CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

13 de janeiro de 2012

Alencar e Silva: intérprete do "clown" (final)


Assim, Alencar e Silva, em Quadros da moderna poesia amazonense, encerra sua interpretação de livro-poema do padre-poeta L. Ruas: Aparição do clown

L. Ruas sauda J. Tufic (de bigode)  
 É bom que se tenha presente, no entanto, que a poesia é também um pássaro, estrela ou fonte. E que o poema é também um hino à poesia. Da mesma forma que é um ato de adoração ao Cristo.
Temos, , portanto, as duas intenções, os dois segmentos ou impulsos básicos do poema - polos cuja distinção se impõe à atenção e sensibilidade do leitor interessado na compreensão plena do texto, porquanto uma leitura meramente hedonística, além de ser chuva que não molha, poderá, com efeito, fazer-nos tomar, equivocadamente, aquelas duas realidades por uma só.

Dir-se-á que para isso concorrerá a própria complexidade do poema. Sem dúvida. Mas deve-se ver que, no caso, a complexidade e seu teor de mistério são positivamente elementos consubstanciais ao poema, à falta dos quais este não se consumaria, da mesma forma que a impossibilidade do perfume frustraria a perfeição da rosa.

É claro que um poema é o que é, e até o que não é; nunca, porém, o que poderia ser. Assim, no primeiro caso, o poema é (o que é): o que a compreensão plena do seu texto nos revela. No segundo, ele é (o que não é): o que o mistério da leitura nos sugere. No terceiro, ele não é (o que poderia ser): o que não esexpresso nem sugerido no seu texto. Ou, ainda: No primeiro caso, teremos mergulhado em sua realidade. No segundo, apenas vivido a iluo do mergulho. No terceiro, porém, teremos ficado completamente por fora da realidade do poema, circulando-lhe à volta, longe da possibilidade ou da ilusão do mergulho, a tentar impossivelmente captar-lhe uma realidade que não é a sua.

Donde se infere que somente uma leitura eficiente nos possibilitará a compreensão verdadeira do poema de L Ruas, seguidas as indicações subliminares que ele mesmo nos fornece. Será preciso, por exemplo, atentarmos duplamente para a advertência do poeta, num dos pontos culminante do poema:
"lê de novo o poema. desce. vai ao fundo. / (...) não te afadigues. / o ritmo do meu nome é longo. majestoso. / quando souberes quantas rosas floriram / na paisagem perdida e de novo descobrires / o sonho inquieto e a aurora prateada / alegra-te então. pois caminhas certo / rumo ao mistério inexprimível do meu nome.”

Quem fala assim é ainda a poesia, por cujos pés misteriosos (de fauno grego ou de arcanjo bizantino) o espírito humano movimenta-se no ritmo apolíneo ou na dança dionisíaca.

Nesses dois mistérios, o da poesia e o do Cristo, estarão os polos do poema de L Ruas. E é por ambos que nos virá a salvação: pela condição de cativos do pássaro ferido (ser livre em essência é ser cativo) ou pelo incessante modelar daquela chama que nos queima a alma e as mãos, sem deixar que se perca uma só de suas fagulhas: "pois uma delas pode ser a luz que salvará tua face passageira quando raiar o sempiterno dia."
A salvação - eis o sentido profundo da aventura do espírito. Eis o supremo anelo da condição humana. Eis o substrato do poema de L Ruas.
Alencar e SIlva, novo intéprete
Creio que muito se há de escrever sobre esse grande e torturante poema, cuja extraordinária plasticidade, aliás, não faria senão a fortuna do artista que se decidisse a transpô-la para a linguagem das tintas. Ou recriá-la em seus traços.

A obra de L Ruas, longe de esgotar-se nesse poema, estende-se pelo ensaio, gênero em que já nos deu os volumes Linha d'água e Os Graus do Poético, e prossegue com Poemeu, coletânea de poemas em que nos reencontramos com a sua grande poesia e de cuja apresentão fomos o privilegiado subscritor e cujo texto transcrevemos a seguir, por refletir com precio o nosso pensamento a cerca do Autor - pássaro de altos regios silenciado quando ia em pleno voo.