CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

9 de maio de 2012

Luiz Bacellar no Dr. Thomas


Luiz Bacellar, 2008
O poeta está enfermo, recolhido a uma enfermaria da Fundação Dr. Thomas. Ali, era se recupera de uma cirurgia ortopédica; por isso, por algum tempo estará incapacitado de circular. E sua ausência pelas calçadas e outros pontos da cidade começa a inquietar àqueles que privam desses momentos. Apesar de seus mais de oitentanos, Bacellar vai se recuperando bem.

Homem solitário, pode até o mês passado dispensar o auxílio de outro laço. Vivia com a reserva que lhe é própria, até ser atingindo em acidente de trânsito. Os jornais noticiaram em pequenas notas.
Agora no Dr. Thomas, avisa aos saudosos que a visita está programada em dois horários: pela manhã, das 10h às 11h e, pela tarde, das 15h às 17h.

Mas, qual a motivação para tantos desvelos, afinal, quem é o poeta Luiz Bacellar? A identificação vem de seu amigo, poeta Thiago de Mello, que certifica esse afeto em seu livro Manaus, amor e memória (4ª ed., 2004).

§ B de BACELLAR

De Luiz Bacellar, o meu amado Luiz. Um dos mais altos poetas, não só de Manaus, mas do nosso tempo. Me sinto orgulhoso - e até publicamente faço alarde desse orgulho - de merecer o afeto (o enrolado afeto) desse caboclo em quem reconheço um dos homens mais refinadamente cultos de minha geração.

Há coisa de trinta anos que nós brigamos todos os dias, quero dizer todos os dias meus vividos em Manaus, quando eu chego e é ele uma das primeiras pessoas a quem procuro. Isso quando ele não adivinha a minha chegada num lance de premonição e é o Luiz que me vem ao encontro.

Brigamos por quase tudo. Pondo de parte matéria ideológica e a minha esperança na transformação da sociedade humana, sobre a qual ele de público me apoia com o silêncio e um ostensivo ar de desfastio, para depois, sozinho, afirmar com uma frase cortante e cortês a sua discordância - o pior é que quase sempre o danado do Luiz está com a razão.

Uma noite recente no Galo Carijó o poeta quis saber das minhas moradas em Paris; eu lhe entreguei, mais interessado no jaraqui do Alfredo, detalhes de ruas e boulevards, e me referia ao Hotel Esmeralda, ali na rue Saint-Julian le Pauvre, cuja janela se abria para a frente da Notre Dame, quando o Bacellar me interrompeu: "Pela frente não, pela esquerda".

Ele estava certo; ele que nunca esteve em Paris, conhece a cidade melhor do que eu. O caboclo tem finas sutilezas para divergir; simplesmente não diverge: interrompe o interlocutor, geralmente com uma pergunta que nada tem a ver com o tema da conversa.

Eu disse "caboclo"? Está certo; mas caboclo de sangue nobre, e ele se exige respeito, maciamente. Bacellar tem brasão e usa anel de sinete, é mestre em heráldica, sabe todos os ramos antigos dos barões e dos viscondes do outro lado do mar que abrem a linhagem dos Franco de Sá e dos Bacellar.
Thiago de Mello, em sua posse na
Academia Amazonense de Letras,
1955

Primavera sangrenta do Chile, 1973: quando consegui "Ia visa" para sair, levava na minha bolsa, terrivelmente revistada pelos militares de Pinochet, apenas três livros: um deles era o Frauta de Barro, uma das mais importantes obras da poesia brasileira de todos os tempos - e toda escrita em Manaus.

Eu precisava levar comigo a poesia do companheiro pelos caminhos ainda ignorados que eu deveria percorrer sozinho em nome do amor ao meu povo. Quando o avião tomou a altura das nuvens, abri a minha querida bolsa de couro, retirei o volume e li em voz alta, no meio do medo aliviado dos passageiros que escapavam do inferno:

No livre azul o sossegado vento
lívido sonha linhas de escultura

que moldará nas nuvens no momento
de apascentá-las pela tarde pura.


Num arrepio de pressentimento
o ruflo de asa risca na brancura,
o sol arranca brilhos do cimento
do muro novo, a folha cai. Madura.

Tudo o verão proclama. A tarde limpa,
esmaltada de claro; pela grimpa
do morro verde a cabra lenta vai ...

A luz resvala na amplidão sonora.
Por que senti roçar-me
a face agora
um beijo, um frêmito, um suspiro, um ai?