CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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segunda-feira, maio 18, 2026

MEUS OITENTANOS (4)

 FASCÍCULO 4

 No segundo semestre de 1964, quando deixei o Seminário São José, abandonei também a vocação sacerdotal que até então me acompanhava como promessa duvidosa. Tinha dezoito anos e regressava ao lar dos meus pais, na rua Amazonas, número 29, no Morro da Liberdade, trazendo na bagagem apenas a escolaridade atualizada e uma sensação de vazio.

Título eleitoral emitido em 1966 
O número da casa, talhado por meu pai em madeira bruta e fixado na parede frontal, carregava um simbolismo próprio: 29 de dezembro de 1959, e o dia ele quis perpetuar. Mesmo diante da duplicidade de número na rua, sua decisão foi firme, quase solene. A casa de madeira, antes simples e térrea, transformara-se em sobrado, com quartos e varandas no pavimento superior. Ali, naquele novo espaço, ganhei um aposento que às vezes dividia com meus irmãos Antônio e Renato, enquanto outros cômodos se tornavam alugáveis.

Meu regresso, porém, foi marcado por desorientação. Sentia-me como um “cachorro caído da mudança”, sem rumo, sem ofício aprendido. Uma oportunidade surgiu pelas mãos de meu primo Vicente Pereira, que me levou à loja de móveis onde trabalhava. Não havia vaga para vendedor, mas sim na produção de cadeiras metálicas. Enfrentei o labor da soldagem sem proteção adequada, e à noite meus olhos ardiam tanto que o sono me abandonou. No dia seguinte, faltei. Ainda assim, ao final da semana recebi o ordenado e desapareci. Foi a única vez que trabalhei na iniciativa privada; o destino me reservaria apenas o caminho do serviço público.

Enquanto isso, os afazeres domésticos me consumiam. O quintal imenso exigia cuidados, e os cães eram minha responsabilidade: Joli, o caramelo valente que se tornara figura temida na vizinhança, e Branco, dócil companheiro. Outra tarefa era o abastecimento de água obtida em cacimba do Buraco da Vovó, a quinhentos metros de casa, carregando em latas de vinte litros para encher o “camburão” – tambor metálico de duzentos litros — uma espécie de cisterna improvisada.

Assim se desenhava minha juventude: entre o peso da falta de escolhas, o suor das tarefas domésticas e a lenta construção de um destino que ainda se insinuava sombrio.


Em 1965, aceitei o convite de Raimundo “Pau de Barraca” — sobrinho de minha madrasta — para jogar futebol, e essa decisão alterou o ritmo da minha rotina de desempregado. As peladas aconteciam num campo improvisado, aberto no terreno baldio atrás do nosso sítio. Pela idade e pelo porte físico, destoando dos meninos menores, fui escalado para a posição de goleiro. Não me senti deslocado: no seminário já havia defendido as traves, e ali me saí com firmeza. Ao cair da tarde, quando a turminha se reunia quase diariamente, eu permanecia guardando o gol, como se fosse um posto de honra.

No Morro da Liberdade, os divertimentos eram raros, mas o futebol acontecia com facilidade. Duas equipes se destacavam: o Bangu, organizado por meu xará Roberto, praça do Exército; e o Botafogo, formado por jovens da avenida São Pedro e adjacências. Fui convidado a uma reunião com os botafoguenses, sediados na avenida São Pedro, hoje rua Tobias Barbosa. Compareci com receio, temendo a frustração, mas ao final fui “contratado” para defender o gol da equipe, apesar da minha estatura modesta de 1m64. O prestígio me animava, e não faltava às peladas de domingo, ora no campo do Guanabara, em Santa Luzia, ora no campo do Olaria, no próprio Morro da Liberdade. Esses campos, hoje, já não existem: foram engolidos pelo progresso.

Antes de encerrar a contabilidade da minha jornada esportiva, registro uma partida memorável no campo do Nacional FC, em Adrianópolis. Essa experiência, aparentemente singela, acompanhou-me no futuro, quando frequentei cursos militares no Rio e em Florianópolis. O futebol, mais do que passatempo, foi aprendizado de disciplina, coragem e resiliência — valores que se tornariam parte de minha caminhada.

Para cumprir um dos preceitos de meu padre-protetor, Juarez Maia, apresentei-me ao Serviço Militar. Foi ali que o destino me concedeu mais uma estrela, ao ser selecionado para o NPOR, justamente na fase de reinstalação. O quartel do 27° BC, onde nos instalamos, funcionava de maneira curiosa: instruções apenas nos finais de semana, improvisações que revelavam a precariedade da estrutura.

A inspeção de saúde, por exemplo, ocorreu numa enfermaria acanhada. Éramos cerca de trinta candidatos, perfilados lado a lado, desnudos, enquanto o clínico se valia de embalagens de medicamentos guardadas num armário envidraçado para realizar o exame visual. Chamados em ordem alfabética, eram observados os rótulos expostos. Eu, que não distinguia bem os nomes, memorizei-os e, assim, fui aprovado. Mas a deficiência visual logo se denunciou: no primeiro tiro de fuzil, quase atingi o pé de um graduado. Ainda assim, prossegui no curso, que logo adotou nova metodologia, com instruções diárias.

Morando ainda no distante Morro da Liberdade, precisava madrugar para alcançar o quartel no bairro de São Jorge. O transporte era realizado no caminhão REO do Exército, abarrotado de recrutas. Na condição de aluno do NPOR, eu tinha a primazia de viajar na boleia, sentindo o vento frio da madrugada e a responsabilidade de uma epopeia que começava a moldar meu futuro.

Ainda em 1965, enquanto aguardava o reinício do NPOR, que lentamente se estruturava, abri-me aos convites que surgiam. A vizinha Luzia — irmã de minha madrasta — havia adquirido uma canoa, com motor de centro instalado, que permitia pequenas viagens pelos arredores de Manaus. Assumi a condução do barco e, numa dessas excursões, seguimos até o lago do Puraquequara. Pernoitei ali com as primas — razão imediata de meu entusiasmo pela aventura — mas a noite nos reservou um tormento: os carapanãs, como chamamos na Amazônia os pernilongos, nos açoitaram sem piedade. O resultado foi a malária, que nos abateu a todos. Nem os remédios caseiros, nem as rezas fortes bastaram. A febre alta e os calafrios me levaram ao Posto de Saúde, onde um exame de sangue revelou a gravidade. A cura veio, enfim, pela medicação alopática.

Recuperado, enfrentei nova provação. Ao visitar a BR-174, ainda em construção — rodovia que ligaria Manaus a Rio Branco — fui atraído pelo desejo de ver a sobrinha de minha madrasta, residente no Km 5, próximo ao igarapé do Leão. Mas antes que a enfermidade se revelasse, guardo um episódio curioso do Dia de Finados daquele ano. Levantei-me cedo na casa da prima e caminhei até a Ponte da Bolívia, que distava quinze quilômetros de Manaus, para tomar o ônibus. O feriado, porém, suspendera o coletivo. Após cinco quilômetros de caminhada até a ponte, retomei a estrada e, dez quilômetros adiante, finalmente alcancei um ônibus. Enquanto a família já se encontrava no cemitério São João Batista, reverenciando nossos mortos, eu chegava tarde, cansado, e recebi a reprimenda de meu saudoso pai.

Deduzi que a nova enfermidade resultara da abertura de clareiras na floresta, durante a construção da rodovia. O ambiente despertava enxames de insetos e mosquitos, e um deles me transmitiu a leishmaniose. As úlceras na pele deixaram marcas que ainda hoje recordam o diagnóstico emitido pelo INPA, em implantação, e o tratamento realizado no Hospital da Guarnição de Manaus, onde fui atendido por ser o aluno 111 do NPOR.

 Aluno 111 Roberto, primeiro à esq. , em pé

À medida que o curso se aproximava do fim, os futuros oficiais R/2 buscavam abrigo seguro para o estágio obrigatório. O colega Amílcar Ferreira, vizinho do comandante da Polícia Militar do Amazonas, levou a ideia de servir naquela corporação. Apesar do regime militar instalado em 1964, o quartel da Praça da Polícia enfrentava dificuldades: efetivo reduzido, carências diversas, um ambiente de luta constante. Com os colegas de curso, visitei o quartel da PM e, mesmo diante da atmosfera desanimadora, deixamos nossos nomes numa lista de eventual aproveitamento. O destino, afinal, nos acolheu.

Concluí o curso em março de 1966, conquistando o 9º lugar na Turma Ajuricaba, entre dezessete formandos. A solenidade ocorreu no pátio do quartel, e para a ocasião consegui uma madrinha de formatura — uma “fada”, como se dizia. Não sei ao certo como alcancei tal graça; talvez pelo marido, o major Hércules, um gigante que servia na mesma unidade. A beleza da senhora encantou os formandos, que não cessavam de me interrogar sobre sua origem.

Na formatura do curso, março
de 1966

O baile de formatura, realizado no Ideal Clube, não contou com minha presença. A indigência financeira me impediu de comparecer. Mas, ainda assim, a formatura marcou um capítulo decisivo: encerrava-se uma etapa de aprendizado e disciplina, e abria-se diante de mim o horizonte da vida militar e da própria existência.

domingo, setembro 15, 2019

QUARTEL DO 27 BC



O 27, como era mais conhecido, apagou-se de nossos registros há quase 50 anos, quando foi transferido para o bairro de São Jorge, e onde sofreu uma metamorfose que de tempos em tempos acomete as Forças Armadas. Tornou-se o 1º BIS (Batalhão de Infantaria de Selva), que já acrescentou nova modalidade a sua estrutura operacional.
Hoje, Colégio Militar de Manaus. Foto da FGV

O quartel da foto (sem que eu saiba a data) é, de certo, o mais antigo da cidade. Da época provincial, acolheu o 27 BC no início do século passado. Observando-se a foto, pode-se inferir de que sofreu ampliação em todas os quadrantes. Ocupa o quarteirão formado pela rua 10 de Julho, aos fundos, e, nas laterais, pela rua Luís Antony e avenida Epaminondas, tendo à frente o “estádio” General Osório.

Foi ocupando este aquartelamento que o 27 BC se tornou legendário. Em Manaus, concentrava o maior efetivo da Força Terrestre e, por sua localização privilegiada, atendia com prontidão alguma apertura de segurança pública. Deste aquartelamento saiu, em julho de 1924, o contingente que avançou sobre o quartel da Praça da Polícia e, depois de o dominar, escorraçou o governador do Estado. A partir desse feito, durou cerca de um mês a Rebelião de Ribeiro Junior (tenente do 27 BC).

Em nossos dias, ali funciona o Colégio Militar de Manaus.

segunda-feira, abril 09, 2018

DO 27 BC PARA 1º BIS

Foto do Jornal do Commercio
Esta publicação foi recolhida do Jornal do Commercio (9 novembro 1969), comentando a transformação destas Unidades do Exercito, por isso permanecendo no mesmo aquartelamento, situado no bairro de São Jorge. 
Foi mantido o mesmo comandante: tenente-coronel Paulo Figueiredo que, ao deixar o comando daquela organização, assumiu a direção da Polícia Militar do Amazonas. 


Em solenidade realizada na manhã de ontem (8 novembro) no quartel do bairro de São Jorge, foi instalado oficialmente com a presença do governador Danilo Areosa, general Rodrigo Otávio, comandante Militar da Amazônia, prefeito Paulo Nery e outras autoridades civis e militares, o 1º Batalhão de Infantaria da Selva, extinguindo-se assim o 27º Batalhão de Caçadores, que durante longos anos foi a força do Exército sediada em nossa capital.
O BIS tem como comandante o coronel Paulo Figueiredo, que vinha exercendo o comando do 27º BC. Os flagrantes são da solenidade, aparecendo a cerimônia da troca das Bandeiras (do 27º pela do 1º BIS), e a entrega das Boinas Verdes.Militares integrantes daquele Batalhão, receberam de seus filhos as Boinas Verdes, que passaram a usar em substituição aos capacetes comuns de nosso Exército. 



quinta-feira, dezembro 07, 2017

GOVERNO MILITAR E O DESAFIO AMAZÔNICO (2)



Danilo Areosa
Prosseguindo com a postagem anterior, sobre o tema, reproduzo mais um trecho do Almanaque Municipal Brasileiro, de 1970, quando era governador do Amazonas Danilo de Matos Areosa.


Manaus é a sede do Comando Militar da Amazônia

A transferência do Comando Militar da Amazônia de Belém para Manaus marcou a maior presença do Exército, nos seus objetivos de Segurança e Desenvolvimento, em relação aos 3/5 de Brasil quase sem ocupação: a Amazônia.

Esse deslocamento do CMA para Manaus — capital da Amazônia Ocidental — evidencia a penetração fardada, senão a conquista de novos e remotos espaços geográficos, onde a dispersão demográfica e as grandes distâncias representam a maior dimensão do problema da integração. O Exército quer ocupar — deixar seus rastros de colonização do vazio. Está marchando mato adentro, transpondo rios e pântanos, para que o sigam atrás da farda, nos sulcos de seu desbravamento, as colunas do empresariado industrial, agrícola e de comercialização, implantando núcleos com condições de fixação do brasileiro no Brasil amazônico.

Recorte da citada publicação 
Por isso Manaus é a sede do Comando Militar da Amazônia. Porque Manaus funciona como centro irradiador da Amazônia Interior — a mais perdida, a mais distante, a mais longe do Brasil Desenvolvido, a que mais necessita do pioneirismo do soldado.

As gandolas entram com o capital do sacrifício. Por baixo da Bandeira que se mistura com o verde das copas, o ponto civilizador iniciado: o quartel, salpicos de casas de sapé, a escolinha, o hospital, a olaria, a serraria, a chaminé da pequena usina elétrica. Em suma: a ocupação implantada, ainda balbuciante, mas a matriz do que será, em breve, a grande Amazônia Brasileira.

Em Manaus, além da sede do CMA, está o CIGS, o Centro de Instrução de Guerra na Selva. É sem favor, o mais treinado e eficiente corpo de tropa de sua especialidade. Nem no Vietnã — nem em selva outra de paz ou de guerra — existe um CIGS com tamanho poder operativo e mobilidade de combate em meio adverso. É a lição da anti-guerrilha.

Sua fama se projetou em outros Exércitos. Pois o CIGS está formando, nas técnicas da guerra na selva, oficiais de outras nações amigas. Sua missão é a de transformar homens em supersoldados. Quem não possuir têmpera de aço, vontade dura, saúde excepcional e, sobretudo, quem não tiver motivação cívico-militar, não resistirá às rígidas instruções do CIGS. Ele forma homens para vencer. Produz a síntese da Coragem-Civismo-Técnica, dentro do imoderado amor à Pátria.

Trabalho da Força Aérea junto aos indígenas

O antigo 27° BC, hoje o 1° Batalhão de Infantaria da Selva, foi o primeiro apoio do Exército em Manaus. De suas baionetas partiu tudo o que existe na área militar da Amazônia Interior. É um Batalhão querido do povo, por onde passaram as lideranças regionais. Governadores do Amazonas contam com orgulho que foram praças do então 27° BC.

Hoje, este Batalhão prepara o soldado para a missão de fronteira, a mais prioritária do verde-oliva. Nas faixas perdidas da grande planície setentrional, a bandeira do CMA assinala a vigilância permanente e a progressiva integração. De Manaus parte o apoio logístico.

Ainda em Manaus funcionam, entre outras organizações militares, o Hospital Geral de Manaus, a Companhia Especial de Transportes, a 29ª CSM, a Comissão de Obras, com seu canteiro de construções que não lhe permitiu, sequer, pela arrancada de trabalho, o levantamento de sua sede própria. A Comissão opera na construção de casas para oficiais e sargentos, como em outros setores vinculados aos objetivos de integração.


Na Amazônia, o Exército assumiu características regionais. Outro Exército dentro do mesmo Exército. Um Exército caboclo – tão índio e tão Brasil — abrindo caminho para a passagem da civilização brasileira. O Exército exato para a Amazônia. 

sábado, setembro 16, 2017

OCULISTA & OFTALMOLOGISTA

Depois de largo tempo bem longe – cinco anos – voltei ao Milenium para uma consulta com o oftalmologista. Duas surpresas me aguardavam: como sempre, uma deleitosa e a outra nem tanto. Começo por esta. A catarata precisa ser operada. Confesso que nem me foi um sobressalto, pois, na última consulta, a médica já me apontara esta direção. Era somente questão de tempo, e este bendito chega com arrojo.
Aluno 111 Roberto (1966)

Dr. Cavalcanti foi enfático, e já marcava a cirurgia para duas semanas depois, tão logo desembarcasse de suas férias em Portugal. Todavia, não foi possível, pois também eu estava viajando à Brasília para rever alguns de meus amores. De retorno, outros agradáveis empecilhos vem adiando a intervenção.

Um salto no calendário para relembrar meus problemas com os olhos, e desse modo contar um pouco dessa evolução da oftalmologia. Há 50 e poucos anos, quando fui prestar serviço militar tive que enfrentar a inspeção de saúde, então realizada em grupo e em pelo. Éramos vinte e poucos candidatos ao NPOR e, na enfermaria do 27º BC, fomos dispostos para a famigerada seleção sanitária.

A chamada era feita por ordem alfabética. Para minha fortuna, por me chamar Manoel, fui observando o exame dos concorrentes, todos jovens de dezoito anos. E depois de sopra daqui, olha dacolá, o candidato tinha sua visão examinada. Como? Não havia material adequado na sala, como impresso alfabético afixado na parede, de maneira que o médico (não sei se especialista) mandava o candidato ler o nome de remédios expostos num armário envidraçado encostado em uma parede.

Quartel do 1º BIS, antigo 27BC

Nessa ocasião, descobri minha deficiência visual (deveria ser no plural, como foi diagnosticada muito depois). Ao perceber o embaraço para ler as marcas ou os nomes de medicamentos expostos adiante, passei – aproveitando as dicas dos colegas anteriores – a decorar tudo. Assim, quando o Manoel foi chamado para o exame visual, ele o “matou de primeira”. Saí aprovado, contente, pensando que esse subterfúgio não traria efeito.

E logo teve, bastou efetuar o treinamento de tiro. Após o ensinamento teórico, no campo, ao praticar o alinhamento da mira, veio o desastre: o projetil caiu alguns metros depois, antes do alvo. Diria, foi um tiro no pé. Interrogado pelo instrutor, sargento Fraga Dantas, disse não desconfiar da minha imperícia. Ainda assim, conclui o curso e, com a mesma insuficiência, fui incluído na Policia Militar do Estado.

Na Força Estadual, a minha admissão em 1966 foi menos traumática. Sequer houve exame médico, ao atravessar o centenário portão do quartel da Praça da Polícia, fui encaminhado em conjunto com os colegas à alfaiataria do subtenente Nonato. Logo, equipado com o famigerado cáqui, estava pronto para o serviço. E assim se passaram seis anos... até eu desembarcar na PM cearense para um curso policial, aos 26 anos de idade.

Obviamente, sem tratamento corretivo a crise visual foi se agravando. Quase ao final de 1972, levado quem sabe pelo embaraço para ler o nome do ônibus destinado a Academia de Polícia Edgard Facó, na avenida Mister Hall, ou as legendas de filmes rodados em cinemas da praça do Futuro, ou a televisão que se inaugurava a cores, recorri ao especialista, que então era nomeado de Oculista.

Aconteceu no hospital da Polícia Militar do Ceará meu primeiro exame de vista, há 45 anos! Como gostaria de registrar o nome desse facultativo, todavia, o implacável tempo desmanchou seu nome da minha memória. O exame, de então, era rematado pela leitura de letras de diversos tamanhos postadas em cartaz na parede ao fundo. A minha situação estava para um conhecido chiste: interrogado pelo oculista pelas letras, o paciente devolve, “mas, que parede?”.

Estava quase de tal modo, tanto que recordo do espanto dele ao concluir o exame: “você nunca usou óculos? Seu grau de miopia e de astigmatismo e outro desvios são acentuados”. Para encurtar a consulta: receitou-me óculos com três graus em cada lente. E recomendou: vamos aguardar a evolução do desvio. Quando recebi os óculos em ótica situada na Praça do Futuro, ainda revejo minha admiração em poder tudo ler, ao vivo e a cores.

Ainda agora são usadas letras para esse exame, mesmo com tecnologia mais apurada.
Passei a valorizar as lentes. E, de modo óbvio, a frequência aos exames periódicos, pois a recomendação do oculista cearense me “perseguia”. Já em Manaus, consultei certa ocasião a um oculista: o saudoso Dr. Avelino Pereira, que era mais político que facultativo, cujo consultório encontrava-se na rua Henrique Martins, ali no extinto Canto do Fuxico, andar acima da A Favorita. Atendia em uma sala bem acanhada e com equipamentos elementares. Acredito que ele já estivesse no “terceiro tempo”.



Ao ingressar na PM, estabeleci contato por imposição funcional com o oculista Dr. Calil Nadaf (ainda vivo). Este médico pertencia ao Serviço de Saúde da corporação, com o posto de major. Como o SS nada possuía de equipamentos, nenhum exame era possível ser realizado. De fato, era uma sinecura, que o próprio Nadaf logo tratou de dispensar, passando a cuidar de seus imóveis, onde se deu muito bem. (segue)

quarta-feira, setembro 21, 2016

AUTORIDADES NO AMAZONAS - 1970


Governador Areosa no quartel do CIM,
entregando medalhas 
RELAÇÃO DE AUTORIDADES DO ESTADO DO AMAZONAS (*)

Autoridades Estaduais:

Governador do Estado - Danilo Duarte de Matos Areosa
Vice-Governador - Homero de Miranda Leão
Chefe da Casa Civil – Dr. João Martins da Silva
Chefe da Casa Militar – Coronel PM Themistocles Henriques Trigueiro
Subchefe da Casa Civil – Dr. Emerentino Rodrigues Manso
Subchefe da Casa Militar – Tenente-Coronel PM Alcimar Guimarães Pinheiro
Oficial de Gabinete p/Assuntos Particulares – José Araújo Cavalcante
Ajudante de Ordens do Governador – Capitão PM Odacy de Lima Okada
Diretor dos Serviços Gerais do Palácio Rio Negro – Onofre de Queiroz Martins
Diretor da Divisão do Serviço Social – Demóstenes Raymundo de Queiroz Buzzaglo

Secretários de Estado:
Secretário do Interior e Justiça – Dr. José Cantanhede de Mattos Filho
Secretário de Fazenda – Dr. José Lopes da Silva
Secretário de Administração – Dr. José Caitete da Silva Filho

Autoridade Eclesiástica
Arcebispo de Manaus – Dom João de Souza Lima

Autoridades do Judiciário:
Presidente do Tribunal de Justiça – Des. Sady Paiva
Presidente do Tribunal Regional Eleitoral – Des. Joaquim Paulino Gomes

Autoridades Federais:

Ministério da Aeronáutica
Comandante da Base Aérea – Coronel Av Moacir de Carvalho Aires

Ministério da Agricultura
Diretor Estadual do MA – Dr. Mário Alves Malafaia
Delegado do IBRA  – Dr. Caio Cézar de Araújo
Delegado do INDA – Dr. José Ribamar Siqueira

Ministério das Comunicações
Diretor da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos – Dr. Mário Frazão Tavernard

Ministério da Educação e Cultura
Reitor da Universidade – Dr. Jauary G. de Souza Marinho
Inspetor Seccional do MEC – Prof. Agenor Ferreira Lima

Ministério do Exército
Quartel do 1º BIS, em São Jorge
Comandante Militar da Amazônia e 12ª RM – General de Divisão José Nogueira Paes
Chefe do Estado-Maior – Coronel Arídio Brasil
Comandante do 1° BIS – Tenente-Coronel Paulo Figueiredo A. Oliveira
Chefe da 29ª CSM – Major Expedito de Souza Pereira
Chefe do SNI (Agência de Manaus) – Tenente-Coronel Roberto Monteiro de Oliveira
Chefe da Comissão Geral de Investigações [CGI] e Comandante do CIGS – Tenente-Coronel Jorge Teixeira de Oliveira

Ministério da Fazenda
Delegada da Receita Federal – Sra. Cecilia Margarida de Oliveira
Delegado de Arrecadação – Dr. Colmar Medeiros Rabelo

Ministério do Interior
Superintendente da Zona Franca de Manaus – Coronel [EB] Floriano Pacheco
Diretor do Escritório da Sudam – Dr. Neper Antony

Ministério da Justiça
Delegado Regional de Policia Federal – Dr. Márcio José de Oliveira
Juiz Federal – Dr. Ariosto de Rezende Rocha
Juiz Federal Substituto – Dr. Aderson Pereira Dutra

(*) Extraído do Almanaque Municipal Brasileiro, ref. ao Amazonas, 1970

sábado, novembro 21, 2015

NPOR – ENCONTRO ANUAL

Na continuidade da comemoração do primeiro centenário do 1º BIS(Amv), o comando desta Unidade promoveu nesta manhã o Encontro anual dos eternos alunos do NPOR/1º BIS.  Devo assinalar que este curso funcionou em Manaus por ocasião da II Guerra. Depois de 20 anos de interrupção, voltou a formar os oficiais da reserva, a partir de 1966.
Pavilhão de comando do 1º BIS, na formatura dos
eternos alunos do NPOR

Ao encontro, compareceram mais de duas centenas de eternos alunos.
A recepção ocorreu no Cirmam, onde as turmas foram se reencontrando, em especial as mais antigas.  Também neste local, houve a recepção pelo comandante do BIS, tenente-coronel Alexandre dos Passos.
Seguiu-se uma vídeo conferência com a transmissão da palavra do comandante do CMA (Comando Militar da Amazônia), general de Exército Theophilo Gaspar, falando desde o Estado de Roraima onde se encontra em missão.

A seguir, a comunidade passou às dependências daquele quartel, para apreciar a exposição de armas e outros recursos bélicos e visita as instalações do NPOR.

Veio, então, o momento mais exigido dos “cabeças brancas”, ao menos da metade.  Foi o momento da formatura no pátio externo, com tudo que manda o regulamento: entrega de medalhas, salientando-se a que premiou post mortem o aluno nº 1 da turma de 1944, Roderick Castelo Branco (lembrado professor dedicado do Colégio Estadual e eficiente filatelista). A comenda foi recebida pelo filho do homenageado -- Rodemark Castelo Branco.

Ainda tivemos (pertenço a turma de 1966), entrega de medalha do Centenário do BIS; a palavra entusiasmada do representante dos oficiais da reserva; a do general Poty, chefe do Estado-Maior do CMA; o canto da Canção da Infantaria e, ufa, às 11 horas da matina, em plena canícula, o desfile da tropa. Entre mortos e feridos, todos chegaram ao destino.  
No meio do dia, encerrando o Encontro, foi sérvio o almoço na Toca da Onça.

A ocasião serviu para múltiplos acertos, como a comemoração do cinquentenário da turma Ajuricaba, que vai festejar seu cinquentenário em março próximo. Serviu ainda para reafirmar que o Núcleo de Preparação de Oficiais da Reserva nos une em prol da Amazônia.

Selva!!!

Tenente-coronel Alexandre Passos recepcionando os convidados

Registro da solenidade.

sábado, novembro 14, 2015

NPOR - 1º BIS(AMV)

Na passada quinta-feira (12), oficiais R/2, oriundos do NPOR (Núcleo de Preparação de Oficiais da Reserva), reuniram-se no quartel do 1º BIS (Batalhão de Infantaria de Selva), sucedâneo do legendário 27 BC (Batalhão de Caçadores).

O objetivo do encontro era organizar a festa de confraternização que acontece no próximo sábado (21). Também, serviu para delinear as atividades que marcarão o cinquentenário da Turma Ajuricaba, que ocorre em março do  ano vindouro. Trata-se da terceira turma desta organização de formação militar. 
As primeiras formaram em 25 de agosto de 1944 e 1945, ao tempo da Segunda Guerra, segundo dados colhidos na imprensa local.(*)

Para que se compreenda a valorização que os jovens de então dispensaram a essa convocação, tomo o nome de Adriano de Queiroz, conhecido advogado, e que prestou renomados serviços ao Estado na sua área profissional. Ele, nascido em 1913, e bacharelado pela Faculdade de Direito do Amazonas em 1937, participou da turma de 1944. 

Duas observações, antes de relacionar os 45 concludentes, nenhum deles vivo para abrilhantar a festa. O primeiro lugar coube ao aluno Roderick Castelo Branco (cujos filhos são bastante conhecidos na sociedade) e o orador, o aluno João Martins da Silva, outro respeitável advogado de nossa cidade. Enfim, o baile de formatura ocorreu no Ideal Clube.
 
Sede do Ideal Clube onde foi realizado o baile
Adriano Queiroz, (1913) bacharel 1937
Agnello Uchoa Bittencourt, (1923-97) bacharel 1945 / aluno 61 / Academia Amazonense de Letras
Agobar Garcia Vasconcelos, (1919) / bacharel 1948
Aldemir Paes Lima de Miranda, (1918) bacharel 1942 / aluno 21 /
Alcimar Guimarães Pinheiro, bacharel 1961 / oficial PMAM
Alexandre Carvalho Pimenta, (1924) / bacharel 1954 /
Alípio Meninéa Netto, (1923) / bacharel 1952 /
Aluísio Brasil Lima,
Augias Augusto Pinheiro Gadelha, bacharel 1947
Bento Rocha da Silva,
Claudio Lemos de Aguiar, médico
Clovis Angelim, bacharel
Elias dos Santos Ferreira,
Francisco de Assis Albuquerque Peixoto, (1920) / bacharel 1949 / deputado estadual / comandante da PMAM
Geraldo Dantas,
Jersey Nazareno de Brito Nunes, (Acre 1921) bacharel 1947
João Mendonça de Souza, (1915-
2003) / bacharel 1952 / da Academia Amazonense de Letras
João Martins da Silva (orador), (1920) / bacharel 1947
João Alfredo Sampaio Nunes de Melo,
José de Jesus Ferreira Lopes, bacharel 1948 / desembargador
José de Araújo Paiva,
José Milton Caminha da Silva, bacharel 1947 / juiz de Direito
Júlio Seixas,
Joaquim Gonzaga Pinheiro, bacharel 1955 / promotor público
Luiz Barros,
Luziadas Ferreira dos Santos,
Manoel Antunes,
Manoel Dias de Souza Cruz,
Manoel Alexandre Filho, (1919) / bacharel 1952
Manary Vasconcelos Mendes, bacharel 1943 / transferido para OAB/São Paulo.
Mario Silvio Cordeiro de Verçosa, (1924-89) bacharel / desembargador / Academia Amazonense de Letras
Mario Melo Mendes,
Milton Cesar de Araújo e Lima,
Newton Galvão de Alencar,
Odorico Rodrigues de Andrade,
Oyama de Macedo, bacharel 1948 / serventuário de Justiça
Orange Soriano de Mello, dentista
Osvaldo Teixeira Mendes,
Pietro Antonio Celani, (1922) / bacharel 1947
Roderick Castelo Branco (1º lugar),
Rodolfo Lopes Martins, bacharel 1949 / juiz do Tribunal de Contas
Samuel Isaac Benchimol, (1923-2008) / bacharel 1945 / escritor / Academia Amazonense de Letras / da empresa Bemol
Sylvio Moura Tapajós, (1918) / bacharel 1952
Waldir Garcia, professor / bacharel 1946 / juiz de Direito
Wilson Zuany Figueiredo, (1920) / bacharel 1945

(*)  O Jornal, 25 de agosto de 1944 
A responsabilidade sobre os dados pessoais cabem ao autor da postagem. A maioria dos jovens concluiu a Faculdade de Direito, a única então existente.   

sábado, janeiro 18, 2014

CORONEL WILDE BENTES (2)

 
Coronel Bentes, na posse
do comando-geral da
PMAM
Para recordar o coronel Wilde de Azevedo
Bentes, ex-comandante da Policia Militar do
Amazonas, reproduzo a página do jornal
TRIBUNA DE ÓBIDOS, que circulou no 2º
trimestre de 2000, editado pelo Paulo Onofre
Lopes de Castro, para saudar o
“filho da terra”.
Como é fácil observar, desde a circulação,
mais de uma década já se escoou e muita
água passou sob a ponte Rio Negro, de
sorte que esta transcrição sofreu pequenos
acertos de rumo.
Esta é a segunda parte.

A INFÂNCIA

Wilde Bentes teve uma infância normal, como todas as crianças de sua época.
Estudava e ajudava o pai que era comerciante, mas como não poderia deixar de ser,
ele fugia para tomar banho na beira do rio, ali perto do comércio do seu Isaac
Hamoy. Sua mãe, July de Oliveira Bentes, era muito religiosa e lhe ensinou, com
austeridade, os primeiros mandamentos da Lei de Deus. Seu pai, Romero de
Azevedo Bentes, mais conhecido por Nerico, era cartorário, virou escrivão do
1º Ofício.
Depois de aposentado, abriu um comércio no flanco direito do Mercado Municipal,
onde continuou trabalhando. "Tínhamos uma fazenda lá no município de Oriximinã,
no igarapé dos Currais, e todos os finais de ano íamos passar as férias por lá,
pescando, tomando banho, comendo ovos de tracajá - naqueles tempos, podia",
lembra.

Dos tempos de garoto, Wilde Bentes se lembra da professora Glória com quem
aprendeu as primeiras lições. "Para reforçar os estudos, meu pai me botou na
aula particular com o professor Manduca, onde eu apanhei muitos “bolos” na aula
de matemática. No primeiro dia na nova escola, foi tudo muito bem, no segundo
dia, sem aviso nenhum, já houve uma sabatina. Eu cheguei em casa com as mãos
inchadas", recorda sorrindo e olhando para as mãos, reconhecendo que
"foram esses “bolos” de palmatória que me motivaram a estudar muito bem
matemática e, graças a Deus, eu nunca mais apanhei um bolo lá. Hoje eu já não
concordo com esse tipo de educação", raciocina calculando.

Seus amigos daquela época era o Max Chocron, que hoje é médico. Em Manaus,
ele se reúne sempre com o Pedro Gato, com o Dr. Nivaldo e a Zeny. "Há quatro
anos a minha filha sofreu uma queda de motocicleta e o Dr. Nivaldo foi quem
tratou dela, em sua clínica", agradece, sem censurar a filha, lembrando que na
sua época só existiam lambretas e a sua brincadeira de moleque era correr e
brincar de manja dentro d´água.

Como seu pai tinha um comércio no mercado, próximo do rio, ele tinha que sair
escondido para uma parte do rio que ficava depois do começo do Hamóy.
"A turma dessa época me chamava de Bigú. Eu não sei o motivo desse apelido.
O meu irmão mais velho, que hoje é advogado, já era chamado de Bigú e, como
eu era parecido com ele, também me tornei Bigú".

"Nós éramos nove irmãos, eu sou o oitavo deles. Atualmente tenho dois irmãos
em Óbidos, o Waldir, que é aposentado do Cartório, e o Wilton, que é pecuarista;
em Belém moram o Wilson, a Nilda, a Nilma, o Wulfio, o Wulfir. A Nelci já é
falecida", recorda Bentes. (segue)