CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

15 de outubro de 2014

ALEXANDRE RODRIGUES FERREIRA | 3




Trata-se da terceira parte da publicação sobre o cientista Alexandre Rodrigues Ferreira, de autoria do saudoso médico Alfredo Augusto da Matta, efetuada no Diário Oficial do Estado, de 7 de setembro de 1922 (1º centenário da Independência do Brasil).

Recorte da publicação do Diário Oficial


Escreveu Sílvio Romero referindo-se ao nosso biografado: “Ao serviço de um governo em grande parte inepto, mesquinho, acumulou uma imensa rima de manuscritos que lá ficaram pelos arquivos para as traças, e os fatos novos, as descobertas importantes ali reunidas permaneceram como não existentes, e tiveram de ser produzidas de novo pela plêiade de viajantes estrangeiros que nos últimos cem anos têm percorrido as regiões amazônicas”.

Nem tanto assim, embora muitos exemplares do sábio Alexandre Ferreira glorificassem a estranhos, que jamais viram selvas, florestas e campinas da Amazônia. E jamais se deverá olvidar aquela atmosfera pressaga e de perenes indisposições, que envolveu o nosso biografado, devida principalmente a má vontade do naturalista Mattiosi, ajudante de Vanelli, e por sem dúvida mantida pela desafeição e hostilidades deste último quanto a Ferreira.

Visaram ambos contrariar e prejudicar sempre as justas e legitimas aspirações do malogrado naturalista, possuídos de um herbário o mais rico de espécimes do Brasil, a que se conjugavam numerosíssimos e raros tipos nos domínios da zoologia.
Reúnam a tais contrariedades, o enorme e incomparável desgosto moral que o acompanhava desde a chegada, qual túnica de Nesso, quando verificou a grande porção de exemplares, com desenhos e debuxos, dos reinos vegetal e animal da região amazonense, muitíssimos deteriorados, e todos confundidos atabalhoadamente no Gabinete da Ajuda, e não poucos sem etiquetas, ou trocadas!

“Acrescenta ainda a tradição, escreveu o célebre naturalista português conselheiro Dr. Barbosa du Bocage, que não fora isto efeito do acaso, ou de desleixo; mas obra requintada da mais ruim maldade, planeada e levada a execução por um empregado do Gabinete da Ajuda, a quem o ciúme dos talentos do nosso grande naturalista, e porventura a esperança de o desgostar prontamente de uma posição no Museu que ambicionava para si, inspirara essa torpíssima ação. Console-nos ao menos, se a tradição não mente, a certeza de que o autor de tamanha infâmia não era português”.
Mas o governo luso amparou semelhante proceder; e foi surdo a todos os rogos, e auxílios solicitados por Ferreira!

E tudo isso foi, e nem podia ser outra coisa, a resultante de manobras as mais pérfidas.
Tais ocorrências aniquilavam as potentes energias do sábio naturalista, para quem a sorte avara lhe tinha reservado golpe ainda mais cruel, quando, nas funções de ajudante do Gabinete da Ajuda (Dr. Vanelli), teve conhecimento, ou assistiu, por sem dúvida, a entrega do seu próprio herbário, com 1.114 exemplares que restavam, fruto de indigentes esforços seus, a um estrangeiro, ao célebre naturalista francês Geoffroy de Saint-Hilaire, em 1908, em obediência às ordens do general Junot.

Angústia suprema!!!  

Experimentou deste modo aquele homem forte e resoluto, intimorato e erudito, o mais violento e terrível dos golpes que o destino poderia lhe desferir, e que se não satisfizera com as contrariedades e óbices e decepções sofridas desde a sua chegada a Lisboa!
E a palavra autorizada de Barbosa du Bocage isso ainda mais comprova: “Desde que voltou ao reino, ou pouco depois, foi acometido de fatal melancolia, que inutilizou o seu vasto saber, e o lançou na sepultura em 1815, após longos anos de uma lenta agonia” – desenlace ocorrido no dia 23 de abril, aos 59 anos de idade.

Apesar desses contratempos e de tantas contrariedades, dos combates surdos e cheiros de perfídia, dessa teia que a inveja teceu e a maldade entreteve, parecia inesgotável o manancial em que abeberara o saber e se dessedentara o talento de Alexandre Rodrigues Ferreira!

E assim, aos 15 de julho daquele mesmo ano de 1815, a sua honrada viúva, D. Germana Pereira de Queiroz Ferreira, procedia ainda a entrega de manuscritos vários e todos os desenhos restantes ao então diretor do Gabinete da Ajuda, Dr. Felix de Avelar Brotero, o verdadeiro fundador das coisas da história natural, em terras lusitanas, e todos mandados ali arquivar pelo visconde de Santarém. Daquele Gabinete, foram removidos em 1836, com as demais coleções para a Academia Real de Ciências, de que era correspondente o nosso biografado, e ali conservadas cuidadosamente.
(segue)