CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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terça-feira, agosto 11, 2026

VIAGEM NO TEMPO (2)

     Segundo capítulo da saga transamazônica de Renato e Alda, narrada pelo próprio.

18.07.2026

 

Mercado Adolpho Lisboa

 No sábado, dia 27, parti para um reencontro íntimo, acompanhado pela presença constante da Alda e pela dedicação generosa de meu irmão Roberto. O destino era o Educandos — o bairro que acolheu os primeiros passos da família Mendonça, berço da nossa primeira geração. Ao chegar, senti-me tomado por uma gratidão: era como se os céus me concedessem a dádiva de revisitar uma parte essencial da minha própria história.

A casa onde nasci, agora em ruínas, parecia guardar uma atmosfera sombria, mas não hostil. Havia nela um olhar invisível, quase alegre, como se quisesse me parabenizar pela visita inesperada. Não era mera fantasia, mas um diálogo íntimo: a casa me dizia, em sua linguagem de paredes desgastadas, que havia cumprido sua missão de me acolher em um momento decisivo — o sopro da vida.

Casa onde nasci - rua Inácio Guimarães- Educandos

Ainda envolto pela nostalgia, caminhei até o Beco São José. Ali, meus pés haviam aprendido a andar, guiados pela ternura firme de minha avó. Foi uma infância colorida, marcada por descobertas simples e afetos profundos. Mas o beco também guardava uma sombra: foi ali que minha mãe se despediu prematuramente da vida. A lembrança trouxe um pesar discreto, como uma brisa fria que não se vê, mas se sente.

A casa que encontrei já não era a mesma. Restava apenas o espaço, a locação, como um corpo sem espírito. Olhei para ela com estranheza, como quem cruza com alguém desconhecido na rua — sem reconhecer  nenhum vínculo. E nesse instante compreendi que os lugares também mudam, que a memória é o que lhes dá vida. O Educandos, mais do que um bairro, é um espelho daquilo que fomos e daquilo que ainda carregamos dentro de nós — enquanto a mente não nos trair.

Beco São José, 28


Após o momento nostálgico, fomos ao encontro do Mercado Adolpho Lisboa, joia centenária erguida no primeiro ciclo da borracha. Entre suas paredes históricas, encontramos também o afeto de meu irmão Roberto e sua mulher, Beatris. Saboreamos guloseimas e um almoço que parecia celebração da própria Amazônia: pirarucu e tambaqui, farinha do Uarini e a ardência da pimenta murupi. Ingredientes de nomes indígenas, tão comuns na região norte, mas que carregam em si a memória de povos primitivos e sabores ancestrais de nossos pais e avós. À frente de nossa mesa, uma placa singela traduzia uma filosofia popular com humor certeiro: “melhor tomar cerveja do que tomar conta da vida alheia”.

Almoço no Adolpho Lisboa, Roberto, Beatris,
Alda e Renato (da esq.)


À tarde, em vez da sesta, seguimos até a praça São Sebastião, diante do majestoso Teatro Amazonas — símbolo máximo da pujança da era da borracha, no início do século XX. O espaço pulsava com a energia dos “torcedores organizados”, que acompanhavam em telões os desfiles dos bois Caprichoso e Garantido, que se apresentavam em Parintins. Estranhei, a princípio, aquela febre de entusiasmo, tão semelhante às paixões futebolísticas. Mas, logo percebi o paralelo com o Rio de Janeiro, onde multidões se entregam às escolas de samba. Era o mesmo fervor coletivo, traduzido em cores, ritmos e símbolos — uma celebração lúdica da identidade cultural do nosso país.

Roberto, ainda disposto, conduziu-nos ao Morro da Liberdade — bairro onde crescemos e onde repousa a maior parte das lembranças da adolescência. Ali, a prima Marta, mesmo adoentada, nos recebeu com um carinho peculiar, como se o tempo não tivesse passado. O número 29 da Rua Amazonas, ao lado de sua casa, devolveu-nos ao êxtase das recordações: tantas peripécias vividas, tantas histórias que se reanimavam diante de nossos olhos. Foi uma pequena viagem no tempo, um esforço para catalogar e restaurar na memória os melhores anos da juventude.

Munidos de uma informação e sugestão da vizinha, saindo dali, seguimos até o porto dos barcos, atrás do Mercado Adolpho Lisboa, para agendar o chamado “passeio do índio”. Esse programa parecia atender aos desejos que já se insinuavam durante o voo, ainda sem plano definido. Cogitou-se realizá-lo no dia 29 de junho, como presente de aniversário — bastaria apenas inscrevê-lo no script de Deus.

À noite, conforme o combinado com meu irmão José Manoel, seguimos para prestigiar o “arraial” da Tia Francisca — viúva do tio Beca, vitimado pela Covid há cinco anos. Imaginávamos uma confraria simples, vizinhos reunidos na rua, cada qual expondo suas iguarias juninas para serem adquiridas. Nossas intuições foram surpreendidas: numa rua adjacente, bandeirinhas coloridas cruzavam o céu, penduradas de um lado a outro, como se anunciassem uma festa maior do que nossas expectativas, mas não havia barracas.

Procuramos pelo número 35 da Rua Sagitário, sem sucesso. Foi então que uma senhora, ao sair de casa com uma garotinha de dois anos, nos socorreu. A criança, ao me ver, estendeu os braços pedindo colo, e seu sorriso delicado me conquistou. Atendi de imediato, tomado por uma ternura inesperada. A avó, Dona Nice, solícita, ofereceu-se para nos conduzir até o endereço. Caminhamos devagar, conversando, enquanto a garotinha se aninhava em mim, como se já me conhecesse.

Ao chegarmos à casa da Tia Francisca, a pequenina não queria mais largar meu colo. Chorou ao ser devolvida à avó, como se resistisse a romper aquele vínculo súbito. A cena me tocou profundamente: percebi que meu aniversário parecia abrir minha alma para afinidades surpreendentes, presentes inusitados que se revelavam em gestos simples e inesperados como desses pequenos anjos da vida.

Descobrimos, então, que a festa junina se realizaria na sala da casa de Tia Francisca, já adornada e pronta para receber os convocados. Aos poucos, os convidados iam chegando, trazendo novas iguarias que, juntas, compunham uma mesa farta e colorida, verdadeira celebração dos sabores juninos. Por instantes, sentimos o constrangimento de não termos contribuído financeiramente; mas logo o calor humano dissolveu qualquer incômodo. A prima Rosa, com sua afabilidade de anfitriã, nos recebeu em hospitalidade generosa, deixando-nos à vontade, sem peso na consciência, como se nossa alegria compartilhada fosse, por si só, a maior contribuição

Para animar a noite, organizaram um bingo, com diversas prendas distribuídas aos ganhadores. Recebemos as cartelas, mas Alda, prudente, me alertou: seria melhor nos esforçarmos para não vencer — ganhar sem ter contribuído seria antiético duplamente. Entre risos, conversas e o suspense dos números sorteados, a festa se desenrolou com alegria simples e genuína. Meu irmão José Manoel e sua mulher Marília finalmente apareceram, justificando o atraso por compromisso religioso. A recepção e a hospitalidade dos familiares do bairro da Betânia foram espetaculares, deixando em nós a sensação de pertencimento e de reencontro com raízes afetivas.

sábado, agosto 08, 2026

VIAGEM NO TEMPO (1)

A série que hoje se inicia é de autoria do meu irmão Renato Mendonça, que sempre colabora com este Blog. Mês passado, ele veio a Manaus para, entre outros afazeres, celebrar seus 75 anos de idade; nascido na rua Inácio Guimarães, em Educandos, reside no Rio faz uma longa temporada. Estava acompanhado da esposa Alda (foto). Bom, deixo que ele conte a saga empreendida no retorno ao Rio.

 

Expectativa Emocionante

18.07.2026

Quando me convidaram a celebrar o meu aniversário de 75 anos em minha terra natal, hesitei. Considerei um capricho deslocado, uma extravagância sem sentido. Afinal, o aconchego familiar, tão essencial em datas assim, não estaria à minha espera. Era um momento diferente de quase todos os anos passados. O “quase” se justifica porque, algumas vezes, fiquei ausente para cumprir a demanda de trabalho.

Mas, minha intuição se equivocou. Como quem calça o sapatinho de cristal em pés descrentes de uma cinderela, o destino me levou ao baile. A viagem tornou-se fábula: reconciliação numa viagem no tempo, reencontro com memórias que eu nem sabia como guardar. Era como se o relógio tivesse voltado, mas em vez de me aprisionar, me libertava para viver o que ainda não havia sido vivido.

Partimos do Rio ainda na madrugada do dia 26 de junho, sexta-feira, quando os primeiros raios de sol tingiam o céu azul pálido, observados a partir da Linha Vermelha quase silenciosa, como se guardasse um segredo. O Santos Dumont, com seu vai e vem de pessoas, parecia indiferente ao meu coração ansioso. A aeronave da Azul nos levou primeiro a Belo Horizonte, uma pausa programada, como quem respira antes de mergulhar novamente em outra aventura — o voo 4066 — para nos levar ao destino.

E então, rumo a Manaus, o corpo seguia preso ao assento, mas o pensamento já se adiantava: imaginava rever os irmãos e os parentes remanescentes que ainda moram lá; apresentar para minha companheira, Alda, o encontro das águas; um passeio, talvez, para ver o verde infinito da floresta e sentir o calor tropical que nos abraça sem pedir licença — o verão amazônico, típico daquela estação. Cada minuto no ar era como um prelúdio, uma nota que anunciava a aventura amazônica que estava por vir.

Ao pousar às 11h, estranhei apenas a ausência da conferência de bagagem por funcionários do aeroporto internacional Eduardo Gomes — detalhe burocrático que, por um descuido, poderia ameaçar a leveza da jornada. Mas, logo percebi que nada roubaria o encanto de estar novamente ali — quarenta anos depois —, no coração pulsante da Amazônia, onde os rios e a cidade se entrelaçam, e convivem como velhos amantes.

Para nossa comoção, no dia anterior à nossa chegada, a terra tremeu com fúria na Venezuela: um terremoto de magnitude 7,4 espalhou destruição material e baixas humanas. A notícia atravessou fronteiras e, em Manaus, meu irmão Roberto me contou pelo WhatsApp que até ali, em seu apartamento, sentira um leve estremecimento. E foi ele, junto de sua mulher Beatris, quem nos aguardava no aeroporto, com uma solicitude que me tocou profundamente. Conduziu-nos, como quem cumpre um ritual de acolhimento, ao Amazônia Tower Hotel, erguido no coração da cidade, na Avenida Getúlio Vargas.

Naquela mesma tarde, eu e a Alda saímos a pé, em busca de redescobrir a cidade. Mas o que encontrei foi um cenário de abandono pelo poder público municipal: ruas marcadas pelo descuido, lixo espalhado, ausência de lixeiras, e a miséria exposta em cada esquina — famílias inteiras, crianças de colo, transformando as calçadas em palco de um caos social.

Colégio Estadual do Amazonas — Av. Sete de Setembro


O Colégio Estadual do Amazonas, outrora Gimnásio Amazonense Pedro II, erguia-se imponente, mas soturno. O prédio do século XIX, fechado, aguarda reformas. Mais doloroso, porém, é saber que desde o ano letivo anterior não há aulas. O edifício de 150 anos parecia um ancião esquecido, cedendo à intempérie do tempo, testemunha muda de uma história que se desfaz.

Do lado de fora, contemplei a sala de aula onde, há sessenta anos, vivi os melhores ritos da juventude. Era dali que ficava observando as meninas que, no pátio da quadra de esportes, exercitavam educação física, para cumprir a grade curricular. Era como se o tempo tivesse congelado as imagens que a memória soube preservar. Permaneci algum tempo olhando aquela imagem e recolhendo fotos com o celular, não como turista nativo, mas como fotógrafo de lembranças, em busca do ângulo que melhor pudesse eternizar os cinco anos de estudo ali naquele educandário, até concluir o Curso Científico. 

Colégio Estadual do Amazonas — vista lateral.

Uma pesquisa rápida revelou a situação atual do colégio. Descobri que, sob o governo de Wilson Lima — natural de Santarém do Pará e alinhado ao bolsonarismo —, a educação não figurava como prioridade. A ausência de empatia durante a pandemia de Covid-19 parecia ecoar também no descaso com instituições históricas. Também o prefeito, do mesmo viés político do governador, não se preocupa com as mazelas da sociedade. É doloroso perceber que perfis assim ainda conseguem seduzir parcelas da sociedade, sustentados pelo analfabetismo político.

Resta-me a esperança de que o próximo governador tenha sensibilidade para restaurar o nosso CEA, esse relicário de memória coletiva, marcado pelas digitais de gerações inteiras: alunos, professores, bedéis, todos guardados nas paredes centenárias como testemunhas silenciosas de um tempo que não volta. (segue)

segunda-feira, abril 20, 2026

MEUS OITENTANOS (2)

No início dos anos 1950, a travessia entre Manaus e a então Capital Federal, Rio de Janeiro, era uma epopeia de vinte a trinta dias. Aos três anos, o convés imenso do navio Almirante Alexandrino se abria diante de mim como um parque encantado, cheio de redes penduradas, embora sempre vigiado pelo olhar atento de Luzia, nossa babá, já que minha mãe, Francisca, dedicava seus cuidados ao meu irmão mais novo, auxiliada pela sogra, a vovó Victoria. O espaço físico era vasto, mas o que se gravou em minha memória foi o aroma da comida — tão diferente do que se servia em nossa casa — e o espetáculo dos portos em construção no Nordeste. Em alguns trechos, animais marinhos escoltavam o navio, como se fossem guardiões de Netuno, atraídos pelos restos de alimento lançados ao mar.

Foto da família informando 
a viagem ao Rio - 1950 -
Roberto, em pé, diante do genitor

A longa jornada trouxe também o inesperado: Luzia encontrou no navio o seu par. O namoro com um tripulante floresceu durante a viagem e, ao desembarcar, se transformaria em compromisso de casamento. Resolveram fixar residência na então Capital Federal. Porém, deduzo que esse relacionamento contribuiu para melhorar a situação de acomodação da família na embarcação, pois viajávamos em terceira classe.

Em meados de abril de 1950, finalmente desembarcamos. O tio Francisco, irmão de meu pai, nos acolheu em Irajá, num puxadinho contíguo à sua casa na rua Cláudio da Costa. Mas o modelo e a estrutura familiar ali encontrados pouco favoreceram nossa convivência; ao contrário, trouxeram desencontros, como relato em meu livro Entre Duas Viagens, escrito em 2016, para prestar homenagem póstuma ao centenário de meu pai, Manuel “peruano”.

O bairro de Irajá, com suas ruas sem asfalto e esgoto a céu aberto, parecia um “fim de mundo”. O escritor amazonense Hilton Rego descreveu bem essa precariedade em seu livro, Com a Cara e a Coragem: os bondes e lotações circulando, o Maria-Fumaça arrastando-se pela avenida Automóvel Clube, enquanto meninos jogavam bola entre os trilhos. Essas imagens resgatam a memória da inospitalidade que vivemos: a casa improvisada, a ausência de escola, a rotina extenuante de meu pai, que trabalhava nos arredores do Maracanã sem jamais ter tempo de entrar em seu interior.

Cartão Postal do Maracanã - 1950

Em janeiro do ano seguinte, retornamos acompanhados, como na vinda, da avó paterna Victoria Malafaya, de quem o filho era extremamente apegado. Por coincidência, foi no mesmo navio, mas sem Luzia. Na caravana, embarcava uma nova vida: a gestação de Dona Francisca. Voltamos ao bairro dos Educandos, à rua Inácio Guimarães, novamente na esquina com o beco São José, em uma casa de madeira com a frente reservada para uma taberna. Ali, assistimos à construção do Cine Vitória, inaugurado apenas em 1954. Nesse contexto de readaptação nasceu Pedro Renato, batizado pelo santo do dia, São Pedro, em junho de 1951.

Até hoje não sei dizer como a sombra de uma enfermidade tão grave se abateu sobre minha mãe. Apenas guardo na memória sua convalescença, os dias em que a acompanhei ao paraná do Cambixe, no distrito do Careiro — seu berço de nascimento —, onde parentes a acolheram como quem recolhe uma ave ferida. Era uma busca por ar mais puro, remédios fitoterápicos e uma esperança de que o alento da floresta pudesse devolver-lhe o vigor. Para mim, porém, aqueles deslocamentos eram também ensejos para travessuras de infância: corria com os primos pelos quintais das casas suspensas em pilotis, como se fossem píeres habitados à espera da cheia do Solimões.

No nosso bairro, o esteio que sustentava nossa família vinha da solidariedade da tia Raimunda e, em especial, de suas filhas, já quase moças. Meu pai, responsável e firme, dedicava-se ao labor diário, arrancando do seu emprego o “pão nosso de cada dia”.

O ano de 1952 trouxe consigo o agravamento da doença de minha mãe. Entre desvios e incertezas, creio ter iniciado o curso primário, embora a lembrança da primeira escola tenha se dissolvido com o tempo. Restam, contudo, três cenários que ainda se iluminam em minha memória: o Grupo Escolar Machado de Assis, público e resistente — perdura até os dias de hoje —, na rua Amâncio de Miranda; a Escola Paroquial do cônego Antônio Plácido, destinada aos meninos e regida pelo zelo do vigário; e a Escola Particular da dona Ester, discreta e determinada, instalada em sua própria casa na avenida Leopoldo Peres. Cada uma dessas instituições foi como um pequeno aporte para um grande projeto pedagógico que me habilitou, em 1956, ao internato do Seminário São José.

A última lembrança que guardo de minha mãe é a de um corpo exausto, franzino, suspenso na fragilidade de uma rede, como se o próprio tecido fosse o divisor entre a vida frágil e o chão que iria recebê-la. O ar lhe faltava, e ao redor, parentes e vizinhos cumpriam o ritual antigo de “fazer quarto”, velando em silêncio a despedida iminente. Era início da noite de 17 de julho, e eu, menino de seis anos, fui conduzido até ela. Segurei sua mão macilenta, fria como a bruma da madrugada, e beijei-a, pedindo sua bênção. Mas sua voz já não alcançava o sopro divino: o “Deus te abençoe” ficou suspenso no vazio, como uma prece interrompida.

Naquela idade, não havia espaço para compreender a gravidade da doença, nem a dimensão da perda. A morte era apenas um enigma, uma ausência que se instalava sem explicação, inexoravelmente. Por décadas, carreguei esse silêncio, sem buscar respostas, até que, já adulto, censurei minha própria consciência: por que nunca procurei no cartório a certidão de óbito de minha mãe? Talvez porque, em mim, a ferida sempre foi maior do que qualquer documento poderia traduzir. Nem poderia trazê-la de volta. (segue)

 

sexta-feira, fevereiro 19, 2021

RELEMBRANDO A INFÂNCIA

 A crônica abaixo pertence ao Renato (meu irmão), que me enviou antes de minha viagem, viagem que saiu de controle devido a Covid-19. Agora, de regresso, tentando retomar as postagens deste Blog, vou reproduzir o trabalho dele, que nos remete (a mim e ele) ao bairro de Educandos, ao cine Vitória, ao beco São José e ao assovio do seu Manuel (pai da dupla), com o qual nos lembrava o retorno à casa. E aí de quem não atendesse ao “convite” do velho...

As fotos mostram a situação atual do beco, com asfalto sobre o chão de terra que conhecemos, propiciava o jogo de bola, de pião e de bolinha etc.

Este prédio encontra-se no cruzamento do
beco São José com a rua Inacio Guimarães


Cine Vitória, após encerramento de sua atibidades
 

INFÂNCIA COLORIDA

Renato Mendonça

Sou do tempo dos filmes em preto e branco. Os coloridos apareceram depois, na década de 1960. Se bem que, hoje em dia, por opção da indústria cinematográfica, ou particularmente do diretor, ainda se vê filme contemporâneo preto e branco. Porém, minha infância foi pintada em cores. Cores vivas. Fortes, resistentes, como aquelas que não descolorem nem sofrem com a ação da intempérie. Não desbotam.

Resgato com saudades, lembranças do Cine Vitória e do beco São José. As brincadeiras de criança influenciadas pelos filmes de bangue-bangue. Os heróis hollywoodianos inspiravam nosso comportamento, apesar dos poucos que podíamos vê-los em cena, cerceados pela censura etária ou pela falta de grana mesmo. No entanto, eles estavam nos pôsteres à porta do cinema. Pomposos, com roupa estilosa, bem ajustada ao corpo, lenço no pescoço e chapéu, empunhando o revólver, montado  em um cavalo branco ou num alazão reluzente, compondo um figurino exuberante. O cavalo era como uma extensão do herói, e nos causava também admiração e apreço.

Inspirado nessas lendas vivas, fabricávamos nossos revólveres de brinquedo, toscos, para brincar de “camone”. E qual a razão da origem desse nome? Era o resultado do que entendíamos do áudio dos filmes americanos, ouvido do lado de fora do muro, quando o mocinho interpelava o vilão: “come on, boy”. Para simular um cavalo, qualquer cabo de vassoura ou uma vara lisa e reta servia. Não haviam regras definidas para jogar esse jogo lúdico. Cada um se escondia, e o primeiro que avistasse o outro, anunciava: camone! Quanta inocência nas nossas brincadeiras!

Hoje, os tempos são outros, as crianças não mais se interessaram para brincar assim. Os brinquedos eletrônicos, os vídeos games, os entretenimentos preguiçosos, trouxeram as crianças para dentro de casa, aprisionando-as em quartos cada vez mais apertados. As crianças, muito precocemente, deixam de ser crianças. Encolheram em suas criatividades, e as deixaram sem histórias para contar.

Nas grandes cidades, não há mais espaço para quintais. Terrenos baldios, que serviam como cenário, estão de desaparecendo para atender a demanda demográfica. A população dispõe de cada vez menos espaço físico. Hoje essas cenas ficam apenas na memória dos antigos, dos antigos sem Alzheimer, e talvez nunca se repitam mais.

Fecho os olhos e volto a ver: Camone! Camone aí! Eu vi primeiro! Mãos ao alto!

Naquele tempo, os meninos daquele pedaço de chão  tentaram inventar um neologismo, mas não vingou. Mas, ficou caubói, uma forma aportuguesada de “cowboy" (vaqueiro, em inglês).  

Os heróis modernos são super-humanos, robotizados, não passam sufoco iguais aos mocinho de antigamente, não correm perigo, e a vida deles nunca fica por um fio; tem superpoderes, não habilidades. São cada vez menos humanos e longe de serem imitados.

quarta-feira, dezembro 19, 2018

INCÊNDIO EM EDUCANDOS (1)



Antes era Constantinópolis, agora Educandos, o bairro cercado pelo rio Negro e por igarapés. Essa proximidade complica a urbanização e facilita a construção de barracos de madeira e de outros materiais de fácil combustão, no espaço. Isso facilita a propagação do fogo, tornando um incêndio no local de grandes proporções.

Rescaldo, compartilhado do Portal do Marcos Santos


Foi o que aconteceu anteontem 17, no início da noite, quando o fogaréu tomou conta daquele território. Chamado os Bombeiros, estes tiveram as dificuldades dobradas seja pela ausência de hidrantes no bairro, seja pelos becos e sub becos estreitos impedindo a circulação das viaturas de salvamento ou de socorro de urgência. Restou, pois, aos ameaçados pelas chamas retirar algum móvel e entrega-lo à confiança de um vizinho.

Estava escrevendo este texto quando o Jornal Nacional (JN) registrou esta calamidade, ao vê-lo a emoção me apequenou. Tomou conta de mim. A cena final (um cidadão desolado, com o enfeite natalino chamuscado nas mãos, sem dizer palavras) foi mortífera.

Afinal, eu nasci na rua Inácio Guimarães. A irmã que ainda mora no final do beco São José (hoje rua Mar de Java) desesperou-se, convocou-me, fui ao local. No entanto, somente consegui chegar junto a ela quando as forças de salvamento já haviam controlado o incêndio. Para nossa felicidade, estava ela sã e salva. Curiosidade: na semana anterior, estive na casa dela, quando fiz a foto que ilustra esta postagem, ocasião em que conversamos sobre uma possível tragédia. Vê-se na foto que as residências desaparecidas estão suspensas por arranjos de madeira tão singelos, desengonçados, a desafiar imensos perigos. Sá podiam desaparecer, e com extrema facilidade.
Beco do beco
São José

Não há como culpar os homens do fogo pelo número de desabrigados. O fundamento encontra-se no embaraço em operar naquele entrançado de vielas, de casas sobre casas, de residências coletivas, de veículos estacionados, enfim, na desordem urbanística que vige naquele trecho, e em outros tantos de Manaus. O último desastre semelhante aconteceu no Bariri, aquele amontoado de casebres à beira de um igarapé, na entrada do bairro de São Jorge.

O quadro do JN me relembrou o livro que escrevi sobre os Bombeiros do Amazonas (2013). Voltei a este para rememorar um incêndio idêntico que aconteceu no mesmo bairro há mais de 70 anos, mais precisamente em setembro de 1945. Nele escrevi: de fato, 1945 se destacou pela violência dos incêndios. A cidade ainda não se recuperara do desastre da Biblioteca Pública, quando, em setembro, as paupérrimas edificações situadas nas ruas Panair (agora coronel Paes Barreto) e Coronel Gonzaga, no bairro de Constantinópolis, hoje de Educandos, foram pulverizadas. O relato pertence ao matutino dos Archer Pinto, com "chamada" bem esclarecedora da adversidade: O pavoroso incêndio de Constantinópolis.

Recorte de O Jornal, 30 setembro 1945

“Quadro dantesco, de dor e desespero, presenciou a nossa reportagem, durante o dia de ontem, no largo trecho do bairro de Constantinópolis, assolado às últimas horas da manhã, por terrível incêndio, que se iniciou no longo arruado de casas de palha, na estrada, passando-se, depois, num salto espetacular de morte e destruição, para a rua Vista Alegre, perpendicular ao seu ponto de origem, onde se verificou, igualmente, uma destruição monstruosa de moradias de pobres trabalhadores, sendo atingidos também pequenas casas de negócios ali estabelecidas.”

Uma das casas de negócios, a Casa Suburbana, de Luís e Helena Carvalho, sofreu o desastre. A família se recuperou, transferindo depois o estabelecimento para a avenida Leopoldo Peres. Outro detalhe: as dependências da Fábrica Labor, de I.B. Sabbá, foram postas à disposição dos desabrigados. No atual desastre, o supermercado Atacadão, sucedâneo no terreno da Labor, igualmente colaborou. (leia a 2ª parte)