CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

8 de outubro de 2014

ALEXANDRE RODRIGUES FERREIRA | 1




Dr. Alfredo da Matta
Para comemorar o 1º centenário da Independência do Brasil, o Diário Oficial do Amazonas pôs em circulação uma caprichada edição especial. Além de respeitável descrição do acontecimento histórico, elaborada pelo mestre J. B. Faria e Souza, a publicação contou com um trabalho do doutor Alfredo da Matta sobre o cientista Alexandre Ferreira, sob o título abaixo. O extenso exame ordenado por este profissional da medicina, obriga-me a reproduzi-lo em etapas.
  
Um detalhe (supérfluo): a mencionada edição especial circulou em 7 de setembro de 1922.



Recorte do Diário Oficial, de 7 set. 1922







O primeiro médico e naturalista brasileiro no Amazonas

  
Afiguram-se-me de consulta ou obtenção mui difícil, os documentos relativos aos médicos que primeiro trabalharam em território do atual Estado do Amazonas, por constar quase todos de arquivos militares, quiçá inexistentes hoje.
A comissão, por exemplo, que de Lisboa embarcou para Belém, em 1655, para proceder a demarcação dos limites dos domínios de Portugal e Espanha, trouxe os profissionais Domingos de Souza, Daniel Panetti e Antonio de Mattos, todos portugueses. 

Em dilatado lapso de tempo, 65 anos, não consegui subsídios e esclarecimentos sobre a vinda de outros facultativos; somente em 1721 foi despachado o médico português Antonio Prates.
Motivou ser nomeado a representação da Câmara Municipal de Belém à D. João V, provando a mui sensível falta de quem cuidasse e curasse as enfermidades do povo (carta de 16 de agosto de 1721), razão por que mister havia de facultativo ciente e experimentado.

E por isso conspícuas pessoas da cidade se cotizaram para o pagamento anuo de dez mil cruzados, em dinheiro da terra, ou, como se diria então: em produtos agrícolas.
Deferido, foi nomeado com respectiva ajuda de custo aquele médico (carta régia de 14 de novembro). O Dr. Prates, entretanto, não chegou a embarcar.

Treze anos depois, irrompeu em Belém a varíola sob forma epidérmica, lançando a desolação e o luto entre os habitantes. Por feliz acaso aportou aquela cidade o médico português Antonio Caldeira Sardo Villa Lobos, e que havia sido contratado pela Câmara (em partido de cem mil réis anuais). Em 1751, chegava o Dr. Manoel Inácio de Andrade; e em 1753, o Dr. João de Almeida, do 1º Regimento da 1ª linha. Todos portugueses, não consta terem vindo ao Amazonas.

Em 21 de outubro de 1783, o médico e naturalista Dr. Alexandre Rodrigues Ferreira desembarcava em Belém, comissionado pelo governo da Metrópole. Quem era ele?

Alexandre Rodrigues Ferreira nasceu aos 27 de abril de 1756, na Bahia. Embarcou aos 14 anos para Portugal, onde chegara a tomar ordens menores, parecendo assim ter iniciado a carreira eclesiástica. Mais tarde, em 1772, matriculou-se no primeiro ano do curso jurídico da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, e que depois abandonou para abraçar o de Filosofia em 1773. Atraía-o a vocação para o campo dificílimo da história natural, em que tanto se deveria distinguir. Ainda estudante, foi nomeado demonstrador daquela cadeira, e em 1779 se doutorava. (segue)