CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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domingo, abril 26, 2026

POESIA DOMINICAL (25)


O poema traz duas curiosidades: foi elaborado por Francisco Pereira da Silva em 1929, próximo de celebrar o centenário. O autor ficou conhecido na literatura amazonense pelo registro do sobrenome nas demais obras literárias do gênero. Esta obra foi publicada na revista Rionegrino, nº 14, circulada em novembro de 1929. A ilustração foi concebida por Gil, usando um quadro de Branco Silva.

Revista Rionegrino, nov 1929

 

ORAÇÃO DA ÚLTIMA ICAMIABA

Luz de ouro e leite derramada, mansamente,

Pelo azul-desbotado dos Espaços

 

No Lago Sagrado, as águas, em êxtases, lucifremem,

Na argêntea reflexão da nudeza selênica...

- É a Lua Grande, que nadar com as uiaras tentadoras,

Para ouvir o canto misterioso da Mãe do Muiraquitã...

 

... E a última icamiaba, apoiando-se à árvore amiga,

Fita os olhos tristes na deusa dos que atuam e perdoam...

 

 “Yaci! Yaci! Quando te foste da terra,

Levaste na tua alma de luz e pluma

As angústias e as lágrimas das mulheres...

 

“A maldade dos homens ficou rondando o coração de tuas filhas...

“Então, Naruna, soltou o seu grito de guerra contra os nossos algozes...

 

“E quando andávamos, errantes, pelas montanhas e florestas,

Chorando e combatendo,

Somente a piedade branca do plenilúnio

Dava alegria aos nossos corações... 

“Yaci! Yaci! Os homens são irmãos das feras insaciáveis...

Mas, Naruna, amaldiçoando os homens, matou o amor...

 

“Yaci! Yaci! Lágrima e angústia, alegria e perdão!...

As guerreiras de Naruna vão bem longe...

Tu, que és tão meiga, tão doce e tão piedosa,

Tu, que vives tão só, bem sabes, mãe carinhosa,

Quanto dói na mulher, um coração vazio!...

 

“Traze do fundo d’água do Lago Sagrado, a pedra verde

Da felicidade!

E que ressurja o amor no peito da icamiaba,

Na glória de matar meu algoz entre beijos,

Na ânsia de morrer cantando nos seus braços!...” 

FRANCISCO PEREIRA

sábado, julho 05, 2025

BOCA DO IMBOCA - 1965

 

Raro há de análogo entre as duas fotos, que foram tomadas em idêntico ângulo, porém, defasadas em 60 anos. Hoje, restam tão-somente os resquícios da usina de óleos naturais, cujo prédio abriga a Creche Municipal “Madalena Arce Daou”, uma homenagem póstuma à esposa de Phillipe Daou, falecido fundador da TV Amazonas. No mais, carro, postes de energia e as casas da Boca e as “bocadas” deram lugar ao asfalto, ao lixo orgânico e humano debaixo da ponte e outras degradações.

Fotos em cores desta data


Publicação do Jornal do Commercio, de 19 setembro 1965

A “Boca do Imboca” abria a rua São João que, adiante, ao topar o Grupo Escolar Leopoldo Neves, se inclinava para a direita e tomava o nome deste ex-governador, adiante, em nova curva à direita e tendo como referência o clube Guanabara, mudava para rua Branco Silva, até seu término na av. Presidente Kennedy.

Ao professor Aguinaldo Figueredo, nascido e criado no pedaço, de quem solicito suprimento sobre a “Boca”. 

Boca do Imboca 

Na administração Vinícius Conrado não há bairros privilegiados. Entendendo que foi eleito para governar a capital do Estado, o chefe comunal não limita sua atividade a tal ou qual área, e abre frentes de trabalho sempre onde há necessidade. É este o princípio que adota, e em consequência, toda Manaus é beneficiada igualmente. Seja no cumprimento da simples, mas importante Operação “Tapa Buraco”, seja no calcetamento de ruas nunca antes olhadas, vai assim o prefeito Vinícius Conrado deixando seu nome ligado ao processo de embelezamento e urbanização da capital, sendo o aspecto fixado pelo clichê um exemplo: trata-se da entrada do bairro de Santa Luzia, que agora está sendo calcetada inteiramente.

segunda-feira, novembro 14, 2022

VINICIUS RUAS (1924-2022)

 Conheci este artista (dos pincéis e do tatame) através da Internet, depois que publiquei sobre o saudoso padre-poeta Luiz Ruas (seu primo); no contato ele me enviou o endereço e a convocação para uma conversa. Era um sítio em Niterói, cercado com lembranças de Manaus, onde ele nascera, filho do artista Branco Silva. Também foi pelas redes sociais que conheci seu falecimento, dia 11, aos 98 anos.

Tela intitulada "Careiro"


Foram ao menos três visitas ao tapiri do Sensei 8º Dan, e mestre dos pinceis e tintas, com muitas histórias para contar. Mostrou-me os seus arquivos, fotografei o quanto pude e já compartilhei neste Blog. Por fim, presenteou-me um quadro que recria uma cena clássica de nossos igarapés, dedicando a este "historiador" com sua autoridade de Doutor acadêmico. Fecha-se assim o ciclo da família de Branco Silva. 
Até a eternidade, Vinicius.

Transcrevo parte da notificação da Federação de Judô do Estado do Rio de Janeiro:
 

Nota de pesar

falecimento do Sensei Vinicius Ruas

 2  Diano Massarani  0 comentários

A Federação de Judô do Estado do Rio de Janeiro informa, com grande pesar, o falecimento, aos 98 anos, do Sensei Vinicius Ruas Ferreira da Silva, kodansha 8º Dan. Um homem admirado por ter sua trajetória confundida com a própria história do judô e do jiu-jitsu no Brasil.

Com 14 anos, em 1938, Vinicius Ruas começou a praticar as artes marciais em Manaus, com o japonês naturalizado brasileiro Antônio Soshihiro Satake, que ao lado do Conde Koma, foram os grandes discípulos da segunda geração da Kodokan responsável por espalhar a “arte do Caminho Suave” pelo mundo. Satake é considerado por muitos o primeiro japonês a abrir uma academia de Judô/Jiu-jitsu no Brasil, o Atlético Clube Rio Negro, na capital do Amazonas. Vinicius Ruas é um dos principais e mais respeitados discípulos do mestre Satake.

Se mudou para o Rio de Janeiro onde se dedicou a repassar tudo que havia aprendido. Ligado ao Clube Sion até o final de sua vida, também foi presidente da FJERJ. É Doutor em Educação Física e Desportos pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde, em 2013, foi nomeado Professor Emérito por sua vida atuando, principalmente, no Judô Infantil e pelas características particulares de sua forma de ensinar. Também por isso, foi convidado a ministrar palestras em diversos locais, como a Universidade do Porto, em Portugal.

Um verdadeiro artista dos tatames e do ensino, não foi apenas à arte do Caminho Suave que Vinicius Ruas se dedicou. Filho do artista plástico Branco Silva e primo de falecido padre-poeta L. Ruas, em seu sítio, em Niterói, deixou vir à tona a veia de artista plástico, como no quadro abaixo.

O legado nas artes de combate foi repassado a Marco Ruas (filho do primo de Vinicius, mas considerado um sobrinho do sensei), segundo brasileiro a ser campeão do UFC e famoso por ter fundado a equipe Ruas Vale Tudo e o conceito de cross-training, que preconiza que para se manter no topo do MMA é necessário se aperfeiçoar em várias modalidades.

terça-feira, abril 02, 2019

CASCO DE BRANCO SILVA


Já publiquei neste espaço sobre a morte do artista plástico Branco Silva, acontecida em 12 de fevereiro de 1959, portanto, há sessenta anos.


Pouco, muito pouco existe dele em Manaus, lembro de uns quadros no IGHA e outros na Pinacoteca do Estado. Há cinco anos, tomei contato com seu filho Vinicius Ruas (93a), que reside em Niterói-RJ. Em duas ou três visitas a este, conheci algo mais sobre o criador do Presépio Maravilha.
Nesses dias, graças a Internet, sou solicitado a escrever sobre nosso saudoso artista, quando Gustavo Gurgel, de Minas Gerais, me interpela sobre o achado em museu de Portugal.

Cheguei ao seu e-mail através de seu blog porque estive pesquisando sobre o artista Branco Silva. Chegou ao meu conhecimento a existência de uma peça disponível no Museu da Presidência da República, em Portugal, cuja descrição do artista cita esse nome, Branco Silva.
A peça é um óleo sobre carapaça de tartaruga disponível no salão de presentes de Estado daquele museu, ofertado aparentemente em 1957 pelo governo do Brasil ao Chefe de Estado de Portugal. Desejo conhecer mais sobre o histórico desse objeto.

Em outro e-mail, Gurgel envia o endereço da descoberta:

O casco de tartaruga está exporto no Museu da Presidência da República, em Portugal. Você pode vê-lo através do tour virtual existente no portal da instituição na internet.
Link do portal direcionando para a 

Completa Gurgel:
Está identificado como Óleo sobre casco de tartaruga, Branco Silva, 1957. Fiquei maravilhado com a peça. Alto nível de representatividade e informação; além, claro, da beleza singular. 

Feito o registro. Lembrando que o presente foi entregue ao presidente de Portugal, Craveiro Lopes, quando de sua passagem por Manaus, em 1957, ocasião em que efetuou uma visita ao Brasil.



domingo, dezembro 16, 2018

PRESÉPIO DE BRANCO SILVA


Aproveitando a proximidade do Natal, quando ainda se cultua a representação do nascimento de Jesus, vou relembrar o autor do mais expressivo presépio construído em Manaus, infelizmente desaparecido. Trata-se do Presépio Maravilha, de autoria do saudoso mestre das artes plásticas - Branco Silva.

Branco Silva
Mais conhecido pelo seu presépio do que pelas suas telas, Branco Silva (comumente alcunhado de Branco “e” Silva) na vida real chamava-se Leovigildo Ferreira da Silva. Amazonense, nascido no Seringal São João, nas barrancas do rio Purus na entrada do rio Tapauá, em 1892, era filho de um rico comerciante português que fez fortuna na época como exportador de borracha.

Para esta relembrança transcrevo uma página que me ofertou seu filho, Vinicius Ruas, sacada de seus alfarrábios, cujo texto recorda uma proeza de seu genitor. Informo que não há identificação do órgão, nem data. Porém, esta publicação e relativos anúncios foram impressos no Rio de Janeiro, por ocasião do 36º Congresso Eucarístico Internacional (julho 1955), ocasião em que Branco Silva teve seu presépio exposto.
  
Recorte da publicação

 RACHEL de Queiroz, a fulgurante estrela da constelação literária do Brasil, esse espírito brilhante que todos aplaudimos e admiramos, teve ocasião, numa de suas crônicas de jornal, de dizer de sua estranheza por não ter o Brasil um presépio de Natal à altura de suas tradições católicas, que se coadunasse com o espirito essencialmente cristão de nosso povo.
É natural que mesmo um grande conhecimento de nossa terra e de nossa gente, aliados à cultura da notável cearense haja cometido tão grande equívoco. Não fosse o Brasil “esse gigante pela própria natureza”, essa enorme extensão de terra!
Se citamos Rachel e a crônica é apenas para mostrar aos leitores como, mesmo uma cultura privilegiada tal a da autora de “O Quinze”, pode cometer um equívoco desse jaez. Por aí também se verifica como é grande o desconhecimento das coisas do país!
Fotos da página

Quando chegamos ao Amazonas a fim de fazer a cobertura jornalística de uma excursão empreendida por estudantes cariocas e paulistas às misteriosas regiões amazônicas, tivemos nossa atenção despertada para uma das partes do programa de visitas que aludia a um certo “Presépio Maravilha”. Mesmo ao penetrarmos no recinto onde se encontra localizado o presépio, tínhamos a impressão de que iriamos encontrar uma dessas miniaturas a que se acostumaram os cariocas. O que se nos deparou, porém, foi algo diferente de tudo o que já viramos. Diante de nós estava numa sala enorme, um presépio enorme sem similar no mundo inteiro.
Todas as personagens, trabalhadas por mãos de mestre, trajavam riquíssimas roupas e eram de tamanho normal. Apresentavam o máximo de naturalidade possível. Os pastores, o arabiano, os Reis Magos e Nossa Senhora, debruçada sobre o Menino Jesus eram alguma coisa de comover um frade de pedra. A um canto, uma pequena cascata jorrava água que, tal qual como um conto de fadas, se transformava em rubis e esmeraldas. Os carneiros, o galo, os camelos, o rei negro e o branco, um enorme elefante, duas pombas, o jumento, todos de tamanho normal, fazem do presépio Maravilha a mais perfeita reconstituição do nascimento de Cristo.
Enquanto a água corre pela pequena cascata e se transforma em rubis e esmeraldas, o elefante levanta a tromba e saúda Cristo, o galo canta, as pombas arrulham e os carneiros fazem ouvir seus balidos. Uma música natalina belíssima toca em surdina, trazendo ao ambiente um misto de respeito e comoção inevitáveis.
Ao fundo, um quadro representando a morte de Cristo, com os relâmpagos fazendo ato de presença, compunham um dos mais belos quadros a que já tivemos a sorte de assistir. Ali estava numa das mais brilhantes facetas do engenho humano, toda a magnificência, toda a beleza do sublime nascimento do Salvador da Humanidade. 
Quando chega o Natal, o presépio Maravilha abriga em seu seio milhares de pessoas que ali vão para sentir as emoções indizíveis que tal trabalho provoca. 
Depois daqueles momentos de observação atônica, pedimos a Branco Silva, o autor daquela obra de arte, que nos dissesse os motivos que o inspiraram a compor o presépio. Figura simples, Branco Silva nos disse que, quando pensou em compor o presépio, desejou apenas preencher uma lacuna já que, anteriormente, não havia no país uma composição do nascimento de Cristo que pudesse fazer as delícias de adultos e de crianças.
Não é a primeira vez que um visitante eventual do presépio se maravilha com o que vê. Pascoal Carlos Magno, em sua recente estada no Amazonas, teve ocasião de visitar o ateliê de Branco Silva, e, como nós, extasiar-se com o que viu. Os príncipes de Orléans e Bragança também lá estiveram e sua surpresa e comoção não foram menores que as nossas. Prometeram, mesmo, enviar a Branco Silva uma crônica em que dariam suas impressões porque, naquele momento, não tinham palavras com que dissessem o que lhes ia n’alma.O general Mendes de Moraes, quando Prefeito do Distrito Federal dirigiu a Branco Silva um convite para que trouxesse o presépio ao Rio de Janeiro, pondo à disposição do autor o Teatro João Caetano. Além desse honroso convite, Branco Silva teve um outro de pessoa ligada ao governo português que desejava, a todo transe, transferir o presépio para Lisboa. Mesmo do Vaticano chegou uma tentadora proposta para exibição na terra do Papa.
Além do presépio, Branco Silva tem dois outros trabalhos notáveis — um, Lendas e Fatos da Amazônia, outro, A ceia de Cristo, ambos norteados pelo mesmos propósitos do que hoje focalizamos, com a mesma movimentação, com a mesma arte. 
Anúncio circulado
Branco Silva, porém não se limita apenas à fazer trabalhos de escultura como são o presépio, a ceia e lendas e fatos da Amazônia. No seu ateliê se encontram lindos quadros, baseados em fatos da região, pintados com o coração de um amazonense que ama sua terra, sua gente e seus costumes.
Pena é que a ceia e lendas e fatos estejam atualmente desmontados, por falta de espaço. Quando se abrem as portas de todas as instituições para a chamada “arte moderna”, esse amontoado de sandices que os próprios autores não entendem, é de lamentar-se que um pintor como Branco Silva, tendo em sua bagagem verdadeiras obras de arte, esteja lá no longínquo Amazonas, sem oportunidade, sem possibilidade de mostrar sua capacidade criadora, de que o presépio é uma pálida amostra.

sábado, janeiro 06, 2018

BRANCO SILVA (1892-1959)

Vinicius Ruas, Niterói-RJ, em 2016
Transcrevo neste post o folheto sobre este saudoso grande artista, a mim ofertado por seu filho Vinicius Silva, residente em Niterói (RJ). Não se trata de uma biografia ou arte semelhante, porém registros de lembranças filiais.

Aos 93 anos, Vinicius segue colecionando troféus, ainda em dezembro passado esteve em Manaus para receber uma homenagem.



Mais conhecido pelo seu presépio do que pelas suas pinturas, Branco Silva (que é comumente chamado de Branco “e” Silva) na vida real chamava-se Leovigildo Ferreira da Silva. Amazonense, nascido no Seringal São João, nas barrancas do rio Purus na entrada do rio Tapauá, em 1892, era filho de um rico comerciante português que fez fortuna na época como exportador de borracha.

Com um ano e meio de idade viajou para Europa acompanhado de suas irmãs, de alguns parentes mais próximos e dos velhos. Fez o curso primário em Berna [Suíça], depois estudou em Lisboa, no Liceu de Artes e de Ofícios e Artes.

Com a queda da borracha, seu pai mandou buscá-lo de volta para Manaus. Além disso, Branco já estava na idade de servir ao Exército. No 27º BC teve como companheiros Álvaro Maia [que foi interventor e governador do Estado] e Américo Antony [competente poeta].

Ao chegar a Manaus ele sentiu-se como um "peixe fora d'água", explica o filho. "Ele vinha de um meio intelectual mais sofisticado, falava e escrevia bem o espanhol, o francês e o alemão. Montou o ateliê de pintura, trabalhou como cenógrafo e produziu placas para o comércio de Manaus, além famoso pelas decorações que fazia para as festas de Carnaval dos Clubes".

Branco Silva, tela existente
no ateliê do filho
Além do ateliê, ensinava e produzia pinturas, Branco Silva gravitava em torno das iniciativas privadas dos europeus funcionando como intérprete.
Segundo seu filho, o presépio que Branco Silva começou a esculpir em 1929 funcionava como “caça-níqueis" que ajudava seu pai a sustentar a família. Para visitar o presépio era cobrado ingresso e o público não se cansava de admirá-lo. Fora da época natalina eram apresentadas cenas de amazônicas feitas por ele em papel-marché também mediante pagamento de ingresso.

Os navios que faziam a rota para Manaus incluíam no seu roteiro turístico uma visita às exposições do Branco Silva.

Em determinada época da sua vida, o pintor partiu de Manaus para fazer um levantamento das propriedades da família no Purus. Ali passou um ano inteiro. O contato com a exuberante natureza r a para sempre a sua obra paisagista.

Nos anos 40, através da sua amizade com Ademar de Barros (na época, governador de São Paulo), Branco Silva sai do Amazonas. 


Atualmente em Manaus encontram-se pouquíssimos quadros pintados por Branco Silva. Seu filho ofereceu a explicação para o fato dizendo que, na partilha dos bens, os quadros ficaram com seus irmãos que moram em Manaus, com ele ficou o presépio. 

sábado, setembro 05, 2015

VINICIUS SILVA

Vinicius Silva
Através deste Blog, fui contactado e recebido pelo Vinicius Ruas Ferreira da Silva, filho do saudoso artista plástico Branco Silva e primo de falecido padre-poeta L. Ruas. 
É Doutor em Educação Física e Desportos pela UFRJ, e Professor Emérito da mesma universidade. Nonagenário, segue com vitalidade para manter em bom estado seu sítio, em Niterói-RJ. Ali, compartilha a arte de seu genitor, ele igualmente artista plástico. Competente, como atestam suas telas abaixo. 





sábado, julho 27, 2013

BRANCO (E) SILVA (1889-1959)

Três motivos me levaram a transcrever este artigo: apesar do texto muito simplório, o autor, por sua condição de oficial da Polícia Militar, todavia, com passagem pela prefeitura de Manaus, na condição de Prefeito (1951-52).

O segundo, a figura do artista plástico Branco Silva, cujo nome artístico já absorveu o conectivo “e”, do que resulta Branco e Silva pra lá e pra cá, ainda assim encontrado em alguns locais da cidade. A ilustração mostra um seu trabalho realizado em 1948.

Enfim, a notícia de que acabara de regressar do Sul, onde estivera em tratamento de saúde. A melhora certamente fora nenhuma, pois faleceu em 12 de fevereiro de 1959.

LENDAS E FATOS DA AMAZÔNIA

Edson Epaminondas de Mello (*)

Capa de livro elaborada por
Branco Slva, em 1948
Branco Silva, exímio mestre dos pinceis, apresenta-nos criações de seu espírito de escol, lendas e fatos do nosso folclore. Fatos, porque passados e vividos em nosso hinterland.
São quadros de beleza dantesca, que impressionam ao mais corajoso e a todos deixam um quê de inquietação no espirito, porque dá-nos a quase certeza de seus personagens terem vida.

Há meses, rabiscamos algo sobre “Um artista e um gênio”, publicado por gentileza de Aloisio Archer Pinto em um dos “lideres” da imprensa manauara.

Dentre as criações do ilustre mestre, falamos que estava em confecção – o Mapinguari. Monstro lendário, meio macaco, meio homem, trazendo no meio da testa estreita um só olho avermelhado. Animal cabeludo e disforme, idealizado pela inteligência do mestre, em acordo com informes vários, dados por mateiros e seringueiros.
Aterroriza pelo seu ar sumamente feroz.
Merece ser visto por todos os amazonenses, que assim conhecerão a mais temida lenda do vale verde, corporificada pela mente privilegiada de Branco Silva.

Com relação aos novos trabalhos de Branco Silva, assim se expressou ilustre visitante, vindo do Rio de Janeiro – “A natureza amazônica nos apresenta às vezes, inteligências tão privilegiadas e avançadas, que aquele que observa e estuda, fica sublimemente entusiasmado a ponto de acreditar, ser aqui, aonde correm as águas do Rio-Mar, o verdadeiro habitat dos gênios”.

Assim, nos depara, esse grande artista que aqui nasceu e aqui reside nos surpreendendo de quando em vez, com as suas exposições ou, como agora, com as suas já conhecidas lendas da Amazônia, e fatos ocorridos nas selvas misteriosas e longínquas de nossa terra.

Branco Silva, que acaba de chegar do Sul onde foi em busca de melhoras à sua saúde abalada, ainda convalescente do mal súbito que o atacou, vem de nos apresentar nova e bela exposição.

E assim, nessa enternecedora prova de apreço, vem por longas e sinceras frases, saídas de seu coração leal, até porque, filho de outras plagas glorificando o nosso velho e estimado mestre Branco Silva tornando-se, dessarte, credor de gratidão dos amazonenses, que por minha descolorida palavra dizem-lhe, obrigado, ilustre amigo desconhecido, por tudo que escreveste a respeito do nosso Branco Silva, porque lhe fizeste a justiça que seus próprios conterrâneos pretendem negar a seu reconhecido valor.

Há dias passados, tratando de assuntos profissionais com o Dr. Mário Jorge (Couto) Lopes, para variar nossa conversação, e falando sobre fatos do nosso Amazonas, lembramo-nos de Branco Silva. Disse-nos o Dr. Mário – “seu colega, encontrei-me dias atrás com o velho amigo Branco Silva, e achei-o outro; cansado, semblante de sofrimento; não é o mesmo Branco Silva, vivo, risonho e com ar próprio de quem confia sempre no futuro”.

Estivera doente o velho mestre e, ainda não de todo restabelecido, continua entretanto em seu atelier de trabalho, onde, tantas e belas vitórias há sempre conseguido para o Amazonas, tornando-o, por seus belíssimos quadros e motivos planiciários, conhecido não só no Sul do país, como também no exterior.

Teve o brilhante advogado uma lembrança sublime, que bem diz de seu caráter cristão: “Julgo que o governo do Estado devia premiar o nosso Branco Silva com uma aposentadoria, de pelo menos Cr$ 15.000,00 (quinze mil cruzeiros) mensais, de vencimentos, como reconhecimento do Amazonas ao velho mestre que, por muitas vezes, glorificou aqui como alhures o nome de seu grande Estado”.

Achei maravilhosa a ideia do Dr. Mário Jorge, e senti-me feliz, verificando que em nossa terra os verdadeiros valores intelectuais não são de todo esquecidos, sempre há no meio das atribuições de futebol e politica um Dr. Mário Jorge fazendo justiça a quem merece.

Visitemos, pois, o atelier de Branco Silva, vivendo um pouco de sua vida de alegrias e tristezas, em um ambiente onde sempre tem lutado pela grandeza e glorificação do Amazonas. Assistamos de perto o entusiasmo contagiante com que o mestre explica-nos seus trabalhos e suas criações.

Levemos ao insigne mestre em sua oficina de trabalho o nosso abraço amigo e, também, um pouco de conforto material, pagando a reduzida importância da entrada a fim de ajuda-lo em outros trabalhos, que pretende realizar. O atelier do mestre é para ele o reduto mais sagrado, onde muito tem sofrido e também onde muitas glórias conseguiu para seu nome e para nosso querido Amazonas; suas criações e seus belos quadros são a razão mais sublime de sua vida.

Abracemos ao mestre no recinto sagrado de suas criações, e também sua esposa, Dona Orientina Ruas da Silva, a querida e inesquecível professora de nossa primeira infância, a companheira indormida do estimado Branco Silva, em todas as alegrias ou tristezas, dizendo-lhes... parabéns, mestres... pelo muito que tendes feito pelo Amazonas e pela glorificação de seu nome, tornando-o conhecido até no exterior.

A Branco Silva e Dona Orica (sic), o nosso sincero abraço. 

(*)O Jornal. Manaus, 8 de novembro de 1958

sábado, fevereiro 12, 2011

Memorial Amazonense (XLV)

Fevereiro, 12


1959 – Morrem em Manaus, Branco Silva, pintor ontem, artista plástico hoje; Hemetério Cabrinha, poeta; e Arnaldo de Menezes Veiga.

Branco Silva (que a maioria implica em acrescentar o “e” entre os nomes) influenciou marcadamente o poeta L.Ruas, afinal era seu tio. No Amazonas, "o tio Branco foi um pintor e decorador de renome". Muito mais identificado pelo Presépio Maravilha que instalou em edifício situado na praça Oswaldo Cruz ou vulgarmente da Estação, que a cada Natal se apresentava mais arrojado. O esplendor do presépio se fortificava com os movimentos dos diversos componentes.
O presépio destacava-se ainda mais pela movimentação e pelos sons imitativos de diferentes animais. Toda essa vivacidade decididamente impressionou as crianças das décadas de 1940/50, entre as quais me incluo. Estive lá algumas vezes, pois o criador do presépio morreu em 1959.

Privilegiadíssimo, o finado padre-poeta L. Ruas conta com mais propriedade e vivência:
“Foi você, tio Branco, quem guardou a nossa infância. Perto de você, sempre me senti menino. Às vezes, nem precisava estar perto de você. Às vezes, eu estava longe. Eu estava no Rio, no Ceará, em São Paulo e você, aqui, trancado no seu ateliê, pintando, humildemente pintando, mas, sempre, com carinho, com entusiasmo, sempre extasiado. Bastava eu ouvir a Ave Maria de Schubert ou de Gounod e lá estava eu no seu próprio presépio. No presépio da Eduardo Ribeiro, no tempo em que o camelo não virava o pescoço, solenemente, como um paxá, nem Nossa Senhora mostrava o menino. Ou no presépio da Praça Oswaldo Cruz ou como nós chamávamos, sem pedantismo, da estação.”

O Jornal. Manaus, 19 fev. 1959
Magni nominis umbra (à sombra de um grande nome), David Israel (da ABI) tratou da fatalidade. Depois de lamentar a ida de Hemetério Cabrinha, “a morte leva-nos também para o silêncio do túmulo o professor Branco Silva, artista laureado de não menor admiração pelo seu talento artístico, o mago do pincel, o burilador das tintas, cujas nuances do belo e do horrível sabia, como ninguém, modelar com os inesgotáveis recursos de sua fenomenal inspiração".

Cabrinha, em A Crítica. 18 jul. 1958
O saudoso Waldemar Baptista de Sales também registrou (O Jornal, 22 fev.) sua “indignação” com “a ronda sinistra da morte” à cidade de Manaus.
Pessoas amigas desapareceram, entre ela o pintor e o poeta. Refiro-me ao conhecidíssmo Branco Silva e ao inesquecível Hemetério Cabrinha. A sombra da morte os colheu, no mesmo dia, parecendo assim o encontro marcado. De Branco Silva tenho recordações e magnífico quadro, que me presenteou, uma paisagem amazônica, cujas tintas e belezas revelam as magnificências de sua concepção artística.
O outro era poeta: Hemetério Cabrinha. Poeta e orador fluente. Conheci esse eleito das musas ainda no esplendor de sua vida, arrancando aplausos nas comemorações do dia 1º de Maio, na Casa do Trabalhador, pois, além de poeta, sentia os anseios populares e pugnava pela justiça social, em arrancadas magníficas e floreios de linguagem.
Para as tribulações do próprio de Cabrinha:


Sales esclarecia: “vivemos da mercancia, de juros, lucros e dividendos. E os que vivem fora desse ambiente recebem e, quando muito, as sobras e as aparas. Daí, em consequência, o sofrimento e o desalento do poeta”.

Cinquenta e dois anos depois, nada sei sobre Arnaldo de Menezes Veiga.