CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

29 de maio de 2012

MANAUS OU MANÁOS?

O trabalho aqui postado foi retirado do jornal A Notícia, assinado por Robério Braga, reproduzindo relatório do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA). O autor ainda não havia assumido a presidência daquele instituto, e longe de sua posse na Secretaria de Cultura do Estado.
Jornal A Notícia, 22 maio 1974

O Consulado do Japão, em maio de 1974, endereçou consulta ao Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, visando recolher informações sobre a utilização do vocábulo MANAUS, motivo da alteração de sua grafia e desde quando passou a ser grafado nos documentos oficiais, como hoje se escreve.

Para atendimento àquela solicitação, o então Presidente do sodalício, desembargador André Vidal de Araújo, que cognominei de “desembargador da bondade”, designou uma comissão para estudos e redação do documento final a respeito do assunto. Coube-me redigir a informação que foi levada ao conhecimento do ilustre representante do povo da terra do sol nascente, entre nós.

Para conhecimento de uma camada mais ampla da comunidade, passo a transcrever a seguir as mesmas explicações prestadas àquela altura, baseando-me nas pesquisas e contribuições de diversos membros da Casa de Bernardo Ramos, e para esclarecimento de dúvidas que vêm sendo suscitadas, entre os estudantes, sempre motivadas por informantes mais afoitos ou despreparados.

O vocábulo MANAU era atribuído à uma das muitas tribos que habitaram o rio Negro, compondo celebre confederação tribal dedicada à defender a região contra a invasão dos europeus.
Poucos são os recursos para a classificação e divisão do povo encontrado na Amazônia, é a opinião do professor Antônio Braga Teixeira, e toda a base de quaisquer estudos linguísticos pode ser desenvolvida sobre a fonética, sendo desconhecida a escrita e com ela regras rígidas, bem cuidadas, da grafologia dos vocábulos.  

Assim é que os etnólogos afirmam que os índios MANAU são de origem ARUAQUE, segundo se pode ver em Lima de Figueiredo e Armando Levy Cardoso, citados pelo mestre André Araújo, que também lembra a aparência de MANAU com MANOA.
Os estudos de Pedro Luiz Simpson, patrono de uma das poltronas do nosso Instituto e figura de relevo no saber, como de Pe. Lemos Barbosa, Plínio Ayrosa, Frederico G. Edeiweiss demonstram, pela fonética araucana ser mais certa, mais concordante com a língua da tribo que originou esta cidade, MANAU com U e não MANAO com O. Eles bem evidenciam as profundas e diversas razoes etimológicas para a alteração da grafia.

São bastante conhecidas as dificuldades de distinção da pronuncia das palavras escritas com O ou U em final de vocábulos, formando ditongo. Ainda hoje, em razão de regionalismos podem parecer oralmente iguais – Manáos e Manaus.
Sabemos que não existe em qualquer gramática que discipline a ortografia de termos aruaques incorporados à Língua Portuguesa determinação da pronúncia e/ou grafia de Manaus com O.

Na Língua Aruaca como se refere André Araújo, o O tem dois sons: fechado (avô) e aberto (socó). Assim, entendia aquele mestre que a pronúncia indígena verdadeira deveria ser MANAUS e nunca MANAÔS ou MANÁOS. Não há uma lei que determine o uso do U, mas, etimologicamente é assim que deve ser grafada.

Jornal já extinto, circulado em 1923, com a grafia de Manáos
O professor Arthur Cezar Ferreira Reis, amazonólogo de grandes e indiscutíveis méritos, às páginas 77 de sua obra História do Amazonas, editada em 1931, em nota de rodapé mostra que “Antônio Brandão de Amorim e outros conhecedores do nheengatu preferem grafar Manau”, mas o ilustre professor à época grafava com O.

Octaviano Mello, em obra editada pelo Governo do Estado, mostra o contraste de Manaus com uma das formas femininas de MANOUH, MANOU, MANU, MANI, que são abreviações de nome hebraico - Munouchyak e suas variações, donde veio a palavra indo-tupi, HOUCHA, homem ou gênio nascido de Manou, significando, conforme o autor procurou demonstrar às páginas 31 de Topônimos da Amazônia, deus dos índios.

A palavra que denomina nossa cidade tem sido grafada de diversas formas: MANOU, MANAU, MANAO, MANÁO, MANAHA, MANAVE, MACNAL, MANOUH, MANOUÃ, MANÁOS.
Pela construção da fortaleza, hoje com placa simbólica, moldada em bronze, fixada no prédio da antiga Secretaria de Fazenda, Manaus data de mais de 300 anos, e à época de sede da Capitania, como da Provincia, o vocábulo era escrito com O.


Embora desde o dia 19 de março de 1937 os atos oficiais venham apresentando a grafia MANAUS, como se vê do decreto nº 117, publicado no Diário Oficial do Estado, nº 12.589, foi somente em 14 de julho de 1939 que o próprio Diário corrigiria o cabeçalho, passando a circular com a grafia que há pouco mais de dois anos já havia utilizado. Verifique-se, a respeito, o exemplar de nº 13.192, do DOE.

Em 1908, publicado pela Tipografia J. Renaud & Comp., Bertino de Miranda lançava seu livro sobre Manaus, trazendo a grafia com U. Porque então somente em 1937 passou-se a utilizar esta grafia, nas obras de escritores locais, como nos órgãos e documentos oficiais, não consegui identificar.
Dois documentos de 1910, um com Manáos (acima), outro,
com Manaus (abaixo)

Fato interessante e digno de nota é que o primeiro ato a trazer a grafia MANAUS, e que foi assinado pelo político e intelectual Álvaro Botelho Maia, concedia prêmios a estudantes do curso secundário. Era sexta-feira, 19 de março de 1937.

Os critérios ortográficos que primeiro determinaram a grafia MANAUS, resultaram do acordo assinado entre as Academias de Letras do Brasil e Portugal, com a chancela dos respectivos governos, em 1943.

Estas informações servem a todos que busquem saber da nossa história e da própria língua, que nos mantém unidos.