CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

18 de outubro de 2014

JOAQUIM TANAJURA | 2



Folha de rosto do livro
Agradecendo a mensagem e, ao mesmo tempo, atendendo a solicitação do Getúlio Tanajura Machado, sobrinho-bisneto de Joaquim Tanajura (prefeito de Manaus, nos idos de 1930), reproduzo de Agnello Bittencourt, o verbete inserido em Dicionário amazonense de biografias: vultos do passado (1973). Esclareço que Bittencourt escreveu com propriedade, pois conheceu pessoalmente ao mencionado prefeito.


JOAQUIM TANAJURA 
O Dr. Joaquim Augusto Tanajura, possuidor de uma notável cultura, viveu no Amazonas durante muitos anos, com sua família, ora em Manaus, ora em Porto Velho, no rio Madeira, levado por suas atividades de médico e de político.

Antes, porém, vimo-lo integrado na luzida Comissão incumbida de planejar e realizar a abertura da Linha Estratégica e Telegráfica Cuiabá-Porto Velho, chefiada pelo hoje lenrio marechal Cândido Mariano da Silva Rondon. 


Recordando, trata-se de uma obra ciclópica, de concepção audaciosa, em recorde de tempo, com finalidade cívica e científica. Ao seu seio foram chamados especialistas dos vários ramos da História Natural e de outras equipes indispensáveis num trabalho desta finalidade, todos acostados a uma coluna de soldados selecionados do Exército.

No meio dessa gente decidida a enfrentar o quase-impossível, achava-se o Grupo de Saúde, tendo à frente o Dr. Joaquim Tanajura, que cumpriu seu dever, desde os primeiros dados, num subúrbio da capital mato-grossense, até varar em Santo Antônio ou, melhor, em Porto Velho. Estava ganha a difícil batalha, vencidas as distâncias e todas as dificuldades de ordem física numa natureza hostil


Lucraram a Pátria e as Ciências Naturais, pois estudou-se uma região que não se sabia ser tão rica, naqueles imensos latifúndios, bem como várias tribos encontradas passaram à domesticidade.



O Dr. Joaquim Tanajura teve, para elas, cuidados especiais, não se amedrontando de sua aproximação, apesar de suposta antropofagia.O Governo da União, finda a tarefa do galeno missionário, conferiu-lhe o galardão de Inspetor Honorário dos Índios.

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Sem interregno de atividades, o companheiro de Rondon retoma outras incumbências, desta vez para servir o estado do Amazonas.Transcorria o ano de 1914. A abertura da Linha Estratégica e Telegráfica Cuiabá-Porto Velho e o prosseguimento da construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, inevitavelmente iriam estabelecer em Porto Velho, uma grande concentração de trabalhadores e técnicos, o que aconteceu. 

A esse tempo, achava-se no governo do Amazonas o Dr. Jonathas Pedrosa que desdobra, ali, o município de Humaitá, e, por Decreto 1.063, de 17 de março daquele ano (1914), criava o de Porto Velho. Foi, desde logo, nomeado seu Superintendente interino o major reformado do Exército, Fernando Guapindaia de Souza Brejense, até se fizesse eleição para o titular de mandato trienal, recaindo os sufrágios no Dr. Tanajura, que, de posse do cargo, continuou todas as obras urbanas iniciadas pelo seu antecessor, iniciando várias outras, porquanto Porto Velho não passava de um grande agrupamento de casebres, salpicadas de algumas casas melhores, em todas reinando um cosmopolitismo de gentes de rias partes do mundo.

O Dr. Joaquim Tanajura fez uma administração inteligente e pacífica. Entrando em entendimentos com a Empresa norte-americana arrematante da construção da Estrada de Ferro, com auxílio desta, desenvolveu a cidade, nos dois triênios reunidos, de 1917 a 1925. Concomitantemente, também exercia o mandato de deputado estadual, quando as respectivas funções não colidiam.

No ano de 1924, houve, no Amazonas, um grande abalo político, que fundiu em bronze um novo capítulo na história administrativa. Estava, na suprema gestão pública, o Dr. Turiano Meira, presidente do Legislativo Amazonense, genro do governador Rego Monteiro, então viajando pela Europa, com sua família, em gozo de licença dado por aquela Casa do Congresso.
De surpresa, rebenta um levante militar na Guarnição Federal de Manaus, chefiada pelo tenente Alfredo Augusto Ribeiro Júnior, no dia 23 de julho de 1924, visando, em combinação com elementos de São Paulo, derrubar o Governo da República. A generalidade fracassou, restringindo o levante ao Amazonas, sendo deposto o seu governador Dr. Turiano Meira, dissolvida a Assembleia Legislativa, Câmaras Municipais e afastado todos os Prefeitos.
 
O Dr. Joaquim Tanajura, naquele dia (24), se achava em Porto Velho, não como chefe do executivo municipal, mas o Sr. Arthur Napoleão Labre que, a 4 de agosto, era deposto. 

Na fase anormal, a governança do Amazonas esteve nas mãos de Ribeiro Júnior, até a chegada a Manaus do coronel Raymundo Barbosa, interventor federal. Convém deixar assinalado que a tomada do governo se realizou sem a mínima resistência, seguindo-se dias de um júbilo contagiante, como jamais, antes ou depois, se observava naquela terra. O estado dos espíritos era um frémito de entusiasmo e alegria. Nenhum, dos decaídos, sofreu fisicamente; apenas as vaias nos comícios, nos teatros, nas ruas, não os deixavam em paz, obrigando-os a retirar-se para outras terras, em cujo número se distinguia a figura serena do Dr. Joaquim Tanajura.

Foi viver no Rio de Janeiro, onde faleceu há pouco tempo.

(Leia-se o precioso livro do Dr. Antonio Cantanhede, Achegas para a história de Porto Velho, p.59 e seguintes, impresso na Seção de Artes Gráficas da Escola Técnica de Manaus, em 1950)






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