CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

14 de dezembro de 2012

DESASTRE DO PP-PDE – 50 ANOS

Aconteceu na noite de 14 de dezembro de 1962, nas proximidades de Manaus, o Constellation quase chegando ao aeroporto de Ponta Pelada. Era começo da noite e o avião PP-PDE, da Panair do Brasil, vindo de Belém (PA) não aterrissou como esperavam os passageiros e seus familiares. Morreram todos, 50 passageiros, espalhando a aflição pela acanhada cidade de Manaus.
Cronista da época, o saudoso padre Luiz Ruas é o autor do artigo aqui reproduzido. Nele, o articulista descreve com perícia a incerteza que tomou conta da capital amazonense. A qualidade da foto jornalística revela as dificuldades de então, há cinquentanos. 

Recorte de O Jornal, 19 dezembro 1962
O Desastre

L. Ruas (*)

Primeiro foi a grande incerteza.
Os olhos catando nos céus escuros alguma trilha de luz que indicasse um caminho para a esperança. Os minutos correndo lerdos. A pista vazia. A noite vazia. Os céus escuros e silenciosos guardavam seu segredo com a impassibilidade de esfinge. Nenhum sinal. Nenhum ruído.

- Passageiros da Panair do Brasil estamos chegando ao aeroporto de Ponta Pelada...

Uma dúvida inconfessável começou a passear no aeroporto. Pairava no ar como uma invisível ave de rapina querendo atingir os corações dos pais, dos filhos, dos esposos, dos amigos que, minutos antes, conversavam alegremente na incontida felicidade de receber em seus braços os corpinhos tenros e talvez sonolentos de seus filhinhos, beijar-lhes as cabecinhas despreocupadas, estreitar suas esposas, abraçar com carinho e calor os parentes e amigos.

Pouco a pouco a luta se tornava mais áspera e mais sensível. Os olhares começaram a se trocar cheios de apreensões e algumas perguntas foram arriscadas a medo. Todos lutavam corajosamente contra as invisíveis aves negras. Negras como a noite, negras como a pista vazia, negras como os céus calados. A alegria de todos, então, começou a levantar voo para longe do aeroporto e, ganhando a imensidão da noite friamente muda e parada, saiu em busca, em remígios tresloucados, das faces perdidas na incógnita daquela madrugada.

- Você está ouvindo o ruído dos motores?...

Depois, o silêncio. Um silêncio pesado e absurdo como a angústia. Comprimindo o peito. Ferroando os olhos. Entalando a garganta. Apertando as mãos. Crispando as almas. Abatendo os corpos.
Apesar de tudo os céus continuavam a ser esquadrinhados pela esperança de todos.

A manhã trouxe a notícia para a cidade. Naquele dia ninguém olhou para o sol. Ninguém viu as cores da manhã. Ninguém se deslumbrou com a apoteose da luz. Todos procuravam no céu apenas um sinal que indicasse um caminho para a esperança. O rio? A mata? Mas que rio? Mas que mata? E todos calavam para que um grito de
desespero não irrompesse, feroz e incontrolável, em direção ao vazio.
O silêncio dos lábios, os olhos parados, as mãos agitadas, as lágrimas mudas. A impotência absoluta diante do absurdo. O não poder fazer nada. O querer fazer tudo. Brigar. Gritar
. Andar. Voar. Nadar. Mergulhar. Chorar. Descompor. Sair. Ficar. Falar. Descobrir. Salvar...

Isto foi um dia.

Quando chegou a noite, brilhou longinquamente uma estrela. Muito pálida. Muito pequena. Mas suficientemente estrela para ser luz e esperança: era possível um sequestro. Todos se agarraram desesperadamente ao delgado raio de luz dessa possível estrela. Ah! Todos os desertos têm as suas miragens...

E isto foi uma noite.

Finalmente as aves de rapina triunfaram. Encarniçadamente fora o combate pelas horas das noites e pelas horas dos dias. Tudo confirmado: no coração da mata, um círculo. No círculo: os sorrisos das crianças, a ternura das esposas, os sonhos de muitos amanhãs, o desvelo dos pais, a amizade dos amigos, o vazio dos corações feridos, a fuselagem espatifada do PP-PDE.

No círculo da mata, os destroços.
Nos nossos corações, o desastre. 

(*) Publicado em seu livro Linha d´àgua: crônicas. Manaus, 1970