CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

20 de outubro de 2015

"APUNTES" PARA A HISTÓRIA DE MANAUS

Coincidência: em janeiro de 1953, na antevéspera da maior enchente amazônica, o professor Aziz Nacib Ab'Saber (1924-2012), da então Associação de Geógrafos do Brasil e professor universitário em São Paulo, visita Manaus. Em companhia de mais dois colegas, estuda a constituição dos acidentes fluviais encontrados nesta cidade.


O resultado desse estudo, reproduzido abaixo, foi publicado no Boletim Paulista de Geografia nº 14, de julho de 1953, quando o fenômeno da enchente amazônica começava a desanuviar. O comentário sobre a foto exposta pertence ao saudoso geógrafo – Professor Emérito da USP.
  


Capa da separata do Boletim
NA REGIÃO DE MANAUS

Em janeiro de 1953, o prof. Aziz Nacib Ab’Saber, sócio efetivo da A.G.B., professor de Geografia Física da Faculdade de Filosofia "Sedes Sapientae" e assistente da cadeira de Geografia do Brasil da Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo, teve oportunidade de visitar a cidade de Manaus, fazendo observações e colhendo fotografias de interesse geográfico, que aqui aparecem devidamente comentadas. 
Duas experiências de grande significação geográfica estão reservadas ao pesquisador que tem a felicidade de entrar em contato com as paisagens físicas e humanas da região de Manaus. 
A primeira diz respeito ao esquema do mundo físico regional, no qual se destacam alguns elementos importantes, tais como: a topografia do tabuleiro terciário de Manaus, espécie de baixo planalto arenoso tabuliforme, esculpido nos arenitos da formação Manaus, réplica geológica e geomórfica dos tabuleiros da formação das Barreiras do Nordeste; a presença do flutuante Rio Negro, cuja amplitude de oscilação de nível em Manaus já alcançou a cota de 7,61m, por volta de 1922; a existência de uma alta e extensa "barreira" fluvial na margem esquerda do Rio Negro, verdadeiro paredão de solapamento lateral situado na margem de ataque do grande rio; o quadro geográfico e hidrológico da zona de confluência entre o Negro e o Solimões, guardando ensinamentos dos mais interessantes sobre os fenômenos naturais que se passam num ponto de encontro das águas de um grande rio "branco" com um grande rio "negro"; a trama dos igarapés que seccionam fundo a beirada das falésias fluviais do tabuleiro terciário e que constituem um elemento importante do sítio urbano de Manaus, segundo a observação criteriosa de Pierre Gourou (1949, p.392); a floresta da terra firme e das terras baixas alagáveis e a vegetação de gramíneas das várzeas e margens de lagoas e paranás; o labirinto hidrográfico das planícies de inundação do Solimões, em contraste extraordinário com os sulcos discretos da drenagem dendrítico-retangular (Sternberg, 1950) dos tabuleiros terciários ; enfim, entre outros, os problemas da fertilidade relativa das aluviões modernas da ilha do Careiro, em face do solo arenoso e pobre do tabuleiro terciário de Manaus. 
Mas há um segundo grupo de fatos importantes, que diz respeito sobretudo ao trabalho do homem nesse pequeno recanto da surpreendente Hileia: uma, grande cidade comercial do Norte do Brasil e das terras baixas centro-equatoriais da América do Sul; o maior porto tipicamente fluvial do país; o ponto terminal da navegação atlântica de grande calado que remonta o Amazonas e uma etapa importante para toda a navegação da Amazônia Ocidental a mais significativa e permanente experiência da conquista do homem em face do meio físico, no desmesurado interior da Amazônia Brasileira; enfim, uma cidade que, além de apresentar uma posição geográfica excepcional na hinterlândia amazonense, possui, também, um quadro de sítio urbano dos mais interessantes e inesperados dentre as grandes cidades brasileiras. 
Para muitos desses fatos, ora enumerados, o geógrafo Pierre Gourou voltou suas vistas, de maneira inédita, pondo em equação os aspectos geográficos essenciais em suas Observações geográficas na Amazônia (1949), no meio das quais há um belo sumário dos fatos principais do relevo, estrutura e solos regionais. 
De nossa parte, teceremos apenas alguns comentários em torno de uma série de fotografias tomadas na região de Manaus, em janeiro do corrente ano, quando visitamos a região na companhia dos Profs. Ary França e Wladimir Besnard, e por especial gentileza dos aviadores da FAB [Força Aérea Brasileira], capitães França e Tapié.

REFERÊNCIAS:
GOUROU, Pierre (1949) — Observações geográficas na Amazônia (Primeira parte) — Revista Brasileira de Geografia, ano XI, julho-setembro 1949, nº 3, pp. 355-408. Rio de Janeiro.

STERNBERG, Hilgard O'Reilly (1950) – Vales tectônicos na planície amazônica? Revista Brasileira de Geografia, ano XII, outubro-dezembro 1950, nº 4, pp. 511-534. Rio de Janeiro 


O rio Negro frente a Manaus, num período de estiagem moderada.

Extensos comboios de barcos e canoas constituem as cenas mais pitorescas da movimentação humana do rio Negro, na região de Manaus. Às primeiras horas da tarde, os barcos que vieram abastecer a cidade com produtos da região (peixes, frutas, cereais, verduras, drogas e toda a sorte de produtos alimentícios), voltam para as zonas rurais ribeirinhas, rebocados por uma pequena lancha a motor.
A maior parte das barcaças e canoas proveem da ilha do Careiro e adjacentes (Cambixe, Terra Nova e Caldeirão). O extenso comboio já em "alto rio” recebe as embarcações retardatárias, que procuram encaixar-se em lugar apropriado, segundo o seu tamanho. Não raro: alguns desses comboios chegam a somar 50, 60 e, até mesmo, uma centena de canoas.
O rio Negro, no lugar onde foi tornada a fotografia possui aproximadamente 2.300m de largura.