A série que hoje se inicia é de autoria do meu irmão Renato Mendonça, que sempre colabora com este Blog. Mês passado, ele veio a Manaus para, entre outros afazeres, celebrar seus 75 anos de idade; nascido na rua Inácio Guimarães, em Educandos, reside no Rio faz uma longa temporada. Estava acompanhado da esposa Alda (foto). Bom, deixo que ele conte a saga empreendida no retorno ao Rio.
Expectativa Emocionante
18.07.2026
Quando me convidaram a celebrar o meu aniversário de 75 anos em minha terra natal, hesitei. Considerei um capricho deslocado, uma extravagância sem sentido. Afinal, o aconchego familiar, tão essencial em datas assim, não estaria à minha espera. Era um momento diferente de quase todos os anos passados. O “quase” se justifica porque, algumas vezes, fiquei ausente para cumprir a demanda de trabalho.
Mas, minha intuição se equivocou. Como quem calça o sapatinho de cristal em pés descrentes de uma cinderela, o destino me levou ao baile. A viagem tornou-se fábula: reconciliação numa viagem no tempo, reencontro com memórias que eu nem sabia como guardar. Era como se o relógio tivesse voltado, mas em vez de me aprisionar, me libertava para viver o que ainda não havia sido vivido.
Partimos do Rio ainda na madrugada do dia 26 de junho, sexta-feira, quando os primeiros raios de sol tingiam o céu azul pálido, observados a partir da Linha Vermelha quase silenciosa, como se guardasse um segredo. O Santos Dumont, com seu vai e vem de pessoas, parecia indiferente ao meu coração ansioso. A aeronave da Azul nos levou primeiro a Belo Horizonte, uma pausa programada, como quem respira antes de mergulhar novamente em outra aventura — o voo 4066 — para nos levar ao destino.
E então, rumo a Manaus, o corpo seguia preso ao assento, mas o pensamento já se adiantava: imaginava rever os irmãos e os parentes remanescentes que ainda moram lá; apresentar para minha companheira, Alda, o encontro das águas; um passeio, talvez, para ver o verde infinito da floresta e sentir o calor tropical que nos abraça sem pedir licença — o verão amazônico, típico daquela estação. Cada minuto no ar era como um prelúdio, uma nota que anunciava a aventura amazônica que estava por vir.
Ao pousar às 11h, estranhei apenas a ausência da conferência de bagagem por funcionários do aeroporto internacional Eduardo Gomes — detalhe burocrático que, por um descuido, poderia ameaçar a leveza da jornada. Mas, logo percebi que nada roubaria o encanto de estar novamente ali — quarenta anos depois —, no coração pulsante da Amazônia, onde os rios e a cidade se entrelaçam, e convivem como velhos amantes.
Para nossa comoção, no dia anterior à nossa chegada, a terra tremeu com fúria na Venezuela: um terremoto de magnitude 7,4 espalhou destruição material e baixas humanas. A notícia atravessou fronteiras e, em Manaus, meu irmão Roberto me contou pelo WhatsApp que até ali, em seu apartamento, sentira um leve estremecimento. E foi ele, junto de sua mulher Beatris, quem nos aguardava no aeroporto, com uma solicitude que me tocou profundamente. Conduziu-nos, como quem cumpre um ritual de acolhimento, ao Amazônia Tower Hotel, erguido no coração da cidade, na Avenida Getúlio Vargas.
Naquela mesma tarde, eu e a Alda saímos a pé, em busca de redescobrir a cidade. Mas o que encontrei foi um cenário de abandono pelo poder público municipal: ruas marcadas pelo descuido, lixo espalhado, ausência de lixeiras, e a miséria exposta em cada esquina — famílias inteiras, crianças de colo, transformando as calçadas em palco de um caos social.
Colégio Estadual do Amazonas — Av. Sete de Setembro
O Colégio Estadual do Amazonas, outrora Gimnásio Amazonense Pedro II, erguia-se imponente, mas soturno. O prédio do século XIX, fechado, aguarda reformas. Mais doloroso, porém, é saber que desde o ano letivo anterior não há aulas. O edifício de 150 anos parecia um ancião esquecido, cedendo à intempérie do tempo, testemunha muda de uma história que se desfaz.Do lado de fora, contemplei a sala de aula onde, há sessenta anos, vivi os melhores ritos da juventude. Era dali que ficava observando as meninas que, no pátio da quadra de esportes, exercitavam educação física, para cumprir a grade curricular. Era como se o tempo tivesse congelado as imagens que a memória soube preservar. Permaneci algum tempo olhando aquela imagem e recolhendo fotos com o celular, não como turista nativo, mas como fotógrafo de lembranças, em busca do ângulo que melhor pudesse eternizar os cinco anos de estudo ali naquele educandário, até concluir o Curso Científico.
Colégio Estadual do Amazonas — vista lateral. Uma pesquisa rápida revelou a situação atual do colégio. Descobri que, sob o governo de Wilson Lima — natural de Santarém do Pará e alinhado ao bolsonarismo —, a educação não figurava como prioridade. A ausência de empatia durante a pandemia de Covid-19 parecia ecoar também no descaso com instituições históricas. Também o prefeito, do mesmo viés político do governador, não se preocupa com as mazelas da sociedade. É doloroso perceber que perfis assim ainda conseguem seduzir parcelas da sociedade, sustentados pelo analfabetismo político.
Resta-me a esperança de que o próximo governador tenha sensibilidade para restaurar o nosso CEA, esse relicário de memória coletiva, marcado pelas digitais de gerações inteiras: alunos, professores, bedéis, todos guardados nas paredes centenárias como testemunhas silenciosas de um tempo que não volta. (segue)



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