CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

5 de julho de 2011

O Amazonas lendário... (final)

Ulisses Bittencourt (1916-93)

Seria oportuno, em síntese, lembrar as modificações sociológicas decorrentes do “boom” da borracha, também no terreno da criação literária, quando Manaus já possuía gente culta e viajada, amazonenses notavelmente conhecedores da sua terra e sua gente.

No final do século XIX e início deste, levas de operários e titãs do pensamento, nacionais e estrangeiros, afluíram ao Amazonas, atraídos pela valorização da goma elástica. Destes, basta citar alguns nomes que colaboraram ativamente na imprensa: Th. Vaz, Rocha dos Santos, Fran Paxeco, Geraldo Campos, Euclides da Cunha, Viriato Corrêa, Humberto de Campos, João Coelho Cavalcante (João barafunda), Leônidas de Sá, Adelino Costa, Adriano Jorge.

Com ou sem partidarismo político, mas atentos às suas simpatias, defendiam ou atacavam os vultos que comandavam a política e nada passava sem análise ou crítica, muitas virulentas e convincentes, agitando o pensamento da população. Dos entreveros políticos saíam lances imaginativos, anedotas mordazes, epigramas de sutil ironia, colocando os adversários em situação embaraçosa. Comentando um caso verídico, a imaginativa popular e o tempo encarregavam-se de deturpá-lo, transformando-o em lenda.

O seringueiro quando vinha a Manaus procurava divertir-se ao máximo, a fim de esquecer as agruras da solidão da selva, mas não como débil mental como fazem crer. A estória generalizada de que queimava charutos com cédulas de quinhentos mil-réis é, evidentemente, conversa de malquerer. Porque houvesse um caso tresloucado, não quer dizer que fora além.

Pescador próximo à ilha do Marapatá
Outra lenda muito curiosa, porém deprimente para todos, é a da ilha de Marapatá, onde se deixava a consciência ao passar para Manaus e que foi divulgada por Euclides da Cunha em entrevista ao Jornal do Commercio, do Rio, em 11 de janeiro de 1906, na qual em seu primeiro tópico diz: À entrada de Manaus existe a belíssima ilha de Marapatá – e essa ilha tem uma função alarmante.


É o mais original dos lazaretos – um lazareto de almas! Ali, dizem, o recémvindo deixa a consciência... (Um homem de caráter: discurso em homenagem ao marechal Thaumaturgo de Azevedo. Fran Paxeco, 1906).

Até alguns anos antes de falecer, Geraldo Rocha contava coisas chistosas sobre amazonenses ilustres, em sua coluna “Conversa com o meu netinho”, no jornal A Nota(sic), e Humberto de Campos, em sua fase ainda não espiritualizada, divulgava coisas pouco edificantes.


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Os fatos comentados integram-se a um Amazonas flagrantemente falso, que se formou ao influxo deturpador das lendas.
O coronel Jose Cardoso Ramalho Júnior, na abastança como na pobreza, foi sempre uma figura respeitável e representativa, numa dignidade tranquila. Governou o Amazonas de abril de 1898 a julho de 1900. Nascido em Manaus a 7 de abril de 1866, faleceu no Rio de Janeiro, a 18 de setembro de 1952.
Onde estiver, há de pedir como Campos de Figueiredo: “deixa que hoje me chame de eternidade”.

Publicado no Jornal do Commercio, Manaus, 14 fev. 1977