queiroz, Arimathéa Cavalcanti, Bernardo Cabral e Cláudio Ferreira Nobre.

Entre todos, porém, sobressaía-se a figura de Almino Affonso, cujos triunfos oratórios a todos deslumbravam. Já por volta de 1948, era ele — poeta — um líder prestigioso, a quem a política e a vida pública reservariam uma trajetória gloriosa nos parlamentos e na alta administração do país.

Por várias vezes esse virtuose da oratória parlamentar empolgou as sessões do "Plácido Serrano". Certa feita, o deputado Pereira da Silva, ali presente, depois de ouvir o jovem tribuno, e como que contagiado por sua eloquência, inflama-se também e profere emocionada oração, que assim começava: "Eu também já fui poeta e cantei esta terra com igual emoção...".

Referia-se o deputado ao seu livro Poemas Amazônicos, de inspiração nativista e vazado em versos livres, que ficaria como uma das primeiras manifestações do Modernismo no Amazonas. Essa obra fora publicada em 1927 e só seria reeditada quarenta anos depois. Por aqueles idos de 1948, Almino Affonso estudava em Manaus e passava as férias escolares de fim de ano em Porto Velho, com os pais, subindo o Madeira nos antigos "Gaiolas" ou "Chatinhas", que escalavam nas cidades de Borba, Manicoré, Humaitá e, finalmente, Porto Velho, daí retornando a Manaus.

Essas viagens, embora com vários dias de duração, nunca se tornavam monótonas ou cansativas, dada a alegria dos estudantes que partiam em férias. Coincidiu de viajarmos no mesmo navio, em 1948. Eu ficava em Borba, onde meu pai era Juiz de Direito, e Almino Affonso prosseguia viagem, por mais alguns dias, pelo belo e amarelo Madeira.

E a Academia? É preciso saber-se distinguir bem entre o que é permanente e o que é episódico. De modo geral, as academias de letras estaduais, como instituições permanentes que são, merecem ser contempladas com respeito e admiração, pelos serviços de alta benemerência que prestam à sociedade e à cultura, notadamente com relação à permanência em alta dos padrões da nossa língua. (SEGUE)

segunda-feira, março 07, 2016

EDUCAÇÃO NO AMAZONAS: NOTAS (2)

Terceira parte do trabalho produzido sobre a Educação no Estado, elaborado pelo acadêmico João Crisóstomo de Oliveira, e publicado como folheto, em 1981, sob os auspícios do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA).

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Quando despertou o ano de 1888, já existiam no Amazonas, oito professores diplomados, sendo cinco pelo Colégio Brasileiro e três pela Escola Normal.
Muita gente que ainda vive em Manaus (setembro de 1961), passou pelas aulas das saudosas professoras Maria Telles Monteiro e Elvira Corrêa de Miranda Lima, ambas saídas daquele colégio. Serviram, com dedicação e competência, o magistério público da Capital, até sua jubilação.

O Colégio Brasileiro pouco sobreviveu ao falecimento de sua fundadora e diretora Dona Carolina Ribeiro, a 29 de abril de 1889.
Uma das fontes de cultura do Amazonas está, sem dúvida, na sua Biblioteca Pública, que foi criada em consequência da Lei nº 582, de 27 de maio de 1882, instalada no Consistório (lado oriental) da Igreja Matriz, em Manaus. Anualmente, de quando em quando o orçamento da Província dava-lhe uma pequena verba para aquisição de livros, expediente e pessoal.

Por iniciativa do presidente Jose Paranaguá, que governou o Amazonas de 17 de março de 1882 a 16 de fevereiro de 1884, a Biblioteca foi enriquecida de obras numerosas e escolhidas, em Paris, por incumbência dada, ali, ao insigne patrício nosso, Dr. Benjamin Franklin de Ramiz Galvão (mais tarde, barão de Ramiz Galvão), sob a responsabilidade da Delegacia do Tesouro Nacional, em Londres. (Para maior esclarecimento, consulte-se o precioso livro de Genesino Braga, Nascença e Vivência da Biblioteca do Amazonas. Manaus: 1958).
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"Por ato de 4 de março de 1884, do vice-presidente em exercício, coronel Guilherme José Moreira, foi nomeado o bacharel Manoel Francisco Machado para o cargo de Diretor-Geral da Instrução Pública, o qual em consequência de ter sido aposentado o respectivo diretor Agostinho Benjamin de Souza, estava sendo ocupado pelo diretor da Escola Normal Dr. Jonatas de Freitas Pedrosa". (J. B. p. 172).
* * *
Ainda mais uma reforma do ensino público, ao ensejo da administração do presidente Dr. Teodoreto Souto, empreendida a 19 de julho de 1884, pela qual o serviço de ensino ficara dividido em cinco categorias, sendo uma delas o do ensino da Escola Normal. E dizia: "... O ensino normal ficará anexo ao Liceu, compreendendo as matérias especificadas no regimento citado" (J. B. p. 188).
* * *
Nova reforma em 10 de junho de 1885, pelo presidente Ernesto Adolfo de Vasconcelos Chaves, da qual não escapou a Escola Normal cujo curso continuou feito em três anos, mas ainda anexo ao Liceu, todavia emancipado daquele, por um certo número de cadeiras. Na reforma, entendeu-se melhorar a distribuição das cadeiras do currículo. Diga-se, de passagem, que Ernesto Chaves foi um dos espíritos mais brilhantes e dinâmicos que administraram a província do Amazonas.
* * *
"As primeiras conferências pedagógicas feitas em Manaus, foram realizadas pelo grande educador brasileiro Hilário Ribeiro. A primeira, sobre o seu método de ensino, foi efetuada às 8 horas da manhã, de 23 de julho de 1886, no prédio da escola S. Vicente. O ilustre professor fez mais duas conferências". (J. B. p. 203).
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Parecia um prazer, se não uma preocupação, reformar as reformas. Deste modo, o Pe. Raimundo Amâncio de Miranda, vice-presidente (em exercício de 2 a 12 de julho de 1888), apenas estando 10 dias no governo, alterou a duração do curso normal, que era feito em três anos, passou para quatro, importando o fato em nova distribuição das cadeiras e jogo de matérias.

O Liceu Amazonense recebeu outro nome: Curso do Liceu Amazonense.

A Escola Normal ainda não ficara sossegada, pois em 12 de outubro de 1888, por lei promulgada pela Assembleia Provincial, foi-lhe extinto o lugar de professor de Religião. E, ainda, pela Lei nº 813, de 19 de julho de 1889, o presidente fora autorizado a reorganizar a Instrução Pública, e mandar adotar o Regulamento nº 17, de 28 de março de 1883, para evitar que houvesse duas cadeiras da mesma disciplina, nos dois cursos conjuntos Liceu e Escola Normal. Questão de economia.

Era diretor da Escola Normal o Prof. Francisco Antônio Monteiro, que, em relatório ao presidente Manoel Francisco Machado fizera-lhe ver que o Liceu e a Escola careciam de material didático. Em vista do precário estado das finanças da Província, o presidente deixou de atender ã solicitação, "cuja necessidade reconhecia, recomendando apenas a atenção da Assembleia o curso de Pedagogia em que eram necessários os objetos pedidos porque tratava-se de introduzir o ensino intuitivo na massa dos professores que desconheciam completamente e cuja aplicação produziu a superioridade dos americanos, como povo observador". (J. B. p. 213).
* * *
No ano de 1889, quando o regime do Império já tinha seus dias contados, era este o quadro docente da Escola Normal:
1 - Cadeira de Português - Dr. Augusto Lins M. de Vasconcelos;
2 - Idem de Francês - Manoel de Miranda Leão;
3 - Idem de Geografia - Dr. Domingos Teófilo de Carvalho Leal;
4 - Idem de Aritmética e Geometria - Carlos Pereira de Pinho;
5 - Idem de Desenho - Dr. Lauro Batista Bittencourt;
6 - Idem de Pedagogia - Dr. José Mateus de Aguiar Cardoso;
7 - Idem de Ciências Físicas e Naturais - Farmaceutico Francisco Antônio Monteiro;
8 - Idem de Música - Maestro Adelelmo Francisco do Nascimento;
9 - Idem de Caligrafia - Carlos da Silva Pereira;
10 - Idem de Prendas Domésticas - Maria Lira de Amorim Antony.

O novo regime político implantado, no País, a 15 de novembro de 1889, ensejou mais largos horizontes ao progresso da Província, pela descentralização dos seus poderes administrativos mais diretos no uso da autonomia regional.
Outras reformas do ensino seriam inevitáveis.

O Governo Provisório da República, como toda gente sabe, nomeou o capitão Augusto Ximeno de Villeroy para o cargo de governador do Estado do Amazonas. Foi um dos seus primeiros atos o Decreto nº 15, de 17 de janeiro de 1890, extinguindo o Liceu Amazonense, que vinha prestando ótimos serviços à mocidade. Em seu lugar, criou o Instituto Normal Superior, cujo fim principal, não era formar bacharéis em ciências e letras, mas futuros e mais hábeis "professores primários", em um curso de quatro anos. Não demorou intangível o plano Villeroy, pois veio logo a sofrer apreciáveis modificações que não valem ser especificadas nestas simples notas, currente calamo, sabre a evolução do ensino secundário e normal do Amazonas.
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O Instituto Normal Superior ia desaparecer. Certo foi o que aconteceu, pelo menos o seu nome, sob o governo de Eduardo Gonçalves Ribeiro (o Pensador), pelo Decreto nº 34, de 13 de outubro de 1893, que criou o Ginásio Amazonense ao que se anexou o Curso Normal, composto das mesmas disciplinas do seu irmão xifópago, com o excedente de duas cadeiras especiais: Pedagogia e Prendas Domésticas.
* * *

O Decreto nº 448, de 25 de setembro de 1900, desanexou do Ginásio o Curso Normal, com a denominação de Escola Normal do Amazonas. A nova entidade do ensino profissional, já autônoma, no sentido pedagógico, não se retirou do edifício do Ginásio. Apenas mudou de salões. E já foi uma conquista da sua própria evolução. (continua)