A postagem copia um artigo deste saudoso amazonense publicado na revista Cabocla, edição de julho de 1936. Daí se entender o tratamento então dispensado ao acometido pelo mal de Hansen. 
Ramayana de Chevalier

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| Revista Cabocla, julho 1936 |
Amanhã talvez seja tarde, Irmão Leproso, para te dizer adeus. Talvez amanhã teus olhos já se tenham fechado para a Terra e se escancarado diante de Deus. Amanhã talvez já tenhas bebido a derradeira taça do fel do teu martírio. Falemos hoje, visto que és um condenado à Morte. Falemos, porém, mais na linguagem muda dos corações, que no murmúrio desconsolado das palestras banais.
Não
precisas do meu dinheiro, nem do meu sorriso, nem do meu abraço. A Terra negou-te
tudo, enchendo-te de manchas repelentes; o Céu estende-te os braços infinitos,
pois as chagas do teu corpo são condecorações do teu espírito. Quanto mais suja e podre se torna a tua
carne, mais brilha, mais se aclara, no mistério das transfigurações, a tua alma
triste.
Entre
o segredo silencioso do teu espírito e a alegre sarabanda do Amor de tua Amada,
Irmão Leproso, existe a distância incomensurável de uma posta de carne diluída em
úlceras, um montão de nervos combalidos que se contraem nas crispações da maior
Dor do Mundo.
Teus olhos já secaram como fontes inúteis;
tuas mãos, que eram puras e belas, entortaram, na rebeldia da moléstia sinistramente
má; tua boca, referta de carícias e habitual ao beijo fraternal, enregelou-se
como um túmulo, morta para todas as expressões, acabada para todos os gestos amáveis;
teu rosto não se reflete mais, nunca mais resistirá ao confronto das superfícies
polidas.
És pai, também, meu pobre Irmão Leproso. E,
entre ti e teu filho, há um degredo perpetuo e sombrio. Os assassinos podem
embalar os filhos pequeninos. Os ladroes têm a graça de dirimir o remorso, na
carícia suave de mãos pelo rosto cândido do primogênito querido.
Os jogadores, os bêbados, os viciados têm a
oportunidade de um minuto de sagrada transformação, no convívio inocente e
divino das crianças.
Tu não furtaste ninguém, senão a tua própria
tranquilidade; tu não mataste ninguém, senão a tua própria ilusão; tu não jogaste
nunca, senão a tua alma pela saúde de teu corpo; tu não bebes, senão o cálice envenenado
da tua suprema desgraça; tu não tens outro vício senão esse atroz, cruciante, terrível
vício da esperança, essa esperança que cai aos bocadinhos, a cada trecho de
carne que se solta do teu cadáver, mas continua, acesa como um incêndio, na fogueira
do teu enorme coração.
E, no entanto, Irmão Leproso, tu nunca
poderás deslisar as tuas mãos nojentas pela cabeça loira e mansa do teu filhinho;
nem sequer tê-las pela frente, para que ele nunca veja, nem sinta, o tamanho da
tua deformação física, o tamanho do teu sofrimento moral.
Um dia, no Céu, o apertarás entre os teus
braços imaculados, o beijarás com tua boca perfumada, o chamarás de filho, no
aconchego do teu Corpo puríssimo, porque do outro lado, meu querido Irmão,
estarás mais limpo do que as aras dos altares, mais cândido que a neve das
montanhas, mais alvo que os luares alvíssimos. (...)
Tens um Amor, Irmão Leproso, e ele vive
longe de ti como o Sol dos pântanos imundos. Tua carícia, mesmo distante, é uma
tortura feroz e implacável. A tua lembrança evoca jardins roxos de úlceras incansáveis,
peles oleadas e ríspidas que repugnam, mágoas semeadas em tubérculos pelo teu
rosto.
E, no entanto, como tu amas o teu Amor! Que
paraísos não constróis no íntimo heroico, que sonhos não enfeitam os teus silêncios,
que crepúsculos deslumbrantes não repousam, como aves fatigadas, na tua pupila
escondida e tristonha...
A lepra é um caminho para o Céu.
Lembras-te daquele Rabi, suave e sereno da
Galileia, que visitou aquela criança enferma, miserável e sozinha? Ele não
gostava dos palácios, não frequentava o bulício mundano, não procurava os homens
que vestiam clâmides vistosas ou mulheres ornamentadas como atrizes. Apresentou-se
àquela criancinha doente, para lhe trazer a saúde e o carinho, como transitou,
inesperado e solícito, entre os morféticos e os paralíticos.
Quantas vezes não hás de tê-lo visto diante
de ti, quando as mordidas de tuas chagas, na aflição mais cruciante, te deram o
teu mais profundo desespero, a sensação do derradeiro apodrecimento?
Deus não passeia onde há sorrisos, exceto o
do rosto das crianças, que o sorriso dos bons já é um prêmio. (...) Teu corpo é
um sepulcro sangrento. Sobre ele, um dia, descansará o Senhor quando precisar
de novo copo d’água samaritano, cansado de sofrer pelos que são felizes.
Quando chorares, volta-te para Ele,
entrega-lhe os teus olhos, os teus pobres olhos sem brilho e sem paisagens, e,
com a mesma esponja na qual sorveu Ele o seu fel bendito, haverá de sorver também
o fel que escorre das tuas órbitas insones.
Espera, Irmão Leproso, o dia da tua
ressurreição. Talvez, Ele mesmo, condoído de tua sorte aqui na Terra, dê à
Ciência o meio de curar-te. (...) Feliz de quem como tu já sabe o preço da
vaidade humana, da grandeza humana, da riqueza mortal. Feliz de quem como tu, já
sentiu o contato do Mestre na clausura de tua afogueada meditação.
Eu ainda ficarei por aqui, lutando pelo
esquecimento, e pecando, desvairado e intranquilo, na minha imperfeição. Um dia
nos encontraremos. Um dia nos abraçaremos, sem constrangimentos, sem repugnâncias,
sem pavores. Eu serei, então, feliz, se puder, nesse dia, beijar-te as mãos benditas,
onde as chagas se transformaram em flores; se puder fixar-te, beatificamente dentro
dos olhos, onde as lágrimas serão fontes de alegria e me dessedentarão.
Um dia passearemos juntos, pelos jardins eternos, sorrindo no sorriso infinito que vem de Deus. Irmão Leproso, até logo!
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