CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

25 de maio de 2012

Arthur Engrácio versus Hugo Bellard


Arthur Engrácio

Arthur Engrácio ganhou o prêmio Prefeitura de Manaus 1976, com seu livro A Berlinda literária, que o autor conclama tratar-se de “notas de leitura”. Escritor amazonense laureado, integrou os primeiros momentos do Madrugada. Engrácio era na verdade um respeitável crítico.
O texto que reproduzo – Nem tanto nem tão pouco - das páginas deste livro, cuida do livro de poesia de Hugo Bellard, Angústia, sonho e pecado, circulado em 1954.


Na sua quase totalidade, os intelectuais da província têm, já, por princípio, acatar com um respeito quase místico as opiniões que emitem os escritores da metrópole acerca de uma obra literária qualquer.

Daí o mutismo em que se recolhem ante o aparecimento de um livro aqui pelos nossos pagos, procedente do Sul. No seu acanhado modo de ver, livro prefaciado por Afrânio Coutinho, Álvaro Lins, Sérgio Milliet, Agripino Grieco e outros pontífices das letras brasileiras, é livro bom, excelente, não precisando da sua crítica para que seja aceito pelo público. Entendem que a "marca registrada" de um desses grandes da literatura é suficiente para valorizar qualquer volume impresso, seja de autor de mérito ou medíocre.

O autor destas linhas não reza por essa cartilha. Pois sabe que há uma política dos prefácios como há uma política dos governos, das religiões, dos padres etc. E, como um novo São Thomé, antes prefere ver com os próprios olhos e apalpar com as próprias mãos.
Esta a razão que o traz aqui para falar de um livro de versos há pouco aparecido em nossas livrarias, ou seja, Angústia, Sonho e Pecado, do Sr. Hugo Bellard, editado pela Pongetti, Rio de Janeiro.

Capa do livro

Sem fugir às regras dos célebres prefácios de que acabamos de falar, o livro apresenta-se com três juízos críticos de três vultos eminentes da literatura nacional: Agripino Grieco, Álvaro Moreyra e Berilo Neves.

Abre o poeta sua brochura com o soneto Larápio, que mestre Berilo Neves, em sua carta ao autor, num rasgo de elogio que chega ao exagero, não hesita em dizer que "poderia ser subscrito por qualquer dos grandes poetas contemporâneos, da nossa língua".
Aqui o soneto:


Queixaram-se à polícia: - Era um reles ladrão,
patife refinado, astuto e sem moral!
Ao padeiro roubara um pacote de pão,
Violando, fundamente, o direito social!

O delegado, austero e homem de razão,
zeloso defensor do Código Penal,
manda, sem vacilar, que o metam na prisão
para não prosseguir na prática do mal!

No covil do gatuno, a cena ocorre assim:
Ao chegar, impiedoso e rude, o beleguim,
a mulher, sobre a esteira, em febre se consome...

E quando o pária sai, a luz dos olhos morta,
macilento e andrajoso, -- o filho chega
à porta
e diz
à meia voz: - Papai, estou com fome!...

Discordamos do ponto de vista do ilustre homem de letras, porque:

- Sendo o soneto uma das formas de composição poética clássica por excelência e que, por isso mesmo, requer de quem o escreve a necessária mestria, não descurando nem da forma nem da ideia, Larápio, como uma composição dessa ordem, sob o crivo de uma crítica conscienciosa, deixa muito (ou tudo) a desejar.

- Uma rápida leitura do trabalho em apreço dá-nos ideia da sua pouca densidade. O autor abusa dos versos agudos, o que, sobre tornar monótona e enfadonha a sua leitura, atenta contra as regras elementares da poética.

- Juntem-se à essas falhas o fecho do soneto, o seu metro forçado, as suas expressões de mau gosto, e ter-se-á concluído que mestre Berilo foi, realmente, muito longe no seu panegírico. Longe demais.

Reportamo-nos especialmente ao soneto Larápio não porque não haja no livro outros exemplos de igual natureza, mas pelo fato de ter sido o mesmo posto em pé de igualdade, pelo crítico, aos trabalhos dos nossos grandes vates contemporâneos, coisa que, honestamente, não corresponde à verdade. Perlustrem-se Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Jorge de Lima e outros excelentes poetas contemporâneos da nossa língua e não se encontrará, na sua vasta bibliografia, um soneto tão mal construído quanto este Larápio do Sr. Bellard.
Hugo Bellard

Temos míngua de espaço e tempo. Por isso não transcreveremos os muitos exemplos maus colhidos no livro do Sr. Hugo Bellard. Citaremos apenas alguns, que têm uma finalidade: confirmar o adágio popular de que "nem tudo que brilha é ouro", e que nem sempre a capa bonita de um livro e seus prefácios encomiásticos são credenciais suficientemente válidas para a glória de um autor.

Na página 16 do volume, no segundo quarteto do soneto "Eu", lemos isto (com grifo nosso):

Conduzo no meu peito estranho idealismo,
que me faz procurar estrelas não sonhadas,

que me atira, impetuoso, aos gestos de heroísmo
e a me fazer irmão das almas flageladas!


Uma forma estranha de concordância que não conhecíamos ainda. Não seremos, contudo, demasiado exigente quanto a esse ponto. Pois sabemos que os poetas, na sua maioria, nunca deram muita importância às regras gramaticais. Prossigamos.

Mais adiante, iniciando o soneto Hora Infecunda, à página 39, dá-nos ele esta amostra:
Uma hora o relógio já bateu...
Quero fazer uns versos - não consigo!
A ideia foge e, assim como Proteu,
Muda de forma sempre que a persigo.

Não se faz mister um estudo demorado para notar-se a pobreza técnica e poética desta estrofe. O autor, forçando o metro, torna o verso frouxo, desengonçado. Haja vista o primeiro verso desta quadra. Obedecendo às regras da boa métrica, o referido verso teria apenas nove pés e não dez como quer o poeta. Em "uma hora" ele faz quatro sílabas quando, na realidade, só existem três. A última vogal da primeira palavra, segundo as regras já encionadas, funde-se com a primeira da segunda, no caso o "h" inicial do verso, que, poeticamente, tem o valor de vogal. Medido corretamente, como pedem, ainda, as normas da métrica, o verso ficará de pé quebrado, de vez que o acento rítmico vai incidir sobre a quinta sílaba do mesmo (regio).

Avançando mais, à página 69, cai-nos sob a vista este terceto do soneto Ficaste que, sobre estar cheio de lugares-comuns, dá margem à ambiguidade:

Oh! bendita obsessão, que não tem fim!...
Sonho, acordado, olhando outras mulheres,
que estás me enchendo de felicidade!...

Poderíamos ir mais longe, apontando aqui e ali, nas páginas de Angústia, Sonho e Pecado, falhas seriamente comprometedoras do nome do autor, que já não é um estreante. Todavia, se assim o fizéssemos, estaríamos alongando muito estas linhas que outro objetivo não tem senão fazer um apanhado das nossas impressões sobre a obra.
                    * * *

Em síntese, a leitura dos sonetos do Sr. Hugo Bellard deixou-nos um tanto decepcionado. Lendo-os, não experimentamos aquela sensação de bem estar que nos deixa sempre o contato com a boa poesia. Notamos nos sonetos do poeta uma ausência total de tudo que nos pudesse falar à alma, à inteligência, à sensibilidade.
Mas não se infira daí que as cento e duas páginas de Angústia, Sonho e Pecado são constituídas apenas das composições que acabamos de apreciar. Absolutamente.

Há no livro do bardo amazonense poemas cuja beleza seria uma injustiça da nossa parte ocultar. Se recusamos os seus sonetos, nem por isso deixamos de elogiar-lhe as outras composições. Nessa parte, aliás, é onde o artista sobressai-se: dá novas entonações à lira e chega, para o nosso contentamento, a apresentar-nos poemas como Retirantes, Poema Triste, Inquietação e Guerra, o qual, a nosso ver, é a melhor peça do livro. (1954)