CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

1 de dezembro de 2012

CHÁ DO ARMANDO NO SÁBADO



Armando de Menezes falando
para a Globo e para o mundo
A estranheza desse fato repousa em que o encontro chazista ocorre sempre a partir do entardecer das sextas-feiras. Neste sábado, todavia, pela manhã e na Academia Amazonense de Letras, ocorreu o lançamento do livro O Chá do Armando em prosa e verso. Trata-se de produção literária desta reunião que, além de promover a libação de Black e outros destilados, lança a terceira publicação de sua editora. Quem perdeu o encontro, não imagina o que perdeu de iguarias.

Incluído entre os contumazes chazistas, colaborei com a crônica intitulada -- Antes do Chá do Armando

Antes que uma nuvem mais espessa me faça esquecer essa lembrança, quero registrá-la nesta retrospectiva. As primeiras libações com a matéria-prima que depois ganharia até páginas literárias ocorreram no Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, daqui para frente, IGHA ou Casa de Bernardo Ramos. Tudo começou quando, no 00 da virada do século, o então presidente, sócio Arlindo Porto, autorizou-me a organizar o acervo do Instituto que se encontrava desarrumado em decorrência da restauração do prédio.
 
O Salão do Pensamento Amazônico enquanto chegam
os chazistas, que foi um recorde de público
Tomei o encargo e consegui com o auxílio irrestrito de colegas dessa Casa e da chefia da Secretaria de Cultura, devo proclamar, satisfazer a incumbência. A descrição desse feito entremostra-se no texto bondoso e doce do mestre Armando de Menezes, com o título de Ascenção cultural, lavrado e registrado na Revista 24 da Academia Amazonense de Letras (2002).

Dissertando sobre associações operantes, nosso paraninfo das sextas-feiras relatava: “muito natural que transitaram por variáveis de atuação, nestes últimos anos marcaram, como ainda registram um portentoso desempenho intelectual.” E seguiu lembrando o desempenho do IGHA. Arlindo Porto conseguiu restaurar o prédio. Robério Braga recuperou o acervo geral. E depois de citar outros correligionários, louvava “o coronel Roberto Mendonça e o bibliotecário Geraldo Xavier dos Anjos, preparados e incansáveis pesquisadores da história amazonense, com elogiável atuação na reorganização do Museu e da Biblioteca (...) da Casa de Bernardo Ramos”. Obrigado, meu padrinho.

Vou repassar um pouco mais. A Ascenção de Menezes propala um tempo primoroso que a abertura do século, coincidentemente, infiltrou nos dois maiores institutos culturais do Estado. Tanto o IGHA quanto a AAL empreenderam iniciativas renovadoras. Esta, no discernimento de sua chefia, quando reconstruiu seus quadros e escancarou o futuro salão do Pensamento Amazônico para acolher a cultura popular, seduzindo aos estudantes, preferencialmente. Enfim, para amplo regozijo, essa renovação ainda se sustenta.

No IGHA, a passagem pôs-se em marcha com a restauração do edifício. A seguir, ocorreu a catalogação do acervo e, finalmente, a Casa também escancarou suas portas (literalmente) para a consulta aos seus vastos recursos. Enquanto isso ampliou seu patrimônio adquirindo um imóvel centenário. Nesse diapasão, viajava para um salto de qualidade... Pena que tenha ficado pelo caminho, afinal, “No caminho tinha uma pedra.”

(A minha mais dura refrega foi contra a restauração da biblioteca Ramayana de Chevalier. Os livros e outros elementos afins, amontoados de qualquer modo, submetidos aos respingos de tinta, a extrema poeira e outros inimigos dos livros, jaziam (isso mesmo!) em um salão. Adaptei um processo de recuperação e, sendo bem sucedido, soergui a biblioteca que, na opinião de técnicos, estava irrecuperável, condenada.) Ao menos, não toquei fogo nos livros!

Então tá. Depois de árduo trabalho, em que a limpa exigiu revirar todos os cantos do edifício, preparei uma sala existente na ilharga do museu. Nesse recinto, refrigerado, a diretoria passou a se reunir, no meado de 2000. Com o avançar das reuniões, com a presença maior de associados, estas foram se encorpando. Daí veio a sugestão de que a reunião se realizasse às sextas-feiras, ao final da tarde. E assim se passaram alguns encontros.

Até que, conversa vai conversa vem, nada melhor que para isso “molhar a garganta”. Assim, encerrada a sessão, foi servido um uísque, oferta do ighano Armando de Menezes, com os aperitivos fornecidos pela direção da Casa. Depois, como as finanças do Instituto apresentavam-se robustas, Humberto Figliuolo, o tesoureiro, engendrou um café regional. Era mais que regional, era uma fartura.

Bom, as reuniões da diretoria prosseguiram com o mesmo dispositivo, tornando corriqueiro o uísque do Armando. Mas,  a mudança da direção do IGHA, modificou esse calendário. As reuniões se tornaram ralas, não mais acolhendo uma plateia condizente.

Até aqui falei de “um pouco antes“ do Chá do Armando, sacrossanto privilégio, batizado acidentalmente com este codinome na própria Academia de Letras, e pelo próprio presidente Max Carphentier, onde se abrigou ao sair do IGHA. Até me lembro de uma presepada que aprontei, creio que em 2003. Em meu aniversário (17 de junho) fiz chegar ao encontro um bolo acompanhado de um cartão, que simulava ter sido oferta de minha consorte (uma das). Tá lembrado, mecenas Armando? Se não, vou anexar a foto.

Espero com esta lembrança ter contribuído com o propósito de escrever um pouco dessa história. Fatos que me interessa, especialmente porque desvendei que eu estava presente ao pontapé inicial. Ou, diria melhor, aos fartos pontapés.

Enquanto aguardo o barman Sérgio Luiz abrir com devoção a milésima garrafa de Black, aqui vai “o além depois”, copiando o saudoso mestre Samuel Benchimol. O Armando tea´s prossegue servindo em todas (salvo a sexta-feira santa) sextas-feiras, em algum canto da bem querida Manaus.