CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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domingo, julho 14, 2024

HUMAITÁ E UM SEU PERIÓDICO:1918

Raymundo Monteiro 
Compartilhei este jornal da Biblioteca Nacional virtual, nada mais sei. Como este trazia o Madrigal de Raymundo [de Castro] Monteiro, decidi expandir a pequena informação sobre este poeta. Monteiro nasceu em Humaitá, município à margem esquerda do rio Madeira, em 24 de outubro de 1882. Pertenceu à Academia Amazonense de Letras. Quando do lançamento deste jornal (1918) possuía 36 anos de idade, e não mais estaria vivendo naquela cidade, até em razão de ter sido, naquele ano, fundador do Silogeu Amazonense, na cadeira 16. E mais: frequentou com assiduidade a então Capital Federal. Faleceu em Manaus, em 20 de junho de 1932. Para saber mais: Robério Braga: Fundadores da Academia Amazonense de Letras. Manaus: Reggo, 2019.

Capa de O Madeirense, lançado no
município amazonense de Humaitá

 

MADRIGAL

Bruno donzel, ou donzela / Bruna, floris na loquela / Parnasiana, em rima bela!

 Rima adaptável à Artista / Prodigiosa! — Transformista / De vários dons de conquista...

 Mas, a beleza fulgura / Na vossa alegre figura / De Tália em miniatura!

 E é tanta a graça de Musa / Por vossos gestos difusa, / Que sai a estrofe confusa...

 E a Língua em vão se rebela / Contra a pobreza daquela / Rima oportuna... Sois bela!

 Toda fulgis no meu Verso / Com o mago aspecto diverso, / Das ondas verdes ao luar!

Cosmopolita! — Universo / De almas! — Eu sei admirar...

 Raymundo MONTEIRO


quarta-feira, agosto 26, 2020

NOVA OLINDA NO “NEW YORK TIMES”

Faz bastante tempo. Aconteceu em março de 1956, um ano após o petróleo jorrar nos barrancos de Nova Olinda, no rio Madeira. 

A descoberta foi de tal ordem encantadora para o país, que levou o presidente da República (Café Filho), enfatiotado, junto ao governador (Plínio Coelho), empaletozado, e ao bispo (dom Alberto), paramentado, além de oficiais militares, uniformizados, a enfrentar uma catraia para alcançar aquela cidade.  

Logo, porém, veio o desencanto, aquele petróleo ainda não era “nosso”. É isso que o correspondente do Times comenta no primeiro aniversário do único poço aberto. Lembro-me que três meses depois desse registro – em junho – passei em Nova Olinda e ainda pude recolher em garrafinha de Bromil um pouco daquele óleo. Era autêntica panaceia, servia de unha encravada a alisador de cabelos crespos...  

Compartilhei esta publicação do Jornal do Commercio (14 março 1956) 

NOVA IORQUE, 13 (AM) — Há uma esperança flagrante em todas as cidades e vilas da Região Amazônica de que uma nova era esteja para alvorecer para os seus habitantes, diz hoje o Times, de Nova lorque.

O correspondente do Times Tad Szule, escreve de Manaus que “se o petróleo jorrar em grandes volumes nesta região – e os geólogos consideram isso possível, então será certo o alvorecer de um novo dia para o povo da Bacia Amazônica.”

“A Amazônia, - como os brasileiros a chamam – conheceu a opulência e a grandeza durante o período áureo da borracha que se estendeu do século 19 às duas primeiras décadas do século 20. Foram feitas fortunas com a rica seiva que fluía de milhões de seringueiras”.

Os refinamentos da cultura, civilização e tudo mais que o dinheiro podia comprar penetraram na selva verde e fumegante. Manaus, situada a 608 quilómetros rio acima, mas acessível através do seu grande rio navegável por uma constante parada de navios oceânicos e outras embarcações, tornou-se o centro cosmopolita da borracha no mundo.

Depois veio a queda da borracha brasileira, no decênio de 1920/30. A borracha podia ser produzida mais barata e melhor nas Índias Orientais. Sementes da seringueira brasileira tinham sido levadas para lá, e a Amazônia sofreu um golpe quase mortal.

Szule escreveu que nos últimos anos planos de desenvolvimento governamentais e locais têm trazido “nova vida” à Amazônia. A juta e a castanha do Pará se tornaram seus principais produtos de exportação. A indústria leve tem prosperado.  Uma refinaria particular deverá entrar em funcionamento, em Manaus, em breve, com a capacidade de cinco mil barris diários. A refinaria usará óleo bruto trazido de jazidas peruanas por transporte fluvial.

Continua dizendo Szule: “após quase 40 anos de economia primária a Amazónia e Manaus... estão começando a vibrar. Mas a economia desta região encharcada de água, provavelmente não entrará em fase de desenvolvimento vigoroso se não receber mais assistência. É por isso que a Amazônia reza por petróleo.

Vários poços pilotos estão sendo perfurados em ilhas do Rio Madeira, a uns 240 quilômetros à sudoeste de Manaus. O petróleo jorrou, no ano passado, na ilha de Nova Olinda, e prospectores brasileiros e norte-americanos estão trabalhando com equipamentos novos em folha.

O Times conclui dizendo que “se o petróleo puder ser produzido em grande escala, a Amazônia pudera ter nova bonança. Os rios oferecem canais naturais, e a exportação do petróleo da selva não exigiria novos meios de transporte. Mas muito disso tudo dependerá da capacidade do Brasil para desenvolver a indústria potencial.

 

Faz, hoje, precisamente um ano, em que brasileiros de todos os matizes pulsaram de alegria, com a notícia de que, em Nova Olinda, recôndito escondido e inóspito do Rio Madeira, jorrara o "ouro negro" brasileiro. Faz, ainda, época gloriosa para a imprensa cabocla, quando o JORNAL DO COMMERCIO e a Rádio Baré, impelidos pelo influxo de patriotismo arrojaram todas suas forças para informar, primeiramente ao Brasil, o resultado de uma operação perigosa e acima de tudo aventurosa.

A Petrobrás, naquele dia, respondia aos espiritas pessimistas com a segurança da verdade. Através dos seus trabalhos anônimos e até certo ponto inacreditados, conseguirá à Nação, descobrir o petróleo amazonense. É verdade que, ainda hoje mãos criminosas procuram derrubar, num sopro, o efeito de um trabalho efetuado entre suor e lágrimas.

Mas, felizmente, a Petrobrás não se rendeu nem se renderá. Aos que julgam macular o dia glorioso e histórico de 14 de marco do ano passado terminarão entregando seus dias, vencidos, pela certeza da operosidade.

Não estamos desiludidos. Acreditamos, piamente, envolvidos com o mesmo espírito de brasileiro, que este dia (14 de março) ficará estigmatizado na consciência dos brasileiros, com o marco de nova era de ressurgimento econômico para a Nação.

Resta-nos, somente, augurar melhores êxitos à Petrobrás e almejá-la a reprodução de feitos inusitados como o do dia 14 de março, não apenas na Amazônia, mas em todos os recantos da pátria.

sexta-feira, julho 24, 2020

MANAUS DE HELIANDRO MAIA

Pouco sei sobre Heliandro Maia (desta vez, o Google não me auxiliou). Todavia, lembro de sua atuação em órgão de Turismo do Estado e de suas visitas ao quartel da Praça da Polícia, onde trocamos algumas conversas. Sei ainda que pertencia a família de Álvaro Maia, governador do Estado, e escritor consagrado na planície. A família de Maia provém de Goiabal, seringal nas proximidades de Humaitá (AM). 
Heliandro foi educado pelos padre salesianos do Dom Bosco, e, quando encerrou o ensino médio, foi levado para a capital paulista, onde completou sua formação acadêmica. De volta a Manaus, empregou seus conhecimentos em órgãos estaduais.
Alguns dados sobre o autor e a cidade de Manaus estão no texto aqui postado, de sua lavra, que compartilhei de O Jornal (24 janeiro 1965).

Recorte de O Jornal, 24 janeiro 1965
Heliandro Maia

- Heliandro, passa pra dentro! Olha o carro! Quando teu pai chegar vou contar!

Era a Bita, cabocla do Madeira, o meu anjo da guarda. Hoje, a boa Bita está no seringal, lá para as bandas do Goiabal, duas horas depois de Humaitá, cheia de filhos e com certeza esquecida daquele moleque travesso e malcriado. Vou ai, Bita. O meu abraço terá a quentura desses anos de ausência. Pois olha! Nunca te esqueci. Ainda tenho os olhos úmidos das lágrimas derramadas da partida, criança ainda, para o Sul. Em 58 não te encontrei. Estavas no interior do município e eu permaneci poucas horas em Humaitá, tempo suficiente para beijar minha velha avó. Lá vou eu fixando-me em Humaitá. Volto a Manaus, aquela infância querida está lá.

Cachoeirinha cresceu, já vai sozinha a última sessão do Ipiranga. Como eu, tem saudades daquela época. A minha "chácara" — onde levei, recordo-me bem, tremenda surra de meu pai — perdeu sua liberdade, mas, em compensação, parece que para lhe proteger, Deus plantou um templo ao seu lado. As orações ali rezadas conservam-na pura como é a infância de todos nós.
Heliandro, tua avó chegou do seringal. Vem passar uns dias conosco.
 Exultava com essa notícia. Significava que teria a tapioca e o mingau de banana no café da manhã, preparados pelo carinho que só as avós têm. Veria, também, minha irmãzinha. Ana Maria, a caçula, veio do seringal na véspera de nossa partida para o Sul. Tinha seis anos.

Praça da Saudade, outro degrau da caminhada. Agora, não posso mais correr no quintal de meu “templo”, os diplomatas não deixarão. E' contra o protocolo.
Epa! Antes da Praça tão saudosa — iluminada agora, também não é mais a minha namorada — deixei outras peraltices ali perto, na rua Monsenhor Coutinho. Gostava da sirene da ambulância.
Março. Aulas à vista. Mais três meses de especialização na arte de pular de “bonde andando”. Fui bom nisso. Em pegar, não era lá essas coisas, apesar de não ser o último da “classe”.
— Pessoal! Espia só ali... O padre Agostinho vem pra cá.
Era mais um banho de igarapé interrompido.
O grande mestre “acarinhou-me” — certa vez. Condecoração eterna do meu Colégio D. Bosco.
O Guarany, o meu cinema preferido. Fecho os olhos — estou na casa da [rua] Joaquim Nabuco — e ouço o “bang-bang” da matinal de domingo. Não havia santo que impedisse o meu encontro com o Tom Mix. De repente tudo acabou.
— Meu filho, temos que ir para São Paulo. Fui transferido.

Não podia acreditar. Ia separar-me, tinha certeza, de minha infância querida. Voltei e reencontro um pouco da Manaus de minha infância. 

segunda-feira, outubro 09, 2017

RODOVIA PURUS-MADEIRA

Outra aventura sobre-humana no Amazonas: construir uma rodovia entre Lábrea e Humaitá. Ou seja, ligar os rios Purus e Madeira, ligação que segue desafiando.


Tentativas encetadas vão aqui contadas pelo geógrafo Agnello Bittencourt, que as escreveu para o Boletim da Associação Comercial do Amazonas, edição de fevereiro de 1953.

Devido ao longo texto, reparti-o para melhor apreciação.


RODOVIA PURUS-MADEIRA



"Manaus, 11. O Governador Álvaro Maia presidiu, na cidade de Humaitá, o início das obras da estrada que ligará aquela cidade à Lábrea, visando aproveitamento dos grandes campos existentes entre os dois municípios. As obras estão a cargo do Departamento de Estradas de Rodagem do Amazonas". (Extraído do Diário de Notícias, do Rio, de 12.6.52).

VELHAS TENTATIVAS

Vamos tornar realidade um sonho já secular: a ligação da bacia do alto Madeira à do baixo Purus, para, sobretudo, facilitar o trânsito comercial, ou seja, o escoamento das riquezas de parte de Mato Grosso, Guaporé e Bolívia pelo último daqueles rios. Os grandes desníveis do leito do Madeira, à montante do Santo Antônio, formando alterosas cachoeiras até Guajará-Mirim, marcam um desafio às penetrações por via fluvial, conquanto para os verdadeiros bandeirantes não existam empecilhos nem distâncias, quando sabem que, no seio da muralha verde, se escondem tesouros.

A inteligência e a audácia armaram o brasileiro para os grandes empreendimentos. Assim, não hesitam enfrentar a natureza hostil. Que o digam os nordestinos que desbravaram o Acre e outras zonas da Planície, apenas animados do estoicismo, enfrentando o desconhecido. E varar as terras, de um rio a outro, para encurtar caminhos, é uma ideia antiga na Amazônia.

Ao tempo da instalação da Província (1852), acreditava-se na existência de paranás ou furos entre as águas do Purus e Madeira. O Madeira era, sem dúvida, depois do Rio Negro, o caudal mais importante, sob o ponto de vista econômico e financeiro, para a novel Unidade do Império. Canalizar com facilidade, para Manaus os produtos de toda a bacia madeirense, equivalia a dar um impulso à prosperidade do Amazonas.


O presidente Tenreiro Aranha (foto), instalando e assumindo o governo em janeiro daquele ano, logo em maio, designou o pernambucano Serafim da Silva Salgado para explorar o Purus e verificar o que havia de verdade na versão propalada de existir uma comunicação natural com o Rio Madeira, acima de Santo Antônio e, portanto, com ingresso direto à Bolívia e Mato Grosso.

Salgado partiu a 10 do referido mês, em duas igarités guarnecidas por doze índios e doze praças armadas, sob a chefia de um cabo. Penetra o Purus, sobe-lhe as águas até onde pode navegar, regressando a 10 de outubro, tendo chegado a Manaus a 30 de novembro do mesmo ano, sem encontrar ou ter notícia da suposta comunicação.

O Relatório de Serafim Salgado é uma peça histórica de grande valor na descrição de um rio que, pela primeira vez, foi sulcado por um civilizado. Outra expedição exploradora foi enviada em 1861: dela se incumbiu o prático amazonense Manoel Urbano da Encarnação, que, da foz do Purus até seu afluente Ituxi, gastou, viajando em duas canoas, 55 dias e mais 100 daí até próximo a Sarayaco (Bolívia). Haviam-lhe dito que uma corrente d’água desembocava no [rio] Ituxi, possivelmente uma comunicação vinda do Abunã.

Eis que Manoel Urbano sobe aquele rio, penetra a suposta comunicação durante alguns dias e vê que se tratava apenas de um tributário do Ituxi. O expedicionário após nove meses de viagem redonda, declarou não ter encontrado a propalada comunicação, objeto dessa viagem.

Seu Relatório, não menos interessante que o de Serafim Salgado, foi redigido, em Manaus, pela engenheiro João Martins da Silva Coutinho e se acha inserto no livro sobre o município de Lábrea, do coronel Antônio C. R. Bittencourt (O Município de Lábrea, 1918, p.20).

Ainda uma outra tentativa se realizou a mando do governo provincial, desta vez pelo Ituxi. Mas, o seu encarregado Manoel Urbano resolveu penetrar o rio Mucuim, no hoje município de Canutama, subindo por ele durante 11 dias em igarité e mais 3 por terra, chegando à cachoeira Salto Teotônio. Estava, assim, em parte, descoberta a tão ansiada comunicação Purus-Madeira.

Foi ainda o Dr. Coutinho quem reduziu a termos escritos os relatos do expedicionário, que era um homem semianalfabeto, mas resoluto e leal. A passagem entre os dois rios constituiu uma espécie de obsessão da época. O coronel Antônio Rodrigues Pereira Labre, maranhense culto e de influência social, no comércio e nas rodas governamentais de Manaus, estudou o Purus, que perlustrou em navio a vapor, publicando um trabalho a respeito.

Fundou a povoação que se tornou mais tarde a cidade de Lábrea, em 1° de fevereiro de 1871. O seu empenho foi grande para o conseguimento de uma rodovia entre Lábrea e o Madeira, estendendo-se até o Abunã. Em sucessivas penetrações e estudos gastou mais de nove anos, desde 1872 a 1881, tudo à sua custa, como ele próprio o declara. Incentivou o governo amazonense a proceder desse modo, conseguindo a promulgação da lei nº 208, de 27 de abril de 1871, autorizando o presidente da Província a mandar explorar os rios Mari e Ituxi, "tendo exploração com o fim de reconhecer o ponto mais vantajoso para abrir-se comunicação com os rios Abunã e Beni, da Bolívia". "Se a comunicação pode ser feita por canal que se deve abrir, ou estrada de rodagem. Se existem campos próprios para a fundação de fazendas de gado, atravessados por aqueles rios".

Esta lei não passou de mais uma tentativa na inicial visão de Tenreiro Aranha. O coronel Labre tomou a si o empreendimento. Não olhou dificuldades, nem despesas. Em maio de 1886, à frente de civilizados e índios, partindo de Lábrea, fura a floresta, rumo a Santo Antônio, no Madeira. Atravessou chapadas de pouca elevação, sendo que três quartas partes do itinerário era de campinas úteis à criação de gado. (...)


(A sequência desta postagem, veja nos dias 10 e 11 adiante)

sábado, setembro 17, 2016

AMAZONAS: SUA HISTÓRIA

A primeira parte de um conteúdo sacado do Almanaque Municipal Brasileiro, do ano de 1970, quando governava o Estado Dr. Danilo Duarte de Matos Areosa. 

O AMAZONAS É ASSIM
Resumo histórico:
Posição geográfica: 2° 8' 30" lat. N; 9° 49' 00" extremo S.;
56° 04' 50" extremo E.; 73° 48' 06" extremo O. long. W. Gr.


O Estado do Amazonas é o mais extenso de todos os Estados brasileiros. Com os seus 1.564.445 km2, o Amazonas apresenta os mais variados aspectos, que vão das várzeas a um relevo importante; de igarapés a rios dignos de nota; da vegetação rasteira à grande floresta.

Confina com seis países estrangeiros. Ao Sul limitam-no o Estado de Mato Grosso, a República da Bolívia e o Estado do Acre; a Oeste, o Peru, Equador e Colômbia; ao Norte, a Venezuela; a Leste, a Guiana e o Estado do Pará.

O Amazonas divide com o Pará o poderoso Rio Amazonas; mas tem uma parte muito maior desse rio que o Pará e é a unidade político-geográfica que dispõe da mais extensa superfície fluvial do mundo.

O Amazonas é geralmente baixo e quase inteiramente produto do período terciário. O seu contorno irregular muito se aproxima do quadrado, estendendo-se por mais de 15 graus de longitude e mais de 15 graus de latitude. O equador passa pela sua parte Norte, correndo o leito principal do Rio Amazonas numa latitude quase uniforme de 3 graus Sul; a maior parte do Estado acha-se, pois, no Sul da zona tórrida.

A vida no Amazonas não é mais perigosa do que em outras regiões, como na África Ocidental, por exemplo. É uma terra em que a colheita é perpétua, em que a natureza não dorme nem descansa. É uma terra de poderosos rios, que são as suas estradas, entre florestas que, se não fossem habitadas, se poderiam considerar virgens.

De Parintins, situada a 676 milhas a oeste da cidade (sic) do Pará, até Tabatinga, onde o grande rio, vindo do Peru, penetra em território brasileiro, há 1.074 milhas de distância. Nesse enorme trajeto, três imensos rios entram no Amazonas, procedendo do Norte — o Içá, o Japurá e o Negro; e cinco, do Sul — o Javari, que é a linha divisória com o Peru, o Jataí, o Juruá, o Purus e o Madeira.

Todos estes grandes rios têm ainda inúmeros afluentes; e há outros rios menores procedentes do Norte ou do Sul que às dezenas desembocam na grande artéria amazônica e que são do volume do Tâmisa, do Sena ou do Tejo. A par do explorador, do seringueiro e do negociante de madeiras, o geógrafo, muito especialmente, tem aqui vastíssimo campo de trabalho.

O maior dos grandes rios que desaguam no Amazonas, dentro dos limites do Estado, é o mais oriental, o Madeira, que, vindo das altas montanhas da Bolívia, tem um curso de 3.107 milhas.

Em todo o vasto Estado, as margens do rio, revestidas de grandes florestas constituem o horizonte do viajante, e em nenhuma dessas florestas se poderia penetrar sem o auxílio do guia, do terçado [facão] ou do machado. As florestas do Amazonas têm sido chamadas "o desespero dos botânicos". Depois de apresentar uma lista bem minuciosa de orquídeas e palmeiras, conhecidos monarcas das plantas e árvores da Amazônia, diz o geógrafo francês Eliseu Reclus: "Quanto às outras produções da floresta, preciosas madeiras, borracha, variadas gomas, resinas e substâncias canforadas, o botânico as classificou em milhares de espécies e a indústria está sempre aprendendo a conhecer os seus valores s e aplicá-las".

Em relação à fauna, podemos citar o mesmo autor: "Reina um silêncio tumular em muitos pontos da floresta, de onde se poderia inferir que a fauna é mal representada; entretanto, se não são muito numerosos os representantes de cada família, as espécies oferecem uma variedade singular". Durante os seus onze anos de exploração no Amazonas, o naturalista Bates (a quem tanto deveu o ilustre Darwin) colecionou 14.712 espécies de animais, 8.000 dos quais eram completamente desconhecidos da ciência.

Francisco Orellana, o espanhol – quem primeiro desceu o Amazonas com 50 companheiros –, fez referência no seu relatório a grande número de vilas nas margens desse rio. Três séculos depois, 150 tribos distintas que povoavam essas vilas desapareceram. A invasão dos brancos sem dúvida concorreu muito para diminuir a população indígena e é muito raro encontrarem-se índios de pura raça nas margens dos rios. Existem ainda, na selva, tribos belicosas que evitam a presença dos civilizados, atacando-os quando penetram em seus territórios.

No setor de colonização do Amazonas ou dos altos rios, os mestiços e especialmente os cearenses, estes de cruzamento português, indígena e africano, são em maior número. A história do suprimento de trabalhadores ao Amazonas é uma curiosa página da história da pátria. Assim, tem sido comprovado que uma proporção apreciável de seringueiros procede não do estrangeiro, mas sim do Ceará, vindos em menor escala os demais Estados do Nordeste.


E são os Estados nordestinos que têm ajudado a povoar a imensa Amazônia. Muitos a procuram ávidos pela riqueza que os seringais possam lhes proporcionar; outros, fugindo da impiedosa seca que os reduz a verdadeiros trapos humanos. A grande maioria não enriquece. Poucos se tornam os "coronéis" dos velhos tempos. Mas, em compensação, a família se reproduz abundantemente. (segue)

terça-feira, junho 23, 2015

GUARDA NACIONAL NO AMAZONAS (1)

Capa de livro sobre a
Guarda Nacional
No Amazonas, a Guarda Nacional foi organizada em 1882, com quatro Comandos Superiores e demais batalhões distribuídos pela capital e alguns municípios. Era presidente da Província, José Lustosa da Cunha Paranaguá.

Abaixo a segunda parte da publicação com os nomeados para a instituição:


Por decretos de 23 de junho e 14 de outubro do ano passado [1881] e de 12 de fevereiro do corrente, do Governo Imperial, foram nomeados os seguintes oficiais:

Comarcas da Capital e do Rio Negro:

Tenente-coronel chefe do estado-maior Francisco Ferreira de Lima Bacury.
 Majores ajudantes de ordens, Antonio José Fernandes Junior e Francisco Joaquim Ferreira de Carvalho.
 Capitão secretário-geral, Severo José de Moraes.
 Capitão quartel-mestre, José Sátiro Barbuda.

 1º Batalhão de artilharia – tenente-coronel comandante, o capitão Joaquim José Paes da Silva Sarmento; major fiscal Antonio José Barreiros.
1º Batalhão de infantaria – tenente-coronel comandante, o bacharel Manuel Francisco Machado; major fiscal Henrique Ferreira Penna de Azevedo.
2º Batalhão de infantaria – tenente-coronel comandante, o tenente Emilio José Moreira; major fiscal Francisco Leopoldo de Mattos Ribeiro.
3º Batalhão de infantaria – tenente-coronel comandante, o tenente José de Brito Inglês; major fiscal José Paulino von Hoonholtz.
1º Batalhão da reserva – tenente-coronel comandante, o tenente Juvencio AIves da Silva; major fiscal Bernardo José de Bessa.

1ª Seção de batalhão de artilharia – major comandante José Antonio Nogueira Campos.
1ª Seção de batalhão de infantaria – major comandante Aureliano Cidronio de Oliveira.
2ª Seção de batalhão de infantaria – major comandante, o alferes José Joaquim Palheta.

Comarcas de Itacoatiara e Rio Madeira:

Major ajudante de ordens, servindo de secretário-geral, Benedito Antonio Alves Pinto.
Capitão quartel-mestre Antonio José de Moura Junior.

2º Batalhão de artilharia – tenente-coronel comandante, Manuel Fernandes da Silva Brazão; major fiscal Raymundo João Carneiro.
4º Batalhão de infantaria – tenente-coronel comandante, Aurelio Martins de Menezes.
5º Batalhão de infantaria – tenente-coronel comandante, Victor da Fonseca Coutinho Junior; major fiscal Venancio Antonio de Castro.

2ª Seção de batalhão da reserva – major comandante, o capitão Teodoro Antonio Rodrigues.

Comarca de Parintins:

Major ajudante de ordens, servindo de secretário-geral, Antonio José de Andrade Azedo.
Capitão quartel-mestre, Manuel José de Andrade.

6º Batalhão de infantaria – tenente-coronel comandante João Wilkens de Matos Meirelles.

7° Batalhão de infantaria – tenente-coronel comandante, o capitão Angelo José Barbosa. 
(SEGUE)