CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

21 de novembro de 2010

Crônica de L. Ruas

Ontem, na Universidade Federal do Amazonas, ocorreu a manhã lembrando o padre Luiz Ruas, saudoso professor da instituição. Para cumprir minha participação, voltei aos tantos recortes e livros vários, os editados e os inéditos. Nesse retorno ao L. Ruas, selecionei a peça abaixo incluída em seu livro Linha d´água: crônicas (Rio: Artenova, 1970). Não adianta buscar em livraria, talvez algum "sebo" possa atendê-lo.

Crônica

Não vamos percorrer o caminho perdido pelos pássaros já mortos. Deixemos que apaguem os rastros das manhãs enobrecidas pelo perfume das mãos enlevadas pelos sonhos que fugiram das pálpebras vazias.
É muito cedo ainda. É muito cedo.
Não estamos de partida para a guerra. Esperemos que as corolas se abram com paciência e sem nos angustiarmos pelos frutos que colheremos sob a luz tranquila das tardes lilases.
Não. Não percorramos os caminhos perdidos.
Deixemos que as barcaças retornem, como pássaros flutuantes, de suas longas viagens, de suas noturnas fadigas, repleta dos dons que o mar lhes oferece. Aguardemos, de mãos vazias e simples, as pérolas e os peixes. Sentemo-nos nas praias. Vigiemos o mar. Abandonemo-nos ao vento que as espumas frias nos ofertam. Beijemos o vento com mansidão enquanto ele nos acaricia os cabelos.
É ainda muito cedo. Ainda estamos muito antes da hora fixada para a guerra.
Acompanhemos, sem fadiga, o caminho dos rios, dos córregos, das fontes. Abracemo-nos como irmãos aos troncos antigos das velhas árvores.
Há quem diga palavras de ternura com muito medo. Ouvi, certa vez, uma noiva dizer tantas palavras de ternura ao seu noivo e ele não teve medo de se comover. Ele não se julgava mais criança.
Embora tenhamos de partir muito cedo, é preciso guardar com ternura os ninhos não amadurecidos. Os pássaros virão depois do luar. Antes disso, acendamos a lareira, estendamos a toalha de linho branco sobre a mesa tosca, coloquemos os pratos de cerâmica, sirvamos o pão, o vinho, e, em silêncio, meditando nas chamas que sobem e descem e dançam como esbeltas bailarinas, comamos o peixe tenro que apanhamos nas águas tépidas do lago imóvel.
Ora, dir-se-ia que nos resta muito tempo para esperar. No entanto, muitos séculos decorreriam até que pudessemos nos sentar, de novo, à mesa e comer tanto silêncio.
Não sejamos fátuos. Mas não sejamos sôfregos, também.
A ternura tem sua medida. Mas só ela sabe a sua medida.
Sinto, agora, o ruflar das asas fenecidas. Elas se desdobram sobre o meu rosto e me fazem sonhar um sonho de tranquilas manhãs. Este é o desejo de todo o guerreiro no campo de batalha.
Luiz Ruas, na RG
Quando brotarão as manhãs que eu plantei nos meus gestos apenas murmurados? Vejo as tardes, as manhãs e as noites como o agricultor examina com cuidado, os frutos pendentes das árvores plantadas por suas mãos de argila.
Eu apenas semeei o tempo. Ele me dá sonhos e fadigas.
Não percorramos apressados os caminhos perdidos pelos pássaros já mortos. Esperemos, com mansidão, que o tempo nos devolva os frutos e as flores que as manhãs, as tardes e as noites nos roubaram para sempre.
Depois, então, partamos para os campos de guerra.