CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

8 de fevereiro de 2011

Manáos versus Manaus (III)

A antiga estação de bondes da Manáos Tramways passa por recuperação. Existente no final da avenida Sete de Setembro, após a Ponte de Ferro de Benjamin Constant, começa a ser restaurada. Em duas paredes, haviam reconstruido fotos antigas, agora apesar de inexistir placa indicativa do responsável, o “bonde” vai partir.

Manaus Energia modifica a fachada do antigo prédio
Penso que será reconstruída a fachada, como antes, pois ali era a oficina dos bondes que circularam em Manaus por mais de 50 anos. Ao parar o serviço, foram sucateados, desaparecendo totalmente. Apenas uma réplica de um bonde e a amostra de trilhos existem no Largo São Sebastião.
Conhecida por Usina da Viação Urbana, no início do século XX
Mas, quem melhor escreveu sobre o bonde manauense foi o poeta Tiago de Mello, em seu livro Manaus, amor e memória (Manaus: Valer/Prefeitura de Manaus, 2004). Dele, estou “morcegando” alguns tópicos.
Os bondes “marcaram quase meio século da vida e da cultura da cidade. Único meio de
transporte, durante largo tempo, de toda a população. 200 réis a passagem: o condutor recebia a moeda e entregava ao passageiro um cupom numerado, em cujo verso vinha impresso um adágio, um pensamento. Embora muita gente andasse mesmo era a pé, porque não tinha o dinheirinho para tomar o ranqedor.”
Réplica do bonde Saudade, existente no Largo São Sebastião
"Mas o bonde não era apenas meio de transporte. As suas engrenagens também davam movimento à sociologia da cidade. Passear de bonde, dar uma volta no Saudade, fazer o Circular era mais que divertimento domingueiro: era o costume, virou moda. As famílias tradicionais não transigiam: primeiro era a missa da Matriz, a das dez, que era a mais elegante; depois o passeio pelo Roadway; e para fechar a manhã, uma volta na linha dos Remédios, que ao seu retorno à estação da Manaus Tramways mudava a placa para Saudade."
Bonde na avenida Sete de Setembro
Mais uma morcegada: "A rapaziada pobre se divertia a seu modo, inventando um esporte novo e perigoso, que demandava agilidade e coragem e que deu origem a um verbo só nosso: morcegar. Morcegar consistia em tomar o bonde em movimento e logo em seguida saltar. Quando o veículo vinha em marcha moderada, alguns eram capazes de tomar e saltar do "bonde andando" mais de uma vez. O segredo da proeza perfeita era a simultaneidade: as mãos no balaústre e os pés na plataforma; no salto bem calculado, as mãos já iam em concha. Rapaz que se prezasse só saltava de costas, principalmente se a namorada andasse por perto: corria dois ou três passos na plataforma e se lançava ao ar na direção oposta ao bonde; mal tocava o chão, o corpo iniciava a corrida, também de costas, amortecendo o impulso em sentido inverso.
Obrigado, poeta, pela memória.