CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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domingo, agosto 02, 2026

POESIA DOMINICAL (02)

 

Mensário nº 2, outubro 1996
Thiago de Mello, ilustração de 
Van Pereira


Na antemanhã da floresta Jorge Tufic me acompanha

             De moço me levaste a uma varanda / aberta para um céu feito de chão / coberto de                     palavras que inventavas / para que eu descobrisse o dom dos pássaros.

                        Na tarde de um aposento colorido, / rua Joaquim Nabuco, abriste a caixa / das                         goivas e formões com que domavas / os olhos e o perfil dos teus milagres.

             De mãos dadas, em frente aos Educandos, / no segredo das faixas aprendemos / as                     águas que navegam nosso peito.

             Temperos, tempo, estrelas e distâncias, / poderes foram com que me ensinaste                         / que castelos de bruma não se esfumam. 

                                                      Barreirinha, outubro 96


terça-feira, novembro 05, 2024

ENCONTRO DE TRÊS POETAS AMAZONENSES

O encontro aconteceu nas páginas do Jornal de Commercio, em 14 de agosto de 1970, ocasião em que o poeta Anibal Beça (1946-2009) ilustrou sua página no jornal apreciando outro vate: Luiz Bacellar (1928-2012). Beça aproveitou o ensejo para incluir na conversa o parceiro desta arte Thiago de Mello (1926-2022). Convido a ler a postagem compartilhada da página do matutino. Detalhe: a fotografia foi realizada pelo artista Salgado. 

Recorte da página do periódico

UM POETA UM NOBRE

Luiz Franco de Sá Bacellar, considerado por muitos a figura mais expressiva do movimento modernista amazonense, nasceu em Manaus, na rua Saldanha Marinho, na casa de seu avô e padrinho, José Pinto Franco de Sá (Seu Zezé), a 4 de setembro de 1928. Descende de uma linhagem nobre e ilustre e toda sua gente é maranhense de quatrocentos anos. Seu avô paterno João Marinho Bacelar era filho do senhor das terras de Nossa Senhora da Conceição, da vila do Brejo de Anapurus [MA] na margem maranhense do rio Parnaíba. Estudou no Colégio de São Bento em S. Paulo, com os monges beneditinos que lhe deram uma formação cavalheiresca e teutônica. E é o poeta mesmo quem diz que até hoje é meio prussiano.

Começou a trabalhar na imprensa de Manaus em 1945, no jornal “A Gazeta”, que tinha como secretário Herculano de Castro e Costa. Bacellar já correu quase todos os jornais de Manaus. Em 1956, transferiu-se para o Rio de Janeiro onde cursou no Museu Histórico Nacional a matéria técnica de conservação de museu. No Rio, Bacellar trabalhou nos jornais: “O Globo”, “Correio da Manhã” e o “Dia”.

Voltando para Manaus, continuou a trabalhar na imprensa e recentemente lecionou no Colégio Estadual do Amazonas - História da literatura - e no Conservatório de Música, História da Música. Atualmente é conservador da Pinacoteca do Estado e membro do Conselho Estadual de Cultura. Começou a escrever poesia muito cedo, depois de ter lido Bandeira e Drumond para extravasar como ele diz sua veia humorista. Ainda hoje se considera mais humorista que poeta. 

FRAUTA DE BARRO  e SOL DE FEIRA — A OBRA

Luiz Bacelar com relação à sua obra é sério, meticuloso e seus poemas são elaborados com a preocupação de comunicar, divertir e, procura em pesquisas, conservar, registrar as tradições populares e costumes estilizando a literatura oral do povo. Haja vista o livro Frauta de Barro na série de poemas do romanceiro suburbano, onde o poeta mostra-nos vários poemas coletados da nossa literatura oral: O caso da Neca, Santa Etelvina, Chiquinho das Alvarengas etc.Frauta de Barro foi seu livro de estreia com o qual venceu, em 1959, o grande prêmio “Olavo Bilac” da Prefeitura do Distrito Federal [hoje Rio].

A primeira tiragem do livro foi de 110 exemplares, o que tornou Frauta de Barro um livro raro, Bacellar vêm a mais de quatro anos lutando pela reedição, que já está reformulada e aumentada e sairá com orelha do poeta Thiago de Mello:

Sou completamente suspeito para escrever qualquer palavra sobre este grande poeta que é Luiz Bacellar. Mais suspeito ainda para dizer qualquer coisa sobre este Frauta de Barro, um dos mais belos e também mais importantes livros surgidos na literatura brasileira destes últimos anos. Minha suspeição se explica simplesmente: Bacellar é, já faz tempo, um dos meus poetas amados, junto com Neruda, Apollinaire, Drummond, Joaquim Cardoso, Lorca, Fernando Pessôa e Carlos Pena Filho. Frauta de Barro é um livro que viaja comigo e que me vem dando, companheiro bom, sua firme e transparente ajuda. Quando Frauta de Barro me ajuda? por exemplo, quando meu ser, mordido de escuridão, reclama o sol da poesia: e recordo em voz alta, o soneto de verão, e a claridade de seu mistério me fortalece. Por exemplo, longe do Brasil (quantas vezes recitei com Neruda sonetos de Bacellar). (...)

Bacelar é o verdadeiro poeta de Manaus. Ele soube captar, íntima e inteira, a alma da nossa cidade, que palpita, transfigurada, nas páginas deste belo livro. E mais: Luiz Bacelar, meu amigo, há quase vinte anos, amizade que é para mim uma festa e da qual tanto me orgulho, não é apenas um dos artistas brasileiros a quem mais respeito e admiro, é também uma das pessoas humanas a quem mais quero bem, e cujo convívio me inaugura, permanente o sortilégio colorido e profundo da alegria.

Sucede que Luiz, apesar da minha suspeição, me pede um texto para servir de orelha à segunda edição de Frauta de Barro. A um pedido seu não me posso fazer de rogado. Mas não lhe dou orelha. O que lhe mando é, no fundo, uma declaração de amor, publicamente. Ass. Thiago de Mello - Paris, Primavera. 

DOIS LIVROS DUAS PREMIAÇÕES

Sol de Feira, o segundo livro do poeta também foi premiado. Ganhou no ano passado [1969] o grande prêmio Estado do Amazonas. E vários dos seus rondeis serão musicados pelos compositores: Waldemar Henrique, Nivaldo Santiago, Emmanuel Coelho e Dirson Costa. O lançamento está previsto para este ano e terá ilustrações dos nossos melhores artistas plásticos. Tem ainda inéditas peças em teatro e conto - em teatro, a trilogia “Cesar Brando”, “Luar de mortos” e “A paz mora nas montanhas”. Em conto, “Os funerais do príncipe Baluba” (estória do enterro de um “soba” africano educado em Cambridge). 

BACELAR - CONDE DRÁCULA, O HOMEM E O MITO

Luiz Bacelar, também é, junto com Farias de Carvalho o poeta mais conhecido e mais popular de nossa cidade. Em torno de sua figura gira um sem fim de estórias e anedotas. Ser chamado de vampiro, conde sinistro, bruxo etc. o poeta recebe em tom de gozação e esportividade. Uma das anedotas mais conhecidas é a que o Bacellar chegou ao canto do Pina e um rapaz aproximou-se e perguntou:

 — O senhor é que é o poeta Bacellar?  — Sou sim. Por que?

 — É porque eu sou estudante e andava atrás de uma pessoa letrada para me dar uma informação a respeito dessa formiga, de que ramo e qual a sua família.

— Seu colega, confesso que eu não sei

—  Como! uma pessoa como o senhor não sabe, então ninguém mais, sabe.

Bacellar saiu, cabisbaixo, desconfiado e foi para a casa. Passou uma semana ninguém via o Bacellar. 10 dias e lá vem o Bacellar. Encontra o rapaz no Pina e tira do bolso umas 20 folhas de papel datilografadas e começa a ler: BREVE ESTUDO DAS TANAJURAS, JIQUITAIAS E SAÚVAS, verdadeiro tratado científico à cerca das formigas.

Uma outra conhecida e que foi fato verídico, foi a parada com o Alfredo Belmont. O Belmont é um gozador emérito e sabendo que o Bacellar ficava chateado quando alguém mexia com seu nome, aprontou essa:

— Bacelar, hoje eu fiz uma descoberta sensacional. Remexendo nos papéis de família descobri a origem do teu nome. Meu bisavô que era um fidalgo em Portugal, tinha a seu serviço um cavalariço que ele sempre esquecia do nome. Certa feita, querendo o velho passear a cavalo começou a gritar: Oh! rapazito, bai selar, bai selar, bai selar... o meu cavalo. E daí, toda vez que o velho precisava do rapaz, dizia: vai chamar o bai selar.

O poeta Bacellar ficou olhando, sério e saiu-se com essa: — Engraçado! Alfredo, eu também descobri a origem do teu nome Belmont. Um dos meus ancestrais, o Visconde da casa castalda mira Y solar de Bacellar, tinha uma camareira que deu à luz a um menino que era tão feio, tão feio, que quando o velho foi ver, olhou, olhou e disse: mas, que belo monte, que belo monte de **** (asteriscos); e esse menino, Alfredo, era teu bisavô.

Estórias como estas correm aos montes e o poeta diz: O quê que eu posso fazer, inventam muitas mentiras, eu só faço achar graça, eu acho até que funciona promocionalmente, eu sou o único vampiro simpático do mundo.

quarta-feira, março 29, 2023

SILOGEU AMAZONENSE & ACADÊMICOS

 A Academia Amazonense de Letras possui a galeria de seus acadêmicos cinquentenários - de vida acadêmica. Compartilhado de revista da Casa de Adriano Jorge vão expostos os quatro primeiros a conquistar este laurel. Outros já conquistaram: Elson Bentes Farias (2019) e William Rodrigues (2020) e, proximamente, Newton Sabbá Guimarães (abril 2023).


 

quarta-feira, janeiro 19, 2022

DESPEDIDA FILIAL

O texto pertence ao Tiago, filho do poeta Thiago de Mello, amazonense que brilhou nos círculos literários do país, falecido nesta semana, aos 95 anos. A publicação circula nas redes sociais e chegou ao meu conhecimento através do poeta Zemaria Pinto. 

A ilustração saiu da inspiração do artista plástico Marius Bell.


Mensagem do Thiago, filho do poeta Thiago de Mello

Passei três semanas no Amazonas, viajando sozinho. Se é que é possível dizer que viajei sozinho, pois sempre estive acompanhado de gente que me quer bem, amigos e familiares que encontrei pelo caminho. Gente que amo e que me constitui. Fui com dois propósitos nessa imersão solitária. O primeiro, visitar meu pai. Estar com ele por alguns momentos, já ciente da situação de saúde e cuidados na qual ele se encontrava. Depois, fui com o objetivo de iniciar uma reforma inadiável em nossa casa à beira do rio, em Freguesia do Andirá, no interior do município de Barreirinha, a quase 350 km de Manaus. Um dia de barco pra chegar até lá.

A casa me pede zelo já há um tempo e estou há uns meses organizando uma campanha para arrecadar recursos para as obras. Consegui uma parte do dinheiro através da generosidade e da compreensão de muitos amigos e conhecidos, todos amantes da amizade, da poesia, da Amazônia e da obra literária de meu pai. Todos sonhadores como eu, que sabem, como meu pai, que arte e cultura geram evolução individual e progresso social.

Embarquei no final de dezembro para Manaus, sendo acolhido pela minha família amazonense que tanto quero bem. Fui ao apartamento de meu pai e Pollyanna. Ele já estava praticamente sem se levantar. Fui até o quarto. Quando ouviu minha voz, comentou: "voz bonita a do meu filho". Com a memória dissolvida pelo tempo (do qual não se corre) e pelas neuropatias, perguntou meu nome e se eu tinha filhos. Disse que me chamava Thiago e que tinha duas filhas. Nossas mãos entrelaçadas num carinho suave e ancestral. "Mas então nós temos o mesmo nome", ele notou. Falei que isso tinha sido invenção dele, pôr meu nome Thiago Thiago de Mello. No que ele, após um certo silêncio, falou baixinho: foi pra ficarmos juntos até mesmo no nome. "Cuida bem das suas filhas". (Eu me emocionei muito nessa hora porque queria dizer a ele que se sou um bom pai é porque ele foi o melhor formador e educador que eu pude ter).

Seguimos nossa conversa cheia de silêncios e respirações. Quis saber o que eu fazia da vida. "Canções e poemas", não titubeei. Ele fez que sim com a cabeça e repetiu "canções e poemas, isso". Perguntei se eu estava indo no caminho certo. "Certíssimo", ele me disse com a voz grave de trovão adormecido. Comentei que estava indo para Barreirinha cuidar da nossa casa, pedi a sua benção ("Deus lhe abençoe", me beijando a mão) e segui o meu caminho rumo ao rio Andirá, dos Saterês-maués.

Fiquei semanas num país submerso, me nutrindo do passado, de banho de cheiro, tucumãs, ovas de curimatã, sombra de castanheira, amizades verdadeiras e caldeiradas de tucunaré e tambaqui. As obras começaram. Retiramos as vigas podres. Os esteios corroídos substituímos por madeira nova. Passamos óleo queimado para afugentar o cupim de terra traiçoeiro. Compramos tinta, cimento, ferro. Vieram os trabalhadores. As telhas chegaram de Parintins, presente de Antonio Beti, cuja doação jamais esquecerei. Recebi tanto em minha jornada pelas águas. Fiz um trabalho firme, aguentando o rojão sob chuva e sol quente.

Barreirinha, onde meu umbigo está enterrado, me acolheu como sempre. Vi a felicidade nos olhos de gente simples, hospitaleira, contadora de histórias. É com meus irmãos e irmãs ribeirinhos que meu espírito se molda e evolui. Na verdade, estava sem saber, me preparando para um adeus após uma longa despedida. Fortaleci minha alma estando naquele lugar, berço meu, que aprendi a amar com meu pai e minha mãe desde que pra lá fui levado aos 6 meses de idade.

Voltei pra Manaus e fui ao apartamento ver meu pai. Ele não me respondeu, já completamente dentro do seu próprio mundo, distante daqui. Pedi um violão e, então, comecei a tocar. As lágrimas caíram, eu sentado e ele deitado na cama. Tirei do baú as canções que sempre cantávamos juntos: "Azulão", "Por que tu te escondes", "Linda vida", "Pai velho", "Quem me levará sou eu", "Faz escuro, mas eu canto". Fiquei ali cantando por mais de trinta minutos, a primeira vez em nossas vidas que ele não cantou junto comigo. Foi um concerto de despedida. A nossa despedida tinha que ser com música e poesia, universo no qual sempre nos encontrávamos.

Saí dali e fui comer um pacu assado de brasa em sua homenagem. Botei bastante pimenta murupi e tomei um suco de taperebá pra aliviar o peito. No dia seguinte, logo cedo pela manhã, papai atravessou o rio da vida. Morreu dormindo, bravo merecedor. Parece que estava só me esperando para seguir à Casa do Infinito. Sincronicidade astral, projeto dos deuses, dádiva da natureza. Ele foi em paz. Estamos de luto, mas em breve cantaremos com alegria, como ele sempre nos ensinou. 


sábado, junho 23, 2018

MOMENTO LITERATURA

O poema pertence ao reconhecido mestre Thiago de Mello, com ilustração de Otoni Mesquita, e foi publicado na revista O Muhra (produzida pela Secretaria de Cultura e Estudos Amazônicos, datada de janeiro/fevereiro 1998).


Aprendiz do espanto


Não deflorei ninguém. (Um bom começopara o livro que não devo escrever.)A primeira mulher que eu vi desnuda
(ela era adulta de alma e de cabelos)
foi a primeira a me mostrar os astros,mas não fui o primeiro a quem mostrou.Eu vi o resplendor de suas nádegasde costas para mim, era morena,
mas quando se virou ficou dourada.
Sorriu porque seus peitos me assombraram
o olhar de adolescente desafeitoà glória da beleza corporal.
Era manhã na mata, mas estrelas
nasciam dos seus braços e subiam
pelo pescoço, eu lembro, era o pescoço
que me ensinava a soletrar segredos
guardados na clavícula. Pediajá estirada de bruços me chamando,
que eu passasse meus lábios pelas pétalasorvalhadas da nuca, eram lilazes,
com as gemas de leve eu alisasse
as espáduas de espumas e esmeraldas,
queria a minha mão lhe percorrendo,
mas indo e vindo, o vale da coluna,
cuidadosa de mim, trés doucement.
Ela me inaugurou o contentamento
inefável de dar felicidade.
Tanto conhecimento só podia
ser de nascença, hoje eu calculo.
Não
era um saber de experiências feito,
Ilustração de Otoni Mesquita

mas quanta ciência para transmiti-lo.
Ela era de outras águas, a fontana
de trinta anos, que veio lá do Sena
com a sina de me dar a beber
- na aurora dos seus olhos, nos seus peitos,
na boca musical, no mar do ventre,no riso de açucena, na voz densa,
nas sobrancelhas e no vão das pernas
o mel antigo da sabedoria
de que a libido cresce quando atende,
de que a tesão se acende na ternura,
que as antessalas se prolonguem vastas
até estar pronto para entrar no céu.

 Freguesia do Andirá, fim de 97.

quarta-feira, setembro 10, 2014

POETA THIAGO DE MELLO



Thiago de Mello é candidato à Academia Brasileira de Letras

Mello em sua posse na Academia Amazonense de Letras


O poeta amazonense Thiago de Mello é candidato à cadeira 32 da Academia Brasileira de Letras, que tem como patrono o poeta e dramaturgo Araújo Porto-Alegre e cujo último ocupante foi Ariano Suassuna.

Thiago jamais pleiteou uma vaga na ABL, embora tenha sido instado por vários amigos que por lá passaram, desde o poeta Manuel Bandeira até o próprio Suassuna. Mas não resistiu ao apelo do amigo de mais de 60 anos Carlos Heitor Cony:

– Ó Thiago, eu não quero morrer sem ver você na Academia. Depois eu morro pra você sofrer um pouco.

Cony, que tem a mesma idade de Thiago, continua trabalhando e produzindo regularmente.

O principal adversário de Thiago de Mello é o colunista global Zuenir Ventura, 83 anos, autor de 1968: o ano que não terminou, além de cinco outros títulos. Já não bastava o Merval Pereira...

Aliás, no quesito bibliografia, o caboco suburucu dá um banho de cuia. Confiram.

Bibliografia de Thiago de Mello

POESIA

Silêncio e palavra. Rio de Janeiro: Hipocampo, 1951.
Narciso cego. Rio de Janeiro: José Olympio, 1952.
A lenda da rosa. Rio de Janeiro: José Olympio, 1955.
O andarilho e a manhã. José Olympio, 1960.
Tenebrosa acqua. José Olympio, 1960.
Toadas de cambaio. José Olympio, 1960.
Vento geral (1951-1960). Rio de Janeiro: José Olympio, 1960. (Prêmio Olavo Bilac da Academia Brasileira de Letras)
Faz escuro mas eu canto. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1965.
A canção do amor armado, 5 ed.. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1983.
Poesia comprometida com a minha e tua vida, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1975. 5 ed. Civilização Brasileira, 1983.
Os estatutos do homem, edição ilustrada por Aldemir Martins. Martins Fontes, São Paulo, 1977. 3 ed. 1980.
Horóscopo para os que estão vivos. São Paulo: Martins Fontes, 1980.
Mormaço na floresta. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2 ed. 1983.
Vento geral II- Poesia 1951/1981. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1984.
Num campo de margaridas. Rio de Janeiro: Philobiblion, 1986.
De uma vez por todas. Rio de Janeiro: Bertand Brasil, 1996. (Prêmio Jabuti de melhor Poesia)
Campo de milagres. Rio de Janeiro: Bertand Brasil, 1998. (Prêmio Jabuti de melhor Poesia)
Faz escuro, mas eu canto. Rio de Janeiro: Record e São Paulo: Altaya, 1999. (coleção Mestres da Literatura Brasileira e Portuguesa)
Poemas preferidos pelo autor e seus leitores. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2000.
A floresta vê o homem. Men viem from the forest – Edição bilíngue. Organizado e Tradução de   Sérgio Bath. Manaus: Valer, 2006.
Melhores Poemas: Marcos Frederico Krüger Aleixo (Seleção e prefácio) São Paulo: Global, 2009.
Os Estatutos do Homem. Edição trilíngue .  Versão castelhana de Pablo Neruda. Versão inglesa Robert Marques e Trudy Pax. Vergara y Riba, São Paulo. 2012.
Como sou. São Paulo: Global. 2014

PROSA

Notícia da Visitação que fiz no Verão de 1953 ao rio Amazonas e seus Barrancos. Ministério da Educação, 1957.
A estrela da manhã. Ministério da Educação, 1958.
Arte e ciência de empinar papagaio. Manaus, 1982.
Manaus, amor e memória. Rio de Janeiro, Philobiblion, 1984.
Amazonas, a menina dos olhos do mundo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1992.
Amazonas, pátria da água. Water Heartland. Edição bilíngue. Fotografia de Luiz Claudio Marigo. São Paulo: Sver & Boccato, 1990 (Prêmio Osvaldo Orico da Academia Brasileira de Letras, em 1989)
O povo sabe o que diz. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 2. Ed. 1993.
Borges na luz de Borges. São Paulo: Pontes Editores, 1993.
Amazonas águas, pássaros, seres e milagres. Rio de Janeiro: Salamandra, 1998.
Os milagres da palavra. Florianópolis, Museu/ Arquivo da Poesia manuscrita, 1998.
Tradução: arte de recriar. Florianópolis, Museu/Arquivo da Poesia Manuscrita, 1999.
Mamirauá, Foto: Luiz Claudio Marigo. Tefé: Sociedade Civil Mamirauá, 2002.
ABC da floresta Amazônica. Com Pollyanna Furtado. Fortaleza: Conhecimento, 2008.
O desafio do exílio. In: Caderno do Refúgio. Brasil: ACNUR, 2007.

Neruda no coração da floresta. Memorial da América Latina: São Paulo, 2008.

Se o quesito qualidade da obra fosse o único determinante ele já estaria eleito. Infelizmente, academias têm lá seus achaques e tiques. Desde Richelieu. Nossa torcida para o poeta.


* colado do palavradofingidor.blogspot.com - do poeta Zemaria Pinto.

quarta-feira, maio 09, 2012

Luiz Bacellar no Dr. Thomas


Luiz Bacellar, 2008
O poeta está enfermo, recolhido a uma enfermaria da Fundação Dr. Thomas. Ali, era se recupera de uma cirurgia ortopédica; por isso, por algum tempo estará incapacitado de circular. E sua ausência pelas calçadas e outros pontos da cidade começa a inquietar àqueles que privam desses momentos. Apesar de seus mais de oitentanos, Bacellar vai se recuperando bem.

Homem solitário, pode até o mês passado dispensar o auxílio de outro laço. Vivia com a reserva que lhe é própria, até ser atingindo em acidente de trânsito. Os jornais noticiaram em pequenas notas.
Agora no Dr. Thomas, avisa aos saudosos que a visita está programada em dois horários: pela manhã, das 10h às 11h e, pela tarde, das 15h às 17h.

Mas, qual a motivação para tantos desvelos, afinal, quem é o poeta Luiz Bacellar? A identificação vem de seu amigo, poeta Thiago de Mello, que certifica esse afeto em seu livro Manaus, amor e memória (4ª ed., 2004).

§ B de BACELLAR

De Luiz Bacellar, o meu amado Luiz. Um dos mais altos poetas, não só de Manaus, mas do nosso tempo. Me sinto orgulhoso - e até publicamente faço alarde desse orgulho - de merecer o afeto (o enrolado afeto) desse caboclo em quem reconheço um dos homens mais refinadamente cultos de minha geração.

Há coisa de trinta anos que nós brigamos todos os dias, quero dizer todos os dias meus vividos em Manaus, quando eu chego e é ele uma das primeiras pessoas a quem procuro. Isso quando ele não adivinha a minha chegada num lance de premonição e já é o Luiz que me vem ao encontro.

Brigamos por quase tudo. Pondo de parte matéria ideológica e a minha esperança na transformação da sociedade humana, sobre a qual ele de público me apoia com o silêncio e um ostensivo ar de desfastio, para depois, sozinho, afirmar com uma frase cortante e cortês a sua discordância - o pior é que quase sempre o danado do Luiz está com a razão.

Uma noite recente no Galo Carijó o poeta quis saber das minhas moradas em Paris; eu lhe entreguei, mais interessado no jaraqui do Alfredo, detalhes de ruas e boulevards, e me referia ao Hotel Esmeralda, ali na rue Saint-Julian le Pauvre, cuja janela se abria para a frente da Notre Dame, quando o Bacellar me interrompeu: "Pela frente não, pela esquerda".

Ele estava certo; ele que nunca esteve em Paris, conhece a cidade melhor do que eu. O caboclo tem finas sutilezas para divergir; simplesmente não diverge: interrompe o interlocutor, geralmente com uma pergunta que nada tem a ver com o tema da conversa.

Eu disse "caboclo"? Está certo; mas caboclo de sangue nobre, e ele se exige respeito, maciamente. Bacellar tem brasão e usa anel de sinete, é mestre em heráldica, sabe todos os ramos antigos dos barões e dos viscondes do outro lado do mar que abrem a linhagem dos Franco de Sá e dos Bacellar.
Thiago de Mello, em sua posse na
Academia Amazonense de Letras,
1955

Primavera sangrenta do Chile, 1973: quando consegui "Ia visa" para sair, levava na minha bolsa, terrivelmente revistada pelos militares de Pinochet, apenas três livros: um deles era o Frauta de Barro, uma das mais importantes obras da poesia brasileira de todos os tempos - e toda escrita em Manaus.

Eu precisava levar comigo a poesia do companheiro pelos caminhos ainda ignorados que eu deveria percorrer sozinho em nome do amor ao meu povo. Quando o avião tomou a altura das nuvens, abri a minha querida bolsa de couro, retirei o volume e li em voz alta, no meio do medo aliviado dos passageiros que escapavam do inferno:

No livre azul o sossegado vento
lívido sonha linhas de escultura

que moldará nas nuvens no momento
de apascentá-las pela tarde pura.


Num arrepio de pressentimento
o ruflo de asa risca na brancura,
o sol arranca brilhos do cimento
do muro novo, a folha cai. Madura.

Tudo o verão proclama. A tarde limpa,
esmaltada de claro; pela grimpa
do morro verde a cabra lenta vai ...

A luz resvala na amplidão sonora.
Por que senti roçar-me
a face agora
um beijo, um frêmito, um suspiro, um ai?