CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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quarta-feira, maio 20, 2026

PETROBRAS EM CAMAÇARI-BA

Aposentado da Petrobras, o autor analisa com sagacidade a decisão da empresa em retomar a Fábrica de Fertilizantes em Camaçari-BA, daí a CRÔNICA DA FAFEN

19.05.2026

Renato Mendonça

 

Brasão de Camaçari-BA

Não é um governo o que passou — foi uma nuvem negra. E das sombras nasceram falácias contra a Fafen, como se a fábrica fosse apenas um peso morto, um resquício de tempos que não voltariam mais. Porém, eis que o presente, com mãos firmes de um governo devotado à classe trabalhadora, devolve à luz o que tentaram sepultar.

Na quinta-feira passada, no coração industrial de Camaçari, a Fábrica de Fertilizantes Nitrogenados da Bahia voltou a pulsar. O que antes fora arrendado à Proquigel, empresa privada hoje em recuperação judicial, regressa ao seio da Petrobras como quem retorna ao lar. Não é apenas uma planta retomada: é soberania que se ergue, é alimento que se garante, é o Brasil que se recusa a ajoelhar diante da dependência externa de fertilizantes.

A engrenagem volta a girar com promessa de abundância: 1300 toneladas de ureia, 1300 de amônia, e o reagente ARLA-32, que move os pesados motores da estrada. Cada grão de ureia, cada molécula de amônia, é mais que química — é pão na mesa, é pasto verde para o gado, é esperança de preços mais justos no mercado. E, junto à produção, florescem empregos: quase mil diretos, milhares indiretos, como raízes que se espalham pelo solo fértil da Bahia. O Porto de Aratu, com seus terminais de amônia e ureia, será o escoadouro dessa nova colheita industrial. A logística se torna poesia de ferro e mar, garantindo que o fruto da fábrica alcance cada canto do país, para melhorar a vida do consumidor.

As elites, sempre ávidas por ganhos imediatos, defenderam a importação, o lucro rápido, o subsídio estatal ao gás privado. Queriam transformar a Petrobras em serva de interesses estrangeiros, em ponte de renda para poucos — para uma elite gananciosa. Mas o plano ruiu quando o preço internacional do gás expôs a fragilidade da ambição. Restou a lição: não há futuro na dependência estrangeira, não há soberania na entrega de riquezas.

O debate, no Brasil, raramente é ideológico no sentido nobre da palavra. É, antes, um jogo de falácias, uma disputa onde a classe dominante parasitária veste argumentos como máscaras, para ocultar sua fome de apropriação indébita. Mas a retomada da Fafen é mais que política: é o gesto simbólico, é a vitória concreta do campo progressista, é uma lembrança de que desenvolvimento industrial e política energética não podem ser reféns de interesses escusos.

A fábrica renascida é metáfora do país trabalhador que insiste em se reinventar. Entre aço e amônia, entre ureia e suor, ergue-se a certeza de que o Brasil, quando decide caminhar com seus próprios pés, não há sombra que o detenha.

terça-feira, maio 14, 2024

MANUEL BESSA FILHO (1931-2023) (2)

Renovo meus respeitos ao falecido Manoel Bessa Filho, que exerceu múltiplos encargos em nossa cidade, morto em agosto do ano passado, aos 92 anos. Sempre que encontrava o xará, repetia: não sei se lhe tomo a benção (devido ao sacerdócio) ou presto a regulamentar continência, por sua atuação no Auditoria Militar da Força Estadual. Guardo, todavia, não tanto em segredo, pois os livros de assentamentos registram, com gratidão a “meia condenação” que me aplicou, quando julgado na Auditoria.

Esta homenagem ocorre com a reprodução de uma carta aberta que o então reverendo, diretor do Colégio Estadual, publicou no Diário da Tarde, de 4 de agosto de 1956, dirigida ao coronel presidente da Petrobras.

Tópico do referido vespertino, 4 ago. 1956

Sei que V. Sa. não deve dar muita importância ao que se diz na imprensa. E quando esta é do Amazonas, aí então nem se fala. O Amazonas é pobre, não tem indústrias, não tem nada mesmo, nem sequer o direito de ser sede de coisa alguma da Amazônia. Só ainda é sede de missão religiosa e inspetorias de índios. Mas leia, em todo caso, Coronel, leia o que lhe vou escrever.

Não sou ninguém na vida para dirigir-me a V. Sa. Sou o Padre Bessa, só Padre Bessa, nada mais. Renunciei ser pai pela carne abraçando o sacerdócio católico, mas tenho mil e duzentos filhos no espírito. Raramente sirvo-me da imprensa escrita ainda que milite na falada. O tempo não chega para tudo. Nem para defender-me. Se me atacam, venho aos jornais. Mas, desta vez, o negócio mudou.

Mexeram com meus filhos, Coronel, e eu sou pai. Vou contar-lhe tudo direito e veia se não tenho razão. Estou dirigindo, há menos de dois anos, o Colégio Estadual do Amazonas. Viajei pelos Estados Unidos, não recuso “Coca-Cola” gelada, mas acho que “o Petróleo é nosso”. Tive sempre a veleidade de querer formar uma juventude sadia, patriota -- mesmo sendo brasileira — crente, ao menos, do futuro do Brasil. Sou admirador, defensor e propagandista da Petrobras. Já organizei quatro excursões a Nova Olinda, lá estive quando da visita do J.K., divulgo as publicações que recebo, sem contar as palestras na Polícia Militar, no Colégio ou nos programas de rádio.

A Petrobras, até mesmo na sua organização sempre me pareceu coisa séria. Mas desta vez não foi. E é por isso que dirijo a V. Sia. No começo deste ano (não me comprometo com datas) fui procurado pelo eng. Levindo Carneiro, diversas vezes na diretoria do Colégio. Falta de sorte, nunca nos avistamos. Telefonei enfim para o Hotel Amazonas. A Petrobras precisava uns vinte rapazes, que tivessem ao menos o curso ginasial. Um curso de sondadores, ao que parece. Lá, em Nova Olinda. No começo seria duro, mas depois as coisas iriam melhorar. Mandei uma dúzia de meus filhos. Não pense que é demagogia não. Pergunte a eles se não os estimo como filhos. Visitei-os quatro vezes. Cheios de patriótica alegria eles "davam um duro” como qualquer trabalhador braçal. Aguardavam o “curso”. Os meses passaram, o trabalho continuava, o tratamento piorava. Até hoje a única palavra que ouviram sobre o assunto foi de que era aquilo mesmo e se não quisessem...

quarta-feira, agosto 26, 2020

NOVA OLINDA NO “NEW YORK TIMES”

Faz bastante tempo. Aconteceu em março de 1956, um ano após o petróleo jorrar nos barrancos de Nova Olinda, no rio Madeira. 

A descoberta foi de tal ordem encantadora para o país, que levou o presidente da República (Café Filho), enfatiotado, junto ao governador (Plínio Coelho), empaletozado, e ao bispo (dom Alberto), paramentado, além de oficiais militares, uniformizados, a enfrentar uma catraia para alcançar aquela cidade.  

Logo, porém, veio o desencanto, aquele petróleo ainda não era “nosso”. É isso que o correspondente do Times comenta no primeiro aniversário do único poço aberto. Lembro-me que três meses depois desse registro – em junho – passei em Nova Olinda e ainda pude recolher em garrafinha de Bromil um pouco daquele óleo. Era autêntica panaceia, servia de unha encravada a alisador de cabelos crespos...  

Compartilhei esta publicação do Jornal do Commercio (14 março 1956) 

NOVA IORQUE, 13 (AM) — Há uma esperança flagrante em todas as cidades e vilas da Região Amazônica de que uma nova era esteja para alvorecer para os seus habitantes, diz hoje o Times, de Nova lorque.

O correspondente do Times Tad Szule, escreve de Manaus que “se o petróleo jorrar em grandes volumes nesta região – e os geólogos consideram isso possível, então será certo o alvorecer de um novo dia para o povo da Bacia Amazônica.”

“A Amazônia, - como os brasileiros a chamam – conheceu a opulência e a grandeza durante o período áureo da borracha que se estendeu do século 19 às duas primeiras décadas do século 20. Foram feitas fortunas com a rica seiva que fluía de milhões de seringueiras”.

Os refinamentos da cultura, civilização e tudo mais que o dinheiro podia comprar penetraram na selva verde e fumegante. Manaus, situada a 608 quilómetros rio acima, mas acessível através do seu grande rio navegável por uma constante parada de navios oceânicos e outras embarcações, tornou-se o centro cosmopolita da borracha no mundo.

Depois veio a queda da borracha brasileira, no decênio de 1920/30. A borracha podia ser produzida mais barata e melhor nas Índias Orientais. Sementes da seringueira brasileira tinham sido levadas para lá, e a Amazônia sofreu um golpe quase mortal.

Szule escreveu que nos últimos anos planos de desenvolvimento governamentais e locais têm trazido “nova vida” à Amazônia. A juta e a castanha do Pará se tornaram seus principais produtos de exportação. A indústria leve tem prosperado.  Uma refinaria particular deverá entrar em funcionamento, em Manaus, em breve, com a capacidade de cinco mil barris diários. A refinaria usará óleo bruto trazido de jazidas peruanas por transporte fluvial.

Continua dizendo Szule: “após quase 40 anos de economia primária a Amazónia e Manaus... estão começando a vibrar. Mas a economia desta região encharcada de água, provavelmente não entrará em fase de desenvolvimento vigoroso se não receber mais assistência. É por isso que a Amazônia reza por petróleo.

Vários poços pilotos estão sendo perfurados em ilhas do Rio Madeira, a uns 240 quilômetros à sudoeste de Manaus. O petróleo jorrou, no ano passado, na ilha de Nova Olinda, e prospectores brasileiros e norte-americanos estão trabalhando com equipamentos novos em folha.

O Times conclui dizendo que “se o petróleo puder ser produzido em grande escala, a Amazônia pudera ter nova bonança. Os rios oferecem canais naturais, e a exportação do petróleo da selva não exigiria novos meios de transporte. Mas muito disso tudo dependerá da capacidade do Brasil para desenvolver a indústria potencial.

 

Faz, hoje, precisamente um ano, em que brasileiros de todos os matizes pulsaram de alegria, com a notícia de que, em Nova Olinda, recôndito escondido e inóspito do Rio Madeira, jorrara o "ouro negro" brasileiro. Faz, ainda, época gloriosa para a imprensa cabocla, quando o JORNAL DO COMMERCIO e a Rádio Baré, impelidos pelo influxo de patriotismo arrojaram todas suas forças para informar, primeiramente ao Brasil, o resultado de uma operação perigosa e acima de tudo aventurosa.

A Petrobrás, naquele dia, respondia aos espiritas pessimistas com a segurança da verdade. Através dos seus trabalhos anônimos e até certo ponto inacreditados, conseguirá à Nação, descobrir o petróleo amazonense. É verdade que, ainda hoje mãos criminosas procuram derrubar, num sopro, o efeito de um trabalho efetuado entre suor e lágrimas.

Mas, felizmente, a Petrobrás não se rendeu nem se renderá. Aos que julgam macular o dia glorioso e histórico de 14 de marco do ano passado terminarão entregando seus dias, vencidos, pela certeza da operosidade.

Não estamos desiludidos. Acreditamos, piamente, envolvidos com o mesmo espírito de brasileiro, que este dia (14 de março) ficará estigmatizado na consciência dos brasileiros, com o marco de nova era de ressurgimento econômico para a Nação.

Resta-nos, somente, augurar melhores êxitos à Petrobrás e almejá-la a reprodução de feitos inusitados como o do dia 14 de março, não apenas na Amazônia, mas em todos os recantos da pátria.

sábado, agosto 01, 2020

CRÔNICA DE ANTEONTEM

O ACIDENTE 
Renato Mendonça

O pessoal retomava mais cedo do que de costume de outra Plataforma de Produção de Gás, localizada aqui no litoral do Rio Grande do Norte. Para ir até lá, só mesmo de barco. É como se fosse uma pequena ilhota de ferro no meio do oceano; também, como se fosse um sobradinho muito pequeno, composto só de quarto e sala. Os recursos de habitação são mínimos, apenas um minúsculo banheiro para as necessidades fisiológicas de evacuar, já que para fazer xixi ninguém usa. Como só têm homens trabalhando por lá, é mais fácil mijar direto no oceano Atlântico.

O pessoal vai de manhã, trabalha o dia todo e retoma à tarde, o mais tarde possível que as condições de mar permitem, normalmente às quatro da tarde. O transbordo matinal, a partir da Plataforma Central, onde ficamos albergados, é feito usando-se uma cesta — que comporta até quatro passageiros em pé —, que é içada pelo guindaste e depositada no convés de uma lancha. À tarde, no retorno dos trabalhadores, a operação é inversa, resgatando-os do barco.

Nessas plataformas pequenas, que fazem parte dos campos de Pescada e Arabaiana, esse transbordo é feito usando-se o "pulo do Tarzan", tanto para embarcar como para desembarcar. Explico: o barco aproxima-se ao máximo do atracadouro, o "peão" pega uma corda, cheia de nós, e se lança para alcançar seu objetivo. Nunca, nesses meses todos, ninguém soltou a corda. Parece até que Deus os conduz e dá força a esses destemidos peões. Vejo, com admiração, que gordos ou magros tem a mesma vocação para o pulo e nunca erram, como se uma força invisível os empurrasse.

A rotina deixa as pessoas experientes e confiantes. Tenho regozijo em ver que operários velhos, novos, carecas ou grisalhos adquirem o mesmo padrão depois de algum tempo. Quando sinto que alguém ainda não tem muita confiança, procuro elogiar depois de cada pulo. É uma forma singular de motivar e melhorar a carga psicológica para o próximo salto. É esse, talvez, o momento mais crítico e perigoso das atividades diárias.

Hoje, no retorno, com mar agitado, ao ser içado com a cesta, um dos quatro passageiros foi jogado contra a balaustrada — espécie de corrimão feito com tubo grosso, que cerca o barco — da lancha, bateu com as costas e caiu no piso do convés. Eu estava no alto, próximo ao guindaste que fazia o içamento e presenciei a cena; momentos antes, justamente o que se machucou acenou pra mim. Parecia um aviso.

Por um momento havia pensado em parar a manobra porque o mar estava bravo e a embarcação tinha um dos motores avariados. Mas, vacilei, e nesse segundo de hesitação o acidente aconteceu. O acidentado foi retirado pelo guindaste da outra plataforma, anexa à nossa, que opera como auxiliar de sondagem, usando a maca da enfermaria e levado, como emergência, de helicóptero até Guamaré e daí até Natal em ambulância da Petrobrás.

À noite, fiquei sabendo que nada de mais grave tinha lhe acontecido. Nenhuma fratura, apenas luxação. Josimar Rebouças — um velho soldador, aposentado, que retomou ao trabalho — passa bem.

Graças a Deus!

Alguns familiares já usaram este símbolo da Petrobras, outros ainda o carregam. Renato, meu irmão, foi o pioneiro, tendo trabalhado em plataformas no oceano, quando residiu em Natal (RN). Operou quando da implantação desses serviços, por óbvio, arrostando os riscos da profissão. Deles acaba de resgatar um fato acontecido em pleno oceano Atlântico, todavia, com final feliz. Como disse, o pequeno desastre ocorreu anteontem, em 4 dezembro de 1999.  
 

sábado, março 30, 2019

POETA GUIMARÃES DE PAULA


Extraído da “orelha” do livro abaixo mencionado, exponho uma pequena parcela da atividade do poeta Guimarães de Paula.


Raimundo Gilberto Guimarães de Paula, amazonense, nascido em Manacapuru (AM), a 30 de novembro de 1932, filho de Raimundo Nazaré de Paula e de D. Palmira Guimarães de Paula, teve, a exemplo de alguns de seus companheiros de geração, uma formação auto didática rica de experiências, hauridas tanto nos livros quanto nos embates da luta pela vida.

Em março de 1953, aos vinte anos de idade, deslocou-se para o Rio de Janeiro, integrando a segunda caravana que a inquietação de seus companheiros (Antístenes Pinto, Jorge Tufic, Alencar e Silva e Farias de Carvalho) fizeram ao Sul do país, em busca de horizontes que a estagnação provinciana não lhes oferecia.
Do Rio, viajou seguidamente para São Paulo e Belém, cidades onde exerceu o jornalismo, ingressando, nesta última, na Petrobras, a cujo serviço, como Administrador. Dedicaria, a partir de 1956, toda uma existência, já em Manaus como em São Luís e, novamente, em São Paulo.

Não obstante sua dedicação àquela empresa, Guimarães de Paula jamais renunciou à sua vocação maior de poeta e escritor, nem deixou de participar ativamente do Movimento Madrugada, desde as primeiras horas. Como poeta e contista, está incluído, respectivamente, nas antologias organizadas por Jorge Tufic e Artur Engrácio.

Casou-se em 25 de novembro de 1961 com Marlene Nogueira da Silva, nascendo Gilberto, Jorge e Monica. “Os Rebanhos da Fuga”, volume que reúne a produção poética do autor, obteve, em 1976, o 2º Prêmio Prefeitura de Manaus. Guimarães de Paula faleceu em Manaus a 27 de julho de 1996. 

No extinto matutino A Gazeta (edição de 26 outubro 1951) recolhi este poema de Guimarães de Paula (19a), veiculado na coluna Mundo Social.



segunda-feira, dezembro 01, 2014

DE: GENERAL PARA: ALMINO AFONSO


Almino Afonso, no IGHA, em 2003

Almino Álvares Afonso, cumprindo o segundo mandato de deputado federal, foi contemplado com a escolha de seu nome para liderar o PTB (Partido Trabalhista Brasileiro). Aconteceu em 1961, ano que ficou marcado pela renúncia do presidente Jânio Quadros e a complicada disputa pela posse de Jango Goulart.

A criação da Petrobras, a mesma que hoje não consegue sair do noticiário policial, ocorreu em 1954, ainda no governo de Getúlio Vargas. Na época, cruzou o país um movimento pela instalação desta estatal, com a denominação de “O petróleo é nosso”.

Na campanha, Almino Afonso entrou de cabeça, enquanto estudante da Faculdade de Direito de São Paulo. Conhecedor dessa atuação, o general Leonidas Cardoso, pai do futuro presidente FHC, enviou ao então deputado a missiva que abaixo reproduzo.

A carta ficou conhecida, em Manaus, devido a veiculação no jornal A Gazeta, que a publicou com destaque. No entanto, o original da carta desapareceu do arquivo do destinatário, que a buscava sem sucesso. Certo dia, procurando eu “papeis velhos roídos” pelo tempo, encontrei a carta. Noutro dia, encaminhei-a ao meu confrade do IGHA que, prontamente, me agradeceu a “descoberta”, relatando alguns pormenores.

CARTA-ABERTA A ALMINO AFONSO (*)
Leonidas Cardoso (General)


Prezado amigo Deputado Almino Afonso.
Afetuosas saudações

Recorte da carta, em A Gazeta
Jamais deixarei de preocupar-me com os acontecimentos políticos de nossa pátria. Venho-os acompanhando, mais diretamente, desde 1909, quando meu saudoso pai, Joaquim Inácio Baptista Cardoso, então tenente-coronel do glorioso Exército Nacional, reuniu em torno do mesmo ideal os velhos republicanos Quintino Bocaiuva, Lopes Trovão, José Mariano, Coelho Lisboa, J. da Penha, Andrade Silva e muitos outros.
Habituei-me, daí, ao trato dos homens e aprendi a julgá-los também através os ensinamentos de Emerson: “Usa a linguagem que quiseres, nunca poderás dizer senão o que fores”, porque segundo a sabedoria popular: “Ninguém se deve fiar nas aparências. O tambor, apesar de todo barulho que faz, está cheio de ar, simplesmente”.
De instante a instante – retomando as minhas palavras iniciais – os fatos da nossa vida social se sucedem e de todos eles o que mais me atraiu a atenção, ultimamente, foi a escolha de seu nome para líder do Partido Trabalhista Brasileiro, na Câmara Federal. Considero-a uma consequência lógica das campanhas nacionalistas que, em São Paulo, tiveram em você um dos seus mais eficientes elementos.
Lembro-me do acadêmico Almino Afonso, na tradicional Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, sempre na primeira linha dos combatentes, consciente e atuante. Tudo que aconteceu aquela época – e longe seria enumerar os ingentes esforços dos patriotas – podemos nós hoje afirmar, foram em suma verdadeiras e corajosas pregações cívicas, em defesa do monopólio estatal do petróleo, principalmente, nas quais contamos com o decisivo apoio dos brasileiros independentes de todos os quadrantes do país.
Tenho minha confiança na firmeza da sua posição, face aos legítimos interesses nacionais. O que vem impedindo a muitos homens públicos de se conservarem fiéis às necessidades do povo no desempenho dos cargos administrativos e dos mandatos eletivos que lhes têm sido confiados, são os VISCOSOS EMBARAÇOS DE ORDEM MATERIAL. Destes, entretanto, você está livre, graças aos principados da moral política que segue e da perfeita compreensão dos seus deveres de cidadão.
Moço que você é, já com grandes responsabilidades nas lutas pela emancipação econômica do Brasil, quero aqui recordar um exemplo histórico: FLORIANO! Jovem, com 26 anos de idade, segundo-tenente do Exército, marchou ele para os campos de batalha do Paraguai, de lá regressando galardoado com três promoções por bravura. O major Floriano, mesmo no governo imperial, sem ser um áulico, cedo atingiu o generalato, imposto pelo seu passado militar e patriotismo. Filho de lavradores, modesto, bom cidadão e bom soldado, sem os artifícios da palavra exuberante, acompanhou o desenrolar da política do povo brasileiro, até a implantação do regime democrático em 1889.
Coube ao seu caráter de homem íntegro, independente, de ação discreta mas enérgica, a grandiosa obra da Consolidação da República, que constituiu a fase brilhante da nossa nacionalidade em que os brasileiros viram agitada a bandeira do nacionalismo até o paroxismo, na célebre frase de Floriano: “A BALA!”.
Concluindo, retorno a sabedoria popular: “As ações são sempre mais sinceras do que as palavras”, ou em sentido mais completo, na opinião de Frederico Bricha: “A multidão julga os homens pelas palavras, a história julga-os pelas ações”. À sua inteligência e perspicácia, deixo o trabalho de pesquisa e identificação, para uma justa aplicação, nos nossos dias, dos conceitos contidos nos provérbios citados.

(*) A Gazeta, 5 abr. 1961

quarta-feira, fevereiro 23, 2011

GOVERNADOR PLÍNIO COELHO

Plínio. A Crítica, 4 fev.58
A biografia deste governador (1920-2001) ainda não foi escrita, precisa ser publicada. Alguns apontamentos esparsos foram produzidos, mas nada que se possa intitular de uma história de sua vida. Assim, vou colocar aqui minha contribuição.

Plínio Coelho tomou posse do Amazonas em 31 de janeiro de 1955, quando a Petrobrás dava os primeiros passos. Ainda assim, a empresa conseguiu a façanha de “descobrir petróleo” em Nova Olinda do Norte, na calha do rio Madeira. Isso implantou o delírio não somente no município, mas no próprio Estado. Diria que no País, visto que a descoberta trouxe a Manaus e Nova Olinda o presidente da República.

Presidente Café Filho, em Nova Olinda
Era um momento de transição nacional, por isso, João Café Filho presidia o Brasil. E ao desembarcar acompanhado de sua comitiva, trouxe o subchefe da Casa Militar, coronel Ernesto Geisel. Na base de Nova Olinda foi realizada uma foto emblemática: o presidente Café Filho, entre o governador do Amazonas e o coronel Geisel, depois presidente da Petrobras e presidente do Brasil no Governo Militar.

O petróleo possuía tudo para redimir o Amazonas, trazer-lhe o desenvolvimento que há muito o rio levara. Mas, como a Petrobras dava os primeiros passos, não foi capaz de se aguentar e acabou "caindo"... deixando no Estado a lembrança de “ uma noite de verão”.


Situado na av. Castelo Branco, hoje bastante desfigurado.
O Jornal, 5 dez. 1956 
Plínio alcançou o governo de Juscelino Kubitschek, que revolucionou o Brasil, com o sonho realizado de Brasília. Quando da inauguração da Refinaria de I.B.Sabbá, JK esteve em Manaus e inaugurou uma ponte (em Educandos) e um conjunto residencial na Praça General Carneiro, onde se contruiu o Palácio Rodoviário (hoje UEA), o cine Ipiranga. As duas obras levam o nome de JK. Há muito mais desse governador.


Café Filho concede entrevista ao Jornal do Commercio, Manaus

Governador Plínio Coelho recebe amostra de petróleo.
Jornal do Commercio, 16 mar. 1955 

A partir da dir. general cmt GEF; Café Filho; Plínio Coelho e
Dom Alberto Ramos, arcebispo do Amazonas