CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

1 de abril de 2010

À memória de L. RUAS


O texto abaixo pertence ao presidente da Fundação Djalma Batista que, brilhante como sempre, nos lembra o desaparecimento do poeta e prosador no "Dia da mentira". Foi produzido para festejar o cinquentenário de lançamento da obra magna de L. Ruas - Aparição do clown.


José Seráfico


Era novembro, se bem me lembro. Freqüentávamos interessante curso de Chefia e Liderança, promovido pela Escola de Serviço Público do Amazonas – a ESPEA. Dentre os professores, sabíamos incluir-se um padre. Seu sobrenome, como a denunciar o compromisso com a causa comum, não o tornava vulgar: Ruas. Afinal, eu teria a oportunidade de encontrar pessoa de cuja existência já sabia, embora ignorasse sua vitoriosa incursão pela literatura.

Luiz Augusto de Lima Ruas, o padre e o poeta, o religioso e o homem do povo, já visitara meus ouvidos, mesmo antes de eu aqui desembarcar. Se a notícia chegou na voz do também poeta Elson Farias, visitante tantas vezes de Belém do Pará onde eu morava; ou se provinha da conversa sempre agradável de outro religioso, padre Diomar Ferreira – asseguro que não sei.

O que conta é o fato de estar ali, naquela sala de aula cheia de bons colegas e de muitas esperanças, travando contato com um professor de que já ouvira falar. E que ansiava por conhecer.

Outra não era a disciplina sobre a qual discorreria o padre Ruas, se não a Psicologia. Ninguém melhor que ele, preocupado com a vida e o destino dos que, clowns espalhados pelo Mundo, riem quando se impõe chorar, ostentam a face alegre em que se esconde a dor, fingem a felicidade que levam aos espectadores.

Ninguém melhor que o autor de Aparição do clown para ensinar àquela turma de aprendizes de administração, do qual o menos capacitado certamente seria eu. Com a grande vantagem para mim de, ao mesmo tempo aprender as lições de Sócrates que ele tão bem sabia transmitir, aproximar-me de figura humana excepcional.

Depois, encontros ocasionais me puseram frente à frente com Luiz Augusto Lima Ruas. O quanto bastou para admirá-lo, o que não tem qualquer originalidade, tantos os que se abeberaram em sua sabedoria e contemplaram seu fazer poético.

Fui, portanto, dos que beberam os vinhos suculentos dos doces frutos colhidos no pomar onde se agasalhavam as aves agoirentas do soneto. Como elas, vim de longe; jamais o olhei com desdém, nem o espiei de cima das árvores crescidas, porque os ventos quem os trouxe até mim foi ele, o poeta Luiz Ruas. Por eles, não houve naufrágio, antes viagem a bom porto.

Quando partiu para a infinitude do silêncio dilatado, a Luiz Augusto Lima Ruas não foi dado sequer o tempo de colher o fruto de seu canto. Tão cedo se foi, quando havia tanto a fazer – e a ensinar. Convenhamos que antes dos setenta anos deveria ser crime morrer.

Talvez sua missão já se tivesse cumprido. Quem o saberá?

Se a parca encerra em si mesma, além do luto e da dor dos que ficam, o simbolismo tão parco na mente dos sobreviventes, ela não nos terá poupado da coincidência com que às vezes se manifesta: Luiz Ruas, perseguido pelo golpe militar de 1964, deixou-nos na mesma data em que a ofensa cívica ocorrera – era primeiro de abril do último ano do século XX.

Pena que, nesse caso, não havia mentira. Luiz Augusto Lima Ruas partia para nunca mais.

Belém, 25 janeiro de 2009