CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

12 de fevereiro de 2011

Memorial Amazonense (XLV)

Fevereiro, 12


1959 – Morrem em Manaus, Branco Silva, pintor ontem, artista plástico hoje; Hemetério Cabrinha, poeta; e Arnaldo de Menezes Veiga.

Branco Silva (que a maioria implica em acrescentar o “e” entre os nomes) influenciou marcadamente o poeta L.Ruas, afinal era seu tio. No Amazonas, "o tio Branco foi um pintor e decorador de renome". Muito mais identificado pelo Presépio Maravilha que instalou em edifício situado na praça Oswaldo Cruz ou vulgarmente da Estação, que a cada Natal se apresentava mais arrojado. O esplendor do presépio se fortificava com os movimentos dos diversos componentes.
O presépio destacava-se ainda mais pela movimentação e pelos sons imitativos de diferentes animais. Toda essa vivacidade decididamente impressionou as crianças das décadas de 1940/50, entre as quais me incluo. Estive lá algumas vezes, pois o criador do presépio morreu em 1959.

Privilegiadíssimo, o finado padre-poeta L. Ruas conta com mais propriedade e vivência:
“Foi você, tio Branco, quem guardou a nossa infância. Perto de você, sempre me senti menino. Às vezes, nem precisava estar perto de você. Às vezes, eu estava longe. Eu estava no Rio, no Ceará, em São Paulo e você, aqui, trancado no seu ateliê, pintando, humildemente pintando, mas, sempre, com carinho, com entusiasmo, sempre extasiado. Bastava eu ouvir a Ave Maria de Schubert ou de Gounod e lá estava eu no seu próprio presépio. No presépio da Eduardo Ribeiro, no tempo em que o camelo não virava o pescoço, solenemente, como um paxá, nem Nossa Senhora mostrava o menino. Ou no presépio da Praça Oswaldo Cruz ou como nós chamávamos, sem pedantismo, da estação.”

O Jornal. Manaus, 19 fev. 1959
Magni nominis umbra (à sombra de um grande nome), David Israel (da ABI) tratou da fatalidade. Depois de lamentar a ida de Hemetério Cabrinha, “a morte leva-nos também para o silêncio do túmulo o professor Branco Silva, artista laureado de não menor admiração pelo seu talento artístico, o mago do pincel, o burilador das tintas, cujas nuances do belo e do horrível sabia, como ninguém, modelar com os inesgotáveis recursos de sua fenomenal inspiração".

Cabrinha, em A Crítica. 18 jul. 1958
O saudoso Waldemar Baptista de Sales também registrou (O Jornal, 22 fev.) sua “indignação” com “a ronda sinistra da morte” à cidade de Manaus.
Pessoas amigas desapareceram, entre ela o pintor e o poeta. Refiro-me ao conhecidíssmo Branco Silva e ao inesquecível Hemetério Cabrinha. A sombra da morte os colheu, no mesmo dia, parecendo assim o encontro marcado. De Branco Silva tenho recordações e magnífico quadro, que me presenteou, uma paisagem amazônica, cujas tintas e belezas revelam as magnificências de sua concepção artística.
O outro era poeta: Hemetério Cabrinha. Poeta e orador fluente. Conheci esse eleito das musas ainda no esplendor de sua vida, arrancando aplausos nas comemorações do dia 1º de Maio, na Casa do Trabalhador, pois, além de poeta, sentia os anseios populares e pugnava pela justiça social, em arrancadas magníficas e floreios de linguagem.
Para as tribulações do próprio de Cabrinha:


Sales esclarecia: “vivemos da mercancia, de juros, lucros e dividendos. E os que vivem fora desse ambiente recebem e, quando muito, as sobras e as aparas. Daí, em consequência, o sofrimento e o desalento do poeta”.

Cinquenta e dois anos depois, nada sei sobre Arnaldo de Menezes Veiga.