CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

22 de maio de 2012

O poeta Jonas da Silva (1880-1947)

Acredito que foi bem pensada a data da próxima Quarta Literária – 6 de junho. Nessa data, estará completando 65 anos de morte o poeta Jonas da Silva, exatamente o escolhido para ser apreciado por sua obra poética. Raros conhecem este poeta. Sua obra (três livros), realizada nas primeiras décadas do século passado, perdeu-se na “margem esquerda do rio Negro”, apesar do esforço da Editora Valer em reeditar Czardas, o livro publicado em 1923, em Manaus.

Aproveito a ocasião para reproduzir um texto divulgado por ocasião do centenário de nascimento, e que explica em parte as razões que fizeram Jonas da Silva cair no esquecimento. Aproveito ainda para convidar para a próxima QL, que promete.

Jonas da Silva: os cem anos do poeta do mármore

 Deoclydes de Carvalho Leal


Canta. O teu canto é um cálice de vinho./
Vinho de som que me embebeda o ouvido.

Há cem anos nascia, em Parnaíba, no Piauí, o autor desses versos: Jonas da Silva. Exatamente no dia 17 de dezembro de 1880, três anos depois que a primeira e avassaladora seca castigou o Nordeste brasileiro. Fez parte de uma geração que elegeu o "rijo mármore do verso" como uma verdadeira bandeira literária e que, por incrível que pareça, tem ainda hoje uma enorme plateia entre estudantes principalmente.

Jornal A Crítica, 17 dezembro 1980

Escolheu Manaus multo cedo, como o centro dessa atividade intelectual que o situou como dos primeiros, entre seus pares de escola: Olavo Bilac, B. Lopes, Medeiros e Albuquerque, Alberto Oliveira e outros estilistas do parnaso. Fez parte da Academia de Letras do Amazonas e do Piauí. Fundou o cine teatro Politeama, que abrigou a sociedade amazonense e hoje está reduzido a linearidade de uma arquitetura de supermercado, ali, no cruzamento das avenidas Getúlio Vargas e Sete de Setembro.

Um poeta do Piauí com destino amazonense, inclusive no esquecimento de todas essas gerações que o sucederam, sem o mesmo brilho e mimo. Gerações que aprenderam a esquecer. Gerações sem escolas. Os livros de Jonas da Silva não foram reeditados, e raras bibliotecas (bibliotecas são sempre raras em Manaus) particulares mantém-no vivo, com a linguagem do seu verso esmerilado.
Jonas da Silva fez os estudos preparatórios no Ginásio Amazonense, que foi Colégio Estadual recentemente.

Mas, formou-se em Odontologia, aos 19 anos, no Rio de Janeiro, onde fez sua estreia literária com a publicação do Amphoras, que recebeu o prefácio entusiasmado de B. Lopes, o consagrado autor de Brasões, uma espécie de guru desta escola poética.
Tinha 20 anos, Jonas da Silva, quando de sua estrela em livro. B. Lopes não poupou elogios: “Terei mesmo a ousadia de dizer que você procura   para dourar os seus sonetos a mesma pampilha usada nos meus”. Mas, logo reconheceria a individualidade de Jonas: “Todavia, irrompe dos seus brunidos e cariciosos sonetos um halo de ouro lanceolado como um símbolo de força, de galanteria e de conquista”. E o entusiasmo de B. Lopes não para nesse reconhecimento.
Ele quer ser sincero com o jovem Jonas: “Para que fique na minha memória um verso, é preciso que esse verso me agrade e eu tenho alguns dos seus”, por exemplo: Que os passarinhos, quando a moça canta / Voam cantando pela casa a dentro. Ou, “As cimitarras trêmulas dos braços.” Tinha boa memória B. Lopes em se tratando de um poeta que estreava num circuito de extremo rigor pelo verso.

Jonas da Silva casou três vezes. Do primeiro casamento com D. Maria Balbi Carreira, nasceram-lhe o Dr. Alberto Carreira da Silva, ex-diretor da Saúde Pública; e um dos maiores sanitaristas do Brasil; Jandira, que foi casada com o comerciante Joaquim Amorim Junior, e Sulamita, falecida, que foi casada com o Dr. Deoclydes de Carvalho Leal. Do segundo casamento com Joana Facundo do Valle, não teve filhos. Casou-se em terceiras núpcias com D. Marina Ortiz, havendo duas filhas gêmeas, Jandira e Julieta, que hoje vivem no Rio de Janeiro.  
O poeta publicou o segundo livro em 1904, com o título Ulhanos, e o seu terceiro livro, Czardas, foi editado em 1922 (sic), quando já começavam a repercutir as rebeldias do que foi consagrado chamar de Modernismo Brasileiro. Respeitado e aplaudido desde o seu primeiro livro por Olavo Bilac, Jonas da Silva morreu em Manaus a 6 de junho de 1947.
Em sua obra é farta a referencia à sua filha Sulamita (que às vezes chamava Sulá), como é fácil reconhecê-la no poema Granadeiros de chumbo do seu primeiro livro, que a memoria da família guarda como se fora a sua musa.
Em Manaus, o centenário de seu nascimento não tem a homenagem que ele mereceu e merece, mas, que parecia adivinhar quando escreveu, para a memória fértil de B. Lopes:

Antes ficasse eternamente mudo.
Antes ficasse eternamente cego.