CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

25 de julho de 2011

De Ônibus com L. Ruas

25 de julho

Dia do Escritor - do Motorista e do Colono


Para comemorar a tríplice data, recorri ao saudoso escritor L. Ruas (1931-2000) que, nos idos de 1950, sacou em simples e curto trajeto de ônibus reflexões oportunas, de um mestre nas ciências humanas. Na época, os ônibus eram conhecidos pelos nomes, alguns até protegidos pelos santos.

Mesmo com as modificações que o avanço de Manaus impôs, o texto segue oportuno e realista. Para saudar o dia do Colono, tomo a liberdade de sugerir que o cachorro presente no ensaio de L. Ruas, pertence ao colono.


ÔNIBUS
L. Ruas*

* Luiz Ruas, padre-poeta, professor de Psicologia e Filosofia, era usuário de ônibus no trecho da av. Joaquim Nabuco, onde residia. Obviamente quando nos fala em dez minutos de percurso, não imaginava a hora e meia que leva hoje a viagem para a Zona Leste. E que lições nos teria deixado.

Publicado em A Crítica, Ronda dos Fatos, 20 dez. 1957
Lá pelas nove horas da manhã lavada pela chuva, pela última chuva que se despencou sobre os telhados de nossas casas, apanhei o ônibus que faz a linha Joaquim Nabuco-João Coelho.
Àquela hora os ônibus já trafegam relativamente vazios. Em geral, seus passageiros são alguns retardatários de volta do mercado, caracterizando-se pelas bolsas quase vazias. É também a hora em que as donas de casa, quase sempre acompanhadas de seus filhos pequenos que ainda não vão para a escola, vão fazer suas compras.

Extraído do Jornal do Commercio, Manaus, 7 nov. 1971
  Os ônibus têm o mesmo destino de todos os transportes coletivos. Dentro deles se reúnem e confraternizam, no espaço curto de uns cinco a dez minutos, os mais variados tipos humanos. Todos sofrem os solavancos, todos caem, ao mesmo tempo, nos mesmos buracos. Suportamos os outros não só moralmente como queria São Paulo mas, também, fisicamente tantos e tais são os empurrões que levamos.

Entramos, sem querer, através da conversa indiscreta de alguns, na vida íntima e nos íntimos problemas de famílias das quais nunca chegáramos a suspeitar a existência. Discute-se política. O governo é defendido e atacado. Chega-se mesmo a fazer amigos. Namora-se. Briga-se. Come-se. Isso tudo na rapidez de uns dez minutos. O ônibus nos proporciona, pois, um retrato ou miniatura muito vivo da existência e mais do que certos outros transportes coletivos devido a certas características que lhe são peculiares.

Diferencia-se do ônibus, por exemplo, o bonde.
O bonde não está sujeito às mesmas condições do ônibus. Não cai em buracos, não dá solavancos que sugerem encontros (a vida, para Machado de Assis, era uma série de cachações), não possuem a mesma rapidez. Além disso, o trajeto do bonde é muito lógico. Montado sobre trilhos, o bonde seguirá, indefectivelmente, pachorrentamente, o seu itinerário. Os desvios existentes na trajetória de um bonde já estão todos previstos.

O mesmo não sucede com o ônibus. Este conhece o mistério dos caminhos inesperados. A mim já aconteceu de me surpreender viajando por ruas inteiramente fora do rotineiro trajeto. Os ônibus, como os pássaros e os homens, são capazes de inventar suas rotas. Não se atrapalham como os bondes. Se uma rua está impedida por algum conserto, por algum comício ou por alguma procissão, o ônibus inventa um caminho novo.

Essa é a grande diferença que existe entre o bonde e o ônibus e a grande semelhança que há entre ele e esse imenso transporte coletivo no qual todos viajamos e ao qual chamamos vida: a ilogicidade.

Há outra, uma segunda grande semelhança: é a comunidade humana.
O ônibus cria, mais do que qualquer outro transporte coletivo, em tão pouco tempo, um clima psicológico próprio para o estabelecimento das relações humanas. No avião encontramos, talvez, um rival do ônibus nesse aspecto de relacionar pessoas num mínimo de tempo.

Acontece, porém, que as relações nascidas no avião são meras evasivas sugeridas, geralmente, pelo medo. A condição de insegurança que todos vivemos, no bojo de um avião, a sensação de estar caindo a qualquer instante, faz com que nos agarremos aos outros senão fisicamente, pelo menos, com as palavras. A conversa no avião é sempre um meio de esquecer o medo.
Publicado em A Crítica, Manaus, 1957
 Isto não acontece no ônibus. Sem falarmos nas loucuras praticadas algumas vezes pelos choferes, o ônibus não nos faz sentir esta insegurança. Rodando sobre o chão duro e sólido, o ônibus nos comunica a estabilidade de suas quatro ou oito rodas. As relações humanas, pois, nascidas no ônibus são espontâneas e, não raras vezes, insinuadas pelos acontecimentos observados dentro dele.

O cachorro é um dos animais, se pudéssemos dizer assim, mais humanos. Onde há um cachorro, há um homem. Às vezes mesmo ele prepara a chegada do homem. Se se encontrar um cachorro sozinho só há três saídas: ou existiu um homem por ali, ou existe, ou existirá,
como no caso da estratosfera.
Mas o cachorro é quase concomitante ao homem. E mesmo que não se veja um homem, o cachorro humaniza qualquer local, qualquer paisagem por mais deserta e árida que seja.

Há muito tempo, quando se discutia no Brasil, com unhas e dentes, o caso Pampulha, e se dizia besteira a torto e a direito, uma das mais tolas objeções que já ouvi em toda a minha vida, dita, aliás, por gente importante, foi contra o cachorro que Portinari pintou aos pés de São Francisco no seu belíssimo mural lá existente.

Não sei porque, eu, ao contrário, mesmo sem entender muito bem Portinari, sempre achei que o cachorro aos pés de São Francisco humanizava, tornava real, poetizava a composição quase onírica de Portinari.
Pois bem. Olhem que eu até que viajo de ônibus. Mas nunca tinha visto uma coisa assim apesar de minhas idéias acima expostas em torno deste transporte coletivo.

Naquela manhã lavada de chuva, com um vento friozinho que até parecia o ar-condicionado do [cine] Odeon quando está funcionando, ao apanhar o ônibus, deparei com um cachorrinho dentro do ônibus. Não era um cachorro burguês desses que andam nos colos de suas donas e pagam passagem.
Não. Era um vira-lata. Ia com sua dona que voltava do mercado com uma bolsa vazia e com a filhinha no colo. Um cachorro furão. De carona. O cobrador quis botá-lo pra fora, mas não botou. O cachorro virou passageiro.

E o ônibus se humanizou completamente.