CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

20 de abril de 2010

Aderson Andrade de Menezes

Quando da morte de Aderson de Menezes, em Manaus circulou um encarte especial de O Jornal, contando com o depoimento de vários intelectuais. Escolhi o texto do saudoso padre Nonato Pinheiro, para exprimir o sentimento que se espalhou por tantos que o conheciam. A morte estupida do mestre Aderson aconteceu no campus da Universidade de Brasília. Em 1970.


Uma lâmpada que se apagou

O Jornal, 26.04.1970

Custou-me acreditar na dura realidade, quando liguei o meu receptor no momento exato em que a estação noticiava o falecimento de Aderson Andrade de Menezes, um dos espíritos mais lúcidos da intelectualidade contemporânea de minha terra. Conheci-o pessoalmente em 1947, através de um circunstância a um tempo litúrgica e filial, quando me foi cometida a incumbência de celebrar, durante um ano inteiro, uma vez por mês, as missas em sufrágio da alma de seu genitor, na igreja de Nossa Senhora dos Remédios. Impressionou-me a assiduidade desses irmãos à missa mensal mandada rezar pela família na intenção de Tude Henriques de Menezes. Foi o início do nosso conhecimento. Eu, jovem padre, e ele, já bacharel em Direito, com seu conceito firmado na sublime esfera da inteligência.


Um dia, sou chamado à residência do escritor Péricles Moraes, presidente da Academia Amazonense de Letras. Era eu o secretário do sodalício. O eminente crítico literário, que foi, a muitos títulos e a todas as luzes, o maior escritor do Amazonas, estava preocupado com o preenchimento das vagas da confraria. Naquele tempo, o processo não era o da inscrição do candidato. Os próprios luminares do Areópago das Letras, com suas pupilas de lince, escolhiam seus novos Pares. Sentia-se a preocupação do inolvidável presidente na seleção dos novos acadêmicos. Repugnava-lhe o ingresso, para o cenáculo das letras, dos medíocres e mistificadores literários. Chamou-me para conversarmos de espaço sobre os valores da terra no campo da literatura e da cultura literária. Sempre receou, contudo, a eventualidade de uma recusa por parte do candidato, o que seria, de qualquer maneira, desprimoroso para a Academia. Confiou-me a missão sigilosa e diplomática de consultar os doutores Abdul Sayol de Sá Peixoto e Aderson Andrade de Menezes sobre como receberiam sua eleição para a “Casa de Adriano Jorge”. Cumpri a missão, segundo suponho, a contento. Ambos responderam que, se bem consideravam excessivamente honrosa a distinção, não cometeriam a indelicadeza de uma recusa. E foram eleitos: Abdul, para a cadeira de Eduardo Prado, que pertencera a seu glorioso pai, o desembargador Antonio Gonçalves Pereira de Sá Peixoto; e Aderson, para a cadeira de Silvio Romero. O primeiro, porém, não tomou posse de sua poltrona, que foi declarada novamente vaga, decorrido o tempo previsto e concedido pelo Estatuto.


Notei que Aderson se entusiasmou pela concessão da láurea acadêmica. Dentro em breve tomava posse da poltrona de Silvio Romero, que encontrou grávida de esplendores, pois nela sucedeu ao grande Alfredo da Mata, cujo retrato fidelíssimo nos traçou em seu discurso de recepção, (...)


Aderson entrou para a Academia na presidência de Waldemar Pedrosa, seu grande amigo e mestre, de quem nos legou precioso estudo, entronizando a pena no cérebro e no coração, e que constitui seu canto de cisne, seu nupérrimo livro Waldemar Pedrosa (notas biográficas e textos documentais). Foi recebido, sous la coupole, pelo acadêmico Aristophano Antony, que proferiu, a meu juízo, um dos seus mais belos e substanciosos discursos, em estilo eminentemente acadêmico, limado e polido.


Aristophano fez ligeiros reparos ao discurso de Aderson, no que prendia aos títulos de Alfredo da Mata. Mencionou que o ilustre médico pertenceu aos Institutos Históricos do Ceará, Pernambuco, Sergipe, Bahia, Rio Grande do Sul, São Paulo, sendo ainda sócio ad honorem das Academias de Ciências, de Lisboa e de Estocolmo, tendo sido agraciado por 34 faculdade de medicina de vários países, inclusive pela famosa Sorbonne, que lhe conferiu o titulo de professor honoris causa.


Não resisto a tentação de transcrever o seguinte trecho do formoso discurso de Aristophano Antony, talvez o mais cintilante e comovedor, quando a Academia coroava de louros a fronte de Aderson Andrade de Menezes:


“Aqui chegastes, depois de fácil caminhada, entre epinícios consagradores ao vosso êxito. Nesta hora que vos será, como também a nós, inesquecível, os nossos corações comungando os mesmos ideais, pulsam ritmados por igual emoção.” (...) “Não vos arrependereis, entretanto, do convívio dos vossos confrades, que vos acolhem de encontro ao coração. Eles vos falarão sempre aquela linguagem do afeto e do carinho, linguagem que possui a claridade das estrelas e a suavidade encantadora das rosas.”


Uma vez acadêmico, Aderson Andrade de Menezes teve rebrilhante relevo na Casa de Adriano Jorge e Péricles Moraes. Foi quem recebeu no sodalício o acadêmico José Lindoso, eleito para a cadeira de Araujo Lima, e seu contemporâneo no Colégio Estadual e na Faculdade de Direito. (...)


O egrégio extinto foi diretor da Faculdade de Direito do Amazonas, e de sua passagem por essa Casa deixou profundos e lampejantes sulcos, chegando a escrever-lhe a História, quando das comemorações cinquentenárias dessa benemérita instituição, para a qual entrou com a suculenta e magistral tese “Do Mandato político na democracia representativa” (Tese de concurso à Cátedra de Teoria Geral do Estado, na Faculdade de Direito do Amazonas), para cuja feitura consultou um elenco de obras notáveis, o que positivou os altos quilates de sua erudição. Catedrático de Teoria Geral do Estado, deu à estampa um precioso manual da matéria, que o revelou contubernal dos mais insignes mestres do Direito (...)


Que direi dos cargos que ocupou? Em todos se houve com brilho e elegância: diretor da Faculdade de Direito; diretor da Penitenciária Central; Chefe de Polícia; diretor da Faculdade de Ciências Econômicas; juiz substituto da Capital; secretário de Educação e Cultura e magnífico Reitor da Universidade do Amazonas.


No exercício de alguns desses cargos manifestou extremos de renúncia, tolerância e generosidade. A mim me confiou, em sigilo, que apurou graves irregularidades administrativas de um antecessor seu, num desses cargos. Exibiu-me documentos, ajuntando de logo: “Creia-me, padre Nonato, que não será molestado. Ficarei apenas com a documentação no meu arquivo.”


Como jornalista, Aderson brilhou com impressionante claridade. Recordo-me de uma coluna diária, que ele manteve longo tempo no Diário da Tarde. Eram comentários cintilantes, que de pronto refletiam a inteligência do autor. Um dia não me contive, e perguntei ao amigo Almir Correia, esposo de Amélia Archer Pinto Correia, quem era o redator da coluna. Almir logo me matou a curiosidade: era o Aderson!


Não posso esquecer o orador. Tive ocasião de ouvir grandes discursos de Aderson Andrade de Menezes. Foi orador oficial do Atlético Rio Negro Clube. Como conversador, foi dos mais notáveis que conheci. Sabia prender o interlocutor.


Transferido para Brasília, não morreu sem primeiro cumprir uma destinação que se impusera: biografar o ministro Waldemar Pedrosa, que o amava como a filho. Foi o seu canto de cisne. (...) Meu amigo Satyro Barbosa cedeu-me o seu exemplar para uma leitura, a um termo remansada e emocionante, porque o autor já não se encontrava entre os vivos. Teve a amabilidade de citar um trecho de meu discurso, proferido na Academia na sessão de saudade, realizada no trigésimo dia do falecimento do preexcelso amazonense, em cujo espírito Deus acendeu as estrelas de todas as nobrezas.

Grande Aderson! Só me falta falar do excelente irmão e filho que soubeste ser, e só não o faço, para não ensopar meu artigo com as lágrimas de tua extremosa mãe, cuja dor só não é infinita porque é infinita a consolação filial de teus grandes irmãos!...