CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

20 de fevereiro de 2011

CIDADE FLUTUANTE (II)


Cartão Postal da Cidade Flutuante
Durante 1964 e início de 1965 morei na Cidade Flutuante, quando possuía 20 anos de idade. A cidade era o aglomerado de casas de madeira, algumas cobertas de palha, outras com folhas de alumínio, localizado na orla do rio Negro. Sua entrada principal estava situada onde hoje é o mercado de peixes e carnes da feira da Manaus Moderna. Essa entrada era constituída de três "pontes" (tábuas pregadas ou amarradas sobre enormes troncos de árvores, que serviam de "bóias": a ponte do Paraíba, a dos Taveiras e a do Arueira.Todas seguiam rumo ao "meio do rio" e possuíam cerca de 150 a 200 metros.

As pontes estavam ladeadas por casas flutuantes construídas sobre bóias também, em sua maioria residências, mas existiam casas comerciais: fornecedores de viveres, materiais de pesca e outros artefatos para os ribeirinhos; ainda se encontravam restaurantes, bares, botecos, bazares etc.

Entre tais casas comerciais, gostaria de enfatizar o "Flor de Abacate"... um lupanar estabelecido logo no inicio da ponte do Arueira, oferecendo bebidas, músicas, danças e mulheres livres para dos clientes; era tudo muito bacana, somente que... vez por outra as duplas do "Cosme Damião" (policiais da Policia Militar patrulhando as ruas) desciam até o logradouro para apaziguar os ânimos, e as vezes prender os mais exaltados.

Postal da Cidade Flutuante
Durante o dia, as pontes pareciam “formigueiros”, tal o vai e vem de homens, mulheres e até crianças, transitando com ou sem mercadorias na cabeça, nos ombros, nas mãos, enfim... era um movimento constante de pessoas fazendo isso ou aquilo.

O primeiro governo revolucionário de 1964 idealizou "limpar" a frente da Cidade, promovendo assim a retirada dos moradores e demolição das casas, oferecendo como local de nova moradia, terras recém desmatadas onde hoje, mais ou menos, se situam os bairros do Alvorada 1 e 2. Desapareceu dessa maneira a Cidade Flutuante, que eu conheci.

* Herbert Ribeiro (professor aposentado, estudioso da vida manauense, conhecedor dos bondes de Manaus, sua próxima colaboração)

Visão da Cidade Flutuante. A Crítica, agosto 1980