CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

23 de novembro de 2015

ITINERÁRIO ANDINO (2)

Na metade do século passado, dois médicos amazonenses empreenderam uma viagem por países andinos. Concluído o périplo, Djalma Batista, saudoso cientista extremamente conhecido, fez publicar o relato dos acontecimentos.
Foi transformado em impresso, sob o título: Itinerário transadino (1951), que o autor dedicou ao companheiro de viagem – doutor Moura Tapajós, cujo nome designa a maternidade municipal instalada na avenida Brasil, bairro da Compensa.


UM VOO DO AMAZONAS AOS ANDES

Nós brasileiros andamos designando mal o nosso tuxaua hidrográfico, chamando-o de Amazonas, Solimões e Marañon. Em frente a Iquitos, por exemplo, olhando o belo panorama do rio a deslizar sereno, carregando detritos andinos, galhadas do baixo-plano e aluviões quaternários das terras aquém dos Pongos; olhando o rio banhado pelos últimos reflexos do crepúsculo planiciário, de que me estava a despedir, e recordando as minhas tinturas de geografia, exclamei: "Miremos al Marañon!" Esclareceu logo o amável acompanhante que estávamos defronte do Amazonas e que o Marañon estava muito longe.

Debrucei-me então sobre a monografia do sábio [Antonio] Raimondi, que consagrou sua vida ao Peru e palmilhou Loreto: aprendi que o Amazonas se forma pela união do Marañon com o Ucayali, da mesma forma que o [rio] Madeira nasce do abraço do Mamoré com o Beni, e o rio Branco da fusão do Maú e do Tacutu.
Cancelemos a nossa homenagem ao rei Salomão, concentrando-a na outra lenda, muito mais simpática e sugestiva, das guerreiras do Nhamundá, que arrebataram ao próprio Orellana a designação onomástica do rio-grande descoberto!
Matriz de Iquitos,
foto de julho passado

De Iquitos para Lima há três vias de comunicação: uma pelo ar, coberta pelas possantes e confortáveis unidades da Cia. Fawcett, que transportam tudo, gente e bichos, encomendas e cargas; outra por terra, a partir do porto de Pucallpa, até onde chegam embarcações fluviais, e início da grande estrada transandina, que substituiu a picada terrível de 20 anos atrás, pela qual, em caravanas aventurosas, que enfrentavam os gentios, as feras, o frio e a aspereza do terreno, se mantinha a unidade territorial do Peru; uma terceira via é toda por água: descendo o Amazonas, navegando o Atlântico, cruzando o canal do Panamá e costeando o Pacifico, até Callao...

Por uma das três vias sai a produção loretana: borracha, petróleo, sorva, madeiras e couros. Como se vê tudo coisa que a terra dá por si: nada criado pela mão do homem, tal qual sucede com os irmãos amazônicos do lado de cá da linha divisória...

Em 1955 será o centenário de Iquitos. Portanto, apenas sete anos mais nova do que Manaus, embora afastadas as duas capitais por mais ou menos 2.000 quilômetros...

Depois de uma animada e proveitosa conversa com os nossos anfitriões Planas e Vidurrizaga, na qual tanto podemos admirar a vivacidade de espírito do último, conhecedor minucioso do Norte e Nordeste do Brasil, onde amassou o pão do exílio, aqui lançando raízes afetivas imperecíveis e fruir o encanto da companhia do primeiro e de sua família, — começou a bater-nos forte o coração : fazia um calor supermanauense assim pelo meio-dia, no aeroporto iquiteño da CORPAC, e em pouco estaríamos sobrevoando os Andes e jogados no inverno da orla do Grande Oceano! (continua)