CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

8 de fevereiro de 2013

PELO RIO JURUÁ, DE CAIAQUE (II)

Acontece a mais nova aventura do coronel do Exército Hiram Reis, visitando cada canto do rio Juruá e seus afluentes e furos e arrombados. Não seria demais, não fosse este deslocamento realizado de caiaque. Reproduzo a descrição de mais uma etapa vencida.

Itamarati – Carauari (1ª Parte)
Hiram Reis e Silva (*)
Chegamos à Carauari, às 14h do dia 03, depois de seis dias de exaustiva navegação nos mais de 500 km que separam as duas cidades. Tão logo cheguei ao hotel retirei o celular da sacola de viagem para tentar contatar meu grande amigo Comandante Pastl e saber notícias de seus filhos, vítimas do descaso e da omissão das autoridades e da ganância de empresários da Boate Kiss, em Santa Maria (RS).
Equipamentos utilizados no reconhecimento do rio Juruá


Tão logo liguei o aparelho entrou uma mensagem do Coronel Pastl, enviada às 14h14 de 03.02., informando, naquele justo momento, que os rapazes estavam melhorando e haviam inclusive jantado. Mais tarde, às 16h14, relatou que os mesmos tinham tomado banho de chuveiro, que os ferimentos estavam cicatrizando e que o aparelho respiratório apresentava melhoras significativas.

Eu tinha passado seis dias sem poder ter notícias de meus queridos ex-alunos e recebi emocionado a notícia, Deus seja louvado! Estava digitando estas linhas, na tarde do dia 04.02, e nova mensagem avisava que os meninos deveriam ir para o quarto na terça-feira (05.02). 

Itamarati - Comunidade São Braz (29.01)
Infelizmente não tivemos a oportunidade de conhecer o prefeito da pequena, exótica e muito bem cuidada Itamarati ou mesmo algum de seus secretários. Partimos antes do alvorecer, tinha feito uma proposta aos meus parceiros, navegar sete dias e pernoitar em Carauari três dias ou navegar seis dias e ficar na cidade quatro dias. Logicamente a segunda opção ganhou.

Eu sabia que isto demandaria um esforço muito maior e um desgaste físico considerável, pois deveríamos, mesmo contando com a passagem pelos “furos” navegar uma média superior aos 90 quilômetros diários obrigando-nos a permanecer numa posição incomoda por aproximadamente 9 horas diárias.

O dia ensolarado minava nossas forças que ganhavam novo alento apenas quando avistávamos os botos bailarinos, as garças surfistas, as escandalosas araras, os enormes troncos que mais pareciam aríetes impulsionados pela torrente do rio Juruá ou ainda os raros sítios de terra firme que contrastavam com a várzea infinda. Num destes belos locais, o da Comunidade de Santo Antônio, o Mário foi brindado com uma preciosa e cobiçada garrafa pet de dois litros de água gelada.

Pela fotografia aérea suspeitei da existência de um furo num estreito localizado logo depois da Comunidade de Santo Antônio. Perguntei a um ribeirinho da região sobre a existência do mesmo que nos informou mal humorado que não se tratava mais de um furo, mas de um arrombado. Navegamos pelo meio do rio já que para se chegar até o dito “arrombado” bastaria ser levado pela correnteza. Ledo engano, quando alcançamos, mais abaixo, a Comunidade de Vista Alegre fomos avisados que o pequeno furo ficara para trás. Enganchamos na lancha e voltamos mais de três quilômetros até chegar ao almejado furo Samaúma.

Tão logo avistamos o furo avistamos um nativo da etnia Deni que desaconselhou a passagem da lancha tendo em vista as enormes toras que bloqueavam parcialmente a entrada do mesmo. Enquanto o Mário fazia a volta de 15 quilômetros eu e o Marçal nos lançamos no furo. As manobras radicais foram necessárias apenas na entrada, o furo estava sendo trabalhado pelas comunidades para se tornar um arrombado, encurtando em 15 quilômetros a distância que os separava de Itamarati.

Depois de o ultrapassarmos ficamos um bom tempo de bubuia aguardando o Mário, que contornava a enorme volta, até que resolvi aproveitar o tempo e mapear a Comunidade Conceição do Raimundo. Lá confirmei a localização de São Tomé para onde nos dirigimos já que eu previra realizar ali nosso primeiro estacionamento. Como o local não era apropriado para um acantonamento, nos deslocamos até a Comunidade de São Braz.

As terras do antigo Seringal ou Colocação Nazaré do Bóia foi dividida pelos proprietários que venderam uma parte ao Sr. Pedro Rodrigues de Oliveira, ex-seringueiro do Nazaré. Após a morte do Sr. Pedro, a propriedade passou para sua esposa Sra. Celeste Taveira da Silva, mãe do atual líder comunitário Antônio Raimundo Taveira de Oliveira. Cuidadoso, este nos interrogou a respeito de nosso trabalho e só sossegou depois que lhe mostramos a carteira de identidade do Ministério da Defesa.

A escolinha em que ficamos alojados era tão simples como as demais, mas se destacava pelo capricho e a decoração das salas de aula. O Marçal preparou nosso “almojanta” na residência do Antônio Raimundo. Conquistamos, no Braz, um amigo sincero, um irrequieto guri chamado Estevão que acompanhou meus lançamentos na caderneta de campo e acordou cedo para de nós se despedir. 

Comunidade São Braz – Chibao Grande (30.01)
Partimos, novamente enfrentando um dia quente, pensando em parar na Comunidade de São Romão. Ao ultrapassar o rio Xeruã, adentramos no município de Carauari. Preocupados com a carência de comunidades procuramos confirmar em cada ponto a localização e características da próxima para podermos acantonar com mais conforto e segurança. Na proximidade de nosso destino avistamos um enorme morro que emoldurava uma majestosa sumaumeira decorada com uma grande quantidade de ninhos de japiins.

Nosso anfitrião em Chibao Grande, nossa segunda parada neste trajeto, foi o Sr. Raimundo Rodrigues de Souza, um manauara, que se encontrava na comunidade para consertar a cerca da residência da sua irmã, Sra. Maria Matilde Rodrigues de Souza, proprietária da casa onde nos alojamos. Por uma destas amazônicas coincidências, ele nos informou que a madeira seria fornecida pelo Sr. Antônio Raimundo da comunidade de São Braz.
A confortável casa, além de uma cozinha completa, que facilitou o trabalho de nosso cozinheiro Marçal, tinha um banheiro com chuveiro de águas cristalinas, um caso raro nessas paragens. 

Aproveitei o conhecimento do caseiro Sr. José Adilson Rodrigues da Silva para confirmar alguns detalhes do próximo lance, conseguindo dicas preciosas de Furos e Comunidades. O Sr. José preparou uma pirara que havia pescado e nos convidou a degustá-la. Fugindo ao nosso costume de fazer apenas uma refeição durante o dia aceitamos o convite.
Nosso anfitrião estava tomando banho quando surgiu enorme cobra papa-pintos, a cobra estava de barriga cheia possivelmente de pererecas que pululavam na umidade do recinto. Depois de fotografar e filmarmos o réptil o soltamos no campo.

Comunidade Chibao Grande – Morada Nova (31.01)
O furo do Itanga já foi parcialmente arrombado e conecta-se com um sacado que permite a navegação de grandes embarcações no seu braço ocidental e das menores também no oriental. Atualmente as balsas que sobem o Juruá fazem uso do braço ocidental. Embora encurte o caminho em aproximadamente dez quilômetros, este braço possui correnteza muito fraca o que no nosso caso pouca diferença representou no final. Foi, no entanto, um itinerário importante para se puder verificar como se processa a navegação nestas paragens.

Cinco quilômetros depois do Itanga deparei-me com uma inesperada bifurcação. Fiquei momentaneamente desorientado até que ao olhar com maior atenção para a fotografia aérea do Google Earth, de 31.12.1969, entendi o que se passara nestas últimas décadas. O igarapé Marari que na década de sessenta (1960-1967) tangenciava a margem direita do rio Juruá foi desgastando o barranco esquerdo que o separava do rio, enquanto este fazia o mesmo pelo lado direito até que surgiu a segunda boca, no final da década (1968-1969).

A energia das águas do rio Juruá foi, então, progressivamente, principalmente no período das alagações, ampliando o pequeno canal que se abrira com o rompimento da segunda Boca do Mirari criando a ilha do Marari. Mais um belo exemplo da inconstância tumultuária do mais sinuoso dos Rios. Embora os arrombados ou mesmo os furos formem, ainda que momentaneamente, diversas ilhas ao longo do curso do rio Juruá, considero que se deva considerar como ilhas apenas as mais perenes. Consideramos, portanto, a ilha do Marari, como a primeira desde que partimos da foz do Breu.

O Sr. José Adilson, em Chibao Grande, tinha-nos dado uma descrição pormenorizada da localização e das condições do furo Morro Alto. Segundo ele, existia uma casinha com cobertura de palha, logo depois da Comunidade Morro Alto e o furo ficava ao lado da mesma. A amplitude do canal permitiu que o Mário entrasse com a lancha de apoio e fizesse algumas tomadas com a câmera.

Chegamos à Morada Nova, nosso destino final, por volta das 15h onde fomos muito bem recebidos e alojados na casa de reuniões da comunidade. Encontramos o Sr. Percivaldo, mencionado pelo sargento Barbosa em Itamarati, um artista da construção náutica. Na frente de sua casa está estacionado um belo iate de madeira de linhas arrojadas construído pelo conhecido artesão.

Investimento em soberania
Mais uma vez apelamos aos nossos investidores para que continuem colaborando, cada um dentro de suas posses, para que possamos cumprir a meta de chegar a Manaus. Àqueles que ainda não conhecem nosso projeto, peço que visitem o Blog


(*) Itamarati, Amazonas, 6 de fevereiro de 2013, via internet