CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

18 de novembro de 2010

Maestro Nivaldo Santiago


Coral João Gomes Junior, regência do maestro Nivaldo Santiago

O programa  apresentado hoje pelo Coral João Gomes Junior cumpriu três partes bem distintas: na primeira, o maestro Nivaldo Santiago, fundador deste grupo, fez a regência. Na segunda, foi apresentado um video com indicações dos personagens que povoam o livro sobre o coral. Na terceira, o maestro Eli Soares, atual regente, conduziu o concerto com apresentação de um repertório clássico, acompanhado dos solistas Maria Augusta Bacellar, Priscila Vianna e Humberto Vieira.
Após a realização deste programa, o acadêmico Elson Farias, autor de Coral João Gomes Junior: uma aventura musical no Amazonas, passou a autografar o livro.

Nivaldo Santiago  havia completado a sua formação musical, quando desistiu de uma bolsa de estudos no Canadá para formar este coral. A Manaus dos 1950 era de uma grave pobreza. Mas aquele corajoso músico decidiu enfrentar.
Em seu discurso de agradecimentos, lembrou os quantos emprestaram ajuda ao empreendimento, dos governantes às pessoas simples, mas decididas. Alguns ainda coralistas atuantes.
Um desses colaboradores foi o padre Luiz Ruas. A participação deste sacerdote se fazia pelo jornal, onde suas publicações repercutiam. Amigo de Nivaldo Santiago, L. Ruas acreditou no amigo e seu projeto, e pode sentir com prazer a explosão musical produzida por esses abnegados coralistas.

Maestro Nivaldo Santiago, em Manaus
A 23 de abril de 1961, padre Ruas abriu o verbo em O Jornal e,  sob o título: Em torno de uma reportagem cínica, defendeu o Estado e seu amigo Nivaldo Santiago. Por outro lado, rebateu com fortaleza a reportagem cínica, publicada em O Cruzeiro, uma revista semanal já desaparecida, que vez ou outra cobrava para publicar.
Escrevo estas linhas no sentido de um protesto. Está claro que o meu protesto não vai sanar o mal que foi feito. Mas fica o meu protesto. E muito satisfeito eu ficaria se soubesse que ele teria despertado alguém ou alguns, pelo menos aqueles que se empenham verdadeiramente no seguimento do nível cultural do nosso Estado. Refiro-me aos homens de letra e de artes do Amazonas e, em particular, Manaus.

A “terra defraudada” de que falava Araújo Lima referindo-se ao Amazonas ou à Amazônia parece continuar no cumprimento do seu destino. Agora, porém, a defraudação toma novos rumos. Quando o Amazonas surgiu aos olhos dos aventureiros famintos de riquezas o roubo se processou nos tesouros de seu solo. A borracha encheu a mão de muitos de dinheiro que saindo daqui foram gastá-lo ou empregá-lo em outros lugares. (...)

Falo daqueles que têm ficado, embora muitas vezes lutando com feracidade e heroísmo contra as tentações dos grandes centros culturais onde fervilham as “panelinhas” que se outorgam o direito de determinar e impor valores que se colocam em relevo à custa de certas condições. Falo daqueles que têm acreditado nas possibilidades da inteligência amazonense e por conseqüência, numa cultura e numa arte amazonense, que hão de se impor daqui mesmo sem precisar pedir a bênção dos donos da cultura brasileira nem se integrar num outro qualquer campo cultural e artístico. É neste sentido que falo da nova cultura do Amazonas. (...)

E, ultimamente, a reforma do Teatro Amazonas, obra grandiosa do Governador, vem confirmar de maneira deslumbrante o que afirmamos. Porque a reforma do Teatro mais do que o valor real do empreendimento se reveste, para mim, de um significativo valor simbólico. Um governo que se volta para a arte e se preocupa com os valores artísticos de um povo é realmente um governo que sabe o que está fazendo. Entre esses testemunhos autênticos da nova cultura amazonense há uma iniciativa que merece especial relevo.

É a obra do maestro Nivaldo Santiago. Nivaldo chegou a Manaus há uns dez anos, podemos dizer, só com a cara e a coragem. Um músico querendo fazer música no Amazonas, quando já não se pensava aqui em coisas dessa espécie. Na época em que o Nivaldo chegou, uma atmosfera de descrença, um ceticismo doloroso e sombrio, fundamentado na realidade de um Estado colocado levianamente à beira de uma desagregação sócio-político-econômico, tomava conta de todos os espíritos.

Ainda ninguém acreditava que o Amazonas pudesse reconquistar o equilíbrio. Falar em cultura artística na ocasião era um luxo ou não passava de estroinice. Este foi o ambiente que Nivaldo encontrou em Manaus vindo da Europa e do Sul do País. Dava para qualquer um arrumar de novo as malas e escorregar Brasil abaixo para o Rio ou São Paulo. Mas o Nivaldo é um desses privilegiados da loucura artística. Não pensou, não mediu, não calculou. Ele tinha vindo para fazer música. E começou.

Ano após ano, meses após meses, dias após dias, o Nivaldo, sem dinheiro, sem meios, com um piano e uma sala velha na [rua] Visconde de Mauá, escondido na sua toca, sem se preocupar quase com a sua subsistência, coadjuvado por uns poucos da mesma espécie dele, começou um coral, o João Gomes Junior. “É preciso que a semente morra primeiro.” E a semente esteve realmente sepultada, quase apodrecida entre as quatro paredes mofentas do irrisório Conservatório da Visconde de Mauá, em boa hora cedido ao jovem músico pelo cônego Walter Nogueira, de acordo com Dom Alberto Ramos.
Foi ali que a semente morreu e viu rebentar viridentes suas primeiras folhinhas tenras. Depois todos sabem, vingou. Atualmente a planta regada com o suor e lágrimas do Nivaldo e de seus cantores, esses jovens heróicos, já está taludinha. Seu tronco já está firme. Já há esperança de flores e de frutos. Pois bem, nessa altura dos acontecimentos surge uma reportagem safada por todos os títulos. Para roubar todos os méritos desses jovens. Para passar uma esponja num passado de lutas e sofrimentos e se apossar dos trabalhos realizados. Impudicamente. Torpemente. Cinicamente. Qualquer explicação para o caso não é explicação.

O fato não passa de uma tentativa de espertalhões. E a revista O Cruzeiro é o responsável por isso. Mas a coisa não parou por aí não. Eles conseguiram matar dois coelhos numa só cajadada. Também o trabalho governamental foi atingido pelos finórios. Reforma do Teatro, Coral João Gomes Junior, tudo iniciativa de O Cruzeiro. O Amazonas é uma terra de bobocas. Se não fosse O Cruzeiro, não havia coral e, certamente, o Teatro já seria um montão de ruínas. Já vi muito cinismo na minha vida, mas tanto assim, não.


Agora eu pergunto o que foi que esses mocinhos de O Cruzeiro fizeram pelo Teatro e pelo Coral? Nada, meus amigos. Nada. Não. Fizeram uma reportagem a cores no valor de três milhões de cruzeiros. Nivaldo, os seus sacrifícios, o seu suor, as suas lágrimas, suas vigílias, seu trabalho, seu esforço, sua luta, sua fome, seus e de seus cantores foram vendidos por três milhões de cruzeiros? Não.


Tenho certeza que você não os vendeu. Você não os vendeu porque sabe do que se trata e porque sabe o que está fazendo. Atualmente você faz parte da cultura do Amazonas e você não venderia essa cultura pela bagatela de umas fotografias coloridas que roubam, que exploram, que avançam no alheio. (...)

Já chega de defraudadores. Que estes fatos nos sirvam de lição.