CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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sábado, fevereiro 06, 2016

PERICLES MORAES & HUGO BELLARD (2)

Segunda parte do artigo publicado pelo então presidente da Academia Amazonense de Letras, Pericles Moraes, apreciando o trabalho literário do poeta Hugo Bellard (1914-89), cujas considerações e amizade contemplaram o autor de Ajuricaba com a Cadeira 28, empossado em 1950. 
Posse de Hugo Bellard, jornal A Gazeta, abril 1950

REFLEXÕES SOBRE UM POETA 



O legendário guerreiro manau aí se projeta das estrofes plásticas e resplandescentes, no quadro vertiginoso dos seus sentimentos e de suas angústias, que se debatem em lances de tragédia. O que há de afirmativo em Ajuricaba é que nele existe o elevado potencial dinâmico dos artistas predestinados, dos artistas que nasceram dotados para as pesquisas estéticas.

Seria, no entanto, curioso que, quando tanto se exaltam os altos méritos de poeta, ficasse determinada a sua posição entre as correntes literárias de nossa época. Diante dessa arte fascinante, porém recuada de mais de meio século, como se manifestariam as reações da crítica?

É indiscutível que Hugo Bellard está completamente à margem das influências renovadoras da arte contemporânea. Os poetas de hoje já não toleram a servidão do metro e da cesura, nem admitem a grandiloquência das rimas ricas e torturadas, que se esgotaram com os últimos remanescentes do parnasianismo.

O esquerdismo “à outrance” não se conforma com a revivescência das fórmulas antigas. Para o temperamento desses pseudo-renovadores, o soneto, o alexandrino, a balada, o "triolet" e o canto real são expressões obsoletas, de uma poesia cujo prestígio declinou e se extinguiu com o perpassar dos anos. No ímpeto do momento atual, representaria um desafio insensato quem se aventurasse a compor um poema ainda modelado pelas formas fixas de outrora.

Ajuricaba, no conceito dos impenitentes iconoclastas, será pura arqueologia. Desprovido da seiva que aciona as inteligências jovens, essa poesia estará relegada ao menosprezo acintoso das gerações de hoje. O próprio modernismo, que teve em Graça Aranha e Jackson Figueiredo os seus insignes precursores, é letra morta para a irreverência das "novos”, na ilusão de que seja possível, por exemplo, obscurecer a obra e o pensamento de um Ronald de Carvalho, o prodigioso criador de Toda a América, e dos senhores Tasso da Silveira e Guilherme de Almeida, para citar apenas três luminares desse momento estético, já consagrados em definitiva.

Há dezoito anos, precisamente, Humberto de Campos, figura paradigmária de juiz literário, discreteando sobre Horas Lentas, do nosso inesquecível Raimundo Monteiro, da família espiritual de Hugo Bellard, relatava um episódio de sua vida, a propósito de um incêndio que ajudara a apagar, vibrando golpes desesperados nas portas fechadas e devoradas pelas chamas, no intuito de salvar os moradores que lá se encontravam.

Um bombeiro, que estava presente, segurou-lhe o braço, explicando ironicamente que o seu esforço era inútil, de vez que todos os moradores já tinham fugido pela porta da outra rua. "Poeta, parnasiano, esclarecia o autor de Memórias, artista que ainda vasa as suas emoções em sonetos e versos caprichosamente medidos, o senhor Raimundo Monteiro representa, no caso, aos meus olhos, o papel que eu próprio representei, aos do bombeiro, naquela noite de incêndio. 
É como eu um homem bem intencionado, mas que chegou tarde. Descendo do Amazonas remoto e selvagem, vem em busca dos irmãos em estética, dos poetas que amavam a língua e o metro. E ao bater à porta do templo que os Eróstratos incendiaram, encontra-me aqui, para dizer-lhe:
-- Não há ninguém mais aí, meu amigo...
E com tristeza, minha e sua:
-- Os sacerdotes saíram pelos fundos..."

Seja, porém, como for, embora tenha chegado tarde em demasia, Hugo Bellard traz consigo tão avultada soma de virtudes literárias, distribuídas consonantemente, que a sua poesia permanecerá viva ainda por muito tempo na admiração dos que sentem e compreendem a sedução dos verdadeiros artistas.

Eu, de mim, o considero uma consciência estética em ação. E' um artista cativante que mantém íntegra a tradição dos poetas ilustres do passado, ressuscitando-lhes os tumultos e as inquietações interiores. Artista retardatário, se quiserem, mas rejuvenescido com as ideias do presente, com a intuição de seus processos evolutivos, sem atraiçoar nem deprimir os cânones estéticos do passado.

Ajuricaba, pode-se dizer, é a tragédia do ameríndio rebelado contra a tutela do adventício. Poema de grandes movimentos humanos, ele representa uma atitude criadora e marca uma data na história das letras amazônicas.

Novembro, 1948PERICLES MORAES

sexta-feira, fevereiro 05, 2016

PERÍCLES MORAES & HUGO BELLARD

Em nossos dias, são raros os que conhecem essas duas figuras de nossas letras. O primeiro, que foi membro e presidente da Academia Amazonense de Letras, segue
Pericles Moraes
lembrado por seus pares. Bellard, autor de romances e poemas na década de 1940, segue cada vez mais esquecido.


Reproduzo em duas partes, artigo de Moraes sobre Bellard, quando este produziu dois trabalhos em poesia, que permitiram conquistar a amizade de Moares e seu ingresso na Casa de Adriano Jorge.

REFLEXÕES SOBRE UM POETA

Nesta olimpíada literária em que concorreram os valores concretos da mentalidade amazonense, nas letras e nas artes, disputando a glória de celebrar, no seu primeiro centenário, os brasões ilustres da cidade excelsa que Lobo d'Almada implantou nos confins do Brasil, houve uma inesperada revelação, entre os mais afoitos competidores: o poeta Hugo Bellard.

Esse artista, quase desconhecido em nossos círculos intelectuais, que esquece as ardentias da juventude refugiado na aridez de um estabelecimento bancário, lidando com cifras e oscilações monetárias, exsurge de repente, numa demonstração de inteligência e vitalidade, transudando talento por todos os poros, dominado pelo anseio de sobreviver pelos imperativos de sua obra.
Eu mesmo só de nome o conhecia. Recordo-me que, certa noite, sem nenhuma apresentação, ele me visitara para presentear-me com uma "plaquette" de sua autoria sobre Tiradentes. O seu rosto ascético de uma palidez de mate, a calvície precoce e reluzente, o olhar inquiridor e voluntarioso, a prosa eloquente e abundante, as faculdades emotivas apuradíssimas, tudo isso dava-me a lembrar aquele franciscano excêntrico da sátira de Mirabeau, que fugira do seu convento silencioso para, distante da solidão, num clima de morbidez pecaminosa, aprimorar e requintar a exaltação de todos os sentidos. Acudiu-me de súbito esta reminiscência literária quando o vi pela primeira vez.

O poemeto, lido logo depois, completou a impressão que me deixara o seu espírito, apesar de tê-lo recebido com precavida desconfiança. Tratava-se, evidentemente, de um artista raro, possuído do instinto da beleza e embriagado pelas paisagens exóticas, que se coloriam com a sonoridade e a opulência das rimas.

Seus versos nobres e harmoniosos agradaram em cheio. Todas as almas e todos os corações se abriram escancaradamente para o poeta. Os críticos e a imprensa desbordaram-se em louvores, glorificando o citaredo, que parecia inoculado daquele bonheur litteraire, cujo segredo, no seu mecanismo psicológico, foi descoberto por Gourmont, ao destroçar os idólatras de Edmond Rostand.
Vieram depois as comemorações do Centenário de Manaus. O milagre da criação fecundava-lhe o espírito. Não haveria outra oportunidade melhor para tentar um surto mais altaneiro, que lhe consagrasse definitivamente o nome. O poeta não a deixou escapar.

Enfronhando-se nas bibliotecas, manuseando arcaicos palimpsestos, revolvendo estudos e memórias inerentes aos aborígenes, vasculhando a poeira dos subsidias históricos, lograra pacientemente adquirir a matéria prima indispensável às colunas mestras do monumento em via de realização.Depois de curta ausência, Hugo Bellard reapareceu no meu gabinete para recitar os alexandrinos translúcidos e perfeitos de Ajuricaba, que assim se intitulava o seu novo poema. Ouvi-lhe religiosamente a leitura e convenci-me de que, lealmente, eu me defrontava com um poeta de extrema sensibilidade, susceptível de interpretar a alma heroica dos homens, desvendando-lhes as dúvidas e os sofrimentos por entre as luzes ofuscantes de suas construções métricas.

Não era apenas um artista sensível à disciplina e ao encadeamento logico da ação, que se desenvolve no seu poema refletindo-lhe as próprias emoções. Hugo Bellard, além do mais, se assenhorava de uma nova concepção arquitetural do vale amazônico, descrevendo-o em todo seu esplendor bárbaro.
O que surpreende desde logo na arte deste "ensorceleur" é a sua intuição objetiva, posta à prova no discernimento com que, ao plasmar os mistérios e as alucinações da floresta virgem, contorna os perigos do exagero. Se tivesse autoridade, eu colocá-lo-ia, tal a força viva de seu poder de exteriorização, ao lado dos grandes interprestes da Amazônia: de Alberto Rangel e de Alfredo Ladislau, entre os mortos, e dos senhores Ferreira de Castro e de Ramayana de Chevalier, o nosso esplendido Ramayana, de No circo sem teto da Amazônia, entre os vivos. Porque esse poema, só por só, define uma personalidade de exceção. (segue)


segunda-feira, outubro 08, 2012

Livros publicados em Manaus (1900-60) 3ª parte



Publicado em 1949
Tomei a iniciativa de listar os livros que foram publicados em Manaus, no século passado. Para facilitar a exposição, limitei-os ao período de 1900 a 1960. Abaixo, outra curta amostra.

1920

CABRINHA, Hemetério. Meu sertão. [s.n.], 113p. (Biblioteca Pública)
AZEVEDO, Raul de. Amigos e amigas. Palais Royal. (Biblioteca Pública)
PEREIRA, Altair. Nelumbos: versos. Tipografia Cá e Lá, 55p. (biblioteca MYM)

1924

MORAES, Raymundo. Notas dum jornalista. Livraria Clássica.
AZEVEDO, Raul de. A alma inquieta das mulheres. Livraria Clássica. (Biblioteca Pública)
BITTENCOURT, Antônio C. R. Memória do município de Parintins. Palais Royal. (Biblioteca Pública )
LINHARES, Aurelio. Phantasias. Livraria Clássica. (Biblioteca Pública)
REZENDE, Análio de Mello. Pajurá versus Serra Azul. Tipografia Cá e Lá. (Biblioteca Pública)
GONDIM, Joaquim. Folhas secas (versos). Tipografia de Augusto Reis. (biblioteca MYM)

1947
Publicado em1942

PASSOS, Djalma. Poemas do tempo perdido. Ed. Centro Plácido Serrano (acervo de Almir Diniz).
ARAÚJO, André Vidal de. Estudos de Sociologia. Escola Técnica. (Biblioteca Pública)
GAMA, Themistocles da. Literatura versificada (opiniões de João Leda e Américo Antony). Typografia Vilhena (Biblioteca Pública)
MONTEIRO, Mário Ypiranga. O Aguadeiro. [s.n.] (Biblioteca Pública)
PIMENTA, J. Nicoláo. Novos aspectos do cenário amazônico: história, politica, crônica e contos da vida real. [s.n.] 131p. (Biblioteca Pública)
ROSAS, Moacyr G. Rio de Janeiros & mulheres. [s.n.], 50p. (Biblioteca Pública)
VERIDIANO, Heitor. Perfis amazônicos. Imprensa Oficial, 147p. (Biblioteca Pública)

quinta-feira, setembro 27, 2012

Livros publicados em Manaus (1900-60)

Editado pelo Departamento de Estado
de Imprensa e Propaganda, em 1944



Diante de vasto material bibliográfico consultado, tomei a iniciativa de listar os livros que foram publicados em Manaus, no século passado. Para facilitar a exposição, fixei o período entre 1900 e 1960. A razão é bastante simplória. A partir deste ano, em especial com a presença do governador Arthur Reis (1964-67), um volume extraordinário de livros foram aqui lançados. Basta recordar que as coleções deste governo se aproximam de 150 livros.

Meu intento é divulgar os dados básicos das obras e, se possível, a capa; quando não for possível, a folha de rosto. Espero acrescentar algumas informações, como a localização das tipografias, das impressoras. Enfim, onde pode ser encontrado o material impresso.

Surpresas fatalmente devem surgir. Em Manaus, os editores, os frequentadores de “sebo” sabem das dificuldades para se encontrar algum material dessa espécie. Apesar de “catador de papeis” habilitado, não espero revelar “todos” os lançamentos realizados nas seis décadas observadas.  
 
O autor nasceu em Urucará (AM) e o
livro foi lançado na Academia Amazonense
de Letras.  

Ao final, quem sabe, eu possa transformar esse novelo em mais um lançamento. Ilustro a postagem com algumas espécies coletadas.

1908

FARIA E SOUZA, J. B.; SOUZA, A. Monteiro de; e BAHIA, Alcides. A Imprensa no Amazonas (1851-1908). Tipografia da Imprensa Oficial. (Acervo Biblioteca MYM)
BITTENCOURT, Agnello. Contribuição para a corografia política do Estado do Amazonas. Tip. Palais Royal.
Governo do Estado. Catálogo do Estado do Amazonas – Exposição Nacional de 1908. Tip. Palais Royal.
FERRAZ, F. J. da Silva. Através do Amazonas: Manaus ao Javari. Tipografia do [jornal] Amazonas. (Acervo Biblioteca Pública)
MIRANDA, Bertino (B.M.). A cidade de Manaus: sua história e seus motins políticos. J. Renaud. (Acervo Biblioteca Pública)

1942

BATISTA, Djalma. Medicina e estética: discursos de formatura. Imprensa Pública. (Acervo Biblioteca Pública)
MADEIRA, Armando. Ao sair do templo. Imprensa Pública. (Acervo Biblioteca Pública)
MORAES, Aldo. Ouro quebrado (crônicas). Imprensa Pública. (Acervo Biblioteca Pública)
PEREIRA, Nunes. Um naturalista brasileiro na Amazônia. Imprensa Pública. (Acervo Biblioteca Pública)
POGGI, Oder. A campanha da malária no Amazonas; impressões de um sanitarista. Encadernação Moderna. 134p. (Acervo Biblioteca Pública)
VIEIRA, Antóvila M. O perigo amarelo na Amazônia brasileira. Imprensa Pública. (Acervo Biblioteca Pública)

sexta-feira, maio 25, 2012

Arthur Engrácio versus Hugo Bellard


Arthur Engrácio

Arthur Engrácio ganhou o prêmio Prefeitura de Manaus 1976, com seu livro A Berlinda literária, que o autor conclama tratar-se de “notas de leitura”. Escritor amazonense laureado, integrou os primeiros momentos do Madrugada. Engrácio era na verdade um respeitável crítico.
O texto que reproduzo – Nem tanto nem tão pouco - das páginas deste livro, cuida do livro de poesia de Hugo Bellard, Angústia, sonho e pecado, circulado em 1954.


Na sua quase totalidade, os intelectuais da província têm, já, por princípio, acatar com um respeito quase místico as opiniões que emitem os escritores da metrópole acerca de uma obra literária qualquer.

Daí o mutismo em que se recolhem ante o aparecimento de um livro aqui pelos nossos pagos, procedente do Sul. No seu acanhado modo de ver, livro prefaciado por Afrânio Coutinho, Álvaro Lins, Sérgio Milliet, Agripino Grieco e outros pontífices das letras brasileiras, é livro bom, excelente, não precisando da sua crítica para que seja aceito pelo público. Entendem que a "marca registrada" de um desses grandes da literatura é suficiente para valorizar qualquer volume impresso, seja de autor de mérito ou medíocre.

O autor destas linhas não reza por essa cartilha. Pois sabe que há uma política dos prefácios como há uma política dos governos, das religiões, dos padres etc. E, como um novo São Thomé, antes prefere ver com os próprios olhos e apalpar com as próprias mãos.
Esta a razão que o traz aqui para falar de um livro de versos há pouco aparecido em nossas livrarias, ou seja, Angústia, Sonho e Pecado, do Sr. Hugo Bellard, editado pela Pongetti, Rio de Janeiro.

Capa do livro

Sem fugir às regras dos célebres prefácios de que acabamos de falar, o livro apresenta-se com três juízos críticos de três vultos eminentes da literatura nacional: Agripino Grieco, Álvaro Moreyra e Berilo Neves.

Abre o poeta sua brochura com o soneto Larápio, que mestre Berilo Neves, em sua carta ao autor, num rasgo de elogio que chega ao exagero, não hesita em dizer que "poderia ser subscrito por qualquer dos grandes poetas contemporâneos, da nossa língua".
Aqui o soneto:


Queixaram-se à polícia: - Era um reles ladrão,
patife refinado, astuto e sem moral!
Ao padeiro roubara um pacote de pão,
Violando, fundamente, o direito social!

O delegado, austero e homem de razão,
zeloso defensor do Código Penal,
manda, sem vacilar, que o metam na prisão
para não prosseguir na prática do mal!

No covil do gatuno, a cena ocorre assim:
Ao chegar, impiedoso e rude, o beleguim,
a mulher, sobre a esteira, em febre se consome...

E quando o pária sai, a luz dos olhos morta,
macilento e andrajoso, -- o filho chega
à porta
e diz
à meia voz: - Papai, estou com fome!...

Discordamos do ponto de vista do ilustre homem de letras, porque:

1º - Sendo o soneto uma das formas de composição poética clássica por excelência e que, por isso mesmo, requer de quem o escreve a necessária mestria, não descurando nem da forma nem da ideia, Larápio, como uma composição dessa ordem, sob o crivo de uma crítica conscienciosa, deixa muito (ou tudo) a desejar.

2º - Uma rápida leitura do trabalho em apreço dá-nos ideia da sua pouca densidade. O autor abusa dos versos agudos, o que, sobre tornar monótona e enfadonha a sua leitura, atenta contra as regras elementares da poética.

3º - Juntem-se à essas falhas o fecho do soneto, o seu metro forçado, as suas expressões de mau gosto, e ter-se-á concluído que mestre Berilo foi, realmente, muito longe no seu panegírico. Longe demais.

Reportamo-nos especialmente ao soneto Larápio não porque não haja no livro outros exemplos de igual natureza, mas pelo fato de ter sido o mesmo posto em pé de igualdade, pelo crítico, aos trabalhos dos nossos grandes vates contemporâneos, coisa que, honestamente, não corresponde à verdade. Perlustrem-se Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Jorge de Lima e outros excelentes poetas contemporâneos da nossa língua e não se encontrará, na sua vasta bibliografia, um soneto tão mal construído quanto este Larápio do Sr. Bellard.
Hugo Bellard

Temos míngua de espaço e tempo. Por isso não transcreveremos os muitos exemplos maus colhidos no livro do Sr. Hugo Bellard. Citaremos apenas alguns, que têm uma finalidade: confirmar o adágio popular de que "nem tudo que brilha é ouro", e que nem sempre a capa bonita de um livro e seus prefácios encomiásticos são credenciais suficientemente válidas para a glória de um autor.

Na página 16 do volume, no segundo quarteto do soneto "Eu", lemos isto (com grifo nosso):

Conduzo no meu peito estranho idealismo,
que me faz procurar estrelas não sonhadas,

que me atira, impetuoso, aos gestos de heroísmo
e a me fazer irmão das almas flageladas!


Uma forma estranha de concordância que não conhecíamos ainda. Não seremos, contudo, demasiado exigente quanto a esse ponto. Pois sabemos que os poetas, na sua maioria, nunca deram muita importância às regras gramaticais. Prossigamos.

Mais adiante, iniciando o soneto Hora Infecunda, à página 39, dá-nos ele esta amostra:
Uma hora o relógio já bateu...
Quero fazer uns versos - não consigo!
A ideia foge e, assim como Proteu,
Muda de forma sempre que a persigo.

Não se faz mister um estudo demorado para notar-se a pobreza técnica e poética desta estrofe. O autor, forçando o metro, torna o verso frouxo, desengonçado. Haja vista o primeiro verso desta quadra. Obedecendo às regras da boa métrica, o referido verso teria apenas nove pés e não dez como quer o poeta. Em "uma hora" ele faz quatro sílabas quando, na realidade, só existem três. A última vogal da primeira palavra, segundo as regras já encionadas, funde-se com a primeira da segunda, no caso o "h" inicial do verso, que, poeticamente, tem o valor de vogal. Medido corretamente, como pedem, ainda, as normas da métrica, o verso ficará de pé quebrado, de vez que o acento rítmico vai incidir sobre a quinta sílaba do mesmo (reLÓgio).

Avançando mais, à página 69, cai-nos sob a vista este terceto do soneto Ficaste que, sobre estar cheio de lugares-comuns, dá margem à ambiguidade:

Oh! bendita obsessão, que não tem fim!...
Sonho, acordado, olhando outras mulheres,
que estás me enchendo de felicidade!...

Poderíamos ir mais longe, apontando aqui e ali, nas páginas de Angústia, Sonho e Pecado, falhas seriamente comprometedoras do nome do autor, que já não é um estreante. Todavia, se assim o fizéssemos, estaríamos alongando muito estas linhas que outro objetivo não tem senão fazer um apanhado das nossas impressões sobre a obra.
                    * * *

Em síntese, a leitura dos sonetos do Sr. Hugo Bellard deixou-nos um tanto decepcionado. Lendo-os, não experimentamos aquela sensação de bem estar que nos deixa sempre o contato com a boa poesia. Notamos nos sonetos do poeta uma ausência total de tudo que nos pudesse falar à alma, à inteligência, à sensibilidade.
Mas não se infira daí que as cento e duas páginas de Angústia, Sonho e Pecado são constituídas apenas das composições que acabamos de apreciar. Absolutamente.

Há no livro do bardo amazonense poemas cuja beleza seria uma injustiça da nossa parte ocultar. Se recusamos os seus sonetos, nem por isso deixamos de elogiar-lhe as outras composições. Nessa parte, aliás, é onde o artista sobressai-se: dá novas entonações à lira e chega, para o nosso contentamento, a apresentar-nos poemas como Retirantes, Poema Triste, Inquietação e Guerra, o qual, a nosso ver, é a melhor peça do livro. (1954)

quarta-feira, maio 23, 2012

Quem foi Hugo Bellard (1914-1989)?


Hugo Bellard, na orelha de
seu romance
Desde o ano passado, presto ajuda ao acadêmico Almir Diniz na revigoração do Dicionário Biográfico dos acadêmicos amazonenses, de sua autoria. O trabalho caminhava com desenvoltura, até que esbarrei em três nomes de custosa identificação: Odilon de Lima, Generino Maciel e Hugo Bellard.


Hugo Bellard, assim mesmo, diminuto, trazendo apenas o sobrenome paterno (creio eu) e de inspiração estrangeira.  O reduzido verbete até então conhecido provinha de uma antologia da década de 1960 e de providências junto ao Banco do Brasil, empregador do “verbetado”.

A partir dessas ralas anotações, recorri à internet. Nessas páginas, recolhi um pouco mais. Antes da pesquisa, porém, sabedor de que nascera em Urucará (AM), em 1914, fui ao Pedro Fallabela, que fora prefeito daquele município por alguns mandatos. Ele ficou surpreendido, nunca ouvira falar em tal sobrenome, por isso prossegue junto ao cartório local buscando a certidão de nascimento.

A pesquisa virtual ofereceu-me dele três dados: onde alcançar os livros publicados; sua permanência no Rio de Janeiro, onde morreu em 1989, e a existência de um filho homônimo.
Capa de livro, editado em Manaus

Quanto à bibliografia ativa, Bellard publicou em Manaus, em 1948-49, dois poemas épicos (Ajuricaba, o guerreiro manau; e A segunda visão de Tiradentes). Com essa dupla apresentação e a amizade com os patriarcas da Academia de Letras local, nesta ingressou em 1950. Logo depois estava no Rio, de onde não mais se ausentou. Nesta cidade publicou Angústia, sonho e pecado, poesias (1952) e o romance As mulheres dos outros (1954).  

Li o romance. Na orelha desta obra há o resumo da permanência do autor em Manaus. Assegura ter nascido em Urucará, “vilota perdida no seio da floresta, à margem de um remoto paraná do estado do Amazonas”, por acidente, ainda não revelado.  A certidão cartorial pode revelar esse detalhe. Enfim, Bellard aproveita-se do romance para efetuar acanhada autobiografia. Sobre o livro de poesias, vou postar a seguir uma apreciação do crítico Arthur Engrácio.

Capa do último livro de poesia
Para examinar como morreu este urucaraense, quero recorrer à camaradagem do Rogel Samuel, morador da Urca. Direto a ele: espero que você consiga a certidão de óbito deste nosso conterrâneo, que aconteceu em 17 de maio de 1989. Pouco mais, eu sei.  

Sou sabedor que existe no panorama musical outro Hugo Bellard, certamente filho do finado. Musicista que, segundo o site de sua administração, tem acompanhado os grandes nomes da MPB e em nossos dias segue fazendo arranjos e outras intervenções afins. Acredito que o músico nasceu em Manaus, em 1949.

Se você souber algo mais sobre o amazonense Bellard, envie-me com brevidade, que o dicionário do acadêmico Almir Diniz agradece.