CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

26 de novembro de 2011

L. Ruas: oitentanos


Linha d´água: crônicas,
de L. Ruas


Em homenagem ao saudoso mestre das artes, na antevéspera de seu aniversário, reescrevo dele um texto constante de Linha d´água: crônicas (Rio: Editora Artenova, 1970). A festa que os amigos e ex-alunos do padre Luiz Ruas, ou simplesmente L. Ruas, organizam, será na segunda-feira 28, evocando os títulos herdados e outras manifestações de sua mente.


A VOLTA

Quando ouviu o ruído de uma chave sendo introduzida na fechadura, por uma
dessas intuições inexplicáveis do coração, ela não pensou que se tratasse de
um salteador, mas de alguém que estava acostumado a fazer inúmeras vezes
aquele mesmo gesto.

- É ele, pensou.

E conservou-se imóvel na cadeira perto do quebra-luz. Apenas repousou o
livro sobre as pernas e retirou os óculos.

Como há vinte anos atrás, depois do jantar, ela se sentava naquela cadeira
e ficava lendo ou bordando alguma coisa. Passados quinze ou vinte minutos, a
empregada lhe dizia boa-noite e fechava a porta atrás de si. Ela ficava só com o seu
silêncio.

No começo foi muito difícil. Foi muito difícil mesmo. Muitas vezes esperava
que a empregada saísse logo e, apenas a porta se fechava atrás dela, o
pranto irrompia incontrolável. Não foi nem uma nem duas vezes que ela
pensou em se vestir e ir para a rua. Ao cinema, ao teatro ou a um bar. Uma
noite chegou mesmo a subir ao quarto, abrir o guarda-roupa. Mas, depois,
se sentou na cama larga e macia e tão vazia e chorou até o sono chegar.

Seus pais vieram buscá-la.

- Que vai você ficar fazendo sozinha nesta casa? Você pode recomeçar uma vida nova.
Você ainda é muito jovem.

Naquele tempo era mesmo. Sete anos mais moça do que ele, poderia muito
bem, como diziam seus pais, ter recomeçado uma vida nova. Poderia ter
viajado. Ido para a Europa. Ou para os Estados Unidos. E lá, recomeçado uma
vida nova. O que, porém, parecia tão fácil para os outros, lhe era
infinitamente difícil. Não teria coragem. Não teria forças. E se deixou ficar
sentada naquela cadeira.
Com a cabeça entre as mãos, apenas ouviu o rumor dos passos de seu pai e
de sua mãe que se dirigiram, em silêncio, para a porta que se abriu e fechou.
Quando sentiu a porta fechada, levantou os olhos e ficou olhando-a. E pensou
consigo mesma sem dizer nada:

- Eu sei que ele vai voltar.

O que mais a torturava, de início, foi o medo. Sempre fora medrosa. Era um
sentimento que nunca chegara a vencer. Quando menina tinha medo de tudo
e não podia dormir sem que sua mãe se sentasse à beira da cama e aí ficasse
até que dormisse completamente. A luz ficava sempre acesa. Quando ficou
mocinha o medo continuou a persegui-la. Casou-se. E as piores horas de
casada eram as horas das noites em que ele voltava tarde do clube. Duas
horas da manhã e ela sem poder dormir. De medo.

Naquela noite ela não dormira. Passou a noite toda, sentada na cadeira sem poder
dormir. O mesmo aconteceu na outra noite. E a terceira noite foi igual às duas
primeiras. Foi muito difícil e doloroso se acostumar com seu medo. Mas, vinte anos
de solidão, fizeram com que se acostumasse.

A porta se abriu. Ele apareceu na soleira, emoldurado pela noite. Parou e
a ficou olhando sem dizer qualquer palavra. Ela o olhava, também, e lhe
veio a impressão de que parecia um pássaro ferido. Ferido e cansado. Não
se via a ferida, mas existia em alguma parte dele.

Perdera aquele porte altivo. Seus cabelos, outrora negros e abundantes,
estavam agora quase completamente brancos. E o rosto cheio de rugas. Era
um homem machucado.

Em silêncio fechou a porta atrás de si e subiu para o quarto.

Ela encostou a cabeça no espaldar da velha cadeira e cerrou docemente os olhos.