CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

1 de janeiro de 2012

Primeira comunhão


Renato Mendonça *
       
RenatoMendonça, 1968
Eu acabara de aprender a ler e já me inscreveram no catecismo, preparando-me para a Primeira Comunhão, hoje denominada de primeira eucaristia.         
Ao tempo, aquele ato era como se fosse um casamento consigo mesmo. Havia inúmeras aulas, antecipando a cerimônia, pregando  doutrina exacerbada como para fazer uma lavagem cerebral no garoto, de forma a deixá-lo catequizado plenamente e pronto para comungar pela primeira vez. 

Era necessário, entretanto, que o menino no dia anterior fosse ao confessionário, para consultar o padre e destilar aquilo que suspeitasse que fosse pecado. Na falta de melhor esclarecimento sobre os parâmetros da falta, era comum enumerar tudo, até pensamentos fúteis. Ainda bem que éramos criança, de poucos recursos e poucas oportunidades de cometer pecado. Ainda mais, vivendo numa cidade pacata e numa época sem tantos apelos veiculados pelos meios de comunicação.

Chegou finalmente o dia, vesti as roupas brancas; a destoar, apenas os sapatos pretos. Mas era permitido o uso, pela diocese, porque sapato na cor branca seria um desperdício, um excesso sem outra utilidade.
De catecismo na mão, em forma de missal, também na cor branca, e uma vela fina e longa, enfeitada com uma fita, com alguns dizeres em latim, entrei na igreja em direção ao altar. A camisa por dentro da calça — ainda curta — dava um ar mais eloquente ao evento. A roupa bem engomada — de todos — dava o tom do evento católico. Cabelos bem curtos e levemente besuntados de brilhantina Glostora combinavam com as unhas cortadas rentes e limpas, preparadas especialmente para a ocasião.

A compartilhar comigo, inúmeros garotos da minha idade, que estudaram com afinco o catecismo e sabiam, na ponta da língua, que respostas deveriam ser ditas na cerimônia. Segundo o catolicismo esse evento é a confirmação do Batismo. E eu julgava mais importante porque dessa primeira cerimônia ninguém se lembra.

Vi a multidão de pessoas que se acotovelavam nos primeiros bancos na igreja do Educandos; alguns apenas para assistir a missa que acompanhava a cerimônia; outros para admirar seus pupilos junto ao altar, sendo doutrinados na religião.

O cônego Antônio Plácido, muito cultuado pelos fiéis, pela sua sabedoria e ares de beato, se postou para gerir a cerimônia. Os fiéis admiravam seus sermões nas missas dominicais. Era um padre bem preparado, frequentava os lares, falava a língua do povo, e usava de metáforas engraçadas para explicar com facilidade os meandros das parábolas do cristianismo, e o ensinamento das práticas religiosas.
No alto, matriz de Educandos, 1975
Colocamo-nos junto ao altar, enquanto o celebrante fazia de modo automático e com muita prática o ritual de encenação da Eucaristia. Num determinado momento, tivemos que nos ajoelhar e baixar a cabeça. Nesse instante, eu me desequilibrei e pus a mão esquerda no degrau forrado com um tapete vermelho, enquanto o cônego acidentalmente pisou sobre ela.

Quis dar um grito ou alertá-lo sobre o ocorrido, mas como era um instante de silêncio total, me contive e aguentei firme, enquanto o padre elevava o cálice aos céus. O instante me pareceu uma eternidade. A mão esmagada pelo peso do obeso sacerdote ficou quase adormecida. Quando ele se deslocou senti um alívio e uma dor latejante. Com fé, consegui me concentrar no restante da cerimônia apesar do incômodo.

Enquanto minha mente juvenil alimentava a certeza de que aquilo fora mais uma provação na vida, um castigo de Deus por eu ter cometido um pecado no dia anterior: quis ver, pela fresta, a “priminha” Maria de Nazaré, fazendo xixi no banheiro. Vinha à mente igualmente que o castigo fora injusto: eu nem estava na Igreja de Nossa Senhora de Nazaré.

(*) escrito em 29 jun. 2009, quando o autor completou 47 anos