CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

24 de abril de 2010

Bombeiros Voluntários de Manaus

Em 1900, em pleno apogeu do ciclo da borracha, o conluio entre o governador do Estado, Ramalho Júnior (1898-1900), e o governador eleito, Silvério José Nery (1900-04), permitiu a extinção da Companhia de Bombeiros estruturada no Regimento Militar do Estado. Empossado em julho, Nery substituiu os bombeiros estaduais por uma sociedade de bombeiros voluntários, que já operava em Manaus desde 24 de abril.



Essa experiência, no entanto, dura tanto quanto o mandato de Silvério Nery. Seu irmão e sucessor, Constantino Nery, repõe o serviço público. E a tarefa de extinção de incêndios prossegue entre idas e vindas do estadual ao municipal. Meio século depois, a capital amazonense viu renascer a devoção ao voluntarismo, quando este foi reimplantado com relativo sucesso pelo comandante Ventura, português do Porto. A iniciativa perdura enquanto viveu seu criador.


A instalação dos voluntários ocorreu em 1952. Veio devido a ineficiência e a improdutividade da Companhia de Bombeiros Municipais. Assim nasceram os Voluntários. Enquanto subsistiram, entre 1952 e 1963, os voluntários conquistaram Manaus e, mesmo desaparecidos há décadas, permanecem no imaginário da população da “terceira idade” apagando incêndios e salvando vidas.


A entidade, criada por José Antonio Dias Loureiro Ventura, simplesmente comandante Ventura (foto), com sede na rua Alexandre Amorim, Aparecida, onde hoje funciona o Forum. A atuação dessa sociedade recolheu numerosos elogios. Para sobreviver dependia de algumas benesses dos governos, a contribuição de colaboradores e uma cota do comércio, especialmente de comerciantes patrícios.


Uma das benesses aconteceu em 1957 (o governador Plínio Coelho repassa aos Voluntários a contribuição de Cr$ 200.000,00 (duzentos mil cruzeiros), para aquisição de veículo contra incêndio. O fato é que a comunidade, estimulada pela imprensa, colaborou com os voluntários. Essa viatura de fato chegou à cidade e foi empregada pelos voluntários. Quando da extinção destes, a viatura foi repassada aos Bombeiros Municipais. Enfim, desapareceu em algum ferro-velho de Manaus.


Encontrei-me com voluntários para esclarecer um questionamento intrigante: qual a motivação que levava tantos jovens a se empenhar nesse serviço? Um trabalho desprovido de garantia, sem segurança institucional, sem meios adequados e, pior, sob autêntica improvisação.
Veio-me à idéia de que aquele esforço se prestava, usando a expressão de nosso tempo, para estimular a adrenalina. Ou seja, as improvisações e afrontas à segurança, a corrida em carros tão inadequados, promoviam nos jovens de ontem o mesmo alcançado hoje em esportes radicais. Não diria que aquela benemerência fosse esporte, mas se poderia afirmar que era um vício. Que não havia como largar.


Envolvido com essas maquinações, em março de 2006, visitei o Mário Cunha e sua irmã na Tabacaria Cunha. Situada na rua dos Barés, de onde se observa a fachada do Mercado Adolpho Lisboa. Envolvidos pelo aroma do tabaco em corda que o proprietário servia aos fregueses, ele relembrou aquele tempo.


A memória pertence-lhe: “voluntário aos 23 anos, eu era o motorista do carro-pipa que se envolveu em grave acidente de trânsito, em 13 de maio de 1960. O acidente aconteceu com um ônibus da Transportamazon, no cruzamento mais conhecido de Manaus: Sete de Setembro com Eduardo Ribeiro”.


Nele, Constantino José Machado, subcomandante dos voluntários, morreu e o Cunha escapou com vida, porém, com graves fraturas na perna direita. Cunha completa: o tratamento ortopédico acontecido no Rio de Janeiro (foto) foi custeado pela família; por isso, ainda hoje, lamenta o desamparo sofrido por parte do Governo.
 Mario Cunha no hospital, Rio
No decurso da visita, compreendi o vício que dominava o jovem Cunha. Morador da rua Leovigildo Coelho, no Centro, ele estava envolvido com os voluntários, cuja sede localizava-se em Aparecida. Com a intervenção da irmã o assunto ficou esclarecido. Quando ela segredou que a família (leia-se seu pai) não aprovava o “passatempo” do filho. Mário Cunha desafiava a família e ao perigo do voluntariado. A despeito de visivelmente emocionado com as fortes reminiscências, alegrou-se com a lembrança dos benefícios que ajudou a distribuir, sem olhar como realizava.