CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

17 de dezembro de 2012

DESASTRE DO PP-PDE – 50 ANOS (4º dia)


Na segunda 17, Manaus ficou em saber do avanço da expedição em busca dos mortos, porque não circulava qualquer jornal. Novamente o padre-cronista L. Ruas traduzia com o texto abaixo o desalento que tomou conta da capital, quiçá do país.

O SALVAMENTO
L. RUAS (*)

 Ainda continuamos sofrendo o impacto do terrível desastre aéreo ocorrido na madrugada do dia quatorze do corrente.
Já decorreram três dias de sofrimentos e de angústias para todos quantos se sentem ligados ou pelos laços do sangue ou pelos laços da amizade a todos aqueles que se acham envolvidos no desaparecimento do PP-PDE.

O poeta Jorge Tufic (de bigodes) e o
padre-cronista L. Ruas, sem data
À hora em que escrevemos estas rápidas e despretensiosas observações, apesar de o desengano já nos haver jogado no vértice da tragédia que destruiu umas cinquenta vidas, entre as quais, as de várias crianças, ainda permanece um resquício de dúvida e de esperança que dilacera, ainda mais, de dor, as almas e os corpos de todos os que desejariam não houvesse acontecido tamanha desgraça. E estes todos, somos todos nós que, em Manaus, esta pequenina cidade onde vivemos tão perto uns dos outros, estamos unidos por uma vivência que nos torna igualmente participantes do infortúnio que se abate sobre o nosso Estado e, certamente, sobre o Brasil inteiro.

O fato de já haverem decorrido três dias e, até agora, esta dúvida ainda continuar é, realmente, de estarrecer.

Conversando com várias pessoas que estiveram tomando parte ativa no trabalho de localização do aparelho desaparecido, ouvimos algumas explicações que, à primeira vista, parecem justificar este retardamento. No entanto, uma pergunta nos tem perseguido constantemente: O que pode justificar a perda de uma vida humana?

E o que é mais curioso é pensarmos que o problema do salvamento tem sido colocado na base de hipóteses: "Talvez não sejam os destroços do avião”... Parece que não há sobreviventes... etc. Mas, pensemos, agora, em termos positivos: e se forem Mesmo os destroços do avião? E se houver ou se houve sobreviventes? Já não aconteceu de, em desastres aéreos, onde tudo parecia estar destroçado, haver sobreviventes? Se as buscas tivessem sido mais rápidas, mais eficientes, no caso daqueles dois moços caídos nas selvas de Mato Grosso, eles não teriam sido salvos?

É isto que nos causa pasmo. Manaus, plantada no coração da estupidez desta selva amazônica, imensa e impenetrável, centro geográfico de uma enorme região permanentemente cortada por aviões que a cruzam de norte a sul, de leste a oeste, continua, no entanto, completamente desprovida de todo equipamento de salvamento para eventualidades como esta que, embora, não desejemos jamais tornem a acontecer, sabemos, porém, que podem acontecer. A desculpa de que o local onde, presumivelmente, se despedaçou o Constellation da Panair do Brasil, é de dificílimo acesso, pode explicar tal situação, mas, de maneira alguma, a justifica. Por que Manaus não tem, ao menos, um helicóptero? Por que é dispendioso para o Brasil? Dispendioso para o Brasil que se dá ao luxo de possuir um inutilíssimo porta-aviões? Ou Manaus não está devidamente preparada para estas emergências, apenas, porque se trata mesmo de Manaus, esta sempre esquecida e abandonada cidade de Manaus, capital deste Estado que continua sendo, para o Governo Federal, apenas, alguma coisa, uma porção de terra, geograficamente ligada ao restante da União?

Bom, graças a Deus, já chegaram os helicópteros dos Estados Unidos...

Esperemos que no momento de colocarmos o ponto final nesta crônica, já os aviões norte-americanos nos tenham trazido alguma notícia, algum indício que dissipe, de uma vez, esta indecisão que nos tortura, nos atormenta e revela uma criminosa inaptidão nossa.

(*) Extraído de seu livro Linha d´àgua: crônicas. Manaus, 1970