CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

25 de fevereiro de 2013

ELEIÇÃO NA CASA DE ARLINDO PORTO

Zemaria Pinto, cadeira 27
No almoço festivo dos coronéis da Polícia Militar, ao final de cada mês, há sempre um colega mais próximo que não se esquece de minha candidatura à Academia Amazonense de Letras. Para satisfazê-lo, repito o mantra: estou na fila de espera. Acontece que o deslocamento nesta cobrinha não se faz pela simples chegada mais cedo, porquanto, as prioridades são extensas, bem mais ressaltadas que no salão de espera da Amazonprev.

A propósito deste assunto – eleição na AAL –, reproduzo a Carta do acadêmico Zemaria Pinto, a qual explica, revela, descobre parte das primazias asiladas na Casa presidida pelo acadêmico Arlindo Porto.
Obrigado, amigo.
 

Carta aberta à professora Márcia Perales,

candidata à cadeira 21 da Academia Amazonense de Letras


Prezada Senhora,

Começo por me desculpar pelo não uso do tratamento ao qual a Senhora, como reitora da Universidade Federal do Amazonas, está acostumada, por achá-lo desprovido de sentido. Na sequência, permita-me que me apresente, pois não creio que a senhora saiba quem eu sou: Zemaria Pinto, ocupante da cadeira 27 da Academia Amazonense de Letras, desde 2004, 15 livros publicados (entre ensaios literários, poesia, teatro e literatura infanto-juvenil), analista de sistemas, bacharel em economia, especialista em Literatura Brasileira e mestre em Estudos Literários – estes três últimos, títulos obtidos na UFAM, o que enfatizo para mostrar minha proximidade e meu respeito para com a instituição que a Senhora dirige. Agora, aos fatos.
Luiz Bacellar na AAL

No início deste ano, recebi da direção da AAL um boletim que informava que as inscrições para a cadeira 21, ocupada pelo escritor Luiz Bacellar até 09 de setembro, aconteceriam entre os dias 08 de março e 08 de abril. Na última quinta-feira, 21 de fevereiro, entretanto, soube, por mero descuido do acadêmico que secretariava uma assembleia de rotina naquela casa, que as referidas inscrições se encerrariam hoje, 25 de fevereiro. Pedi à mesa um esclarecimento, provocando mal-estar geral, pois ficava claro, pela minha insatisfação, que eu considerava aquela mudança clandestina mais uma afronta, entre tantas, à memória do meu amigo Bacellar. O esclarecimento foi singelo: uma decisão da diretoria, que é soberana nesses assuntos. Mas deveria também ser transparente e não o foi.

O que a Senhora tem a ver com essas intrigas paroquianas, típicas de uma casa onde a vaidade paira acima de qualquer virtude? Muito simples. A primeira vez que ouvi a menção ao seu nome para substituir Bacellar ele ainda agonizava em seu leito de morte. No dia do enterro, repetiu-se a mesma ladainha, vinda de vários confrades: “a vaga de Luiz Bacellar é da professora Márcia Perales”. Não sei se a Senhora tem conhecimento desses fatos. Acredito que não. Mas quando alguém lhe ofereceu essa eleição, sem sustos, talvez por unanimidade, graças a essa manobra escusa acima relatada, esqueceu-se que a AAL não é formada só por carneirinhos. Se não fosse a indiscrição do confrade, professora, hoje a Senhora seria candidata única, imbatível. Mas não o é.

A Senhora irá enfrentar dois candidatos. Dois excelentes candidatos escritores. Eu preciso dizer-lhe que essas duas candidaturas, professora, nasceram na noite de quinta-feira, como uma reação indignada à manobra escusa. É possível que a Senhora seja eleita com até 36 dos 38 votos admissíveis. Mas os dois ou mais votos de diferença – dos articuladores das candidaturas avessas, e dos que não se curvarão ao pensamento hegemônico – vão escancarar a insatisfação que vai aos poucos minando a AAL. Por repudiar manobras desse tipo, o poeta Thiago de Mello renunciou ao seu título de membro do Silogeu. O Bacellar, que vivia arengando com o Thiago, dizia que a glória suprema seria ser expulso da Academia.

Para sua reflexão.

Respeitosamente,

Zemaria Pinto