CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

27 de fevereiro de 2013

NPOR - TURMA 1966


Publicação de O Jornal

Em março entrante, festeja-se a formatura da 1ª turma do renovado NPOR (Núcleo de Preparação de Oficiais da Reserva). Parte dos 17 concludentes dessa Turma Ajuricaba ingressou na Polícia Militar do Amazonas, os hoje coronéis da reserva Osório Fonseca Neto, Amilcar da Silva Ferreira, Ruy Freire de Carvalho, Odacy de Lima Okada e Manoel Roberto Lima Mendonça (autor deste post) e Ilmar dos Santos Faria, que morreu em 1999. Outros três experimentaram a então farda caqui da corporação estadual, porém a deixaram em pouco tempo. São eles: Antônio Germano Gadelha; Carlos Salustiano Coelho e  Helio Graça. 
Os remanescentes estão se reencontrando para festejar esse acontecimento.

Foto oficial incluindo a direção e os alunos, em 1966
 

25 de fevereiro de 2013

ELEIÇÃO NA CASA DE ARLINDO PORTO

Zemaria Pinto, cadeira 27
No almoço festivo dos coronéis da Polícia Militar, ao final de cada mês, há sempre um colega mais próximo que não se esquece de minha candidatura à Academia Amazonense de Letras. Para satisfazê-lo, repito o mantra: estou na fila de espera. Acontece que o deslocamento nesta cobrinha não se faz pela simples chegada mais cedo, porquanto, as prioridades são extensas, bem mais ressaltadas que no salão de espera da Amazonprev.

A propósito deste assunto – eleição na AAL –, reproduzo a Carta do acadêmico Zemaria Pinto, a qual explica, revela, descobre parte das primazias asiladas na Casa presidida pelo acadêmico Arlindo Porto.
Obrigado, amigo.
 

Carta aberta à professora Márcia Perales,

candidata à cadeira 21 da Academia Amazonense de Letras


Prezada Senhora,

Começo por me desculpar pelo não uso do tratamento ao qual a Senhora, como reitora da Universidade Federal do Amazonas, está acostumada, por achá-lo desprovido de sentido. Na sequência, permita-me que me apresente, pois não creio que a senhora saiba quem eu sou: Zemaria Pinto, ocupante da cadeira 27 da Academia Amazonense de Letras, desde 2004, 15 livros publicados (entre ensaios literários, poesia, teatro e literatura infanto-juvenil), analista de sistemas, bacharel em economia, especialista em Literatura Brasileira e mestre em Estudos Literários – estes três últimos, títulos obtidos na UFAM, o que enfatizo para mostrar minha proximidade e meu respeito para com a instituição que a Senhora dirige. Agora, aos fatos.
Luiz Bacellar na AAL

No início deste ano, recebi da direção da AAL um boletim que informava que as inscrições para a cadeira 21, ocupada pelo escritor Luiz Bacellar até 09 de setembro, aconteceriam entre os dias 08 de março e 08 de abril. Na última quinta-feira, 21 de fevereiro, entretanto, soube, por mero descuido do acadêmico que secretariava uma assembleia de rotina naquela casa, que as referidas inscrições se encerrariam hoje, 25 de fevereiro. Pedi à mesa um esclarecimento, provocando mal-estar geral, pois ficava claro, pela minha insatisfação, que eu considerava aquela mudança clandestina mais uma afronta, entre tantas, à memória do meu amigo Bacellar. O esclarecimento foi singelo: uma decisão da diretoria, que é soberana nesses assuntos. Mas deveria também ser transparente e não o foi.

O que a Senhora tem a ver com essas intrigas paroquianas, típicas de uma casa onde a vaidade paira acima de qualquer virtude? Muito simples. A primeira vez que ouvi a menção ao seu nome para substituir Bacellar ele ainda agonizava em seu leito de morte. No dia do enterro, repetiu-se a mesma ladainha, vinda de vários confrades: “a vaga de Luiz Bacellar é da professora Márcia Perales”. Não sei se a Senhora tem conhecimento desses fatos. Acredito que não. Mas quando alguém lhe ofereceu essa eleição, sem sustos, talvez por unanimidade, graças a essa manobra escusa acima relatada, esqueceu-se que a AAL não é formada só por carneirinhos. Se não fosse a indiscrição do confrade, professora, hoje a Senhora seria candidata única, imbatível. Mas não o é.

A Senhora irá enfrentar dois candidatos. Dois excelentes candidatos escritores. Eu preciso dizer-lhe que essas duas candidaturas, professora, nasceram na noite de quinta-feira, como uma reação indignada à manobra escusa. É possível que a Senhora seja eleita com até 36 dos 38 votos admissíveis. Mas os dois ou mais votos de diferença – dos articuladores das candidaturas avessas, e dos que não se curvarão ao pensamento hegemônico – vão escancarar a insatisfação que vai aos poucos minando a AAL. Por repudiar manobras desse tipo, o poeta Thiago de Mello renunciou ao seu título de membro do Silogeu. O Bacellar, que vivia arengando com o Thiago, dizia que a glória suprema seria ser expulso da Academia.

Para sua reflexão.

Respeitosamente,

Zemaria Pinto

23 de fevereiro de 2013

DOM SÉRGIO CASTRIANI

Dom Sergio Castriani

O sexto arcebispo de Manaus toma posse na noite de hoje. Dom Sérgio é natural da cidade de Regente Feijó (SP) e integra a Congregação do Espírito Santo, portanto, um religioso espiritano. Ordenado sacerdote em 1978, veio para a região amazônica, e dirigiu nos últimos catorze anos a prelazia de Tefé (AM).

A posse ocorreu na igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, ocasião em recebeu o cajado com que conduzirá o novo rebanho das mãos de Dom Luiz Soares Vieira, que deixa compulsoriamente esta arquidiocese, após conduzi-la por 21 anos.

O novo pastor conhece a região, há décadas convive com o povo do beiradão amazônico, assim não será um estranho no aprisco. Já começa a sentir, porém, isso ele tem repetido nas entrevistas, a dimensão das cidades, pois deixa o município de Tefé, no médio rio Solimões, com cerca de cem mil habitantes, para encarar a capital do Amazonas, com cerca de dois milhões de habitantes.

Nascido em São Paulo, como seu antecessor, Dom Sérgio mantém a escrita de que ainda não foi dessa vez que um amazonense cuidará nesta arquidiocese dos seguidores da Igreja Católica. Esse fato talvez seja explicável pela máxima bíblica, de que nenhum profeta faz sucesso em sua terra. Se não for este, é por aí.

Esta festividade lembrou-me a chegada a Manaus de um bispo, para assumir a arquidiocese. Ocorreu em 1958, quando Dom João de Souza Lima desembarcou no aeroporto de Ponta Pelada e foi conduzido pelo governador Plínio Coelho e variadas representações católicas pelas ruas centrais da cidade. O cortejo passou pelo bairro de Educandos para alcançar a avenida Sete de Setembro e, por esta via, em direção a Cúria Metropolitana, no mesmo endereço atual.

Os tempos são outros, o avanço evangélico, o trânsito agitado e outras atividades pessoais modificaram essa praxe. Hoje, o pastor católico parece ser mais conhecido pela mídia, que pelas celebrações. De outro modo, a presença de um novo dirigente em qualquer setor sempre traz expectativa de evolução. Nesse sentido, os católicos manauenses começam hoje essa renovação, e renovam esta no próximo mês com a entronização do novo Papa.

Seja bem-vindo, Dom Sérgio, com votos de mais conquistas junto com o povo de Deus.

21 de fevereiro de 2013

CABARÉ CHINELO E A POLÍCIA MILITAR

Ruínas do Hotel Casina ou do cabaré
chinelo, década passada.
Não há data determinante da modificação do Hotel Casina em “cabaré chinelo”, situado na praça Dom Pedro II, cujo clássico ponto de referência é a sede da prefeitura de Manaus. Argumenta-se que a derrocada da borracha desfigurou o conceituado hotel da virada do século XX, quando hospedava afortunados exploradores do látex.

O desaparecimento dos endinheirados seringalistas e comerciantes permitiu o surgimento de uma classe B, frequentadores notívagos (homens e mulheres) que acabaram cravando nesse endereço o apelido de “cabaré chinelo”. Assim ele segue mais conhecido.

Não se conhece a data da mudança, mas, na década de 1940, acredito que a situação daquela área já estava degradada com a prostituição. Uma informação no mínimo interessante a esse respeito é transmitida pelo comando da Polícia Militar do Amazonas (PMAM). Logo após o Natal de 1945, em documento de circulação diária, o boletim da corporação, o comandante  baixava a seguinte norma:

Proibição de praça comparecer ao Cabaret (sic).

Tendo chegado ao meu conhecimento que praças desta Corporação comparecem frequentemente ao Cabaret da Praça Pedro II, após meia noite e ainda portam-se de maneira inconveniente, resolvo:

a)     – fica terminantemente proibido a praças desta Força frequentar aquela casa de diversões;
b)     – os oficiais que fazem o serviço de dia, enviem patrulha vez por outra àquela casa alegre e façam prender todo e qualquer praça desta Corporação que encontre no seu interior.
Ruinas do cabaré chinelo, vistas dos
fundos, em 1974

Ainda não encontrei, se é que houve, a revogação desta norma. Mas deve ter caducado, com a desativação do cabaré. Agora, quê mistura explosiva: policiamento e prostituição.

19 de fevereiro de 2013

SEVERIANO PORTO E A PMAM



Quartel do 1º Batalhão, em Petrópolis
Comentários circulantes na corporação quando ali desembarquei davam conta que o arquiteto Severiano Mário Porto chegara em Manaus a convite do governador Arthur Reis (1964-67). Tudo porque este habilíssimo profissional estava encarregado da elaboração de um novo quartel para a Força Estadual.
Hoje, Porto completa 85 anos. Por este motivo, seus amigos e admiradores promoveram em jornais locais os merecidos parabéns. Lembro-me que a Polícia Militar, agora comandada pelo coronel David Barbosa, já expressou seu entusiasmo pelo mestre, na concessão da Medalha Tiradentes.
Sei igualmente que os amigos reúnem os dados sobre as obras produzidas no Amazonas pelo aniversariante. Gostaria de colaborar, lembrando mais detalhes sobre o Quartel da Polícia Militar, no bairro de Petrópolis. Este trabalho deve concorrer em precedência com o estádio Vivaldo Lima.
As obras em Petrópolis consumiram dois governos: de Arthur Reis e Danilo Areosa, este as deixou relativamente acabadas quando passou o Poder Executivo ao coronel João Walter de Andrade, em janeiro de 1971. O complexo militar estava destinado a aquartelar toda a corporação em Manaus, afinal, esta mal contava com 1000 homens.

Quartel do 1º Batalhão, em Petrópolis, em 1979
No entanto, o comandante da PM, coronel Paulo Figueiredo, preferiu manter-se no quartel da Praça da Polícia, apesar deste estar se desmanchando. Em novembro desse ano, transfere o 1º Batalhão de Polícia Militar, sob o comando do tenente-coronel Flávio Rebello, para o longínquo bairro de Petrópolis.
Somente 40 anos depois, o comando-geral da corporação ocupou seu espaço. E, por muito pouco, a PM não se encontrava no mesmo endereço, afinal foram tantas unidades para lá transferidas, que faltam acomodações para abrigar tantos, ao contrário de sua inauguração.
Recordo informação ouvida não sei onde e de quem: a Escola Estadual Castelo Branco, situada no bairro de São Jorge, teria sido construída copiando a planta do quartel de Petrópolis. Bastante modificado, o edifício da Polícia ainda resguarda aqui e ali uma das marcas deste arquiteto: a madeira. As janelas foram construídas de madeira, ao lado de outros elementos vasados. 
Detalhe final: os alojamentos (dormitórios) dispunham de armadores de redes, contribuindo para que os policiais utilizassem as regionais “baladeiras”.

16 de fevereiro de 2013

POLÍCIA MILITAR DO AMAZONAS: ALBUM (2)

Maestro tenente Raimundo Bezerra
O registro de hoje mostra a centenária Banda de Música da Polícia Militar do Amazonas em atividade, regida por dois diferentes maestros: os tenentes Raimundo Alves Bezerra, que dirigiu a Banda até 1976, e Antônio da Costa Franco, que o sucedeu até o inicio dos anos 1990.

As fotos mostram desfiles em frente ao quartel da Praça da Polícia; nos desfiles de Sete de Setembro, tanto na av. Eduardo Ribeiro quanto na av. Djalma Batista, e em formação no quartel do 1º Batalhão (hoje Comando Geral) no bairro de Petrópolis.
 
Desfile na av. Eduardo Ribeiro (acima) e em frente
ao Quartel da Praça da Polícia (abaixo)


Em formação para o desfile de Sete de Setembro,
na avenida Djalma Batista (acima)
Banda em formação no 1º Batalhão

14 de fevereiro de 2013

ANIVERSÁRIO DO CORONEL DIAS

Coronel Antonio Dias
Hoje, o coronel Antônio Dias completa 53 anos. Amanheceu como sempre de bem com a vida, com a família, com o Flamengo, com os comandados, portanto, nada podia perturbá-lo. Até porque é difícil vê-lo com o cenho cerrado, Dias é sempre sorriso.
Mas o jornal A Crítica de hoje resolveu prestar-lhe “singela homenagem”. Na coluna Sim&Não, com direto a foto, sapecou o comandante dos Bombeiros de ladeira abaixo, colocou-o no Desce porque a sua corporação não possui equipamentos para mergulho abaixo de 40 metros. Grande deficiência do Corpo.

Em conversa com o aniversariante, entendi a motivação para esse ataque. Trata-se de uma implicância que vem de algum tempo. Teve início quando, diante de uma notícia atravessada sobre equipamento dos Bombeiros, o comandante reagiu junto ao jornalista que, importunado, vem usando as páginas de seu jornal para espezinhar o reclamante. Por isso, tem-se lido diferentes notas e “descidas” sobre o comandante e o benquisto Corpo de Bombeiros.
Contudo, os bombeiros do Amazonas não esqueceram a data. Reuniram-se no auditório para demonstrar a gratidão pelo longo trabalho que vem desenvolvendo o coronel Dias. Longo porque há mais de cinco anos dirige esta corporação. Por isso, podemos dizer que desfruta da confiança dos governadores Eduardo Braga e Omar Aziz.
Aproveito o registro para o abraço de um ex-comandante do Corpo, convicto de que muitos outros fevereiros contemplarão a escalada do coronel Dias.
Nas fotos, no primeiro, os oficiais do comando-geral do CBMAM e, nos demais, a reunião com o  aniversariante.
 


  

13 de fevereiro de 2013

POLÍCIA MILITAR DO AMAZONAS: ALBUM

Lembranças oportunas nem tanto, porque sempre que se é apresentado a fatos ou fotos antigas, estabelece-se um confronto. Nem sempre coerente. Cada tempo ao seu tempo.

O registro aqui é da posse do coronel Amilcar da Silva Ferreira no comando-geral da corporação, sucedendo ao coronel Romeu Pimenta de Medeiros Filho, em 7 de maio de 1991.
A posse contou com a presença do governador Gilberto Mestrinho, em seu terceiro mandato, e deu-se pela primeira e única vez no Auditório do Comando Geral, hoje Palacete Provincial. Daí se observar a presença apenas de oficiais e de familiares e amigos dos comandantes.

Coronel Romeu Medeiros (à esq.) e coronel Amilcar Ferreira,
como o governador Gilberto Mestrinho, ao fundo
 
Familiares e amigos nas primeiras poltronas (acima) e
outra tomada da posse (abaixo)
 


11 de fevereiro de 2013

POLÍCIA CIVIL DO AMAZONAS (Parte 2)


NA PROVÍNCIA DO AMAZONAS

João Batista de Figueiredo Tenreiro Aranha, o primeiro presidente, instalou a província do Amazonas em 1º de janeiro de 1852. Na mesma cerimônia tomaram posse os vice-presidentes nomeados. Coube ao bacharel Manoel Gomes Correa de Miranda, nascido no Pará, 1º vice-presidente, assumir como juiz de direito e, consequentemente, o de Chefe de Polícia. A legislação vigente impunha ao juiz de direito da comarca além da apuração dos delitos, a execução das penas, por isso, a cadeia pública subordinava-se também a esse magistrado. Simples, pois, concluir da abrangência e o consequente prestígio do cargo.

Antônio Loureiro, autor de O Amazonas
na época imperial
A partir da instalação fica mais disciplinado acompanhar a marcha deste serviço e, paralelamente, a de seu chefe. Autoridade amplamente respeitada, posto que nomeada pelo Imperador, e escolhida entre bacharéis (assim denominados os concludentes de Direito, cujas faculdades se situavam no Recife e São Paulo). Apesar de regia nomeação, que servia para controlar politicamente as províncias, os bacharéis não encontravam boa acolhida no destino manauara.

Oriundos sempre de províncias nordestinas, formados pela Faculdade de Direito do Recife, para estes o enfrentamento do território amazônico assustava. Por isso, a ordem do rei nem sempre era cumprida. Não foram poucos os que adoeceram, ou de doença ou de pânico, pediram licença e aqui não mais colocaram os pés.  Afinal, como enfrentar tantos obstáculos; em uma Província que se estruturava, carente de moradia e de apoio de saúde, além de cercada de surtos endêmicos e raras manifestações para o espírito.

Essas dificuldades não alcançam apenas os magistrados, alcançam os próprios presidentes. Para resumir, reproduzindo ao mestre Antônio Loureiro, em pouco mais de 37 anos de existência da Província, foram processadas “63 trocas de governantes e uma mudança de Regime (do imperial para o republicano), com uma média de sete meses de gestão, por dirigente”. Todo esse panorama modifica-se para melhor com a exploração da borracha, quando Manaus (ao menos!) passou a atrair toda sorte de patrões e empregados, funcionários e, não há dúvidas, aventureiros.  

Na abertura da Assembleia Provincial, em 1º de outubro de 1853, o presidente da Província ratifica que “todo o território forma uma Comarca, cujo juiz de direito acumula as varas de Chefe de Polícia e juiz dos foros da Fazenda”. Outro, a 2 de julho de 1856, estima a população da Província em 49.592 habitantes.

A Polícia Civil, operando em conformidade com os regulamentos imperiais, esforçava-se por cumprir seu encargo primordial: manter a tranquilidade da população. Nesse sentido, os presidentes são unânimes em alardear a placidez, a serenidade dos habitantes do Amazonas. Se assim for, pouco trabalho havia a cumprir, ao menos, adotando por embasamento as estatísticas conhecidas. Havia sempre quem oferecesse trabalho à Polícia, claro.

Falando aos deputados, em 1º de outubro de 1857, o presidente Ângelo Thomaz assinala sucintamente que, em maio, “ao alferes Silvério José Nery roubaram alguns valores”. Não informa se estes foram recuperados; todavia, se ao brioso alferes afanaram, quem mais estaria imune? Um pormenor: o alferes era o genitor de outro Silvério Nery, este bem mais identificado porquanto foi governador do Estado (1900-04).
Acerca de o reduzido trabalho, o mesmo Presidente corrobora: “no primeiro período de minha administração só tive notícias de dois fatos importantes, e logo dei as providências para a prisão dos criminosos, não me limitando ao emprego de meios ordinários”. Então, quais seriam os extraordinários? 

A administração provincial, em 1858, já estava mais ou menos organizada, reconhece Loureiro. Entre os órgãos provinciais, funcionava “a Secretaria de Polícia, com um Chefe de Polícia, responsável pela tranquilidade pública, a quem estavam subordinados delegados e subdelegados” (Antônio Loureiro, em O Amazonas na época imperial). Para melhor gerenciamento do serviço, a Presidência baixou o Regulamento nº 8, de 17 de julho, organizando a Secretaria de Polícia do Amazonas. Além do secretário, obviamente, cabia mais “dois amanuenses e um porteiro servindo de contínuo”. Objetivando disciplinar a escrituração, a repartição era obrigada escriturar dezenove diferentes livros, um deles para cuidar “da receita e despesa”. E mais, prescrevia o Art. 7º, diante de necessidades, “haverá os mais que forem necessários”, cabendo ao Chefe de Polícia criar o modelo.  (SEGUE)

8 de fevereiro de 2013

PELO RIO JURUÁ, DE CAIAQUE (II)

Acontece a mais nova aventura do coronel do Exército Hiram Reis, visitando cada canto do rio Juruá e seus afluentes e furos e arrombados. Não seria demais, não fosse este deslocamento realizado de caiaque. Reproduzo a descrição de mais uma etapa vencida.

Itamarati – Carauari (1ª Parte)
Hiram Reis e Silva (*)
Chegamos à Carauari, às 14h do dia 03, depois de seis dias de exaustiva navegação nos mais de 500 km que separam as duas cidades. Tão logo cheguei ao hotel retirei o celular da sacola de viagem para tentar contatar meu grande amigo Comandante Pastl e saber notícias de seus filhos, vítimas do descaso e da omissão das autoridades e da ganância de empresários da Boate Kiss, em Santa Maria (RS).
Equipamentos utilizados no reconhecimento do rio Juruá


Tão logo liguei o aparelho entrou uma mensagem do Coronel Pastl, enviada às 14h14 de 03.02., informando, naquele justo momento, que os rapazes estavam melhorando e haviam inclusive jantado. Mais tarde, às 16h14, relatou que os mesmos tinham tomado banho de chuveiro, que os ferimentos estavam cicatrizando e que o aparelho respiratório apresentava melhoras significativas.

Eu tinha passado seis dias sem poder ter notícias de meus queridos ex-alunos e recebi emocionado a notícia, Deus seja louvado! Estava digitando estas linhas, na tarde do dia 04.02, e nova mensagem avisava que os meninos deveriam ir para o quarto na terça-feira (05.02). 

Itamarati - Comunidade São Braz (29.01)
Infelizmente não tivemos a oportunidade de conhecer o prefeito da pequena, exótica e muito bem cuidada Itamarati ou mesmo algum de seus secretários. Partimos antes do alvorecer, tinha feito uma proposta aos meus parceiros, navegar sete dias e pernoitar em Carauari três dias ou navegar seis dias e ficar na cidade quatro dias. Logicamente a segunda opção ganhou.

Eu sabia que isto demandaria um esforço muito maior e um desgaste físico considerável, pois deveríamos, mesmo contando com a passagem pelos “furos” navegar uma média superior aos 90 quilômetros diários obrigando-nos a permanecer numa posição incomoda por aproximadamente 9 horas diárias.

O dia ensolarado minava nossas forças que ganhavam novo alento apenas quando avistávamos os botos bailarinos, as garças surfistas, as escandalosas araras, os enormes troncos que mais pareciam aríetes impulsionados pela torrente do rio Juruá ou ainda os raros sítios de terra firme que contrastavam com a várzea infinda. Num destes belos locais, o da Comunidade de Santo Antônio, o Mário foi brindado com uma preciosa e cobiçada garrafa pet de dois litros de água gelada.

Pela fotografia aérea suspeitei da existência de um furo num estreito localizado logo depois da Comunidade de Santo Antônio. Perguntei a um ribeirinho da região sobre a existência do mesmo que nos informou mal humorado que não se tratava mais de um furo, mas de um arrombado. Navegamos pelo meio do rio já que para se chegar até o dito “arrombado” bastaria ser levado pela correnteza. Ledo engano, quando alcançamos, mais abaixo, a Comunidade de Vista Alegre fomos avisados que o pequeno furo ficara para trás. Enganchamos na lancha e voltamos mais de três quilômetros até chegar ao almejado furo Samaúma.

Tão logo avistamos o furo avistamos um nativo da etnia Deni que desaconselhou a passagem da lancha tendo em vista as enormes toras que bloqueavam parcialmente a entrada do mesmo. Enquanto o Mário fazia a volta de 15 quilômetros eu e o Marçal nos lançamos no furo. As manobras radicais foram necessárias apenas na entrada, o furo estava sendo trabalhado pelas comunidades para se tornar um arrombado, encurtando em 15 quilômetros a distância que os separava de Itamarati.

Depois de o ultrapassarmos ficamos um bom tempo de bubuia aguardando o Mário, que contornava a enorme volta, até que resolvi aproveitar o tempo e mapear a Comunidade Conceição do Raimundo. Lá confirmei a localização de São Tomé para onde nos dirigimos já que eu previra realizar ali nosso primeiro estacionamento. Como o local não era apropriado para um acantonamento, nos deslocamos até a Comunidade de São Braz.

As terras do antigo Seringal ou Colocação Nazaré do Bóia foi dividida pelos proprietários que venderam uma parte ao Sr. Pedro Rodrigues de Oliveira, ex-seringueiro do Nazaré. Após a morte do Sr. Pedro, a propriedade passou para sua esposa Sra. Celeste Taveira da Silva, mãe do atual líder comunitário Antônio Raimundo Taveira de Oliveira. Cuidadoso, este nos interrogou a respeito de nosso trabalho e só sossegou depois que lhe mostramos a carteira de identidade do Ministério da Defesa.

A escolinha em que ficamos alojados era tão simples como as demais, mas se destacava pelo capricho e a decoração das salas de aula. O Marçal preparou nosso “almojanta” na residência do Antônio Raimundo. Conquistamos, no Braz, um amigo sincero, um irrequieto guri chamado Estevão que acompanhou meus lançamentos na caderneta de campo e acordou cedo para de nós se despedir. 

Comunidade São Braz – Chibao Grande (30.01)
Partimos, novamente enfrentando um dia quente, pensando em parar na Comunidade de São Romão. Ao ultrapassar o rio Xeruã, adentramos no município de Carauari. Preocupados com a carência de comunidades procuramos confirmar em cada ponto a localização e características da próxima para podermos acantonar com mais conforto e segurança. Na proximidade de nosso destino avistamos um enorme morro que emoldurava uma majestosa sumaumeira decorada com uma grande quantidade de ninhos de japiins.

Nosso anfitrião em Chibao Grande, nossa segunda parada neste trajeto, foi o Sr. Raimundo Rodrigues de Souza, um manauara, que se encontrava na comunidade para consertar a cerca da residência da sua irmã, Sra. Maria Matilde Rodrigues de Souza, proprietária da casa onde nos alojamos. Por uma destas amazônicas coincidências, ele nos informou que a madeira seria fornecida pelo Sr. Antônio Raimundo da comunidade de São Braz.
A confortável casa, além de uma cozinha completa, que facilitou o trabalho de nosso cozinheiro Marçal, tinha um banheiro com chuveiro de águas cristalinas, um caso raro nessas paragens. 

Aproveitei o conhecimento do caseiro Sr. José Adilson Rodrigues da Silva para confirmar alguns detalhes do próximo lance, conseguindo dicas preciosas de Furos e Comunidades. O Sr. José preparou uma pirara que havia pescado e nos convidou a degustá-la. Fugindo ao nosso costume de fazer apenas uma refeição durante o dia aceitamos o convite.
Nosso anfitrião estava tomando banho quando surgiu enorme cobra papa-pintos, a cobra estava de barriga cheia possivelmente de pererecas que pululavam na umidade do recinto. Depois de fotografar e filmarmos o réptil o soltamos no campo.

Comunidade Chibao Grande – Morada Nova (31.01)
O furo do Itanga já foi parcialmente arrombado e conecta-se com um sacado que permite a navegação de grandes embarcações no seu braço ocidental e das menores também no oriental. Atualmente as balsas que sobem o Juruá fazem uso do braço ocidental. Embora encurte o caminho em aproximadamente dez quilômetros, este braço possui correnteza muito fraca o que no nosso caso pouca diferença representou no final. Foi, no entanto, um itinerário importante para se puder verificar como se processa a navegação nestas paragens.

Cinco quilômetros depois do Itanga deparei-me com uma inesperada bifurcação. Fiquei momentaneamente desorientado até que ao olhar com maior atenção para a fotografia aérea do Google Earth, de 31.12.1969, entendi o que se passara nestas últimas décadas. O igarapé Marari que na década de sessenta (1960-1967) tangenciava a margem direita do rio Juruá foi desgastando o barranco esquerdo que o separava do rio, enquanto este fazia o mesmo pelo lado direito até que surgiu a segunda boca, no final da década (1968-1969).

A energia das águas do rio Juruá foi, então, progressivamente, principalmente no período das alagações, ampliando o pequeno canal que se abrira com o rompimento da segunda Boca do Mirari criando a ilha do Marari. Mais um belo exemplo da inconstância tumultuária do mais sinuoso dos Rios. Embora os arrombados ou mesmo os furos formem, ainda que momentaneamente, diversas ilhas ao longo do curso do rio Juruá, considero que se deva considerar como ilhas apenas as mais perenes. Consideramos, portanto, a ilha do Marari, como a primeira desde que partimos da foz do Breu.

O Sr. José Adilson, em Chibao Grande, tinha-nos dado uma descrição pormenorizada da localização e das condições do furo Morro Alto. Segundo ele, existia uma casinha com cobertura de palha, logo depois da Comunidade Morro Alto e o furo ficava ao lado da mesma. A amplitude do canal permitiu que o Mário entrasse com a lancha de apoio e fizesse algumas tomadas com a câmera.

Chegamos à Morada Nova, nosso destino final, por volta das 15h onde fomos muito bem recebidos e alojados na casa de reuniões da comunidade. Encontramos o Sr. Percivaldo, mencionado pelo sargento Barbosa em Itamarati, um artista da construção náutica. Na frente de sua casa está estacionado um belo iate de madeira de linhas arrojadas construído pelo conhecido artesão.

Investimento em soberania
Mais uma vez apelamos aos nossos investidores para que continuem colaborando, cada um dentro de suas posses, para que possamos cumprir a meta de chegar a Manaus. Àqueles que ainda não conhecem nosso projeto, peço que visitem o Blog


(*) Itamarati, Amazonas, 6 de fevereiro de 2013, via internet