CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

9 de outubro de 2014

ALEXANDRE RODRIGUES FERREIRA | 2



Prosseguindo na publicação do trabalho do médico Alfredo da Matta sobre o cientista Alexandre Ferreira, no Diário Oficial do Estado, de 7 de setembro de 1922.

O primeiro médico e naturalista brasileiro no Amazonas
Alfredo da Matta

Nesse interim, aceitou o convite do prof. Dr. Martinho de Melo, e previamente sancionado por toda a Congregação, para desempenhar uma embaixada científica ao Norte do Brasil, convite, aliás feito em 1778.

Mas o Dr. Ferreira permaneceu ainda em Lisboa até setembro de 1783, quando embarcou. Não reviu mais a cidade de Salvador, onde primeiro apercebeu a luz do dia, por se destinar a Belém do Pará, designado para principal centro da missão a mais complexa nesses longevos tempos, e cuja chefia por isso mesmo somente poderia caber a personalidade de estatura científica do nosso biografado.

De fato, abrangia ela os estudos, as pesquisas e observações de ordem econômica e política, e os concernentes à história natural quanto à botânica e à zoologia e mineralogia. Em programa tão vasto, havia também o registro das produções, da navegação, indústria e comércio incipientes, e o problema de uma perquirição das populações silvícolas e em suas próprias terras.

Tal enunciado indica a considerável amplitude dos assuntos cometidos à erudição daquele cientista, revelada superiormente na messe do saber de seus relatos, memorias, monografias, desenhos, e tantos outros documentos por ele oferecidos anos depois aos homens que governavam o reino de Portugal.

Alexandre Ferreira provou, e de modo exuberante, na superintendência de tão intricada missão, a primeira assim dirigida por brasileiro, o mais ascendrado carinho e amor ao trabalho, o mais notável saber e competência, esquisita força de vontade e indômita energia em paragens desconhecidas e longínquas naquelas áreas.

Duraram as suas incursões nove longos anos, desde 1783 a 1793, tendo ele conseguido matéria de inestimável valor, dados assaz interessantes, inéditos, sobre antropologia, zoologia, botânica, geologia e etnografia.

Realizou esses empreendimentos no interior do Pará, Goiás, Mato Grosso, Liso e Amazonas, em excursões pelos rios Araguaia, Branco, Madeira, Mamoré, serra do Cuanuru, Cuiabá e zonas circunvizinhas, tendo chegado a este último lugar em 1790. Regressou então à Belém, ponto inicial da partida, e de onde periodicamente seguia para os diversos e ínvios locais da Amazônia.

Desse modo, chefiou o baiano Alexandre Ferreira a primeira missão brasileira em terras de nossas antigas circunscrições, e que constituem hoje principalmente os Estados do Pará, Mato Grosso e Amazonas, este em particular, fato que merece registro histórico.

Em tão perigosas viagens, todo o material que conseguia ele obter, era remetido sem demora para as lusas terras por intermédio do capitão Luiz Pereira da Cunha, residente em Belém do Pará. Parcos seriam os recursos de dinheiro do sábio cientista e destemido explorador, e demasiadamente parcos pareciam os prometidos auxílios dos homens de responsabilidade, dos governantes de Portugal, olvidados já do compromisso tomado; e tanto que lhe acudia sempre o capitão Cunha, pelos laços de amizade existente entre ambos, e quiçá "por vantagens materiais que o capitão vislumbrasse auferir, visto tratar de negócios de uma comissão que avultava de importância sob qualquer ponto de vista".

Entretanto, não chegavam do reino os indispensáveis recursos, e ansiosamente esperados desde muito. Vexatória, humilhante talvez, se tornava a posição de Alexandre Ferreira junto ao seu amigo, visto grandes responsabilidades assumidas, porquanto o capitão Cunha lhe havia participado ter despendido até o dote de uma de suas filhas para satisfação de semelhantes encargos.

Calcular-se-á que não poderia ser mais crítica a situação de homem tão eminente e probo, carecedor em absoluto dos meios para saldar todos esses compromissos, e desiludido, por certo, do auxílio de seus protetores e do governo lusitano, se é que não experimentava já os efeitos dos aguilhões de mesquinha inveja e da incompetência a lhe sombrear as descobertas e conquistas tão galhardamente conseguidas.

Solução única, nobilitante e honrosa, vislumbrou e cumpriu, consorciando-se em 1793 com a filha daquele capitão, uma paraense de nome Germana. E regressou em seguida para Portugal com a sua virtuosa dona.

Cruel decepção o esperava.

Havia deixado as funções de ministro da Marinha D. Martinho de Mello, seu protetor; e o sábio viajante tinha desde logo de suportar os maus fados ao conhecer e experimentar a ingratidão dos homens de seu tempo e do governo português.
Obteve, ainda assim, o modesto cargo de oficial da secretaria da Marinha, que deixou em 1794 para ser adjunto do Prof. Dr. Domingos Vandelli, e o de diretor interino do gabinete do Jardim Botânico da Ajuda.

Embora no desempenho desses encargos, o grande baiano jamais conseguiu os necessários meios para continuar e concluir a maior parte dos notáveis estudos começados no Brasil, cujo material precioso e valiosíssimo havia verificado se achar na mais lamentável, se não confusão e balburdia criminosas. Quais os que receberam esse material? Por que essa confusão, se o maior cuidado e esforço e competência havia presidido o seu envio?

E não alcançou, nem obteve coisa alguma. (segue)